
Era sexta-feira de manhã e, como habitualmente, levantou-se mais cedo a fim de fazer os preparativos para “rumar à terra”, na mira de recuperar, durante o fim-de- semana, das laboriosas agruras urbanas.
Começou por atestar o depósito numa gasolineira onde lhe forneceram um sucedâneo de um cartão de crédito que- disseram-lhe- servia para coleccionar
pontos que posteriormente poderia trocar por
prémios.Lembrou-se, então, que o cartão de crédito do seu banco também lhe oferecia
pontos por cada
20 euros de pagamentos efectuados. E como quantos mais
pontos somasse, mais possibilidades teria de ganhar um
prémio, decidiu puxar do cartão para efectuar o pagamento. A operação custou-lhe
50 cêntimos a mais, mas nem se apercebeu disso.
Durante o trajecto para o emprego, ouviu na telefonia um anúncio de uma operadora de telemóveis que o aliciava para a possibilidade de fazer chamadas grátis, se conseguisse obter um determinado número de
pontos. Aproveitou para desafiar as regras de trânsito e telefonar para a escola da filha, o emprego da mulher e para casa de uma amiga, combinando um jantar para a semana seguinte. Teria feito ainda mais alguns telefonemas, se não tivesse sido abalroado por um buzinão espontâneo que se formou atrás de si, intimando-o a avançar, porque o sinal verde já “caíra” há três segundos.
No emprego, aproveitou a “pausa para o café” para ir ao supermercado fazer umas compras de última hora que a mulher lhe pedira durante o telefonema. Ao pagar, deram-lhe um “vale” de
15 pontos e informaram-no que quando somasse
500, teria direito a candidatar-se a um sorteio de uns
patins em linha.
Passou ainda pelo Banco para depositar uns dinheiritos na sua conta poupança e viu que o seu crédito somava agora
60 pontos. Não sabia exactamente o que isso significava, mas sentiu-se reconfortado com o
bónus.Regressado ao trabalho, recortou os
pontos do seu jornal diário que lhe oferecia, mediante
15 pontos, um telemóvel “ao preço da chuva”. Será para dar à filha e tê-la melhor controlada nas suas saídas nocturnas, confidenciou à colega de trabalho a cujas pernas, generosamente desnudadas diante dos seus olhos atribuiu, sem hesitar,
18 pontos.
À hora do almoço, comprou uma revista e um jornal, não porque tivesse o hábito de o fazer, mas apenas por se ter sentido atraído pelas capas que anunciavam temas de interesse fundamental para a sua vida, como
“Júlia Pinheiro vai fazer uma operação estética” ou
“O depoimento de Margarida Rebelo Pinto sobre o caso da Quinta da Fonte”. Além disso, a contra capa da Revista anunciava um concurso promovido por uma marca de refrigerantes que oferecia
pontos nas cápsulas. Aproveitou para anotar o nome da marca na lista de compras, comprometendo-se a divulgar a descoberta à mulher.
No final do dia foi buscar a companheira dos últimos 20 anos e nem reparou que esta aperaltara a cabeleira de forma pouco usual, para um fim de semana no campo. Já a viagem decorria há uma boa meia hora, quando a mulher rompeu o silêncio para lhe perguntar o que achava do seu novo penteado, enquanto esclarecia que decidira ir naquele dia ao cabeleireiro, porque com os
pontos que somara com aquela operação recebera em troca um
“shampô” da sua marca favorita.
Olhou-a num relance mal medido e sentenciou:
“Vales 8 pontos”.
Sentindo-se ofendida, por desconhecer que o marido utilizara uma escala de
0 a 10 e não a de
0 a 20 a que fora acostumada nos seus tempos de escola, fez eclodir uma cena conjugal. Ali mesmo, em plena estrada.
Na tentativa de se desculpar e explicar que até a classificara de forma muito elogiosa, perdeu o controlo do carro e despistou-se. Por coincidência, foi bater num
outdoor anunciando
os serviços de uma clínica. Com o sobrolho a sangrar, ainda conseguiu avaliar os estragos nuns
200 pontos (ou seriam contos?), o que pago com cartão de crédito lhe aumentaria substancialmente a possibilidade de vir a receber um carro novo, (desde que a sorte, evidentemente, não lhe virasse as costas).
Embora os serviços do
SOS estivessem a escassos 100 metros, insistiu com a mulher em ligar do telemóvel e chamar os serviços da clínica que se exibia diante dos seus olhos. Assim somaria mais uns quantos
pontos.
Foi suturado com
19 pontos, ficando a um ponto apenas de ganhar um serviço de ambulância e pronto socorro grátis, numa próxima necessidade em que solicitasse os serviços daquele estabelecimento.
“Azar!”- vociferou entre dentes. A sociedade de consumo fora mais uma vez madrasta. Tinha-o batido... aos pontos! Por apenas um ponto!
Ou, por outras palavras, acabara de compreender que “
quem conta uns pontos, se arrisca a parecer um tonto...”