sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Crepúsculo

Depois de mais uma caminhada de quase duas horas - de manhã fiz outra ainda mais longa- regresso ao alpendre já inundado pelo sol, a caminho do horizonte, anunciando a despedida. A paisagem ganhou vida. Bandos de pássaros regressam aos seus ninhos onde se acomodam em alegre chilrear. Cigarras entoam a sua canção de estio, acompanhadas por grilos preguiçosos.

Ao longe, ouço o coaxar das rãs junto ao rio e um rebanho de ovelhas balindo ao desafio. Dois cães estugam a passada a caminho de não sei onde. Lanço-lhes um repto sibilino. Um deles estaca o passo, fita-me e depois de uns momentos indecisos, começa a dirigir-se na minha direcção. O outro, que seguira o seu caminho, pressentindo a falta do companheiro volta para trás em louca correria e ladrar impositivo. O que vinha em minha direcção dirige-me um último olhar, como que a pedir desculpa, por me abandonar e inverte a marcha. Vejo os dois desaparecer numa curva do caminho.

O sol já se escondeu para lá dos montes, mas ainda espalha a sua luz por detrás das cortinas do quarto onde vai passar a noite. Em breve recolher-se-á para dar lugar à lua. Uma lua cheia que virá, na companhia de uma multidão de estrelas, iluminar o meu alpendre. Assim se renova a vida.

As cores do silêncio

São quase cinco da tarde. Acordei há pouco da sesta e sentei-me no alpendre, de onde desfruto uma paisagem verde e ocre que se perde no horizonte. Na quietude da canícula, reina um silêncio repousante. De quando em vez uma brisa serena acaricia-me o rosto. Ao longe, um rebanho pachorrento é o único sinal de vida.
Ligo o computador. Vindo de não sei onde, um moscardo pousa no ecrã. Será que quer dar uma vista de olhos pela Internet?
Alinho palavras a um ritmo tão lento como a vida para além do meu alpendre. Volto a fixar o olhar na paisagem.
Desligo o computador. Abro um dos livros que trouxe como companhia:“Meia noite ou o princípio do mundo” de Richard Zimler.
Aqui, onde me encontro, o mundo ainda não começou. Apenas duas borboletas, ensaiando um bailado de amor, anunciam que em breve haverá vida neste quadro que desfruto do alpendre.