Hoje, só te quero dizer que tenho saudades das nossas passeatas, das férias em praias outrora desconhecidas, da maneira como me deslumbravas quando me explicavas o que devia guardar de cada lugar por onde passávamos, das conversas à mesa sobre História e Geografia, do teu ar zangado quando não estava sentado à mesa às oito em ponto, da dor que sentiste quando decidi partir.
Na altura, lembrei-te que também o avô deixara o seu país para vir para a Europa e que anos mais tarde foras tu a atravessar o Atlântico, em sentido inverso, em busca da terra do teu pai. Tentei convencer–te que estava na genética da nossa família renegar o solo onde nasceu e que, além disso, Portugal era demasiado pequeno e mesquinho para mim.
Respondeste que não haveria revolução nenhuma que mudasse as coisas em Portugal, porque o problema não estava nos governantes, mas sim nos governados.
Hoje, vejo que tinhas razão.
Talvez te alegre saber que, apesar de ter regressado, continuo a olhar para Portugal como um país mesquinho, onde campeia a inveja, o espírito de capelinha, a pequena intriga, a maledicência e o boato pérfido. “Isto” é um país de anões com a arrogância de Adamastores!
Regressei cedo demais, mas agora talvez seja tarde para voltar a partir. Partiste cedo demais e deixáste-me muita coisa para descobrir.
Ah... só mais uma coisa. Quando daqui a uns dias voltar a Buenos Aires, vou ao Tortoni. Ouvirei contigo “La Cumparsita" e pedirei à orquestra que toque o tango que me cantavas quando estava apaixonado:
“Dejate de locuras, muchacho,
pensá bien lo que haces.
Me han dicho que te han visto borracho
Llorando por una mujer...
Como el dolor te ha cambiado,
que ya no sos el de ayer!
Volvé pa' la milonga,
que un fuelle rezonga
como llamándote.
Al compás de un tango
la habrás de olvidar,
con una pebeta
que sepa bailar,
una piba buena
que, al mirar tus ojos,
comprenda la pena
de tu corazón.
Al compás de un tango
habrás de encontrara
esa mujercita
sincera y leal,
y veras, un día,
lleno de alegría
a la que lloraste
ni recordarás.
Dejate de locuras, muchacho,
tenés que reaccionar.
El hombre debe ser de quebracho
pa' resistir el mal.
Si esa mujer te ha hecho daño
perderla ha sido mejor.
Volvé pa' la milonga,
que un fuelle rezonga,
pa' darte más valor.
Al compás de un tango
la habrás de olvidar,
con una pebeta
que sepa bailar,
una piba buena
que, al mirar tus ojos,
comprenda la pena
de tu corazón.
Al compás de un tango
habrás de encontrara esa mujercitas
incera y leal,
y veras, un día,
lleno de alegría
a la que lloraste
ni recordarás.”
Letra:Oscar Rubens
