Depois de mais uma caminhada de quase duas horas - de manhã fiz outra ainda mais longa- regresso ao alpendre já inundado pelo sol, a caminho do horizonte, anunciando a despedida. A paisagem ganhou vida. Bandos de pássaros regressam aos seus ninhos onde se acomodam em alegre chilrear. Cigarras entoam a sua canção de estio, acompanhadas por grilos preguiçosos.
Ao longe, ouço o coaxar das rãs junto ao rio e um rebanho de ovelhas balindo ao desafio. Dois cães estugam a passada a caminho de não sei onde. Lanço-lhes um repto sibilino. Um deles estaca o passo, fita-me e depois de uns momentos indecisos, começa a dirigir-se na minha direcção. O outro, que seguira o seu caminho, pressentindo a falta do companheiro volta para trás em louca correria e ladrar impositivo. O que vinha em minha direcção dirige-me um último olhar, como que a pedir desculpa, por me abandonar e inverte a marcha. Vejo os dois desaparecer numa curva do caminho.
O sol já se escondeu para lá dos montes, mas ainda espalha a sua luz por detrás das cortinas do quarto onde vai passar a noite. Em breve recolher-se-á para dar lugar à lua. Uma lua cheia que virá, na companhia de uma multidão de estrelas, iluminar o meu alpendre. Assim se renova a vida.