segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A verdadeira "silly season"


Detesto o mês de Dezembro. Dias curtos, frios e chuvosos significam, para mim, a antítese da felicidade. Diria mesmo, a antítese da Vida...
Depois há aquela euforia da época natalícia, quando rostos com sorrisos de plástico transportam sacos a abarrotar de prendas, num frenesim patético. E há as "Festas" que tantas vezes me fazem lembrar o palhaço que procura enganar a tristeza que lhe vai na alma, com uma piada que faça sorrir uma criança.
Faz por isso todo o sentido que, para mim, a “silly season” decorra entre 1 de Dezembro e 31 de Janeiro. Dezembro é um mês “sui generis”. As ruas aparecem iluminadas e assistimos à chegada dos Pais Natal, como aves de arribação anunciando a chegada do Inverno. Começa a azáfama das compras natalícias, com pessoas atarantadas nas lojas à procura da inutilidade mais barata ou do presente mais sofisticado. Corpos vergados ao peso de sacos, arfando como se a morte lhes estivesse a bater à porta, desaguam na noite do dia 24 em casa de familiares que – não raras vezes- são “obrigados a aturar” uma vez por ano, em nome da “Festa da Família”.
Esta pretensa “Festa” tem muito que se lhe diga... Começa com comida e bebida à fartazana, continua com a distribuição de presentes por alguém que acata vestir-se de Pai Natal - na ilusão de que está a enganar a “petizada”- e termina com os mais velhos a tomar “ Alka Seltzer” ou “Kompensan” para se “aliviarem” dos excessos.
Dezembro significa também horas a discutir o local ideal para passar o “reveillon”, doze passas às doze badaladas da meia -noite, listas imensas de intenções a realizar no ano seguinte, alegria tão falsa como um par de mamas de silicone, uma festa abrilhantada por uma banda que se reúne anualmente para tocar música brasileira do tempo da “Maria Cachucha”, grandes “bezanas” e ressacas no dia seguinte, acalmadas à custa de “Guronsan”. Mesmo para aqueles que se escapam a mais uma reunião familiar no primeiro dia do ano, Janeiro não deixa de ser patético. Cortes no orçamento para compensar os gastos do mês anterior, lamentos pelo aumento dos transportes, da luz, da água, do salário da empregada de limpeza , do seguro do carro, da prestação da casa, da bica e do rissol com que aconchegam o estômago num qualquer "come em pé" de ocasião e, finalmente, a ladainha lacrimosa pelo aumento do vencimento que foi mais reduzido do que esperávamos. Idas ao médico para vigiar o colesterol que subiu graças aos excessos gastronómicos, escapadelas até aos saldos para “compras de ocasião” e a promessa de que é esta semana que finalmente vamos deixar de comprar “O Expresso” .
No final do mês, constatamos que as promessas feitas entre dois golos de “champagne made in Mealhada” não foram mais uma vez cumpridas. A Odete não fez dieta e está cada vez mais gorda e parecida com um elefante de Jardim Zoológico, as idas ao ginásio ficaram mais uma vez adiadas por incompatibilidades financeiras, ou falta de vontade, e a promessa de que finalmente iríamos trocar o carro pelos transportes públicos ou uma caminhada a pé até ao local de trabalho, fica aprazada para quando a Primavera se fizer anunciar com os seus retemperadores raios de sol.
Confessem lá, caros leitores, haverá época mais estúpida e hipócrita do que esta?

Aviso: Com ligeiras alterações, este post foi editado ano passado, mas como nada mudou dentro de mim, não vi inconveniente em voltar a publicá-lo, uma vez que a maioria dos leitores que me visitam nunca o terão lido.

28 comentários:

  1. Compreendo perfeitamente o que quer dizer. Há um bom tempo que deixei de ligar ao Natal, por uma série de motivos particulares, mas continuo a gostar do que representa para mim: escolher presentes para as pessoas de quem gosto, por exemplo, apesar de o fazer independentemente da época do ano e não precisar de gastar muito dinheiro com isso, um presente não está necessariamente associado ao consumismo; estar com a minha família, mas isso também o faço durante o resto do ano, não é preciso chegar esta altura. Quanto ao resto, dispenso em absoluto e aborrece-me bastante.
    Aliás, este seu post está totalmente de acordo com o cartoon que eu publiquei hoje, as razões são exactamente as mesmas.
    Mas gosto das cores, da música, dos enfeites, das luzes... é uma pena que o espírito das pessoas não seja equivalente.
    Mas acredite que entre mortos e feridos ainda há uns tantos resistentes que insistem em preservar valores importantes e em tentar transmiti-los. Se resulta ou não é que já não sei dizer.

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  2. Caro Carlos
    Com efeito não tinnha lido este post e caso não o tivesse informado achá-lo-ia, como achei, do mais real e actual possível.
    Concordo com tudo o que escreve. Este ano, enfim, tive coragem de informar que ficaria em casa a passar o Natal e que não ia a casa de ninguém...
    Já tenho idade para desculpas ou mentiras. Quero ficar sozinha e ponto final.
    Bom domingo

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  3. Não consigo desiludir-me com o Natal. Pelo menos por agora. Tenho a sorte de ter a minha família cada vez mais unida e, embora não precise do Natal para o fazer, não consigo de deixar de achar que esta noite é mais especial para a reunir.
    Não ligamos a prendas, apenas apreciamos o calor ainda mais intenso que nos sai da alma, apenas porque sim, apenas porque é Natal.

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  4. Muito certo e muito triste.
    Demasiado triste, de tão verdadeiro.
    E depois, há a saudade de quando o Natal era simples e belíssimo e 'só' havia bacalhau cozido e rabanadas; umas filhoses e uns pinhões. E era uma riqueza! E faltava a luz e havia dois presentes.E éramos felizes. Nesse tempo, éramos felizes...

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  5. Eu tenho altos e baixos com o Natal; adorei o Natal quando era criança e voltei a gostar dele quando os meus filhos foram crianças ... aguardo desenvolvimentos.
    De qualquer maneira, a pedido dos filhos, hoje foi feita a árvore de natal cá em casa, mais o belo do presépio.

    De qualquer maneira estou de acordo consigo, como já deve ter percebido por posts meus. ;)

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  6. Subscrevo parcialmente, é que lá para certos 20s de Janeiro, certa malta loura passa por um dia muito silly, mas que de silly não tem nada:)

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  7. É um dos meus meses preferidos do ano, senão o preferido. Esse vazio de que fala pode ser real para si ou para outros que apregoam muita coisa nesta época do ano.
    Para mim não.
    Tenho uma família unida, amigos inseparáveis, verdadeiros e de quase uma vida e é deles que me rodeio.
    O bem que só se apregoa nesta época não cabe para mim nem para os meus.

    Tudo que refere, até pode ser verdade, mas não é só um fenómeno de Dezembro, é de todo o ano, só que se pensa e fala mais nele nesta época porque juntamente nos surgem referências de felicidade, amor ao próximo e de alegria.
    Falsidades para muitos, mas não para todos e daí eu estar em completo desacordo com esta generalização feita por si.

    Neste seu pessimismo não me revejo Carlos e a sua primeira frase até me arrepiou.
    O meu post começaria completamente ao contrário e provavelmente começará, logo se vê.

    De qualquer forma um feliz Natal para si, não quero acreditar que o seu Natal seja assim.

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  8. Posso assinar a tua crónica? É assim mesmo que penso, por isso, mal começam a acender as primeiras luzinhas hipócritas, arranco para umas férias num local quente e de preferência budista, ou hindu, ou muçulmano...
    Já só faltam 2 semanas para "bazar"

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  9. Respondendo à pergunta, não. na minha opinião não, conforme atesto lá a minha carta ao Pai Natal.

    E há uma coisa que não compreendo que escrevi ontem no sushimeeting (onde escrevo ao sábado): porque raio as pessoas não escolhem se querem celebrar o lado pagão da época (Pai Natal e árvore de Natal) ou o lado cristão (presépio e menino Jesus).
    Não me cabe na cabeça como podem estar ali alegremente a teorizar sobre a virgem Maria ( na minha opinião - que vale o que vale, ou seja, nada - um dos maiores embustes da história) e o anjo Gabriel enquanto apreciam as luzes da árvore de Natal.



    A única coida que não se passa por aqui é aquele comportamento típico de Janeiro. As nossas despesas ficam em cada mês, cá não se gasta hoje a contar como que (não) se tem amanhã. E ainda não andamos a stressar com o colestrol, talvez porque não vamos fazer as ditas análises ;)

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  10. Em relação ao natal sou a ambiguidade personalizada .
    Fico triste , juro que nunca mais entro nesta conversa ,não faço arvore , não compro nada , nem fatias douradas ou sonhos ...nada.....
    Já passei natais fora (é dificil fugir do natal , seja lá onde fôr) e depois ando mascarada de palhaço dentro dos quartos de meninos doentes dando pequeninos presentes e vejo os olhos doentes sorrirem como se tudo valesse a pena e fico cheia de remorsos por pensar mal da epoca.
    Tb faço coisas boas no resto do ano( sem me estar a gabar , faço mesmo...) portanto porque será que me custa tanto o natal?
    Se me explicar mando-lhe um presente :)

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  11. Fada: Não sou contra os presentes, nem contra o Natal. Apenas me insurjo contra a fúria consumista que todos vemos nesta época.
    Desde miúdo fui habituado a ver o Natal com outros olhos,´mas iso é uma onga história...

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  12. Si: Creio que a este respeito disse tudo no comentário à Fada, mas penso voltar ao assunto, para não ser mal interpretado

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  13. Margarida: Pois, era isso mesmo. E quando havia sempre lugar para pensar nos desfavorecidos que nunca tiveram Natal.

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  14. Gi:Pois é... e quando o Natal passa a estar associado a episódios tristes da nossa vida, é uma maçada

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  15. Gi:Pois é... e quando o Natal passa a estar associado a episódios tristes da nossa vida, é uma maçada

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  16. Patti: Num comentário que deixei hoje no Ares, penso já ter respondido às questões que coloca ( pelo menos em parte) Mas que fique bem claro que nada tenho contra o Natal ( antes pelo contrário) e desejo é que todos tenham umas Festas Felizes.

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  17. Justine: Eu também vou basar para bem longe daqui...

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  18. Carlos, acredito que muita gente tenha esta ideia do NAtal.
    Não é a minha, felizmente.
    Talvez porque na minha família o Natal seja uma festa essencialmente religiosa.
    Quanto ao consumismo desenfreado, o Natal não tem culpa.
    A culpa é das pessoas que não pensam, que estoiram os cartões todos de crédito que têm, bem sabendo que depois não têm como os pagar.
    O mesmo quanto aos alarves que se empanturram, como se só comessem nesse dia.
    Em qualquer caso, espero que o seu Natal decorra da forma que mais o faça feliz.
    Veludinhos azuis

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  19. O Natal é das e para as crianças e como em casa dos meus pais já há 4 crianças, o Natal tem o mesmo brilho de quando eu era criança.
    Por causa destes fds prolongado,tive de ir fazer um turismo "religioso" a váriods CC, e comparando com o ano passado, vi muita gente nos corredores,mas as lojas praticamente vazias e pouca gente, muito pouca gente carregada com sacos. A crise está aí!

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  20. Thunderlady: o seu comentário acerca do Natal dava para uma boa conversa, mas penso que o espírito de natal vai muito para além disso, não acha?

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  21. Anniehall: Eu não penso mal da época, antes pelo contrário... apenas não me revejo naquilo em que o Natal se transformou. Passo muitas vezes o Natal fora de Portugal ( este ano acontecerá o mesmo) mas esteja onde estiver, nunca deixo de sentir que aquela é uma noite diferente. Os Natais mais "perversos" que já passei foram em países asiáticos, porque como eles não percebem o espírito do Natal, tornam tudo muito ridículo. E já imaginou o que é estar nas Maldivas com 40º e ver um Pai Natal equipado a rigor a sair de um barco?
    Quanto à pergunta que faz, respondo-lhe com a minha experiência.
    Todas as semanas presto assistência aos sem abrigo durante uma noite. No entanto, quando acontece fazê-lo em véspera de Natal, constato que têm um brilho nos olhos diferente de todos os outros dias do ano. Isso arrepia-me e faz-me acreditar que o Natal encerra uma magia única( e disso eu gosto MUITO!!!) que não consigo explicar.
    Quando tinha uma família grande ( reuniamo-nos mais de 50 pessoas, vindas de várias partes do mundo...) o Natal era muito divertido, mas não tinha esta magia, porque só pensava nos presentes que ia receber.
    Hoje não recebo presentes e o meu maior prazer é ver a alegria de quem recebe um pouco de carinho que lhe falta o ano inteiro.
    Obrigado Anniehall e... tenha um Feliz Natal!

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  22. Bluevelvet: Creio ter explicado, na resposta ao comentário da Anniehall, a minha visão do Natal. Estou totalmente de acordo consigo quando diz que a culpa é das pessoas e era isso mesmo que queria dizer com o meu post. Lamento esta adulteração do espírito de Natal, mas felizmente conheço várias pessoas como a Blue, para quem o Natal é mais dar afectos, do que receber presentes.
    Aliás, o novo visual ( magnífico) da sua casinha é bem elucidativo.
    Beijinhos

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  23. Pedro: Concordo que o Natal é essencialmente para as crianças, mas também é um bom momento para pensarmos nos outros e tentarmos ser um bocadinho melhores. Pena é que não tenhamos o mesmo espírito ao longo do ano.

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  24. Meu Caro Carlos,
    também não gosto das alturas de alegria condicionada, contudo canalizo a desaprovação para o Ano Novo e para o Aniversário, já que Desta procuro salvar o Significdo Religioso. Mas que cda vez mais este é esquecido, ou mero pretexto para a gulodice de vária espécie,lá isso...
    Abraço

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  25. Paulo: Pois é meu caro amigo. Para a maioria das pessoas o que resta do Natal é mesmo isso.

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  26. O que seria de mim sem o mês de Dezembro? Certamente não teria nascido:)))

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