sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Memórias do Rochedo (85) - Do barracão ao "Home Cinema"

O cinema foi a diversão favorita do século XX. Exibido inicialmente em barracões, salões de festas e teatros, o cinema respirou também ao ar livre, especialmente nos “drive-in”, muito apreciados pelos jovens americanos a partir dos anos 50.
Em Portugal, são quase indeléveis as memórias do “drive –in”. País recatado nos costumes, o “drive-in” era encarado como antro de pecado, por isso o cinema sempre se viu em salas apropriadas para o efeito.
Em Lisboa, o Salão Ideal abre as suas portas em 1904 e no Porto só três anos mais tarde (1907) surge a primeira sala de cinema: o Pathé.
As grandes salas de cinema que marcaram gerações ( S.Jorge, Tivoli, Império em Lisboa e Coliseu, Rivoli, ou S.João no Porto) só aparecem nos anos 30, com a exibição dos filmes sonoros. São salas imponentes onde vai gente de todas as classes sociais. No entanto, a segregação social é bem patente. Pela frequência, mas também pelas sessões destinadas a públicos estratificados. O sábado à noite, por exemplo, era o dia de a burguesia e a classe média alta se encontrarem e aproveitarem a oportunidade para exibir as suas “toilettes” nos “foyers”, durante os intervalos. As “matinées” de domingo eram especialmente frequentadas por “magalas e sopeiras” (como se dizia na época), único momento de lazer que lhes era permitido durante a semana.
Nos anos 70 aparecem as primeiras salas “multiplex” e, na década seguinte, começam a proliferar os centros comerciais com salas de cinema acopladas. Começavam a surgir os primeiros sinais de crise na indústria cinematográfica, com a redução do tamanho das salas e o esvaziamento dos “monstros sagrados”. A televisão começara a fazer os seus estragos.
Hoje, quase toda a gente tem cinema em casa. Os equipamentos “home cinema” revelam bem a evolução dos comportamentos sociais: a cada um a sua medida, que o tempo é de prazer e cada um o deve gozar à sua maneira. Acabe-se com o convívio, essa manifestação ultrapassada de socialismo, e viva o individualismo ultra -liberal, mais consentâneo com os valores do progresso.
Ir ao cinema "em grupo" passou a ser coisa de caretas, ver um filme em casa, passou a ser mais um exercício de isolamento, mas exemplo de modernidade.
Com o aparecimento da televisão, primeiro, e com a proliferação dos “Clubes de Video”, depois, foram muitos os que prognosticaram o fim do cinema. Aliás, Louis Lumière nunca deu grande importância ao cinema e afirmou mesmo que “ é uma invenção sem futuro”.
Felizmente, não tinha razão.
Várias gerações se deixaram embalar pela magia da sua Arte. Muitos jovens trocaram o primeiro beijo “no escurinho do cinema”. Muitos jovens saíram das salas de cinema sonhando transformar o mundo, ou simplesmente trocando juras de amor eterno.
Hoje o cinema já não será, como no século passado, uma forma de cultura popular. Compreende-se. Não só porque deixou de ser um meio de comunicação privilegiado, mas também porque mesmo os maiores sucessos são perenes. Já não há divas e galãs que façam suspirar uma geração, porque a indústria cinematográfica está constantemente a produzir novos ídolos que preencham os gostos de “nichos de mercado”.
Não é possível reeditar Marlon Brandos, Fred Astairs, Greta Garbos ou Rita Hayworths de êxito mundial assegurado. No cinema, como na música, ou na literatura, a oferta é vasta e o sucesso efémero. Um bom filme já não está em cartaz um ano. Ao fim de dois ou três meses é normalmente velharia. O seu sucesso prolonga-se pouco tempo para além do período de exibição. As superproduções são raras, porque os produtores não arriscam o investimento. As reposições escasseiam, porque o DVD permite guardar em casa, para ver na altura oportuna, o filme que não tivemos tempo de ver em exibição nas salas de cinema.
O cinema é, hoje em dia, o retrato da sociedade em que vivemos. Um produto de consumo para usar e deitar fora, porque há pouco tempo para reflectir sobre o que se viu e o espaço para sonhar está reduzido a uma conta bancária. Já ninguém quer transformar o mundo. Todos ficam à espera que alguém se dê ao trabalho de o fazer.
O cinema, porém, resiste. O anúncio da sua morte foi manifestamente exagerado.

15 comentários:

  1. Diga-se o que se disser, faça-se o que se fizer - mesmo que se comprem aqueles ecrãs mega com óptimas colunas de som lá para casa - nada se compara à magia de um filme num cinema. Até o ritual de comprar bilhete...tudo gosto. Detesto, mesmo, são as pipocas.

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  2. Pathé!!! Pathé-Baby, uma produtora de cinema, cujo símbolo era um galo!!!
    Não tinha eu mais de 10 anos e nas engenhocas do patriarca, que incluiram, durante uns tempos, uma máquina de 8 mm, das "portáteis", cheguei a ver montes de filmes mudos, emprestados, que incluiram a história de Jesus Cristo, em episódios, sendo que um (nunca mais me esquece) tinha o título de "A 'Fugida' do Egipto"!!!
    E via-os na tela que a parede branca da cave emprestava....olha qu'esta...já não me lembrava disto há tanto tempo!!

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  3. Olá Carlos,
    Adoro ir ao cinema mas actualmente e para mim que estou desempregada, o problema é mesmo o preço proibitivo dos bilhetes!
    Gostei muito do teu texto que nos dá uma visão simplificada mas bem clara sobre o cinema e sua história.
    Fiquei com saudades daqueles cinemas antigos e enormes e nunca me esqueço de uma sessão de 3 horas pra ver o filme Ben-Hur, em cadeiras de madeira, penso que no cinema Monumental.Lol
    Beijinhos

    PS Escreves pelos cotovelos mas muito bem!Entendeste não é?

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  4. O cinema resiste e penso que resistirá. Disseram o mesmo dos livros, com o aparecimento dos downloads de literatura na net e no entanto.

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  5. Sabe tão bem recordar, lendo o que tão bem descreve. Ah! Obrigada pela gentil resposta ao meu comentário do post de ontem sobre este mesmo assunto...

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  6. Ainda com excepções, mas a regra começa a ser essa, o cinema tende ao descartável: ultimamente tenho visionado filmes mais antigos, de qualidade muito superior, no leitor de DVD e ecrã caseiro, com calma e silêncio: de quando em vez encontro um recente com qualidade equiparável.

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  7. Apesar de tudo, de detestar o barulho das pipocas, e de mais outras coisas, é o único sítio onde consigo ver um filme de fio a pavio; em casa passo a vida a interromper-me (tenho bichos carpinteiro, sabe?).

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  8. Lúcia: estou contigo,mas a verdade é que vou cada vez menos a uma sala de cinema

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  9. Si:O meu patriaraca também andava nessa da câmara portátil, fazendo compita com o meu cunhado. Víamo os filmes num ecrã que erra uma geringonça esquisita e pesada. Um dia o meu cunhado exibiu um filme sobre Lourenço Marques ( onde nascera). Eu tinha 11 ou 12 anos e logo nesse dia decidi que tinha que conhecer aquela cidade. Já só conheci Maputo, porque os meus pais não me deixaram lá ir antes. Bem, mas isso é utra hsória que já contei aqui, logo nos princípios deste Rochedo...

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  10. Ana: As salas eram lindas e felizmente não havia pipocas.
    PS: Claro qu percebi. Obrigado!

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  11. Patti: O Mc Luhan afirmou mesmo que a televisão acabaria co os livros,porque as pessoas se iriam dsinteressar pela leitura!

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  12. Patti: Ah e concordo plenamente consigo. Felizmente, o cinema não morrerá tão cedo.

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  13. Cristina: descartável, talvez, mas não acredito que as pax se deixem de interessar por cinema. as salas de cinema talvez estejam em vias de extinção, agora o cinema não.
    Gostaria de saber é que caminhos o cinema seguirá nos próximos 20 anos. Quando penso no assunto, confesso que sinto uns arrepios...

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  14. O meu primeiro cinema foi o Sport Algés e Dafundo!

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  15. Bom texto... um belíssimo resumo sobre a evolução do cinema.
    Não sou tão saudosista, Carlos. Continuo a gostar de ir ao cinema, mas, salvo alguns filmes que precisam de um ecran gigante, prefiro juntar os amigos e organizar uma sessão de cinema em casa. Pertenço a um grupo que o faz regularmente, e chamamos-lhe "cine-sofá". É divertido, é mais intimista e mantém o cinema "vivo" da mesma maneira. E vemos muitos clássicos, que só assim já se podem ver.

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