domingo, 30 de novembro de 2008

Thanks God, it's Friday!


Deixei um comentário sobre este assunto neste post da Bluevelvet, mas não resisti a voltar a falar dele aqui, porque a notícia me impressionou de tal maneira, que não consigo calar a revolta.
A Black Friday assinala, nos EUA, o início da época de saldos de Natal. Todos os anos, milhares de pessoas formam longas filas à porta dos estabelecimentos das grandes marcas, com o objectivo de comprar presentes de Natal a preços reduzidos. Já tive oportunidade de assistir “in loco” à loucura da Black Friday- assinalada no dia imediato ao Thanksgiving- e fazer uma reportagem onde descrevia o estado de insanidade que se apodera dos americanos, horas depois de celebrarem o dia da “Acção de Graças”. Nunca pensei, porém, ler um dia a notícia que a comunicação social ontem divulgou: um funcionário da Wal-Mart, foi espezinhado e morto por uma multidão sedenta de entrar naquele estabelecimento, à procura de pechinchas com que pudesse brindar os seus rebentos, familiares e amigos, na noite de Natal.
Embora muitos se tenham apercebido da brutalidade, continuaram a fazer as suas compras sem constrangimentos, regressando a casa a abarrotar de embrulhos com brinquedos tão lúdicos como o Robot Man, tanques disparando balas de plástico, soldados robots aniquilando iraquianos ou uma simples Barbie trajada de “pop-star”.
No dia de Natal, este energúmenos observarão, com enlevo, a alegria dos seus rebentos a desembrulhar os presentes que pediram ao Pai Natal. Nem por um momento lhes passará pela cabeça que, no mesmo momento, uma família enlutada estará a chorar a morte de um ente querido, espezinhado por uma turba de loucos.
Dir-me-ão que o sucedido nos arrabaldes de Nova Iorque poderia ter acontecido noutra cidade qualquer, de um outro qualquer país. Concedo. Lembro, no entanto, que os americanos passam por ser, aos olhos do mundo, um modelo de sociedade evoluída, pelo que exemplos destes podem ser interpretados como uma situação normal em sociedades menos desenvolvidas.
Se é este o espírito de Natal da sociedade da hiperescolha, que os americanos exportam, estão a dar, também em termos cívicos, um mau exemplo ao mundo.
Vivi nos EUA e nunca escondi que considero os americanos o povo mais estúpido e ignorante que alguma vez conheci. No entanto, gosto dos americanos. O problema é que também adoro macaquinhos, mas nunca me passou pela cabeça viver numa comunidade de macacos…

25 comentários:

  1. Quem "posta" assim não é ...
    :)))

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  2. Dois natais bem diferentes vão passar as famílias, as daqueles que encentivados por uma sociedade de consumo selvagem tudo arrastaram à sua frente e a família daquele que precariamente trabalhava na Wal-Mart naquele dia.

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  3. É verdade , creio que de momento isto podia ter acontecido em qualquer parte , menos na Europa creio , não , na Europa pelo menos por enquanto não pode acontecer. No Japão há uns anos tb passaram por cima de uma pessoa na estreia do IKEA que dava um sofá aos primeiros clientes.
    Em Londres quando abrem no dia 26 de dezembro os armagens Harrods (box day ) as pessoas têm um ar alarve de olhos fixos na porta enquanto esperam que os porteiros todos elegantemente vestidos as abram.
    Sendo assim temos exemplos em varios locais ,o que não desculpa de modo algum o acontecimento que relata .
    Eu tb gosto dos americanos , muito principalmente porque quase só conheço americanos civilizados que para além do incondicional amor que têm à sua America , gostam muito da cultura europeia.
    Tive a sorte de viajar muito nos EUA e concordo ( com tristeza) que são na maioria ignorantes,radicais e intolerantes.
    Têm uma coisa no seu caracter que aprecio . São bons , assim de um modo infantil e simplório são bons.....sabem que são ricos e que são americanos e são bons para os desgraçados que não tiveram a sorte de nascer americanos:)
    Isto é uma outra conversa enorme que aqui não pode ter lugar, mas quem viveu por lá e conviveu dia a dia sabe do que falo .

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  4. Este é um assunto polémico e não gosto de entrar em polémicas.
    Acho que não se deve tomar a nuvem por Juno e muito menos generalizar.
    Conheço muitos americanos civilizados, inteligentes e cultos.
    Só acrescento que num país tão civilizado como Inglaterra, no dia dos saldos no Harrods, as pessoas começam a fazer fila de madrugada e quando se abrem as portas entram todos de roldão.
    Suponho que tenha sido o que aconteceu no Wal-Mart.
    Por isso nõ gosto de multidões. Já Fernão Lopes o dizia.
    É como no futebol. Lembra-se quando o Féher morreu em campo? Interromperam o jogo? Não.
    E nós somos inteligentes, civilizados e europeus, não é?
    Naturalmente que lamento muitíssimo a morte do funcionário, mas também acredito que a maioria das pessoas nem se tenha apercebido.
    Veludinhos

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  5. Grande post!!! Concordo com a apreciação acerca dos americanos!

    um abraço

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  6. Chocante e a dar um novo significado expressão 'black friday'!

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  7. Estas cenas das corridas aos saldos nos EUA já foram retratadas em vários filmes; nunca deve ter acontecido o que desta vez aconteceu.
    Muitas vezes é preciso acontecer uma tragédia para muitos verem o que é óbvio para outros.
    Os americanos são pródigos em aprender e apreender certas coisas da pior maneira ... ensaios sobre cegueiras, precisam.

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  8. Realmente as pessoas parecem mesmo uns animais, ou talvez não. Acho que os animais não agiriam assim. Não consigo ler o post da BlueVelvet :(. Cpts.

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  9. Tais episódios são característicos das sociedades de consumo ocidentais. São um reflexo superior da prosperidade egoísta dos países desenvolvidos. Contudo, o tom animoso deste post é desnecessario, visto que no nosso país e no resto da Europa também acontecem situações idênticas... e mais não digo, apenas gostaria que lesses este meu post e depois me desses a tua opinião:


    http://a-terceira-via.blogspot.com/2008/11/europa-vs-eua.html


    Não estou à espera que concordes com ele, pois é uma questão controversa...

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  10. nem imaginas o que esta notícia me incomodou. países que se dizem tão civilizados e depois agem desta forma...
    Bom feriado!

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  11. Infelizmente coisas destas são quase normais em todo o lado. Até aqueles tontos, em Meca, se espezinham uns aos outros e continuam a andar à volta daquilo. Mesmo sem comprar nada!

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  12. Retrato chocante dos estado-unidenses. Infelizmente, são demasiados os retratos chocantes que se podem fazer desta sociedade individualista, ignorante e arrogante.

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  13. Oh Carlos... 'o povo mais estúpido e ignorante'?!
    Oh Carlos...

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  14. Subscrevo a Velvet. E a morte do Fehér em pleno estádio? Alguém nterrompeu o jogo?

    E a morte de pilotos de fórmula I na pista e no final tudo festeja o vencedor com champagne?

    E os 39 mortos no Estádio do Heysel Park, em 1985?

    E os 74 mortos e mais de 150 feridos em Buenos Aires entre o River Palte x e Costa Rica, em 1968?

    E os 84 mortos e mais de 150 feridos, do jogo da Guatemala x Costa Rica, em 1996?

    E finalmente o pior de todos, em 1964, Perux Argentina, num torneio pré olímpico, com 318 mortos e mais de 500 feridos?

    Alguém deixou de gostar de futebol? Pelo contrário, cada vez há mais energúmenos, fanáticos e inclusive grupos organizados de crimonosos.

    Realmente a loucura dos saldos, põe as pessoas doidas, vá-se lá saber porquê, mas não é uma questão de nacionalidade.
    Pode acontecer em qualquer Sonae, Galerias Lafayette ou no Hamleys.

    Enfim, 'animalidades' da raça humana.

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  15. Bluevelvet:Como dizia no post, admito perfeitamente que uma situação destas pudesse ter ocorrido em qualquer outro lado. Porém, como tb refiro no post, não é só isso que está em causa.
    Vivi vários anos em Inglaterra, passei lá muitos Boxdays ( 26 de Dezembro) e assisti à loucura , mas nunca se poderia passar lá isso, pr uma razão simples: ninguém entra sem soar ma campainha, já dpois de as portas estarem abertas. As pesoas respeitam o sinal, acredite ( bem, pelo menos respeitavam, porque já não paso o Natal em Inglaterra desde 2004).
    Quanto ao caso Feher, peço desculpa, mas na realidade ele não morreu em campo. Claro que foi uma estupidez continuar o jogo, mas a situação não pode ser equiparada.
    Beijinhos

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  16. Gi: É verdade, sim, um desses filmes até passa por ser uma comédia. Chama-se Tesouro de Natal e é com o Schwarzenegger.
    Quanto ao Ensaio sobre a Cegueira, deu um bom exemplo, também. Houve por lá uns inteligentes que acharam que o filme era insultuoso para os cegos. Gostava de saber como é que os cegos viram o filme, mas enfim...

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  17. Maldonado: já fui ler e, de uma forma geral concordo com o que lá escreve. Deixei lá um comentário mais alargado.

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  18. Kruzes: Mas isso é porque ficam tontos de tanto rodar.

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  19. Margarida: realmente "o mais" não é justo. Apenas me estava a referir aos países onde vivi, que foram bastantes, mas isso não me permite utilizar o superlativo, concedo.

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  20. Patti: Estou fascinado com a sua memória futebolística, juro! De algumas dessas situações até já não me lembrava. No entanto, no caso do Heysel o jogo não chegou a realizar-se, se bem se lembra!
    De qualquer modo, a comparação entre o que se passa no futebol, (onde claques de desordeiros misturados com hooligans, querem apenas desestabilizar e criar confusão e não ver um jogo de fuebol) e uma multidão de gente aparentemente civilizada que vai fazer compras, parece-me claramente abusiva Patti.
    Também não me parece que seja uma questão de nacionalidade ( DIGO ISSO NO POST), mas preocupa-me que tal situação enha ocorrido na sociedade que nos querem impingir como modelo de civilização. Isso custa-me muito a engolir.
    Quanto àss claques de futebol, como já dise e a Patti tb concoda o objectivo deles é a arruaça, seja na Europa na Ásia, em África, ou na América Latina (não há só maus exemplos na Argentina, aranjo-lhe uma dúzia de situações idênticas passados noutros países, noemadamente no Brasil...)

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  21. Não foi uma questão de memória absoluta. Os factos e os locais lembro-me por motivos profissionais do meu pai, os números tive de lhe perguntar, que ele sim tem tudo anotado.
    E não acho que seja unicamente um problema de claques, o homem no desporto e principalmente no futebol o mesmo dentro do carro que conduz, sabe-se lá porquê, revela-se um animal.

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  22. Patti:Não posso deixar de subscrever a sua afirmação em relação ao comportamento do homem ( e já agora da mulher, porque já vi muitas completamente "passadas" em jogos de futebol, falando como verdadeiros carroceiros, embora envergassem casacos de pele...ou mulheres a fazer gestos obscenos enquanto conduzem).
    De qualquer modo, seria de esperar um comportamento mais civilizado quando se trata de meros saldos. Ali estão cidadãos que, - presumo- não estejam embriagados, não sejam arruaceiros, nem estejam lá para provocar confusão. Em princípio trata-se de cidadãos em estado "puro". E isso é que me deixa "abananado".

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  23. É o chamado fenómeno das multidões que já foi estudado várias vezes.
    Nem a morte de quem está ao lado as demove.

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  24. Anniehall:gostam da cultura europeia, mas não a percebem lá muito bem... Concordo plenamente que na generalidade são simpáticos, por isso disse que gosto deles. E claro, sendo os EUA um país imenso, o seu comportamento é variável de Estado para Estado ( tal como na UE). Em alguns locais, chocou-me o racismo serôdio e noutros algum fanatismo religioso, mas isso dava para uma longa conversa...

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  25. Patti: Pois é essa indiferença perante a morte provocada pela volúpia que me deixa incrédulo. O Gilles Lipovetsky explica isso nos seus livros, nomeadamente no último ( A Felicidade Paradoxal) a que já fiz referência aqui no CR.

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