sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Cartões de Boas Festas (8)

Com apenas 12 anos, uma criança paquistanesa foi assassinada por denunciar os castigos corporais a que ela e outras crianças estavam sujeitas, numa fábrica de tapetes. Já não lhe podemos desejar Bom Natal.
Espero que estas crianças que conheci tenham tido melhor sorte. Para todas elas vai este Cartão de Boas Festas com os votos de Feliz Natal e que 2009 lhes traga uma réstea de esperança.
Valeska, miúda de 13 anos que conheci em Santiago do Chile.Vendia artigos de contrafacção numa tenda perto do palácio de La Moneda. Estudou até aos 12, mas entretanto a mãe adoeceu e ela teve que deixar a escola para ajudar ao sustento de 7 irmãos. Tem saudades do tempo da escola e espera poder voltar a estudar um dia. Não tem dinheiro para pensar nos ténis da Nike, nas sapatilhas da Adidas ou da Reebok, cujas imitações vende na sua tenda.
Pablo é uma criança argentina de 12 anos que trabalha num supermercado. A sua tarefa, de segunda a domingo, é meter dentro dos sacos as compras dos clientes. Vejo os seus olhos brilhar quando pega numa pizza congelada que comprei. Ofereço-lha juntamente com um chocolate, mas imediatamente os mete no meu saco com um ar assustado. Explica a sua recusa pelo facto de um dia um vigilante lhe ter chamado ladrão, porque estava a comer um pacote de batatas fritas que uma cliente lhe oferecera.
Tarika é uma miúda de 10 anos. Conheci-a em Wewak, na Papua Nova Guiné, no momento em que as suas mãozitas trémulas entornaram sobre os meus "jeans"parte da sopa. Foge para a cozinha, debulhada em lágrimas, perseguida por um empregado bem adulto que lhe dirigia ameaças. Nunca mais a voltei a ver no hotel, nem sei se é verdade a história que Ben, uma personagem bem conhecida dos turistas que demandam aquela zona em busca de um guia para o rio Sepik me contou.
Segundo a sua história, o patrão condoera-se ao saber que a miúda, filha de uma empregada do hotel, trabalhava em Madang na apanha do café, em condições de quase escravatura. Mandara-a vir para estar junto da mãe, mas não para trabalhar no hotel. Tudo não passara de um descuido. Verdade ou não, o facto é que no dia em que abandonei Wewak para uma viagem pelo rio Sepik, Tarika estava à beira da estrada, com uma mulher aparentando os seus 30 anos, vendendo pequenas peças de artesanato local.

Em Patpong, Banguecoque, é usual ver a altas horas da noite miúdas de 10,12 e 13 anos oferecendo-se para a prostituição. Não é difícil, também, ser abordado por adultos oferecendo os favores sexuais de menores. Em Hua Hin, a escassa centena e meia de quilómetros da capital tailandesa, uma miúda vende relógios aos turistas. Os preços são regateados à exaustão e assisto à cena de um turista anglo saxónico propondo-se a pagar os 500 "bahts" (aproximadamente 15 €) por um Rolex de imitação se a criança "for passar uns momentos na sua companhia".
Nos centros turísticos tailandeses, como nas Filipinas, cenas destas repetem-se diariamente, diversas vezes ao dia.
Em Portugal também não faltam crianças vítimas da exploração do trabalho infantil:


Hélder tem apenas 6 anos e começa às 7 e meia da manhã a britar pedra. Diariamente parte cerca de 500 pedras que vão revestir as calçadas de cidades estrangeiras para onde o seu patrão exporta a pedra.
Adelino foi bem cedo trabalhar para uma serração, mas aos 13 anos um acidente com uma máquina levou-lhe 3 dedos da mão direita e agora faz alguns pequenos trabalhos para ajudar em casa.
Anabela divide o seu dia entre a escola e a casa, onde não estuda nem brinca com meninas da sua idade. O tempo que lhe resta depois da escola, passa-o a coser sapatos. E como ganha à peça, quanto mais trabalha, mais ganha, o que a leva a trabalhar até altas horas da noite.
Porque razão, apesar das medidas internacionais tomadas contra o trabalho infantil, este parece um problema incontornável?A resposta poderia ser encontrada na conversa com este guia indiano...
A cena passou-se nos arredores de Bombaim, ( mas poderia passar-se também em Istambul, Katmandu ou Carachi, onde são inúmeras as crianças a trabalhar na indústria dos tapetes) quando visitava uma fábrica. Crianças desenrolam à minha frente, com esgares de esforço, vistosos tapetes por elas parcialmente confeccionados. Reajo com a indignação possível e o guia pergunta-me em escorreito inglês:
"Nunca viu disto no seu país? E por acaso não compra produtos de grandes marcas, que são fabricados por crianças? Se comprar um destes tapetes está a ajudar o nosso país e a impedir que muitas pessoas morram de fome. Mais vale comprar um tapete destes do que roupa de muitas marcas conceituadas que vocês usam no Ocidente.Vocês não compreendem o que custa sobreviver nestes países!"
Se os argumentos deste indiano podem ser compreensíveis em países asiáticos e africanos onde a miséria é grande, os mesmos nem sempre colhem quando se aborda o problema no mundo ocidental,afogado em desigualdades crescentes, mas esgrimindo os valores da democracia como um bem a preservar.




9 comentários:

  1. Bela chamada de atenção!

    E fica o coração apertado ao pensarmos na opulência do nosso natal comparada com a miséria em que sobrevivem estas crianças...

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  2. Ler cad um destes casos é uma sequência de engolir em seco, misturado com revolta,indiganção e impotência, realmente a minha história não tam mesmo nada que ver com estes relatos.As denúncias são necessárias e por isso um grande bem haja ao Carlos.
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    estando oficialmente de férias queria, do fundo do coração, desejar ao carlos e respectiva familia um excelente Natal e que continue am 2009 a deliciar-nos com os seus dicionários, cenas e memórias...
    Grande abraço

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  3. Depois disto ainda estranha o meu eclipse? Só não comento, porque tudo quanto possa dizer parece-me vácuo e acabo por apagar o que escrevi. Vou deixar por esta vez, para que não rumine mais por mim: estou sempre cá a ler.
    Beijo e boas festas para si, Carlos.

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  4. E tudo isto resvala na indiferença dos "povos ocidentais", os tais, os mais evoluídos. Preocupemo-nos apenas aonde vamos passar o fim do ano.

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  5. Não concordo na generalidade da frase 'indiferença dos povos ocidentais'.
    Há muito 'ocidente' que faz pelo bem de outros no Terceiro Mundo. Sejam portugueses, americanos, russos ou belgas.
    Há um Ocidente que ajuda em muito e outro que poderia era fazer 100 vezes mais.

    É para estes que serve a frase 'O Natal é todos os dias'.

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  6. Como prometido, voltei, para ler de uma só vez os posts que publicou. Detenho-me neste, porque obviamente concordo letra por letra com aquilo que escreveu, lamentando ainda o facto de este ser um texto tão actual agora como na altura em que o escreveu.
    A juntar achas para a fogueira, e a propósito de atletas e de Comités, vi outro dia uma reportagem sobre a Alemanha de Leste e do seu apogeu olímpico, conseguido com um regime de dopping impressionante, que deixou marcas em todos os que dedicaram a sua vida (e que alguns perderam, literalmente) pelo desporto.
    Além de serem abusadas pelo regime intensíssimo de treinos, ainda eram drogadas com hormonas que viriam a provocar-lhes ambiguidades na personalidade sexual e até a morte.
    Impressionante.

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  7. Não há comentários possíveis, está tudo dito. Só me resta o aperto no coração.

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  8. Por vezes é triste o mundo em que vivemos... E não há palavras que expressem este tipo de situações.

    Também eu assisti a situações idênticas à do Pablo em Angra dos Reis, Brasil... Muitos pensam que Angra é como vemos nos roteiros turísticos, mas quando chegamos à verdadeira cidade vemos que a realidade é bem diferente, e que a pobreza e falta de condições a todos os níveis, é bem visível a olho nu. E tal como aqui, acontece em muitos outros locais, onde o turista parte em busca de um paraíso que esconde a dura realidade do local.

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  9. Hoje tirei o dia para s lágrimas...aqui muito se vê disso sim. Meus "amigos" de rua fugiram de situações semelhantes. Vivem nas ruas por "opção" : ou enfrentam a humilhação e os insultos dos patrões ou enfrentam a humilhação e os insultos dos faróis. A maioria das crianças lá do abrigo para portadores do vírus da Aids têm histórico de abuso sexual ou violência doméstica, inclusive bebês. Tem lá uma menininha de 8 anos que quando por lá chegou não falava uma palavra. Diziam que ela nunca falou.As psicólogas descobriram que foi por causa do abuso que vivia sofrendo pelo padrasto.
    No dia em que fui levar os prsentes de Natal que arrecadamos ela me chamou com um grito.O container aonde guardam as doações e o abrigo ficam distantes. Ou seja, além de falar, ela falou em alto e bom tom: - Tia!!! E me acenou com um grande sorriso. E continuou: - É prá mim???.Eu respondi que era para a noite de Natal.Mal sabia ela que o presente dela fui eu mesma que comprei.Era uma boneca do tipo bebê que vinha acompanhada de uma enorme maleta de médico, com todos os tipo de acessórios, Inclusive um estetoscópio que ao ser apertado, reproduzia o som da batida do coração.

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