Já quase tudo foi escrito sobre o discurso de Cavaco, não vale a pena “bater mais no ceguinho”. Acrescento apenas, em estilo telegráfico, umas coisinhas ao que já aqui escrevi ontem:1-
Cavaco não quis falar dos Açores. Utilizou-os como um pretexto para avisar o país que a cooperação institucional com
José Sócrates tinha terminado.
2- O ar zangado e ofendido do PR era injustificável e a argumentação ainda mais. A AR não lhe retirou poderes, ao contrário do que pareceu querer realçar na sua comunicação ao país. Aquele ar que já não lhe víamos há muito tempo era mais de birra e desforra.
3- A escolha da hora e o secretismo à volta do conteúdo não foi inocente. O objectivo era fazer 2 em 1 e Cavaco conseguiu. Poucos minutos depois de terminar a sua intervenção,
Manuela Ferreira Leite aparecia, radiosa, diante das câmaras a aplaudir a intervenção, fingindo ignorar que o Estatuto dos Açores foi aprovado por unanimidade na AR. Fazia parte da estratégia.
4- A estratégia de Cavaco e MFL é legítima, mas não me parece séria. Transformar o Estatuto dos Açores em arma de guerrilha institucional, para atingir determinados objectivos que servem aos dois não é, concerteza, a melhor forma de servir o país.
5- À primeira vista, está a resultar. O
PS já veio esclarecer que só procederá às alterações consideradas inconstitucionais pelo TC, anunciando assim que está disposto a ir para a guerra. Caberá ao PR dar o próximo passo, vetando o diploma que lhe vier a ser apresentado.
Se o fizer, desenterra-se o machado de guerra.
6- Quase certo é que, desta vez, o
PSD irá votar contra, o que para uma pessoa com um mínimo de inteligência colocará de imediato uma questão: se o
PSD votou a favor e agora vota contra, só porque as normas que o PR queria ver alteradas, não o foram, então mostra ao País que a nova estratégia do prido consiste numa colagem ao Presidente. Nada que não se soubesse já, depois de algumas intervenções de MFL que lhe foram sopradas de Belém. As coisas tornar-se-ão mais claras para todos e, ao contrário do que muitos julgam, os portugueses não são estúpidos e vão perceber a jogada.
7-
O engraçado, é que tudo isto pode servir os interesses de Sócrates. Muitos eleitores desiludidos com o
PS, que estariam a pensar votar à esquerda ( nomeadamente no BE) vão pensar duas vezes e, entre ver o duovirato MFL/Cavaco no poder, ou voltar a votar Sócrates, vão decidir pela segunda hipótese, porque não se vão esquecer que MFL foi a pior ministra das Finanças desde o 25 de Abril. Muitos votos jovens ( e não só) laranja também vão rejeitar a estratégia traçada no ISE
8- É ainda posível que Cavaco, durante as suas férias algarvias, se lembre desse facto e então corre-se outro perigo: pensar que pode exercer o cargo de PR e simultaneamente o de PM, através de MFL . Nunca é demais lembrar que MFL tem também a tef de avó para desempenhar, o que lhe tirará algum tempo para a governação.
9- Resumindo: a paz institucional terminou, porque dois amigos acharam por bem que era muito mais agradável decidir o futuro do país enquanto tomam uma chávena de chá, em amena cavaqueira, do que nessa chateza dos Conselhos de Ministros O País não merecia isto. E, convenhamos, por muito que não se goste de Sócrates, o PM também não.
10- Os próximos desenvolvimentos, depois da “rentrée”, vão ser decisivos.
11- Espero que Cavaco não venha a ser a figura central das legislativas de 2009
12-A maneira como MFL prtende chegar ao poder é muito típica do modo de ser português. Manietada pelo facto de sempre ter apoiado as medidas de Sócrates e não ter cara para apresentar alternativas, meteu uma cunha a Cavaco. Este acedeu prontamente e retirou-se para férias de consciência tranquila. A que horas, de que dia, estará marcado o próximo “
five o’clock tea” entre os dois, em terras algarvias? E , desta vez,
Pacheco Pereira será convidado para difundir no seu Abrupto e nas páginas do “Público” as linhas programáticas do consulado laranja, traçadas num ameno fim de tarde no
Reino dos Allgarves?