Os agricultores argentinos estão há 15 dias em conflito com o governo, por causa do aumento de 10% da carga fiscal sobre as exportações e ameaçam desencadear a mais grave crise na pátria azul celeste, desde o “Corralito”, em Dezembro de 2001.Cortes de estradas impedem o abastecimento de carne, leite e produtos hortícolas a Buenos Aires, pondo os porteños em polvorosa.
Só quem não conhece a Argentina pode imaginar o que representa para um argentino estar mais de 24 horas impedido de comer asado de tira ou bife de chorizo!
Estava em Buenos Aires quando rebentou o “Corralito” e, pela primeira vez na vida, senti medo na Argentina. Para além do que se passava nas ruas, com assaltos a bancos e supermercados, incêndios de edifícios, “cacerolazos” e confrontos nas ruas, a instabilidade política ameaçava seriamente o país, mergulhado numa crise financeira sem precedentes, provocada pela ruinosa administração de Menem e do seu ministro das Finanças Caballo - que uma amiga rotulava de “Cabaco argentino”.
Durante algumas semanas os governos sucederam-se a uma velocidade vertiginosa, tendo-se dado o caso caricato de um deles ter tomado posse de manhã e ser substituído à tarde.
Nestor Kirchner veio repôr a normalidade. Melhorou significativamente a situação económica do país, mandou o FMI às malvas e devolveu à classe média boa parte do poder de compra que perdera com o “Corralito”.
Tudo indicava que a Argentina prosseguiria sem sobressaltos a recuperação económica, agora sob a batuta de Cristina Kirchner. Puro engano. Cem dias bastaram para que a “lua de mel” entre os argentinos e a família Kirchner terminasse.
De acordo com os relatos do La Nación e do Clarim, a situação ameaça deteriorar-se em várias províncias ( de Santiago del Estero a Salta, passando por Córdoba e Santa Fé), aguardando-se com expectativa a solução do governo para pôr fim ao bloqueio das estradas, encetado pelos agricultores.
Desde terça-feira, a situação tem vindo também a agudizar-se em Buenos Aires, com confrontos entre patrões agrícolas e simpatizantes do Governo. O “cacerolazo” voltou às ruas de Buenos Aires e, de acordo com amigos porteños, nas noites de terça e quarta-feira lutava-se “corpo a corpo” pela ocupação da emblemática Plaza de Mayo.
Esta manhã a situação estava mais calma, depois de Cristina Kirchner ter prometido dialogar com os patrões agrícolas, quando eles terminarem com o bloqueio das estradas.
Aguardo, ansioso, o evoluir da situação. Quero chegar à Plaza de Mayo , dentro de dias, poder dialogar com as "abuelas" e depois "mergulhar" mais uma vez na Patagónia com a tranquilidade habitual.

