segunda-feira, 24 de março de 2008

Carolina Michaelis- O lado B

Não passei ao lado das ocorrências do Liceu Carolina Michaelis. Vi o video na televisão, li notícias nos jornais e nos blogues, fiz alguns comentários no Arrastão e no Portugal dos Pequeninos, mas não me apeteceu na altura blogar sobre o assunto e penso que agora já pouco teria a acrescentar a tudo quanto se escreveu e falou sobre o assunto ( ainda há minutos vi o António Vitorino a opinar, desde o Maputo). Infelizmente, penso que em breve terei oportunidade de escrever o que penso sobre estes casos de indisciplina- a menos que se tornem tão vulgares que deixem de ser notícia!


Conheço razoavelmente bem o meio escolar nas suas diversas vertentes. Já me impressionei ao ver alunos puxar de facas para professores e colegas, já me revoltei com atitudes de desrespeito de pais em relação a professores, já vi mães ameaçarem, insultarem e agredirem professoras diante dos seus filhos.


Estou, pois, vacinado em relação a qualquer situação de desrespeito e desautorização dos professores. Não me espantei com o que se passou, porque não é caso virgem. Direi mesmo que é bastante mais frequente do que muitos possam imaginar...


O que importa salientar é que o caso apenas assumiu este mediatismo, porque um aluno filmou tudo e depois resolveu colocar no You Tube, provavelmente à espera de vir a tornar-se "vedeta". A imprensa, a rádio e a televisão sabem, tão bem como eu, que esta cena não é pioneira, mas nunca tinham tido a possibilidade de fazer imagens reais que testemunhassem a violência que grassa nas escolas. ( O caso do video feito há tempos pela RTP foi desvalorizado por se tratar de uma escola problemática-eufemismo para escola frequentada por crianças pretas de bairros da periferia- como se as escolas não fossem quase todas problemáticas!)


No meio de tanta agitação mediática, lembrei-me de uma reportagem que li há dias sobre miúdas estudantes, ente os 15 e os 18 anos ,que se prostituem para arranjar dinheiro que lhes permita ter acesso a coisas tão importantes para as suas vidas, como " carregar o telemóvel", " comprar umas roupas", ou "ir a uma discoteca".


Confesso que essa reportagem me abalou bastante mais do que a cena do Carolina Michaelis. Será por já ser indiferente à volência nas escolas? Obviamente que não. Senti-me incomodado, porque não consigo entender que tipo de relação manterá consigo, com o seu corpo e com a sociedade, uma criança que descontraidamente assume prostituir-se para satisfazer "necessidades" que a sociedade do hiperconsumo lhe criou.


Mas- interrogo-me- terei ficado incomodado pelas crianças que se prostituem, ou pelo facto de viver numa sociedade que é responsável por estes comportamentos e onde há adultos que se aproveitam da debilidade dessas jovens?

Remeto ainda os leitores para o que escrevi aqui , para recordar casos tão sinistros como este que se passam em Lisboa, em pena rua!


Regresso a casa

Regressei a casa há poucas horas, depois de quatro dias no Porto.
Estive na casa que me viu crescer.Falei com o papagaio Rodolfo, dei de comer à desdentada Xarabaneca (uma gata sui generis cuja história desvendarei aqui um dia), fiquei horas na companhia dos peixes tropicais que persistem em dar vida a uma sala que abandonei há décadas, fui colocar uma flor na campa do Tarig ( um pastor alemão fiel companheiro de juventude) vi as estrelícias desabrochar no meu jardim e as roseiras anunciando a Primavera junto à janela do meu quarto. Fui ao Majestic, ao Club 21, ao hotel da Foz e a alguns lugares de culto da minha juventude. ( Sobre isso falarei em próximo posts)
Durante quatro dias "desbloguei", não li a imprensa estrangeira que habitualmente me acompanha ao fim de semana, quase não vi telejornais, dei apenas uma vista de olhos pelo JN, quase me esqueci que havia vida para além da cidade.
Afinal, é possível desligarmo-nos do que se passa à nossa volta, sem nos afastarmos muito de Lisboa. É mais uma questão de atitude, do que de distância.
Regresso a casa com a mesma sensação de sempre. Acho o Porto uma cidade de fantástica beleza, que me traz recordações da infância e dos primeiros anos da juventude, mas nunca sinto saudades quando parto. Pelo contrário, sinto algum alívio quando atravesso a ponte do Freixo em direcção a Lisboa.
Apesar de ir ao Porto todos os meses, só desta vez consegui perceber a relação fria que mantenho com a cidade que quase me viu nascer. Amanhã ficarão a saber porquê

Um grande momento de televisão

Só ontem pude ver a entrevista de Simone de Oliveira a Judite de Sousa. Foi um grande momento de televisão.
Mulher de fibra, frontal e sem papas na língua, a intérprete da "Desfolhada" não está com "rodriguinhos". Diz o que lhe vai na alma e o que pensa, sem se preocupar com o "politicamente correcto".
Quando enviou a "florzinha" à antiga presidente do Movimento Nacional Feminino ( Supico Pinto) que hoje alguns querem reabilitar, passando uma esponja sobre o seu passado conspurcado pela ligação ao Estado Novo, Simone também lhe enviou uma pequena "farpa" onde se podia ler: "estás perdoada, mas continuo a ver-te como o verme que sempre foste".
Simone foi assim toda a vida, por isso não será razão para espanto que continue a sê-lo aos 70 anos.
Simone é um bom exemplo para os jovens que hoje em dia se resguardam nos conselhos dos "agentes", abdicando de se mostrarem tal como são nas entrevistas que os catapultam para alguns momentos de fama, mas é também um exemplo para todos os portugueses que se acobardam.
Simone foi sempre uma mulher independente e ao longo da vida pagou por isso. Se não tivesse sido assim, talvez os portugueses já a tivessem esquecido.
Obrigado, Simone!