quarta-feira, 2 de abril de 2008

Uma lição argentina: recordar o passado, para preservar o futuro

Há indícios de que a crise na Argentina pode começar a desanuviar-se. Ontem, na emblemática Plaza de Mayo, Cristina Kirchner proferiu um discurso forte, onde acusou a Confederação dos Agricultores de “golpista” e afirmou:
“ Não podem arvorar-se em defensores do povo e, simultaneamente, impedir-lhe o acesso aos alimentos!”
O que me impressionou na manifestação de ontem foi o facto de Cristina Kirchner ( que não se auto-proclama de esquerda e muito menos socialista) ter contado com o apoio da maioria das organizações sindicais e de muitas organizações e movimentos cívicos conotados com a esquerda.
O que ontem se viu, na Plaza de Mayo, foi um povo argentino com memória, que saiu à rua para apoiar a sua presidente e lembrar que em 1976, um mês antes do golpe militar que mergulhou a Argentina num dos períodos mais sangrentos da sua História, também houve um “lock-out” patronal. ( Como nós precisávamos de uma esquerda com consciência em Portugal!)
Os argentinos não querem regressar àquele passado de medo, tortura e violência que manchou o país.
Perante tão gigantesca manifestação popular, que decisão tomará hoje a Confederação dos proprietários agrícolas na reunião que levará a cabo na Ruta 14 -que bordeja o rio Uruguay, na província de Missiones?
O governo está disposto a dialogar. Mas será isso que os patrões agrícolas pretendem?

Lembrando a guerra das Malvinas/Falkland

Stanley, capital das Falkland


Assinalam-se hoje 26 anos do início da Guerra das Malvinas. Vale a pena recordar que a guerra foi uma tentativa desesperada de Galtieri preservar a ditadura militar argentina, que se saldou em quase 700 mortos do lado sul-americano, quase todos jovens soldados sem experiência, usados como “carne para canhão”.
O resultado é conhecido. A derrota argentina apressou o extertor da ditadura e concedeu enorme popularidade a Margaret Thatcher, então alvo de forte contestação em Inglaterra. Volvidos 26 anos, a discussão em torno das Malvinas ( ou Falkland para os ingleses) não está terminada. Embora por vezes o dossiê pareça estar encerrado, a verdade é que sempre que se aproximam eleições na Argentina, o tema volta à baila, dando a sensação de o arquipélago ser usado como trunfo eleitoral.
Aconteceu quando Nestor Kirchner foi eleito presidente, em 2003, (relançou então a questão da posse do arquipélago, tendo o assunto chegado a ser discutido nas Nações Unidas) voltou a suceder em 2007, a poucos meses das eleições presidenciais que levaram Cristina Kirchner à Casa Rosada , (o governo argentino denunciou então o acordo de exploração conjunta de petróleo naquele território, alegando que os ingleses não estavam a cumprir a sua parte) e acontece hoje, com a presidente argentina a deslocar-se a Palomar para evocar a efeméride e aproveitar para dar sequência aos seu discurso de ontem na Plaza de Mayo, que originou um recuo dos agricultores contesttários. ( Sobre isso escreverei um post mais adiante)
Em jeito de balanço, vale a pena lembrar que a guerra desencadeada pelos ditadores argentinos pela posse de umas pequenas ilhas do Atlântico Sul, teve efeitos profundos na Europa, na América Latina e no próprio palco de guerra.
A queda da sanguinolenta ditadura militar argentina teve efeitos positivos na democratização do continente sul-americano e marcou o princípio do afastamento entre Buenos Aires e Washington. Recorde-se que Galtieri contava com o apoio de Reagan, que no entanto lhe roeu a corda à última hora, para apoiar Thatcher. Esta “traição” dos EUA ficou cravada não só nos argentinos, como nos restantes parceiros sul-americanos.
Uma vitória de Galtieri teria traçado um rumo totalmente diverso no futuro da América Latina A vitória da Inglaterra teve também efeitos no percurso da União Europeia. Thatcher era uma eurocéptica, mas estava a ser contestada internamente. A vitória fortaleceu a sua posição e permitiu-lhe manter o distanciamento face ao mercado único. É verdade que a Europa, com maior ou menor dificuldade, continuou a cumprir o seu percurso, mas provavelmente tudo teria sido diferente se Thatcher tivesse sido obrigada a abandonar Downing Street, vergada ao peso de uma derrota.
Quanto às Falkland /Malvinas, território pouco mais do que miserável cuja população partia diariamente para outras paragens, em busca de melhores condições de vida, beneficiaram de um grande desenvolvimento após a guerra, com o turismo e a indústria ( nomeadamente biocombustíveis) a terem um papel determinante.

Rochedo das Memórias 31- "I have a dream" (Dos Beatles a Mary Quant)




"I have a dream" proclama Martin Luther King em 1963 perante mais de 250 mil pessoas que desfilam em Washington exigindo a igualdade de direitos civis para pretos e brancos. Ano que fica marcado pelo assassinato de Kennedy e pelo aparecimento dos Beatles que saem do Cavern Club para empolgar a juventude.
Nasce uma nova dimensão do rock, a partir de agora gravado em cassettes, a última invenção no mundo dos registos magnéticos. A música folk e de protesto ganha um número crescente de novos adeptos com cantores como Bob Dylan e Joan Baez.
A bordo do Vostok VI, Valentina Terechkova torna-se na primeira mulher a viajar no espaço, mas o acontecimento não pode ainda ser gravado em videos domésticos, pois só uma semana mais tarde a BBC fará a sua apresentação ao público.
Só nos anos 80 é que Lena d’Água cantará “Olhó Robot”, mas em 1963 o mundo laboral já conhecia os efeitos da entrada desta tecnologia em muitas unidades de produção industrial: uma transformação radical nos modos de produção, com profundos reflexos sociais. O pior, porém, ainda estava para vir...
Em 1964, enquanto a sonda Ranger VII envia para a Terra as primeiras fotografias da superfície lunar, Mary Quant lança a mini-saia, cujo comprimento é inversamente proporcional ao do cabelo dos rapazes, que seguem o modelo inspirador dos Beatles, e as top-models começam a dar nas vistas, graças a um fotógrafo chamado Lindberg.
A esquelética Twiggy torna-se a imagem padrão feminina e a indústria farmacêutica vai socorrer-se da sua imaginação para que todas as mulheres que o desejem se tornem iguais à modelo. Estava lançado o negócio dos produtos de emagrecimento. As body shops e as clínicas de emagrecimento vêm a caminho, mas ainda não se ouve falar de aeróbica, nem de anorexia.
Londres assume o papel de Meca cultural para a juventude europeia dos anos 60. Carnaby Street e King's Road constituem pontos de passagem obrigatória para quem visita Inglaterra. Espectáculos musicais como Hair atraem à capital inglesa milhares de jovens de toda a Europa, e as transformações sociais começam a ser visíveis no mundo ocidental. Propaga-se uma onda libertadora que atravessa toda a juventude e os Beatles mostram-lhe em filme o que é uma “Hard Day’s Night”
A sociedade de consumo avança a passos largos ao som da música pop, do Gospell, dos blues, ou da música country. Nascem vedetas duradoiras, pretas e brancas, que ajudam a esbater as barreiras raciais. "West Side Story" torna-se um filme obrigatório. À semelhança dos anos 20, vivem-se anos de euforia, e os jovens começam a ter poder de compra. Por agora, no entanto, ainda não fazem parte do apetite voraz dos publicitários. Falta ainda percorrer uma última etapa: o aproveitamento dos ídolos como veículos comerciais.