
Mais uma crónica só para adultos, não aconselhável a pessoas sensíveis!
Nasci com todas as condições para vir a ser um adulto machista, impertinente e a cheirar a cavalo, apreciado por muitas mulheres que certamente detestaria.
Caçula de uma família burguesa do Porto, mantendo tradições que já nos anos 60 cheiravam a mofo, fui “ensinado” a olhar para as mulheres como um objecto decorativo, instrumento de prazer, hábeis na gestão da vida familiar, prendadas para bordado, lides domésticas e cozinhados, criadas para casar com tipos ricos que perpetuassem a tradição familiar. Aos 14 anos, olhava para as minhas primas como seres cuja única função, terminada a fase dos baptizados das bonecas, seria a de parideiras, boas donas de casa e extremosas esposas e mães.
Se hoje sou solidário com as mulheres e as vejo como iguais, isso não se deve apenas às leituras que fiz, ao facto de ter abandonado o Porto e o seio familiar aos 17 anos para me tornar independente, ao Maio de 68, ou a uma vivência em vários continentes, durante muitos anos. Quase diariamente, vejo na televisão pessoas com um percurso idêntico ao meu ( com alguns dos quais partilhei momentos da minha juventude) e nem preciso de falar com eles, para perceber que apesar das aparências exteriores, se mantêm iguais ao que eram na juventude.
O que me fez tornar solidário com as mulheres e passar a olhar para elas como companheiras e não meros complementos sexuais foi, também, este momento de pura canalhice juvenil.
Era uma tarde de Agosto. Uma amiga deslumbrantemente ruiva, filha de um médico amigo dos meus pais, fazia anos e deu uma festa. Em casa, como era habitual naquela época.
Com a cumplicidade de uma inglesa que veraneava em casa da aniversariante, alguém conseguiu introduzir um gravador no quarto onde as raparigas deixavam os seus casacos e se iam retocar.
O objectivo era apenas saber se nas conversas que travavam entre si, uma delas retribuiria os sentimentos que um de nós sentia por uma delas. Estávamos longe de imaginar o que iríamos ouvir...
Terminada a festa, reunimo-nos num quarto para ouvir a gravação. O resultado foi uma surpresa. Foi nesse dia que percebi que as raparigas da minha idade não se interessavam apenas por bordados, culinária e vestidos, pelo Johny Halliday ou pela leitura do “Salut Les Copains”. As raparigas da minha idade partilhavam das mesmas preocupações que os rapazes, tinham conversas sobre as mesmas questões dos rapazes e discutiam problemas sexuais como os rapazes ( com o à vontade possível na época, entenda-se...).
Quando do gravador saiu a voz de uma jovem lisboeta que passava parte das férias no norte, a dizer que um determinado fulano ( de que nenhum de nós gostava e muitos portugueses ainda hoje detestam) lhe fazia um “grande tesão” , caímos das nuvens. Como era possível que as mulheres tivessem uma coisa dessas? Andaríamos a ser enganados pelo professor de Ciências Naturais? Ou seria um coisa só das raparigas de Lisboa? Estávamos incrédulos. Como era possível uma mulher ter “aquilo” e ainda por cima gabar-se diante das amigas?
A partir desse dia a minha forma de olhar para as mulheres mudou radicalmente. O meu percurso de vida fez o resto, mas aquela foi uma data marcante, porque me fez pensar sobre o que ouvira e chegar à conclusão que entre homens e mulheres havia mais semelhanças do que diferenças. As mulheres poderiam ser aquilo que elas quisessem, se lhes fossem dadas as mesmas oportunidades e se libertassem do casulo de uma educação castradora que as queria condenar a tornarem-se dóceis donas de casa, fiéis aos maridos e assistindo, resignadas, às traições dos seus consortes. Percebi, nesse dia, que a orientação das leituras infantis ( com colecções denominadas “ Biblioteca dos Rapazes” e “Biblioteca das Raparigas”), os brinquedos diferenciados “p´ró menino e p´rá menina”, as brincadeiras “próprias de raparigas”, ou o rosa interdito aos rapazes, eram códigos de mentiras que apenas pretendiam manter o domínio do homem sobre as mulheres.
Só por isso, acho que valeu a pena aquele momento de pura canalhice juvenil!
