terça-feira, 12 de agosto de 2008

Crónicas do meu baú(7)

Férias na Jamaica
- Então que tal as tuas férias na Jamaica?
- Ai, querida, foram óptimas! Uma semana fantástica, longe daqui, desta pasmaceira- Não apanhaste o tufão?
- Oh querida, ali não há tufões! Só furacões como nos Estados Unidos!
- Está bem, mas não estavas na Jamaica quando passou lá um furacão?
- Estava, estava. O Dean por acaso foi um bocado chato...
- ?....
- Imagina tu que no dia a seguir a lá chegarmos estávamos cansados da viagem e só estivemos para aí meia hora na piscina. Depois, no dia seguinte, estava um dia óptimo e tomámos uns banhos que nem imaginas (ai aquelas águas!) que maravilha. E à noite o “reggae”? Oh querida só visto! Aquilo é Bob Marleys por toda a parte...
- Não estás muito queimada, acho que andaste mais nas noites do “reggae” do que a gozar a praia.
- Pois...logo no terceiro dia disseram-nos que vinha um furacão e já nem pudemos ir à praia porque nos avisaram que a qualquer momento nos iam transportar para um hotel mais seguro. Só deu mesmo para comprar umas bugigangas numas tendinhas ao pé do hotel, porque à tarde levaram-nos para outro. Fantástico, minha querida, nem te passa pela cabeça aquela loucura. Só piscinas eram quatro e restaurantes contei pelo menos sete.
- Bem, pelo menos gozaste as piscinas, deixa lá...
- Não... não pudemos ir à piscina por causa do tempo. Estivemos dois dias quase sem sair do quarto e no dia em que o Dean passou por lá só comemos umas rações que os hotéis lá já estão habituados a preparar para os turistas em dias assim. No dia seguinte voltámos de manhã para o nosso hotel, mas o tempo ainda estava muito mau e o hotel tinha ficado muito afectado. E ao fim da tarde do outro dia viemos embora. Olha lá e tu onde passaste as férias ?
- Bem, eu não saí de Lisboa. Fui um dia ou outro com os miúdos até à praia, mas esteve sempre bastante vento...
- Ó querida, coitada! Ficar em Lisboa de férias com este tempo horrível que tem estado. Não consegues convencer o teu marido a oferecer-te umas férias decentes?



A China que eu vi(2)

Não se sabe ao certo qual é a população da China. Apesar de os números oficiais do governo afirmarem que vivem no país 1,3 mil milhões de pessoas ( não estão incluídos Taiwan, Macau e Hong-Kong) especialistas estimam que esse número seja muito superior.
Seja qual for o número de habitantes da China Continental, a verdade é que se assiste a um crescimento acelerado das cidades. Os agricultores- cujo número é superior ao da população da Europa e EUA , juntos- estão a abandonar as suas terras onde normalmente vivem mal e a procurar as cidades onde as grandes empresas- especialmente as multinacionais- pagam salários muito mais elevados. Para que se faça uma ideia, o rendimento de um agricultor corresponde, sensivelmente, a um terço dos salários mais baixos pagos nos centros urbanos.
Esta migração, para além de criar uma classe média com razoável poder de compra e uma élite de quadros que seguem o velho modelo yuppie, coloca vários problemas: a desertificação dos campos, o crescimento das cidades e uma aglomeração de pessoas, especialmente em Pequim, Xangai e no sudeste do país, que a breve prazo será difícil de resolver.. Por um lado, porque o crescimento constante das cidades ameaça torná-las insustentáveis; por outro, porque muitos terrenos aráveis estão a desaparecer para dar lugar à construção.
O desenvolvimento económico da China – a par da Índia- coloca um problema de sustentabilidade a nível mundial, pois o país deixou de ser auto-suficiente em muitas matérias –primas, como o petróleo e, em apenas dez anos, passou a ser o segundo maior importador, logo a seguir aos Estados Unidos. E tudo isto se passa-é bom não esquecer- quando a esmagadora maioria dos chineses ainda não desfruta dos benefícios do desenvolvimento do país.
Para que se faça uma pequena ideia da relação salarial na China, acrescento apenas que um móvel para a sala, comprado na Ikea- os chineses vêem na empresa sueca o modelo de sucesso da decoração ocidental- pode custar o equivalente a dois meses de salário de um trabalhador indiferenciado.

O ridículo também mata

Ontem regressei a casa pouco antes das 20 horas. Tinha acabado de sair do Metro, quando começo a ouvir gritos femininos: " Pai! Pai! Vem depressa, socorro!Vão-me matar!”
Olho à minha volta mas não vejo nada. Passa por mim um homem a correr. Sigo-lhe os passos com o olhar e vejo um corpo no chão debatendo-se com dois matulões. Quando o homem que passara por mim a correr chega junto dela, o acto estava consumado: uma miúda de 14 anos, minha vizinha, tinha sido despojada do seu porta moedas e do telemóvel. Perante o olhar passivo de um taxista que parou para ver a cena, sem sequer esboçar o gesto de sair do carro.
Chego junto dela, ao mesmo tempo do pai.. Ainda corremos atrás deles, mas a exibição de duas facas rapidamente nos dissuadiu. A miúda chora. Sangra por dentro. Um fio de sangue escorre-lhe pelo nariz. O paí tem a revolta estampada no rosto. Dos seus olhos saem chispas de ódio.
Não interessa para o caso se os assaltantes eram brancos, pretos, amarelos, ciganos ou peles- vermelhas. São dois filhos da puta que vão continuar a sustentar-se à custa de assaltos. Para mim não têm perdão. Foi este modelo de sociedade que os conduziu ao crime? É verdade... mas conheço desgraçados com razões de queixa da vida que os atirou para o desemprego e não foi por isso que passaram a asaltr bancos, ou pessoas na rua...
Reconheço, porém, que os assaltantes tiveram azar. Poderiam ter encontrado o Daniel Oliveira ou o João Miranda que, muito provavelmente, os teriam convidado para jantar e discutir, à volta de uma bacalhoada regada a tinto, e whiskey de digestivo, a barbaridade da polícia portuguesa.
A cena passou-se em Lisboa, no Lumiar, não foi no bairro das Galinheiras, em Camarate, na Quinta da Fonte, nem em Loures. Há quem ache tudo isto muito natural. Eu, que em jovem vinha do Caruncho até à Av das Forças Armadas a pé, às 3 da manhã, com amigas, sem qualquer problema, não acho.
PS: Lamentavelmente, constato hoje que Fernanda Câncio ( uma das jornalistas por quem tenho especial apreço) decidiu juntar-se ao coro de excêntricos que se insurgem contra a actuação da polícia e da GNR. O pretexto foi o assalto de Loures em que morreu uma criança de 12 anos que acompanhava os assaltantes. Mas alguém na sua lucidez, pode ter condescendência por uns filhos da puta que levam uma criança para um assalto? Estarei louco, ou esta gente perdeu a noção do ridículo?

Há amores que nunca morrem...

Vários amigos me têm criticado pelo facto de perder o azimute quando escrevo em defesa do “meu” FC. Porto e desatino com as fitas de Carolina Salgado e Luís Filipe Vieira.
Creio que têm alguma razão, mas porque poucos conhecem a minha história, vou explicar as causas desse desvario.
Praticamente nasci quase em frente do velho estádio das Antas e fiquei logo azul e branco.
Quando vim para Lisboa não sabia o que era ganhar um título de campeão nacional e, por desdita, na minha turma da Faculdade de Direito só praticamente eu e o Miguel Sousa Tavares tínhamos a ousadia de manifestar o nosso “portismo”. Era olhado durante o ano inteiro com alguma condescendência pela escolha clubista que alguns rotulavam de provinciana, mas a complacência terminava se o F.C. Porto cometia a ousadia de vencer um clube da capital.
Quando finalmente o FC Porto se sagrou campeão, já não estava a viver em Portugal.
Graças a uma amiga que trabalhava na TAP, em Washington, atravessei o Atlântico num avião da TAP para vir assistir ao jogo decisivo ( FC Porto/Barreirense).
Cheguei ao Porto no domingo de manhã, fui ver o jogo ( que nessa altura ainda era às 3 ou 4 da tarde), festejei a noite inteira e regressei a Washington na segunda –feira sem ter pregado olho. Já tinha ultrapassado os vinte anos e era a primeira vez que podia comemorar um título de campeão nacional ( os sportinguistas que esperaram 16 anos para vencer um campeonato e mesmo os benfiquistas que esperam há 15 – aquele título de 2004/2005 foi tão foleirote e esporádico que não lhes deve ter dado gozo nenhum) sabem bem o que é a sensação de esperar tantos anos por uma vitória...
Quando em 1987 o FC Porto ganhou a Taça dos Campeões Europeus estava em Portugal, mas não me pude deslocar ao Porto para comemorar e, quando meses mais tarde ganhámos em Tóquio a Taça Intercontinental, eu tinha feito uma viagem em caminho inverso ao da minha equipa e estava no Perú ( mas vi o jogo...).
Só a partir da segunda metade da década de 90, pude começar a comemorar as vitórias dos Dragões em Portugal. Exultei com o ”Penta” e entrei em delírio com a conquista da Taça UEFA. Mas o momento mais significativo foi a vitória de 2004 na Liga dos Campeões.
Foi em Lisboa, com a Av da República e ruas adjacentes a abarrotar de adeptos azuis e brancos, que me senti vingado dos vexames que sofrera quando era estudante de Direito. Nada mais apetitoso do que festejar em casa do “inimigo”, a conquista do título de “equipa portuguesa que venceu mais competições internacionais”.
Compreendem agora porque não aceito que o presidente de uma grande instituição- como é o SLB- ponha em causa aquilo que foi ganho em campo com muito esforço? Compreendem agora que me irrite, quando um negócio pecaminoso de saias despeitadas quer pôr em causa o que homens de barba rija conquistaram ”sem sombra de pecado”? Compreendem agora, porque desprezo um homem que quer ganhar na secretaria, o que não consegue fazer em campo?

Dicionário do Rochedo (15)

Descartável- aquilo que se vai a correr comprar aos saldos, se usa mia dúzia de vezes e depois deita fora, de modo conseguir poluir mais o ambiente e degradar a paisagem urbana