sexta-feira, 28 de março de 2008

Argentina: a guerra da carne

Os agricultores argentinos estão há 15 dias em conflito com o governo, por causa do aumento de 10% da carga fiscal sobre as exportações e ameaçam desencadear a mais grave crise na pátria azul celeste, desde o “Corralito”, em Dezembro de 2001.
Cortes de estradas impedem o abastecimento de carne, leite e produtos hortícolas a Buenos Aires, pondo os porteños em polvorosa.
Só quem não conhece a Argentina pode imaginar o que representa para um argentino estar mais de 24 horas impedido de comer asado de tira ou bife de chorizo!
Estava em Buenos Aires quando rebentou o “Corralito” e, pela primeira vez na vida, senti medo na Argentina. Para além do que se passava nas ruas, com assaltos a bancos e supermercados, incêndios de edifícios, “cacerolazos” e confrontos nas ruas, a instabilidade política ameaçava seriamente o país, mergulhado numa crise financeira sem precedentes, provocada pela ruinosa administração de Menem e do seu ministro das Finanças Caballo - que uma amiga rotulava de “Cabaco argentino”.
Durante algumas semanas os governos sucederam-se a uma velocidade vertiginosa, tendo-se dado o caso caricato de um deles ter tomado posse de manhã e ser substituído à tarde.
Nestor Kirchner veio repôr a normalidade. Melhorou significativamente a situação económica do país, mandou o FMI às malvas e devolveu à classe média boa parte do poder de compra que perdera com o “Corralito”.
Tudo indicava que a Argentina prosseguiria sem sobressaltos a recuperação económica, agora sob a batuta de Cristina Kirchner. Puro engano. Cem dias bastaram para que a “lua de mel” entre os argentinos e a família Kirchner terminasse.
De acordo com os relatos do La Nación e do Clarim, a situação ameaça deteriorar-se em várias províncias ( de Santiago del Estero a Salta, passando por Córdoba e Santa Fé), aguardando-se com expectativa a solução do governo para pôr fim ao bloqueio das estradas, encetado pelos agricultores.
Desde terça-feira, a situação tem vindo também a agudizar-se em Buenos Aires, com confrontos entre patrões agrícolas e simpatizantes do Governo. O “cacerolazo” voltou às ruas de Buenos Aires e, de acordo com amigos porteños, nas noites de terça e quarta-feira lutava-se “corpo a corpo” pela ocupação da emblemática Plaza de Mayo.
Esta manhã a situação estava mais calma, depois de Cristina Kirchner ter prometido dialogar com os patrões agrícolas, quando eles terminarem com o bloqueio das estradas.
Aguardo, ansioso, o evoluir da situação. Quero chegar à Plaza de Mayo , dentro de dias, poder dialogar com as "abuelas" e depois "mergulhar" mais uma vez na Patagónia com a tranquilidade habitual.

Conversas com o Papalagui (27)

- Ontem não te vi no debate sobre “A justiça e a corrupção desportiva”
- Não ia lá fazer nada... já sei qual é o problema
- Então qual é?
- É uma questão de escolhas
- Escolhas?
- Sim, escolhas bíblicas
- Não estou a perceber nada...
- É simples. Anda por aí muito boa gente a tratar destes assuntos, que trocou a bíblia do "Livro Vermelho" do Mao , pelo livro de pensamentos da Carolina Salgado

Pelo país dos blogs (2)

Reproduzo aqui um excerto do que escrevi há dias no post Carolina Michelis - o lado B ( sem link)
"A imprensa, a rádio e a televisão sabem, tão bem como eu, que esta cena não é pioneira, mas nunca tinham tido a possibilidade de fazer imagens reais que testemunhassem a violência que grassa nas escolas. ( O caso do video feito há tempos pela RTP foi desvalorizado por se tratar de uma escola problemática-eufemismo para escola frequentada por crianças pretas de bairros da periferia- como se as escolas não fossem quase todas problemáticas!)"
Hoje, no Blogouvese o João Paulo Meneses escreve um lúcido post sobre este mesmo assunto, que ainda não vira abordado em nenhum blog. A ler

Rochedo das Memórias Especial- A Construção Europeia(6)

( a expansão das fronteiras)
Nos anos 60, o crescimento económico era uma realidade e a CEE começou a despertar a cobiça de outros países europeus. O primeiro a apresentar a sua candidatura de adesão foi, curiosamente, a Turquia em 1961, mas como é sabido a adesão deste país encontra-se ainda num impasse sendo, inclusivé, alvo de grande controvérsia no seio da actual União Europeia.
O primeiro alargamento concretiza-se em 1973, com a adesão da Dinamarca, Reino Unido e Irlanda. Os dois primeiros haviam experimentado uma via alternativa à CEE, com a criação da EFTA em 1960. A EFTA, porém, nunca passou de uma associação de comércio livre, com resultados muito aquém das expectativas dos fundadores, entre os quais estava Portugal.
Um ano após a adesão daqueles três países, caíam as ditaduras militares na Grécia e em Portugal e, pouco depois, também em Espanha. Estas três jovens democracias passariam a integrar a CEE na década de 80. Primeiro a Grécia ( 1981) e depois Portugal e Espanha ( 1986).
A CEE estende as suas fronteiras para Ocidente, atingindo o Atlântico, e para sul, chegando ao Mar Egeu. É com uma Europa a Doze que entra em vigor o Acto Único, mas a assinatura do Tratado de Maastricht, em 1991, criou uma nova dinâmica europeia, com objectivos ambiciosos. Áustria, Suécia e Finlândia são seduzidos por esta nova dinâmica e aderem à União Europeia em 1995, elevando para 15 o número de Estados Membros. Estava alcançada a Europa dos 300 milhões de consumidores, preconizada por Jacques Delors.
O maior alargamento da história da União Europeia viria, no entanto, a registar-se em pleno século XXI. No dia 1 de Maio de 2004, 10 novos países passam a integrar a União Europeia ( Chipre, República Checa, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Malta, Polónia, Eslováquia e Eslovénia). Três anos mais tarde ( 1 de Janeiro de 2007) é a vez de entrarem a Bulgária e a Roménia, estendendo a União Europeia as suas fronteiras até ao Mar Negro e ao Báltico e passando a contar com uma população próxima dos 500 milhões de habitantes.
O processo de adesão destes 12 países foi, porventura, o mais moroso. Iniciou-se praticamente após a queda do muro de Berlim, em 1989, mas só com o lançamento do programa de assistência financeira PHARE, cujo objectivo era contribuir para a reconstrução das economias dos países do Leste europeu e incentivar as reformas políticas, se registaram avanços significativos.
O processo de integração destes países mereceu cuidados específicos por parte da União Europeia, que definiu três critérios que os candidatos deveriam cumprir antes da adesão. Por um lado, a obrigatoriedade de possuírem instituições estáveis capazes de garantir a democracia, por outro, critérios económicos ( obrigatoriedade de terem uma economia viável, capaz de enfrentar a pressão concorrencial no interior da união europeia). Finalmente, os candidatos foram obrigados a transpôr para o seu direito interno a totalidade do acervo comunitário ( aproximadamente 26 mil textos legislativos)
No momento em que as negociações com a Turquia se mantêm num impasse coloca-se uma questão: até onde podem ir as fronteiras da União Europeia? Deverão restringir-se ao continente europeu, ou poderão estender-se aos países da margem sul do Mediterrâneo? A resposta a estas questões poderá abrir um novo debate sobre o significado da expressão “cidadão europeu” e reequacionar o papel da União Europeia no mundo.

Adenda: A partir de segunda-feira, 31, regressa a edição normal do RM. Em foco,os anos 60

Rochedo das Memórias Especial- A Construção Europeia(5)


Em Dezembro de 1991, os “Doze” assinaram em Maastricht o Tratado da União Europeia (TUE), que refundou a Europa e passou a constituir uma pedra angular no processo de integração europeia, ao definir objectivos que ultrapassam a vertente económica e lançar as bases para a unidade política. A CEE é rebaptizada com o nome de Comunidade Europeia ( CE) e é criada a União Europeia (UE).
O TUE traça objectivos ambiciosos, como o reforço da coesão económica e social, a implantação de uma Política Externa de Segurança Comum (PESC), o reforço da cooperação intergovernamental entre os estados-membros, a cidadania europeia e a criação da União Económica e Monetária (UEM). Ficará para a História como o primeiro passo na caminhada para o Euro.
O processo durou 10 anos e exigiu o cumprimento dos critérios de convergência: défice orçamental inferior a 3%, estabilidade dos preços, das taxas de juro e de câmbio e controlo do déficit da dívida pública , que não pode ultrapassar os 60%.
A moeda europeia nasce em 1999, passando a ser comum a 11 dos 15 Estados, mas apenas para efeitos de operações cambiais. A entrada em circulação de notas e moedas só ocorreria em Janeiro de 2002, culminando assim um processo de convergência entre as economias europeias, considerado como fundamental para o funcionamento sem distorções do mercado interno.
Com maiores ou menores dificuldades, pode dizer-se que a União Europeia tem conseguido cumprir as metas a que se tem proposto. O falhanço da Constituição Europeia ( que a assinatura do Tratado de Lisboa terá permitido colmatar - falta saber como decorre o processo de ratificação...) foi um contratempo face às questões que se colocam a uma Europa alargada, que enfrenta os desafios da globalização e da revolução tecnológica.
Se tudo tivesse corrido normalmente, a Constituição Europeia teria sido ratificada em 2006, mas nos referendos realizados em França e na Holanda, os cidadãos responderam negativamente à ratificação, o que desde logo bloqueou todo o processo. De qualquer modo, como salienta Pascal Fontaine,este meio século de integração europeia marcou profundamente a história da Europa e a mentalidade dos europeus”.
A União Europeia tem desempenhado um papel fulcral no que concerne à salvaguarda do futuro do Planeta. O exemplo mais significativo talvez seja o compromisso exemplar com as metas do Protocolo de Quioto e a aposta no desenvolvimento sustentável. O incremento das energias renováveis, a redução de emissões de CO 2, ou a preservação das espécies ameaçadas, são apenas alguns dos exemplos mais significativos que se podem apontar para realçar os aspectos positivos de uma Europa que, falando a uma só voz, pode contribuir para a sustentabilidade do Planeta, numa altura de previsões preocupantes sobre as alterações climáticas.