Olá, Avô!
Estejas onde estiveres, quero que saibas que, mais de 40 anos depois deste episódio e 30 anos passados desde que o passei para o papel, continuas sempre presente na minha memória. Espero que não fiques
“chateado” comigo por revelar o segredo que me confiaste, mas aqui no Rochedo só aparece gente boa e por isso decidi partilhar com ela esta história.
Dentro de algum tempo estarei a fazer-te companhia e teremos muitas coisas para conversar. Se cá viesses, irias de certeza ficar muito triste com o país e com o mundo, por isso deixa-te estar. Quando aí chegar, vou levar-te umas fotografias da
“Olivinha”, uma fábrica que um dos teus netos brasileiros montou perto do Rio de Janeiro em tua homenagem. Vou também contar-te a história do último gestor da fábrica. Foi preso, porque estando a fábrica a atravessar grandes dificuldades, desviou o dinheiro dos impostos para pagar os salários dos trabalhadores. Agora, Avô, os governos indemnizam os patrões que andaram a roubar os cidadãos, para que se reabilitem e daqui a uns anos possam voltar a roubar. Mas se uma pessoa roubar um supermercado, porque os filhos têm fome, vai logo dentro!
Felizmente, houve alguém em S. João da Madeira que também não te esqueceu e decidiu prestar -te uma homenagem. Houve alguém que decidiu transformar a fábrica num
Centro de Arte Contemporânea, que será parceiro da
Fundação de Serralves. Ali repousarão obras de
Arpad Szenes, Vieira da Silva, Júlio Pomar, Paula Rego ( aquela jovem promissora como tu lhe chamavas, deixando a
Fiama Hasse em polvorosa, por lhe não reconheceres igual talento
. Lembras-te? ) e muitos outros artistas de renome. Serão cerca de mil a que eu vou juntar aquele quadro que me ofereceste pouco tempo antes de morrer. Disseste-me na altura que mo oferecias, porque sabias que eu o ia entregar no lugar certo quando fosse o momento apropriado. Creio que é agora, Avô! Depois , já terei cumprido a minha missão por cá e se achares que é chegada a hora de me juntar a ti, está à vontade. Isto cá por baixo já deu o que tinha a dar. Há cada vez mais
Salazares, mas curiosamente há muitas pessoas a suspirar pelo seu regresso. Não há
PIDEs, mas há muitos portugueses que nasceram equipados com um
chip que os torna denunciantes e mesquinhos. Alguns chegam ao governo, a líderes da oposição, ou pelo menos a cargos de destaque nas empresas e na Administração Pública. Vivem todos bem, agrupados numa coisa que se chama
Centrão, que é uma espécie de
União Nacional dos tempos modernos.
Não, não vou chateado… vou muito feliz por me ir juntar a uma pessoa como tu. Que me ensinou que
a vida é feita de momentos e a forma como os dividimos em bons e maus é uma opção de vida. Essa foi a máxima que procurei adoptar e não me tenho dado mal.
Se me fores esperar à porta, fica a saber que vou chegar num
“vaivém” que partirá de
Esquel. Quero sobrevoar pela última vez o
Parque Nacional de Los Alerces e despedir-me do
Perito Moreno, antes de me encontrar contigo.
Não sei se te lembras da
Sãozinha. Imagina que, passados tantos anos, fui dar com ela há uns dias, pendurada num escaparate, encadernada em revistas cor de rosa. Estás a imaginar o que me poderia ter acontecido se não tivesse tido aquela birra que te levou a dar-me aquela lição? Pelo menos, poupei no divórcio.
Ah! E agora já não atiro pedras ao lago dos peixinhos. Tenho-os em aquários. Estão mais presos, mas a coberto das minhas fúrias. Onde é que eu agora descarrego? Neste Rochedo, bem perto do local onde comemorámos os teus 95 anos, dias antes de partires. Tenho por aqui leitores que me aturam as
neuras e são muito amáveis comigo. De certeza que, se te tivessem conhecido, iriam perceber melhor porque gosto tanto de ti.
Fica bem. Se encontrares aí o
Salazar, diz-lhe que lhe mando um pontapé no cú! Porquê? Porque partiu, mas deixou aqui uma descendência numerosa de
filhos da puta. (
Isto agora já não é asneira, Avô! Não fiques “chateado” comigo!)