É sem surpresa que assisto ao desenrolar dos acontecimentos no Tibete. Em ano de Jogos Olímpicos em Pequim e com a carta de alforria de Bush – que retirou a China da lista negra dos países violadores dos direitos humanos- era de esperar que Hu Jintao não perdesse tempo a demonstrar ao mundo que Bush se tinha precipitado.Ao contrário do que o ainda presidente americano pensa, o crescimento económico da China não é sinónimo de maior respeito pelos direitos humanos. Quem visitou o país recentemente, pôde aperceber-se que as desigualdades aumentaram nos últimos anos e que no seio de uma China que se abriu para o exterior, pela via comercial, persistem violações gritantes. No âmbito político, da liberdade de imprensa, ou dos delitos de opinião.
O facto de Hu Jintao ter escolhido o Tibete para relembrar que a China mantém o seu desígnio de incluir a terra do Dalai Lama e mesmo Taiwan, na Grande China, também não surpreende. Na verdade, os piores conflitos no Tibete, desde 1950, ocorreram precisamente quando Jintao era Governador delegado no Tibete, em 1989.
Como aconteceu em relação aos incidentes de Tian An Men, as autoridades chinesas ignorarão as manifestações e os pedidos de “clemência com o Tibete” oriundos do Ocidente. Tão pouco darão grande importância às ameaças de boicote aos Jogos Olímpicos, porque sabem que não terão grande expressão.
Os EUA ficaram reféns de uma proclamação precipitada e agora têm reduzido espaço de manobra para convencer os seus aliados a boicotarem os Jogos Olímpicos com base numa violação de direitos humanos , que afiançaram há poucos dias estarem a ser respeitados. A oposição ao boicote, formulada pelo presidente do COI permite, por sua vez, que o Governo chinês encare qualquer ameaça nesse sentido, com algum desdém.
Dentro de poucas semanas a vida voltará à normalidade em Lhasa, com as autoridades chinesas a reforçarem a sua posição no Tibete. O mundo inteiro voltará a consumir , indiferente, produtos “made in China”. Respaldado nas incoerências do Ocidente, Hu Jintao continuará a levar a água ao seu moinho. Com a paciência de chinês que o mundo continua a menosprezar.
Será por ignorância que a UE se remete ao silêncio, ou terá o passado maoista de Durão Barroso sopesado na manutenção de um silêncio aquiescente?


