quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Small is beautiful?


Nadia Comannecci, a pequena ginasta que encantou o mundo, serviu de modelo a muitas outras jovens. Mais tarde veio-se a saber que aquela figura que serviu de propaganda ao governo da Roménia e do seu ditador Ceausescu, era sujeita a uma educação especial, a condições especiais de treino, estava impedida de crescer e vivia num regime autenticamente espartano, sem direito a brincar, a conviver com crianças normais.
Durante anos multiplicaram-se as Comanecci, que serviam de propaganda a governos e à glorificação de regimes. Outros desportos, como a natação, seguiram o exemplo vindo de Leste.Mais tarde o exemplo alastrou ao ténis, já não por iniciativa de governos mas sim de pais pouco escrupulosos que ganham dinheiro à custa de filhos-prodígios. Revistas de todo o mundo denunciaram as condições em que viviam algumas jovens tenistas desde os 4 ou 5 anos de idade, quando os pais decidiram explorar o "filão” e quiseram fazer delas campeãs.
Falamos com admiração dos sucessos de Martina Higins com o mesmo à-vontade com que criticamos a exploração de crianças na Ásia. Salvaguardados os lucros que uns e outros auferem, haverá grandes diferenças?
Obrigadas a horas de treino diárias, sofrendo por vezes castigos corporais por parte dos progenitores,( lembrem-se os casos de Martina Hingis ou das manas Williams) prejudicadas na sua vida escolar e social, estas crianças representaram verdadeiras "galinhas de ovos de ouro" para os seus familiares, mas não tiveram direito a uma infância normal.Terão ao menos direito a sorrir com a inocência própria das crianças?

Talvez por ganharem quantias fabulosas e se terem transformado em figuras mediáticas, vendedoras de primeiras capas da imprensa, notícia de abertura de telejornais, estas crianças não têm sido consideradas vítimas do trabalho infantil, de exploração e violação dos seus direitos, vítimas de uma sociedade onde a desenfreada sede de sucesso tudo permite.Também o mundo do espectáculo tem os seus exemplos. Divertimo-nos com o talento de actores de “palmo e meio” e rendemo-nos aos seus encantos. Transformamos a vida numa "Mini- Chuva de Estrelas" onde "small is beautiful" e pouco nos importa pensar o que está por trás da vida destas crianças. Tampouco nos lembramos que os exemplos dados por estas crianças suscitam noutras da sua idade uma infinita admiração, porque apenas conhecem o lado positivo. Não espanta que isso aconteça, porque muitas vezes são os próprios pais a lamentar não terem concebido um rebento com tais talentos.
Portugal também tem os seus prodígios. Dão-nos música, um pouco de publicidade , um salto até ao cinema e ao teatro, entram no mundo da moda. Diana Pereira tornou-se um fenómeno mundial no mundo das "top -models". Apenas com 14 anos despertou a cobiça do outro lado do Atlântico e foi lançada para o sucesso. Como a própria confessou às câmaras da SIC, os estudos ressentiram-se.
Francisco dava a cara numa série televisiva de sucesso na SIC. As filmagens afectaram a sua vida escolar e, em vez de ir à escola diariamente , recebia aulas sozinho. Na hora em que devia estar a conviver com crianças da mesma idade, a jovem vedeta estava num estúdio a vinte quilómetros de Lisboa , onde chegava a permanecer 12 horas diárias!
A mãe, tudo o indica, estava conte. Afirmava estar a incutir na criança um sentido de responsabilidade.



Todos os portugueses conhecem o pequeno Saúl que cantava com ar "malandreco" umas canções ordinarotas cheias de sucesso. Aos 10 anos sonhava com um Lamborghini e ganhou dinheiro suficiente para os pais trocarem a roulotte por uma mansão. Aos 10 anos, é obra!
E tivemos noutros tempos a Maria Armanda do Sapo que, depois de conhecer o estrelato e ter percorrido meio mundo, aos 20 anos estava modestamente empregada como telefonista. Carreira mal gerida, dizem uns. Histórias da sociedade de consumo, dizem outros.
Cada um que fique com a sua. O certo é que "não vale" escamotear a realidade, tentar fingir que trabalho infantil é apenas o do campo ou das fábricas, e que no mundo do espectáculo ou do desporto, é apenas entretenimento.
Será entretenimento para uma criança chegar a fazer 8 e 10 espectáculos por dia, andar em longas "tournées", não ter um ritmo de aprendizagem normal, viver a infância afastada da escola e da possibilidade de conviver e brincar com crianças da sua idade?
Não restem dúvidas que a sociedade de consumo, as economias de mercado, o liberalismo económico ou seja lá o que for, continuarão a produzir muitas pequenas estrelas de sucesso e muitos casos de exploração do trabalho infantil. Não podemos esquecer os primeiros, se quisermos continuar a lutar contra a existência dos restantes. Não deveríamos ter o mesmo sentimento de revolta quando compramos um disco do Saúl, ou da Ana Duarte, um tapete fabricado por crianças indianas, ou um brinquedo feito na China ou na Tailândia? Afinal todos são produtos da exploração do trabalho de crianças que, para os fazerem, foram muitas vezes obrigadas a trabalhar longas horas diárias e ficaram privadas da infância. Se o fruto do seu trabalho serve para nos divertir, para nos proporcionar o conforto de uma peça de vestuário, ou o prazer de uma peça decorativa para as nossas casas, é irrelevante.

Em tempo: Na sequência de alguns comentários ao post de ontem ( Post-it ao Pai Natal -2), fui repescar esta parte do artigo sobre trabalho infantil e reeditei-o. Ainda há bastante mais. Amanhã publicarei outro excerto.

8 comentários:

  1. Concordo plenamente, este tipo de exploracao de que fala de criancas vedetas e esquecido e nao devia, mas uma vez que numa sociedade de consumo e de aparencias o que conta e ter dinheiro, mesmo que isso signifique negligencias estudos, vivencias normais, ja nao interessa e ninguem fala. Sao todas vitimas de exploracao de trabalho infantil, nao vale a pena tentar camuflar com pais a dizer isto ou aquilo. Ha que dar nome aos burros.

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  2. Adorei o post porque ele está cheio de verdades. Conheci um caso, verdadeiro, tão verdadeiro como eu estar aqui a escrever de uma menina que os pais prenderam os pés para que ela aprendesse a andar em pint ados pés. tinham um circo e queriam que fosse bailarina. Carmem, não chegou a fazer qualquer papel no circo, uma história mais triste ainda deixou-a com paralesia cerebral. os pés, se assentassem, faziam-no em "pontas".
    Boa noite e até amanhã.
    Só uma coisa "as canções que Saul cnata são memso ordinárias e não ordinarotas... uma ponto de vista, claro!

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  3. Parabéns. Não tenho tido tempo para comentar mas continuo a seguir com muita admiração e concordância quase total, tudo o que vai mostrando por aqui. É muito importante esta denúncia, como todas as que tenho tido oportunidade de ler aqui.

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  4. É lamentável esta situação. Muitas das vezes é só para serem conhecidos. Antigamente não era assim, tinha se de ajudar a família e então tinha de se deixar os estudos de lado e ir trabalhar.

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  5. Tudo verdade e muito bem apresentado, como de costume.
    O pior mesmo, são agora os paizinhos histéricos com as audições dos filhos desde séries da tv até anúncios aos detergentes.

    Vale tudo! Parecem autênticos doidos, sei de casos que até metem dias de férias nos empregos e os miúdos faltam à escola.

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  6. Tudo o que seja andar na "alta roda" é sempre muito mau para a criança.
    Conheço alguns casos. Quando chegam a adultos, vem a revolta!

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