sexta-feira, 7 de março de 2008

A rosa que vos dou

Como amanhã não devo ter tempo de vir ao Rochedo, deixo estas flores a todas as mulheres portuguesas que escrevem na blogoesfera. Porque trazem mais sensibilidade, nuns casos, ou uma visão diferente sobre um mundo que ainda é dos homens (o da política), manifesto a todas o meu apreço e gratidão.
Sem querer ser injusto para ninguém, estas rosas destinam-se às SETE ( sim, continuo a acreditar que este é um número mágico!) "administradoras blogueiras" que me têm proporcionado belos momentos de leitura. Poderia escolher aquelas que habitualmente constam das listas "tradicionais", mas optei por privilegiar blogs recentes ( quase todos nascidos em 2008) quase todos desconhecidos da maioria dos que andam cá há muito tempo ( Não é o meu caso, que ainda não tenho seis meses de Crónicas)
Por ordem alfabética, aqui vão:
A Gata - A Gata Christie
Ângela- Com a luz acesa
Cerejinha- Cerejas Maduras ( é de 2005, mas além da qualidade, tem uma vasta lista de blogs no feminino que recomendo)
Juliette- Love is a fast song
Patrícia Fonseca- Blogkiosk
Patrícia Reis- 2008 Patrícia Reis
Sónia Morais Santos- Cócó na fralda
Os links estão na coluna direita das "Crónicas do Rochedo", porque estou com pressa!


Para as jovens portuguesas (2)

As mulheres que conseguiam ingressar nas Universidades, nomeadamente em áreas onde a presença masculina era preponderante, também não tinham vida fácil. Nos anos 60, Marcelo Caetano, então professor da Faculdade de Direito de Lisboa exortava, durante os exames, as jovens estudantes a irem para casa aprender a cozinhar, bordar e pontear as meias dos futuros maridos!
Às mulheres, estava vedado o acesso a uma conta bancária ou ao passaporte, se para tal não obtivessem a necessária autorização do marido.

No mundo do trabalho, as enfermeiras, por exemplo,não podiam casar e uma professora era criticada se ousasse vestir de forma menos convencional. Bastava o uso de um vestido de seda, para que logo vozes se levantassem pondo em causa a sua conduta moral. Significativo, também, era o caso de as professoras só poderem casar com autorização do Ministro, sendo o candidato a cônjuge obrigado a demonstrar "bom comportamnto moral e civil e meios de subsistência consentâneos com o vencimento de uma professora.".

Salazar, aliás, não hesitava afirmar que "o recurso à mão de obra feminina representa um crime" e que quando a mulher casada concorre com um homem por um posto de trabalho, "a instituição da família ameaça ruína".

Esta forma de pensar explica porque razão as mulheres não podiam montar um negócio sem autorização do marido, ou o Código Civil proibia a mulher de exercer uma profissão sem a anuência do cônjuge, situação que apenas se alteraria na segunda metade da década de 70, com a abolição da figura do “chefe de família”. E explica também, porque razão as criadas de servir constituíam, nos anos 40, um exército de 200000 postos de trabalho (sem direito a quaisquer regalias e podendo ser despedidas a qualquer momento, bastando que os patrões assim o entendessem).

nota: excerto do artigo "Mulheres à portuguesa" que escrevi para a revista Formar

Para as jovens mulheres portuguesas(1)

( Porque vale a pena lembrar, às mais jovens, que as mulheres portuguesas eram propriedade dos "machos" antes do 25 de Abril)
Há poucos anos, em Portugal, raras eram as mulheres na redacção de um jornal, os homens recusavam-se a ser consultados por mulheres médicas e consideravam-se previamente condenados, quando uma advogada aparecia em tribunal como defensora oficiosa.
Como aconteceu em quase todo o mundo, também em Portugal à mulher esitveram reservados, durante anos, os postos de trabalho que os homens recusavam. Nos anos 40, as suas profissões variavam entre o serviço doméstico, o trabalho rural, a enfermagem, o professorado (a esmagadora maioria no ensino primário) e o operariado, especialmente a indústria têxtil.
Vinte anos depois, o panorama não apresentava tão grandes diferenças, a não ser quanto ao escalão etário, já que crianças de 13 e 14 anos engrossaram o exército das empregadas domésticas, cuja contratação , porém, continuava a depender de "rigorosas informações".
Passavam-se situações bizarras antes do 25 de Abril, que punham em causa os direitos das mulheres. Apontemos alguns casos à guisa de exmplo.
No início dos anos 60, na secção "Questões de etiqueta" da revista “Flama”, uma leitora perguntava se uma mulher podia usar cartões de visita individuais. Como resposta, recebeu a seguinte pérola: "Não, a mulher casada tem de usar os cartões em conjunto com o marido". No entanto, os responsáveis da rubrica abriam uma excepção para o caso das mulheres solteiras ou órfãs "que vivam em casa própria". Essas, poderiam ter direito a usar cartão de visita, mas com duas importantes salvaguardas: NUNCA deveriam ter a morada, e as suas dimensões deveriam ser menores do que as dos cartões habitualmente utilizadas pelos homens.

nota: excerto do artigo " É uma mulher portuguesa, concerteza, que escrevi para a revista "Consumidores"

Sugestão para mulheres muito especiais

Porque as mulheres do Darfur merecem a nossa atenção, espero encontrar algumas portuguesas amanhã, dia 8, na Biblioteca Operária Oeirense.

Rochedo das Memórias - Especial Dia Internacional da Mulher (3)

Pode afirmar-se que há ainda um longo caminho a percorrer, para que essa igualdade se torne efectiva. Para além de, diariamente, ter de travar lutas desiguais com o homem para alcançar lugares de topo nas empresas, a mulher continua a desempenhar, em casa, um papel muito mais preponderante que o homem, seja na lida doméstica, seja nos cuidados a prestar aos filhos. Curioso, a este propósito, é um estudo recentemente divulgado que conclui que as mulheres que trabalham no mesmo local do marido ocupam, em média, mais uma hora diária nas tarefas domésticas, do que as que têm emprego em local diferente do do cônjuge.
Por outro lado, se a emancipação da mulher é uma realidade nos países desenvolvidos, o mesmo não acontece na maioria dos países em desenvolvimento.
As taxas de analfabetismo entre as mulheres, nesses países, agravam a situação de subalternidade em que vivem em relação ao homem e dificultam a sua consciencialização. Muitas são também as que, ansiando melhores condições de vida, respondem entusiasmadas a ofertas de trabalho bem remunerado vindas de angariadores do mundo desenvolvido. Invariavelmente, o que as espera, quando chegam a esse El Dorado ocidental, é a escravatura sexual. Países asiáticos e latino-americanos são os preferenciais mercados de prospecção das cadeias internacionais de prostituição, mas os países do leste europeu tornaram-se também, nos anos 90, um mercado apetecível para estes angariadores de escravatura sexual.
Seja como for, em alguns países do terceiro mundo a situação das mulheres tende a melhorar. É o caso das Filipinas onde o movimento GABRIELA vem lançando sucessivas campanhas para defesa dos direitos das mulheres. Apesar de alguns reveses, como aconteceu com a ocupação por grupos de mulheres, de terras desocupadas há mais de 20 anos, que acabaram por ser devolvidas aos seus proprietários, graças à intervenção de militares, espera-se que o exemplo das 50 mil mulheres que integram o GABRIELA possa servir de estímulo a muitas outras que emigraram para países em desenvolvimento. É que muitas filipinas que emigram para esses países onde exercem, nomeadamente, tarefas domésticas, são jovens licenciadas que já têm alguma consciencialização que lhes permite comunicar a mulheres de outros países a sua situação.
Nota: extracto do artigo "Feminino, Plural", que escrevi para a revista DIRIGIR

Rochedo das Memórias- Especial Dia Internacional da Mulher (2)

É depois da Segunda Guerra Mundial que as mulheres conseguem colher os melhores frutos da sua longa luta. O conflito contribuiu de forma significativa para que isso acontecesse, pois enquanto durou as mulheres começaram a trabalhar na indústria e na agricultura, ocupando postos de trabalho deixados vagos pelos homens.
A década de 50, porém, não foi pródiga em muitos avanços na luta das mulheres. É já na década de 60 (1963) que a escritora americana Betty Friedan publica o livro " A mística feminina", no qual faz uma análise devastadora da subordinação da mulher na sociedade americana. Três anos mais tarde, funda a NOW - Organização Americana para a Defesa dos Direitos da Mulher - e a partir de então a luta pela libertação ganha novo fôlego e novos contornos. Da luta pelos direitos políticos, passa à luta por igualdade de oportunidades no acesso à educação e ao mercado de trabalho, tendo o primeiro passo sido dado com a entrada nas Universidades.
Em 1968, decorria em Atlantic City a eleição de Miss América, quando um grupo de mulheres activistas se manifestou lançando para os caixotes do lixo os seus "soutiens". Na época, os meios de comunicação eram apenas dirigidos por homens, por isso, a comunicação social aproveitou este acontecimento para denegrir os movimentos feministas, reduzindo-os a uma luta contra a opressão que aquela peça de vestuário exercia sobre os seios.
Os homens exultaram de contentamento com esta "gaffe", mas o movimento de libertação da mulher não estancou a sua luta e em 1970 Germaine Greene publica um livro explosivo. Em "O Eunuco Feminino", a investigadora defende que o casamento é uma forma legalizada de escravatura das mulheres e alerta para a necessidade de se dar início a uma "segunda vaga" do feminismo. Segundo Germaine Green, a luta das mulheres pela igualdade de oportunidades, na educação e no emprego, tinha que evoluir através de um combate que garantisse igualmente a igualdade sexual e económica.
Recebido sobre um coro de protestos e gerando grande polémica, o livro teve o condão de agitar as hostes femininas. No ano seguinte, durante as celebrações do Dia Internacional da Mulher, em Londres, algumas mulheres empunhavam cruzes onde se viam pregados os símbolos da escravidão doméstica: o cesto das compras e o avental. Durante a manifestação, fizeram chegar ao primeiro Ministro uma carta em que exigiam igualdade em matéria educativa, laboral e salarial.
Ainda hoje, a "manifestação" de Atlantic City é associada por muitos à celebração do Dia Internacional da Mulher , mas a verdade é que foram os trágicos acontecimentos ocorridos um século antes em Nova Iorque que determinaram a celebração desta data.

Nota: excerto do artigo "Feminino, Plural", que publiquei na revista "DIRIGIR"

Rochedo das Memórias- Especial Dia Internacional da Mulher (1)

No dia 8 de Março de 1857, três dezenas de mulheres americanas desencadearam, em Nova Iorque, uma greve de braços caídos, reivindicando o direito à redução para 10 horas da sua jornada de trabalho. Ameaçadas pela polícia, refugiaram-se dentro da Fábrica de tecidos Cotton ,onde trabalhavam.
Acabariam por morrer carbonizadas, depois de patrões e polícia terem trancado as portas e ateado fogo no interior do edifício. A data, hoje comemorada em todo o mundo como Dia Internacional da Mulher, embora assinale um acontecimento esporádico na luta das mulheres pela defesa dos seus direitos, ao longo do século XIX, constitui um marco histórico no combate que continuam a travar, para estarem no mercado de trabalho em condições de igualdade com os homens.
Ainda em 1897, a Nova Zelândia é o primeiro país do mundo a conceder às mulheres o direito de voto, mas a luta pela igualdade de direitos e acesso ao mercado de trabalho, só se iniciará, na Europa,no alvorecer do século XX.
Da luta dos movimentos sufragistas ressalta o nome de Emmeline Pankhurst, uma britânica que, com o apoio da filha Christabel, comandou a luta em Inglaterra, país onde esse direito veio a ser consagrado em 1911, oito anos antes de Lady Astor se tornar a primeira mulher a ser eleita para o Parlamento.
Curiosamente, Lady Astor, eleita nas listas do Partido Conservador, era de origm americana, país onde esse direito só vem a ser reconhecido em1920.
Nos anos 30, durante a Guerra Civil de Espanha, emerge a figura de Dolores Gomez, a destacada dirigente do partido comunista que o mundo ficou a conhecer como La Pasionaria. A sua frase "Mais vale morrer de pé do que viver de joelhos" ficou célebre, mas não evitou o seu exílio na URSS de onde regressou apenas em 1977 para tomar assento no Congresso. Tinha então 82 anos! Como única vitória para as mulheres espanholas, durante este período, o reconhecimento pelo governo espanhol, em 1962, da equiparação dos direitos laborais entre homens e mulheres. Essa igualdade, porém, não contemplava os direitos civis.
Nota: excerto do artigo "Feminino, Plural", que publiquei na Revista "Dirigir"

Às mulheres portuguesas

Hoje gostaria de escrever sobre muitas coisas. Desde a intervenção escabrosa do deputado popular Nuno Melo, ontem, na AR à investigação que o Ministério Público está a fazer a Helena Lopes da Costa, suspeita de favorecimento na atribuição de casas a funcionários da CML, haveria muitos temas para tratar.
Duas razões me levam a não o fazer. Por um lado, a política portuguesa está a cheirar tão mal, que vou tentar só abordar essa questão em circunstâncias excepcionais, voltando a concentrar-me nos objectivos que me levaram a criar este blogue. Por outro, sendo amanhã Dia Internacional da Mulher, dedicarei os meus post de hoje a esse assunto.