Considero que um boicote aos Jogos Olímpicos de Pequim, na sequência dos incidentes ocorridos no Tibete, seria uma estupidez. Tive a mesma opinião em relação aos boicotes dos Jogos de Moscovo e de Los Angeles, porque penso que misturar questões políticas com eventos desportivos é pura cretinice.A reacção célere dos EUA e da UE - recusa pronta de qualquer hipótese de boicote- não passa, porém, de hipocrisia pura.
É verdade que, como escrevi aqui, não estavam reunidas as condições para o Ocidente apelar ao boicote, depois dos salamaleques em que se tem desdobrado, perante a China.
A recusa em ponderar o boicote radica, porém, noutras questões.
Enquanto os boicotes dos Jogos de Moscovo e Los Angeles se inseriram num quadro de manifestação de força de ambos os blocos, no caso vertente não está em causa a força nem a manifestação de poder de um país sobre uma região. A China não tem ( pelo menos por agora) quaisquer interesses expansionistas- pretende apenas reafirmar ao Mundo a sua liderança no Tibete- nem está preocupada em impôr a sua ideologia para além das suas fronteiras.
A questão chinesa é muito mais comezinha. Radica no crescimento económico e no controlo de mercados, preocupação que igualmente subjaz aos interesses do Ocidente que encontraram na China dois "tesouros" de valor acrescentado: mão de obra barata e um mercado irrecusável quer pela sua dimensão, quer pelo tipo de produtos e equipamentos de que necessita.
Neglegenciar o mercado chinês, numa altura em que está em recessão económica é um "luxo" a que o Ocidente não se pode dar. E os Estados Unidos, cuja dívida pública foi comprada pelos chineses, muito menos!
Há 20 anos atrás, aquando dos incidentes de Tian An Men, o Ocidente estava numa posição de superioridade em relação à China e ainda ensaiou alguns protestos e fez tímidas ameaças a Pequim, que fez "ouvidos de mercador".
Rapidamente todos perceberam que a China era um mercado cheio de potencialidades que não se podia enjeitar e logo recuaram nos seus propósitos.
Hoje, um boicote ao Jogos Olímpicos significaria o suicídio do Ocidente. Não só por questões económicas, mas também porque a esmagadora maioria dos produtos que fazem as delícias dos consumidores ocidentais tem componentes chinesas.
Já imaginaram o que significaria, para o estilo de vida ocidental, uma retaliação chinesa a um eventual boicote aos Jogos Olímpicos?
