Talvez seja injusto ao escrever isto, mas as notícias que leio sobre as dificuldades de algumas famílias portuguesas, que estão a recorrer à Santa Casa da Misericórdia ( por e-mail, note-se!!!) pedindo auxílio, deixam-me indiferente. O mesmo sentimento por aqueles que roubam no supermercado produtos caros.
Muitas destas famílias vivem confortavelmente, rodeadas de produtos supérfluos que adquiriram com recurso ao crédito, mas preferem sujeitar-se à humilhação ( partindo do princípio que sabem o que isso é...) de pedir auxílio a uma instituição que está vocacionada para acudir aos mais necessitados, a desfazer-se dos bens que- acreditam- lhes conferem o estatuto social que a publicidade, às cavalitas do modelo de sociedade onde vivemos, lhes apregoa.
Desde 1998 que venho escrevendo sobre questões de endividamento, alertando para os perigos do endividamento excessivo; já participei em dezenas de sessões de esclarecimento sobre o assunto. Tive sempre a sensação que, do lado de lá, quem me lia e ouvia murmurava interiormente: " esses exemplos são de gente sem cabeça, comigo isso nunca vai suceder!"
Quem assim pensava tinha um aliado de peso.Enquanto eu escrevia, falava, mostrava situações de famílias que passavam dificuldades, o Banco de Portugal assistia, impávido, à proliferação de publicidade que convidava as pessoas a endvidarem-se de forma néscia e comunicava a todos os portugueses que a situação ainda não era preocupante. Era o que os portugueses, inebriados na febre consumista do pavão, queriam ouvir. Quem mais sábio do que o Banco de Portugal- Entidade Reguladora do sector bancário- para analisar a situação? Por outro lado, o presidente da associação nacional de bancos também vinha, qual abutre a quem pretedem roubar a presa, protestar contra os alarmismos de alguns jornalistas. "Está tudo bem, não há razão para preocupações...".
Mas havia! Quando a taxa de endividamento dos franceses ultrapassou os 76%, tocaram as sinetas de alarme em França. Nessa altura, a taxa de endividamento ds portugueses já ultrapassara os 100%, mas como nós somos bons na arte do desenrascanço, que mal havia em fomentar o desperdício?
É certo que os portugueses se endividaram por culpa própria, mas aqueles que tinham o dever de os alertar não só nada fizeram, como ainda contribuíram para que a situação se agravasse.
Agora, na situação de penúria, outros abutres se levantam. Paulo Portas foi o primero a aguçar os dentes, acusando o BP de inacção. É preciso ter topete e não ter um pingo de vergonha na cara! Que legitimidade tem PP para criticar o BP? Os portugueses têm memória!
Provavelmente, a próxima abencerragem a surgir indignada, perante as venerandas câmaras ou nas passadeiras de vaidades que certa imprnsa está sempre disposta estender-lhe, será o inenarrável António - Salvador da Pátria- Borges. Fechar-se-á por aí o círculo da hipocrisia, ou ainda vamos assistir à exibição de novos artistas neste circo de abutres?