Ainda a quente, uma breve análise aos resultados eleitorais em Espanha e França.
Em Espanha, o PSOE não só venceu as eleições, como aumentou o número de deputados. A primeira conclusão a tirar é que apesar da elevada taxa de desemprego e de uma inflacção record na UE (4%), Zapatero viu a sua política referendada por um número expressivo de espanhóis. À atenção de Sócrates: Zapatero é o líder socialista europeu que governou mais à esquerda nos últimos anos e colheu dividendos disso.
Quanto a Rajoy, embora o PP tenha também aumentado o número de deputados ( os dois partidos beneficiaram de uma clara bipolarização do eleitorado espanhol) a sua euforia com o grande resultado hoje obtido nas urnas, faz-me lembrar as celebrações recorrentes na Segunda Circular, cujos líderes se regozujam quando empatam ou perdem por poucos.
Em França, Sarkozy sofreu o primeiro revés desde a sua eleição, ao ver-se ultrapassado pela esquerda socialista e pelos verdes que somaram 47,5% dos votos, contra os cerca de 40% obtidos pela direita.
Ainda é cedo, porém, para tirar conclusões em relação aos resultados das municipais francesas, já que só a segunda volta irá clarificar como se posicionou a esquerda nste escrutínio.
domingo, 9 de março de 2008
Cenários de café
Hoje é dia do teu anversário. Fui àquele cafezinho de S.João do Estoril onde passámos tantas horas falando de Borges, das ruas de Palermo que calcorreámos juntos, daquela bodega de La Boca onde "turista não entra", ou das novidades que sempre encontrávamos na Corrientes.
Há anos que lá não entrava. Encontrei-o irreconhecível. Perdeu o ar de café de bairro de província. Aburguesou-se. Tornou-se igual a tantos outros, cheio de madeiras cheirando a plástico, balcões assépticos, onde estacionam doces e salgados numa orgia gastronómica série B.
Na esplanada, já não corre o vento que punha em alvoroço os teus cabelos longos e atiçava as minhas alergias primaveris, porque uns tabiques envidraçados protegem agora aquela esquina.
Também já não há jovens. Apenas algumas velhotas bebericando chá e lamentando a carestia da vida, quarentões adiando a hora de regresso a casa a pretexto de coisa nehuma, um casal trintão fazendo contas à vida, uma mulher solitária de idade indefinida e olhar vazio olhando para o relógio a cada dois minutos ( desesperando por um encontro adiado?), um bêbado emborcando cervejas pelo gargalo da garrafa e eu, que ali fui não sei porquê, nem para quê.
Os jornais estão em cima da mesa, porque não tenho vontade de os ler. Veio-me à memória uma tarde em Península Valdez ( bem mais ventosa do que a de hoje aqui) onde não apreciávamos a cor do mar, nem esperávamos avistar uma baleia, porque só tínhamos olhos e palavras para os corpos lançados de helicópteros, que os tarados ditadores do teu país mandavam lançar ao mar, como punição por não se conformarem com o regime brutal que vos oprimia.
Lá dentro, saem acórdãos do Hino Nacional. Levanto-me e vou ver. Naide Gomes está a receber a medalha de campeã mundial do salto em cumprimento. Olho à volta e só vejo olhares indiferentes. O único murmúrio de vitória vem de trás do balcão, de um empregado mestiço que compartilha o sucesso da atleta portuguesa. Sinto o corpo ser percorrido por um frémito de emoção, associo-me ao momento e peço um "Bushmills" para comemorar. Sozinho...porque tu lá não estás para celebrar com o teu sotaque porteño o sucesso de uma atleta portuguesa que sempre confundias com o de um qualquer atleta do teu país.
Volto para casa. Logo à noite, farei um brinde em tua memória. Lá no sítio onde estiveres, um anjo te irá dizer que não me esqueci que hoje é o dia do teu aniversário. E dar-te-á a notícia da vitória da Naide.
Vou passar a noite a olhar o céu, à espera que me venhas saudar na forma de uma estrela cadente e pedir desculpa por teres partido tão jovem, deixando um vazio imenso à minha volta.
Há anos que lá não entrava. Encontrei-o irreconhecível. Perdeu o ar de café de bairro de província. Aburguesou-se. Tornou-se igual a tantos outros, cheio de madeiras cheirando a plástico, balcões assépticos, onde estacionam doces e salgados numa orgia gastronómica série B.
Na esplanada, já não corre o vento que punha em alvoroço os teus cabelos longos e atiçava as minhas alergias primaveris, porque uns tabiques envidraçados protegem agora aquela esquina.
Também já não há jovens. Apenas algumas velhotas bebericando chá e lamentando a carestia da vida, quarentões adiando a hora de regresso a casa a pretexto de coisa nehuma, um casal trintão fazendo contas à vida, uma mulher solitária de idade indefinida e olhar vazio olhando para o relógio a cada dois minutos ( desesperando por um encontro adiado?), um bêbado emborcando cervejas pelo gargalo da garrafa e eu, que ali fui não sei porquê, nem para quê.
Os jornais estão em cima da mesa, porque não tenho vontade de os ler. Veio-me à memória uma tarde em Península Valdez ( bem mais ventosa do que a de hoje aqui) onde não apreciávamos a cor do mar, nem esperávamos avistar uma baleia, porque só tínhamos olhos e palavras para os corpos lançados de helicópteros, que os tarados ditadores do teu país mandavam lançar ao mar, como punição por não se conformarem com o regime brutal que vos oprimia.
Lá dentro, saem acórdãos do Hino Nacional. Levanto-me e vou ver. Naide Gomes está a receber a medalha de campeã mundial do salto em cumprimento. Olho à volta e só vejo olhares indiferentes. O único murmúrio de vitória vem de trás do balcão, de um empregado mestiço que compartilha o sucesso da atleta portuguesa. Sinto o corpo ser percorrido por um frémito de emoção, associo-me ao momento e peço um "Bushmills" para comemorar. Sozinho...porque tu lá não estás para celebrar com o teu sotaque porteño o sucesso de uma atleta portuguesa que sempre confundias com o de um qualquer atleta do teu país.
Volto para casa. Logo à noite, farei um brinde em tua memória. Lá no sítio onde estiveres, um anjo te irá dizer que não me esqueci que hoje é o dia do teu aniversário. E dar-te-á a notícia da vitória da Naide.
Vou passar a noite a olhar o céu, à espera que me venhas saudar na forma de uma estrela cadente e pedir desculpa por teres partido tão jovem, deixando um vazio imenso à minha volta.
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