


Gosto do Porto, como de nenhuma outra cidade deste país. Nesta cidade brejeira onde existem trolhas, picheleiros e bueiros; onde há chantras, garinas e aloquetes; onde os idosos ainda se chamam velhos, um maricas é um paneleiro, ou um amigo que nos trai um filho da puta, há também muita poesia e amor. Aqui há a Rua dos Abraços, a Rua dos Beijoqueiros e "ilhas" onde as mães gritam para os filhos: "Anda cá meu filho da puta, quem te deu ordem p'ra comeres esse mulete?" Aqui , durante os bailes, os namorados estão "no roço" e as mães admoestam os filhos mal comportados dizendo "vai fazer piruetas nos cornos do teu pai!
Demorei anos a perceber porque é que nunca consegui ser feliz no Porto, nesta cidade de mulheres lindas, um rio prenhe de poesia e aquela marginal esplendorosa, da Ribeira até à Foz.
Hoje sei muito bem porque é que esta cidade me expulsou a mim e aos meus maiores amigos de infância, dispersando-nos pela Europa, Ásia e Américas. O Porto fechou-se no seu casulo, gerido por autarcas que nunca amaram a cidade, apenas a usaram como trampolim para fazer política em Lisboa. Assim germinaram mentalidades bairristas, por vezes aniquilosadas, que não deixaram a cidade crescer e evoluir. E muita gente emigrou....
Aqui, no cais de Gaia, enquanto contemplo o casario que se debruça sobre o Douro, observo bandos de gaivotas em piruetas, ouço o linguarejar de espanhóis, ingleses, franceses, asiáticos e sul americanos, descrever fascinados a paisagem de que desfrutam, enquanto disparam sofregamente as suas câmaras, na ânsia de registar para sempre as imagens inolvidáveis de umas férias, ou de um fim de semana, deixo-me invadir pela nostalgia. É tempo de despertar. Logo à noite, no Dragão, há apresentação da equipa. Claro que vou lá estar!