Há mais de 24 horas que estou triste! É uma tristeza imensa. Tão grande, tão grande, tão grande, que a custo consigo escrever este post. A causa da minha tristeza chama-se
Perito Moreno.
Situado no
Parque Nacional de Los Glaciares, na Patagónia Argentina, é uma das maiores maravilhas da Natureza que eu já pude observar. Não se trata de exagero. Conheço 94 países e sei do que falo.
Quando lá estive, poucos meses depois da
Cimeira do Rio de Janeiro, tinha programado uma visita de meio dia. Era Verão e esperava ver o
Perito Moreno a deixar desprender das entranhas um bocado de si, em jeito de lágrima lançada por alguém que sofre em silêncio a violência do ser humano. Acabei por ficar um dia inteiro a contemplar aquela maravilha.
Senti-me pigmeu perante aquela grandiosidade. Senti a fragilidade do ser humano perante aquele monstro que, apesar de amputado durante os meses de verão do hemisfério sul, continuava a crescer. Visitei as grutas de Cueva de Galicho ( nas margens do Lago Argentino) marcadas pela arte rupestre de habitantes pré-históricos que ali se refugiavam.
Seriam umas três da tarde quando, sob um límpido céu azul, ouvi estrondos de trovão. Era um enorme bloco de gelo, com algumas toneladas, que se desprendia do Perito Moreno e mergulhava na água. Espectáculo sublime, único, ímpar, só possível de ser visto entre Janeiro e Março.
Na segunda –feira à noite, ouvi na Sic-Notícias que bocados do Perito Moreno se estavam a desprender em pleno mês de Julho ( inverno no hemisfério sul), fenómeno raro que não se verificava há quase um século. Eu sei que há sempre aqueles ambientalistas cépticos,(link) que dizem que é uma situação normal. Para mim não é. Interpretei o desprendimento como um aviso do Perito à Humanidade, principalmente aos abutres do G-8 que àquela hora discutiam no Japão o preço do petróleo, armas de defesa, a Guerra das Estrelas nos céus da República Checa e essa merda da economia global que nos há-de permitir morrer afogados em telemóveis, i-phones , i-pods e uma parafernália de maravilhas tecnológicas, mas que se recusa a dar de comer a milhões de famintos que diariamente morrem às mãos das suas leis aberrantes.
O Perito Moreno lançou um alerta, ao jeito de quem diz: “Salvem-me e salvem a Natureza enquanto é tempo”, mas os abutres do G-8 encolheram os ombros, indiferentes e engravatados, e voltaram a exigir o aumento da produção de petróleo, de modo a que os cidadãos dos países ricos continuem a poder andar de cú tremido para, embalados pelo canto da sereia consumista, desaguarem nas catedrais do faz -de-conta e do supérfluo.
O G-8 percebe é de números, de notas, de cartões de crédito, de taxas de juro, de acções, obrigações e de PIB’s . Não percebe nada da Natureza.
O G-8 quer é cidadãos adormecidos e amorfos, desprovidos da capacidade de pensar e de se indignarem, abismados com os brinquedos da sociedade da hiperescolha, feitos à medida, com que se entretêm todos os dias. De Natureza, os cidadãos não precisam de saber nada. O importante é que continuem a trautear, felizes, a música da Internacional Consumista e de quando em vez, como forma de expiação dos seus pecados, dêem uns donativos para o Banco Alimentar Contra a Fome.