sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O Preço Certo em... oportunismo


Tinha uma imagem encadernada em nome com “pedigree”, que lhe permitiu com facilidade concluir uma licenciatura “faz de conta” numa Universidade privada. Militara na extrema - esquerda onde conheceu o namorado.
Ambos perceberam, rapidamente, que estavam talhados um para o outro e decidiram casar. Já se tinham extinguido os calores revolucionários de Abril, a militância por aquelas paragens não se coadunava com a necessidade de ganhar a vida, encontrando empregos compatíveis. De início, a família dela deu uma ajuda. Pôs o pedigree a funcionar e conseguiu que ela entrasse para a função pública, directamente para um cargo de chefia. Ele montou uma empresa de consultoria que trabalhava para o governo da AD.
A incompetência e falta de preparação dela rapidamente a relegaram para um lugar na carreira técnica. Com a mudança de governos a empresa dele deixou de ter trabalho que permitisse uma sobrevivência sem sobressaltos.
Em 1983, com o governo do Bloco Central, ele teve uma ideia. Cada um inscrevia-se num partido. Não sei se tiraram à sorte, mas a ela coube inscrever-se no PS e a ele no PSD. Foi uma escolha acertada. Ele era mais sagaz e, com a ascensão de Cavaco, apanhou boleia do aparelho partidário. Foi progredindo em cargos públicos e mantendo a empresa, cujo capital foi aumentado, com a entrada de novos sócios. Ela foi-se desgastando em sucessivas depressões.
Com Guterres no poder, a vida do casal tremeu um pouco, mas logo que Durão Barroso o substituiu, ele conseguiu um cargo de relevo onde ainda se mantém.
Com Sócrates, ela voltou a ocupar um lugar de chefia, onde multiplica incompetência e depressões. Fazem um casal de sucesso. Nas reuniões de amigos mais íntimos, continuam “fiéis” ao ideal da extrema-esquerda. Só não sei em quem votam…porque o voto é secreto.

Coisas do Sebastião (15)


Depois de o mosquito do dengue ter feito estragos no Brasil, ter chegado à Madeira e- de acordo com os especialistas - estar prestes a fazer a sua entrada em Portugal, um outro insecto decidiu atacar em zonas turísticas privilegiadas.
Trata-se da “mosca mijona” ( sic) que, talvez cansada de viver na Califórnia, decidiu imigrar (ao que parece ilegalmente e escondida em plantas) para as ilhas de Taiti e Moorea, provocando gravíssimos prejuízos, pondo em risco a flora e a fruticultura daquelas paradisíacas ilhas.
Este devastador insecto deve o seu peculiar nome ao facto de rejeitar, imediatamente após a sua ingestão, a seiva das árvores, base da sua alimentação. O mais grave, porém, é que a mosca suga das árvores, diariamente, o correspondente a cerca de 1000 vezes o seu peso, o que para além de constituir uma ameaça à flora local, provoca a sensação, a quem está debaixo das árvores, de que está a chover... o que não deixa de ser , no mínimo, desagradável.
Portanto, se é sua intenção passar férias brevemente numa destas ilhas, o melhor é evitar abrigar-se à sombra protectora de uma árvore...

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Dicionário do Rochedo (39)

Sinergia- Fenómeno que permite a um indivíduo estar em três locais de trabalho ao mesmo tempo, sem trabalhar em nenhum, e receber três salários no final do mês.

Saudação pós-moderna a um dia de Inverno antecipado


Levantei-me com as galinhas.
Olhei pela janela.
A rua estava cheia de pequenas poças de água.
O céu , de um cinzento imaculado, prometia libertar o peso excessivo de nuvens negras prenhas de água, derramando - em cortina pela cidade.
Não havia metro. Não havia táxis. Sou analfabeto funcional. Não sei andar de autocarro.
Perguntei à senhora do café, que acumula com trabalho na Faculdade, qual devia apanhar. Satisfeita por poder ser útil a quem serve a bica diariamente, deu-me a informação num sorriso desdentado.
Caminhei até à paragem dos autocarros, esgueirando-me entre corpos apinhados num passeio generosamente estreito, que permite sentir o calor dos corpos.
Um Audi passou por mim. Não se desviou de uma poça de água perfeitamente evitável. Preferiu dar-me os bons dias, aspergindo-me com água da chuva.
Agradeci, estendendo o dedo do meio na sua direcção. Ri-me da ordinarice. Envergonhei-me da atitude desesperada, de quem se vê encharcado em água lamacenta.
O autocarro enfim chegou. Bem apinhado, mas sem aquele odor a sovaco que lhes empresta tanta graça nos dias quentes de Verão.
Sete calcadelas e onze cotoveladas depois cheguei ao meu destino. Ao sair do autocarro voltei a encontrar a senhora do café, que a esta hora é a senhora da Faculdade. Lançou-me mais um sorriso. Desta vez cúmplice “Vamos chegar atrasados!”
Chovia. Olhei para o céu uma vez mais e cumprimentei as nuvens negras.
Entrei no meu gabinete a pensar no S. Martinho, que nos há-de trazer os últimos dias de calor do ano.
Liguei o computador. Népia. O servidor também anda de Metro e perdeu o autocarro?
Nada disso, diz-me o técnico. Apenas reivindicações salariais.
A manhã foi uma m…. não foi?
Foi, mas teria sido pior se não pudesse viver estas peripécias por estar na cama de um hospital, ou já estar reduzido a cinzas espalhadas pelo Rio da Prata.
Que tenham todos um bom dia!

Jantar com os vampiros

Quando o governo anunciou o aumento de 2,9% para os funcionários públicos, as associações patronais entraram em transe. Escandalizadas com o exagero, apressaram-se a informar que não poderiam acompanhar tão escandaloso aumento. Ignoraram que os funcionários públicos perdem poder de compra há 9 anos, grande parte deles teve os salários congelados vários anos, enquanto no sector privado os salários reais continuaram a subir e aumentaram as regalias paralelas para colaboradors de topo( automóveis, cartões de crédito com plafonds generosos e ate ilimitados, senhas de gasolina, etc). Além disso, os aumentos dos funcionários públicos em nada condicionam o sector privado, pelo que as reacções patronais demonstram apenas uma vontade inusitada de ver sangue.
Esta noite, mais dois vampiros apareceram à hora do jantar. O primeiro foi o presidente da associação das PME. Da estatura meã da sua mesquinhez, ameaçou com a recusa de não renovação dos contratos dos trabalhadores a prazo, como forma de protesto contra o aumento de 24€ do salário mínimo decretado pelo governo. Além de ter a memória curta ( esqueceu o acordo estabelecido ano passado) este vampiro é cobarde. Vinga-se nos trabalhadores, para atacar o governo, a quem estende a mão quando está em dificuldades. Atitude bem reveladora da estirpe da maioria dos pequenos empresários portugueses. Um conjunto de parasitas gananciosos que quer lucros rápidos e fáceis, não arrisca sem o apoio do Estado, mas só está disposto a pagar salários de miséria.
Depois apareceu o inefável Paulo Portas, com a teoria dos liberais sefarditas. Considera o aumento justo, mas quer que seja o Estado a suportá-lo. Atitude típica do vampiro calaceiro. Nunca fez nada na vida, mas não dispensa a mesada materna. À falta dela, exige que seja o Estado a pagá-la.
Mas neste jantar de vampiros, não podia faltar uma mulher. Manuela apareceu à sobremesa, para acusar o governo de irresponsável, por fazer valer um acordo celebrado há um ano.
Às 12 badaladas da meia noite, depois de tomado o café, vieram todos para a rua lamentar os pobrezinhos. Organizaram vigílias, angariaram fundos, prometeram uma ceia opípara para alimentar, os desfavoreidos mas na altura de ser servida aguçaram os dentes e não resistiram à tentação de os abocanhar.
E fugiram com a massa e as mãos sujas de sangue!

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

De Relance...

Já vos disse que adoro revistas? Se não disse, digo agora.
Continuo a ser um consumidor compulsivo do género, porque a revista leva-me a mundos distintos e distanciados num curto espaço de tempo, permitindo-me viajar comodamente sentado no sofá da sala. Também prefiro escrever para revistas do que para jornais, porque na revista não me sinto tão espartilhado nas palavras.
Nas revistas também sou atraído pelo grafismo e pelo design, pelo prazer de folhear as páginas, pela beleza das fotografias.
A revista temática permite-me entrar em espaços que não domino, de forma mais ou menos aprofundada. Desperta-me a vontade da descoberta para além do mundo das suas páginas.
Em Portugal, se exceptuarmos a Visão, as revistas generalistas de carácter informativo são de fraca qualidade. Demasiada opinião, pouca reportagem, temáticas pouco variadas e, muitas vezes, artigos importados, porque saem mais baratos… Por isso, leio muitas revistas estrangeiras, que me permitem ter uma visão diferente de alguns pontos do globo, ou manter-me informado sobre países que visitei e sobre os quais quero manter-me actualizado.
Leio revistas de todos os géneros e deliro sempre que descubro uma que se destina a um nicho de mercado.
Hoje, encontrei num escaparate uma revista nova, fenómeno raro no nosso mercado actual. No Editorial pode ler-se:
“Celebramos a arte de saber viver, o que de melhor se faz em Portugal e lá fora. Celebramos o nosso património, as nossas gentes, a nossa História”. Palavras apelativas para o meu conceito de revista.
Ainda só tive tempo para dar uma espreitadela e aperceber-me que os temas fortes são Arte, Cultura, Arquitectura e Moda. Passei os olhos por uma reportagem fotográfica de Rui Moreira sobre o Porto e por uma entrevista de Inês Medeiros a Miguel Lobo Antunes. É cedo, por isso, para fazer uma avaliação, mas ninguém me tira já o prazer de ter enriquecido a minha colecção de números 1.
Ah! a revista chama-se RELANCE, tem periodicidade mensal e preço de capa 4 euros. Depois digo-vos se vale a pena o investimento.

Dicionário do Rochedo (38)

Politicar-Relações hipócritas e interesseiras, para subir numa escada virtual, em que se agarram os que vão à frente para se empurrarem para trás os que os ajudaram a subir.

Esta entrada é mais uma colaboração preciosa da Si

terça-feira, 28 de outubro de 2008

"O Velho, o Rapaz e o Burro"

Agradeço a todos os que tentaram ajudar-me a resolver o problema que coloquei no post anterior.Como esperava, as soluções são diversas, todas me parecem ter vantagens e inconvenientes e nenhuma será a solução perfeita, mas todas se revelaram preciosas ajudas.

Estive sem acesso ao computador durante quase 24 horas e, quando finalmente pude voltar ao CR, fiquei felicíssimo com a vossa colaboração. Li todos os comentários atentamente, "mastiguei-os, digeri-os", ponderei-os e comparei-os. Depois pensei na história de " O Velho, o Rapaz e o Burro" e dei comigo a pensar que em circunstância alguma há soluções consensuais para resolver problemas que envolvam terceiros. Por mais justa que nos pareça a solução que tomemos, haverá sempre quem as critique, porque há sempre diversos pontos de vista.

Nas relações pessoais somos, diariamente, confrontados com situações onde somos postos à prova e, sem que muitas vezes nos apercebamos, estamos igualmente a pôr os outros à prova. Quando se trata de questões familiares, o problema ganha outra dimensão e por vezes leva a quezílias e até rupturas. Aprendi há muito que é difícil ser pai, mas chegamos a um momento em que ser filho pode ser igualmente complicado. Tenho percebido isso nos últimos anos. Nem sempre a atitude que um filho toma, com a melhor boa-fé, para proteger os seus pais, é compreendida pelos restantes familiares. Em certa medida temos para com os idosos a mesma postura que temos para com as crianças e adolescentes. Procuramos protegê-las, mas tudo fazer para que sejam felizes. Muitas vezes os filhos não compreendem essa forma de agir dos pais, rebelam-se, protestam, sentem-se injustiçados. No entanto, uma criança/adolescente tem oportunidade de construir a sua vida e reparar as "injustiças" de que julga ter sido alvo. Um erro com um idoso, não é fácil de reparar, porque o seu futuro não é a vida, mas a morte. Um erro com um idoso pode resultar, para quem cá fica, no remorso para toda a vida.

No caso que vos coloquei, é esse o grande problema. Privar um idoso de um prazer, é negar-lho para o resto da vida. Mas se lhe permitimos o gozo desse prazer e daí resulta a sua morte? E se o gozo desse prazer ainda por cima leva à morte de inocentes? Teremos remorsos para o resto da nossa vida, não é?

Ao ler os vossos comentários fui sendo assaltado por essa questão. Não sei ainda como agir, mas penso que talvez a melhor solução seja pensar em mim e evitar remorsos para o resto da vida. Talvez seja mais fácil viver com o remorso de tirar um prazer a uma idosa- sujeitando-me a arrostar com as críticas - do que viver o resto da vida com o remorso de ter contribuído, pela minha incúria, para a morte de inocentes e até poder vir a sentir-me culpado por destruir uma família. ( Imaginem, por exemplo, se um acidente provoca a morte de um casal que deixa dois filhos órfãos...)

Ao fim e ao cabo, constato que nunca me expus tanto aqui no CR, como no post de ontem. Mas afinal, não é isso que todos nós fazemos quando socialmente somos obrigados a tomar decisões complexas?

Adenda: Tudo seria mais fácil se o Estado impusesse uma idade limite para a carta de condução. A mim parecia-me do mais elementar bom senso, dada a complexidade de questões em causa, mas os mais liberais logo se rebelariam, acusando o Estado de intromissão na vida de cada um. Talvez tenham razão... eu é que continuo a pensar que o Homem é um ser social que deve pôr o interesse comum acima dos seus interesses individuais.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Verdade inconveniente

A Senhora Z tem 93 anos. Tem carro, carta de condução e… conduz!
Enalteci várias vezes a sua jovialidade. Ontem, conduzi a senhora Z e fiquei preocupado. Primeiro, porque percebi que tem dificuldade em reconhecer os sinais de trânsito. Depois começou a insistir para eu meter por ruas de sentido proibido. Quando lhe dizia que não podia fazê-lo, olhava para mim com um certo ar de desprezo e dizia-me:
“ Meu filho, sempre se pôde ir por aí, ninguém conhece melhor o Porto do que eu, mas tu sempre foste teimoso, vai lá por onde queres.”
Deixei de olhar para a senhora Z como um exemplo. Passei a vê-la como um perigo público. Além disso, ao fim de semana, a minha mãe não tem motorista e gosta de ir tomar chá com a senhora Z e outras amigas à Foz, Vila do Conde, Espinho e Santo Tirso.
Contei à minha mãe as minhas preocupações e ela censurou-me. “ Estamos todas velhotas, mas temos a cabecinha no sítio, meu filho. A senhora Z ainda há tempos foi ao médico e ele disse-lhe que podia continuar a guiar, desde que tivesse cuidado”.
Eu acredito que a senhora Z, a minha mãe e as amigas tenham cuidado, mas tenho medo que um dia destes aconteça uma desgraça.
Falei como filho da senhora Z , meu amigo de infância, que partilha as minhas preocupações e me disse:
“ Que queres que faça? Tentei arranjar-lhe um motorista, rejeitou. Tentei convencê-la a deixar de guiar e vender o carro, perguntou-me logo se depois a ia meter num lar. Já não sei o que hei-de fazer, até porque toda a gente lhe acha muita graça, diz que ela está muito boa para a idade e que eu estou a ser muito egoísta”.
Eu e o filho da senhora Z não sabemos como resolver este problema. Nenhum de nós, como é óbvio, vai queixar-se a polícia, muito menos o filho da senhora Z que seria condenado em praça pública se ousasse “denunciar a mãe”. Mas se um destes dias acontece uma desgraça, quem fica com remorsos para o resto da vida somos nós. E outros podem ser vítimas sem terem culpa nenhuma.
É um tormento, não acham? Mas como se pode resolver?

domingo, 26 de outubro de 2008

Em estado de choque...


Há muito tempo que não via o meu clube perder duas vezes seguidas em casa. Ainda por cima ontem, diante do Leixões, perdeu muito bem, porque não jogou o suficiente para merecer outro resultado.
Não pertenço àquele grupo de adeptos que assobia a equipa quando joga mal, nem tão pouco atiro pedras ao treinador e à direcção quando a equipa está na mó de baixo.
Desta vez,porém, não consigo calar o meu desapontamento.
Não há desculpas. Nem falta de sorte ( a trave e os postes fazem parte do jogo) nem erros do árbitro.
A verdade é que falta serenidade à equipa desde a pré-época. A novela Quaresma foi apenas um penúncio e, antes de a época começar, disse aos amigos que não esperava nada de bom.
A SAD do FC Porto tem enveredado, nos últimos tempos, por um caminho que não defende os interesses do clube no plano desportivo. Dispensam jogadores portugueses de grande qualidade e vão buscar estrangeiros de segunda e terceira classe, sem lugar na equipa. Saem jogadores como Paulo Assunção- que equilibrava a equipa- para recrutar meia dúzia à experiência, a ver se dá.
Alinho, há muito tempo, com as críticas de Miguel Sousa Tavares, secundadas por Rui Moreira. O FC Porto não pode delapidar, em erros sucessivos de gestão, aquilo que alcançou com muito esforço ao longo de duas décadas.
Nunca deixarei de estar grato a Pinto da Costa pelo trabalho e amor ao FC Porto, que permitiu a conquista de títulos nacionais e internacionais ( a nível externo é a equipa portuguesa com mais títulos), mas é altura dele dar umas vassouradas na SAD. Para seu bem e do clube.
Estarão, neste momento, muitos benfiquistas e os seus escribas de serviço na imprensa desportiva com sorrisos de orelha a orelha. Não os invejo. Prefiro ser adepto de um clube onde os jogos se ganham e perdem dentro das quatro linhas, sem recurso a golpes baixos.
Vivi muitos anos sem títulos e não foi por isso que deixei de ser portista.
Neste momento, apesar de estar muito triste, não procuro inventar desculpas.
Já o disse várias vezes, mesmo em tempo de vacas gordas: Jesualdo Ferreira não é treinador para uma equipa do FC Porto em construção e há gente na SAD que está a mais.
Ou há grandes mudanças, ou o desgaste evidente trará consequências funestas.
O clube já atravessou uma fase muito má, com três treinadores numa só época. Depois do descalabro Octávio Machado, ganhou tudo o que havia para ganhar.Nunca deixou de ser grande.
Tenho a certeza que vai continuar a sê-lo. Haja coragem para tomar as medidas que se impõem.

sábado, 25 de outubro de 2008

Na hora da ressaca


Depois de uma festa tão animada e com uma organização soberba da Si , só podia ser... hoje acordei de ressaca!
Ainda estou com remorsos, só de imaginar como a vizinhança toda deve estar... com os pés doridos depois de tanta calcadela que apanhou dos meus "pés de chumbo".
Como acontece sempre nos dias 25 de Outubro, ( desde que não ande em viagem) deu-me para a nostalgia. Este ano saiu esta piroseira, mas depois de ler o que escrevi, fiquei melhor...


As saudades que eu já tenho...


Do io-io e do pião,
da caneta de aparo
e do mata-borrão.

De coleccionar cromos,
em busca do "carimbado",
trocá-lo por uma bola
e ir jogar p'ró "pelado

Do velho carro de sabão
com que descia a ladeira
armado em campeão

Do triciclo enjeitado,
da trotinette colorida
da chegada do "compasso"
numa tarde de primavera florida

Da velha bola de trapos,
e das "marafonas" que as primas
tratavam com mil cuidados

Dos pregões de uma varina
que trazia o peixe da lota,
do leiteiro e do padeiro
que nos batiam à porta.

Do polícia sinaleiro,
da chegada do ardina
e do "Primeiro de Janeiro".

Das moedas de tostão,
de beber um pirolito,
das cascatas de S.João
e de ler o "Mosquito".

De ir ao Monumental
ver o filme da semana
antes de ser centro comercial

De beber uma "Buçaco"
na sala de um grande café,
enquanto jogava bilhar
ao ritmo do "yé-ye"

Das tardes de domingo
quando ia ao futebol
festejar um golo lindo

De namorar num "seiscentos",
de ir às praias da Linha,
de oferecer à namorada
uns caramelos "Vaquinha"

Da garrafa da "Laranjina C"
da publicidade à "Schweppes"
das primeiras séries da TV

Da velha loja de bairro
-do rezingão do Abrantes-
que eu sempre atazanava
com a pistola de fulminates

Que saudades tenho enfim....

De apanhar o eléctrico,
o autocarro verde, o troley bus...
(Num abrir e fechar de olhos
Que velho que eu me pus!)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

No melhor bairro do mundo!



Quando esta manhã fui à caixa do correio e comecei a ler os comentários, fiquei a pensar quem seria a vizinha que tinha uma bola de cristal para adivinhar que a Madalena Iglésias não era a única a fazer anos hoje! Depois de muito matutar ( não sou nada bom nesse desporto da parte da manhã- também gosto é de caminha...) encontrei o culpado: o Pedro Oliveira. Há tempos, convidou-me amavelmente para ir hoje ao aniversário do Vilaforte, mas tive de recusar e expliquei-lhe a razão. Claro que no blogobairro há sempre umas simpáticas cuscas que espreitam as caixas de comentários e foi assim que fui desmascarado pela Patti... E vocês sabem como são estas coisas de vizinhos, não sabem? Resultado: ao fim da tarde fui apanhado numa "surprise party" organizada pela minha afilhada Si. Querem sabe os pormenores? Então têm bom remédio e vão lá ver. ( clicar aqui)


Ficam a saber a ementa, podem ver os vestidos das comadres Patti e Bluevelvet e da Si ( não mandem muitos assobios e piropos, ó malta da pesada!), ouvir uma musiquinha e provar os aperitivos. Não tive tempo para fazer o bolo, desculpem lá...

Aquilo vai ser de arromba, vos garanto, porque está lá toda a vizinhança. E até há quem venha da estranja! Este é o melhor bairro do mundo, podem crer.Bendito dia em que vim para aqui morar. Bom, eu estou com muita pressa porque já estão à minha espera e, como sabem, não gosto de chegar atrasado. E com aquela musiquinha e as fotografias que já vi da viznhança, este "pé de chumbo" não vai parar toda a noite. Elas são todas de cortar a respiração....'Tou que nem posso!



Hora de balanço



Já fiz um pouco de tudo na vida . Vendi livros, gastei tardes de sábado da minha juventude a fazer catálogos para editoras, fui jornalista, fui editor de revistas, andei nas vindimas, trabalhei em ONG’s e organizações internacionais, fiz voluntariado e tentei levar conforto aos sem-abrigo, criei associações e cooperativas, fui funcionário público, assessor de ministro, trabalhei em escolas, vi nascer, florir e morrer, projectos que criei em variadas áreas, vivi em três continentes onde trabalhei, estudei e fingi que estudei, percorri o mundo à descoberta de mim e… acabei por encontrar-me, algures na Patagónia, entre o Chile e a Argentina onde fui - e espero voltar a ser – ABSOLUTAMENTE feliz.
Na hora de balanço posso dizer que tive uma vida cheia, mas hoje sou um velho igual a todos os outros ( sim, não me lixem, depois dos 50 anos qualquer pessoa é tratada como velho, ninguém lhe oferece emprego apetecível- a não ser àqueles que todos sabemos). Sou rezingão, por vezes agressivo, comovo-me e olho para o futuro com um olho no passado. A única diferença é que talvez tenha mais recheio.
É esse recheio que me permite pensar que o importante é olhar para trás e não me arrepender das escolhas solitárias que fiz; da liberdade de movimentos que sempre exigi e almejei; de ter amado a minha profissão; de me congratular por ter ignorado os avisos dos que pretendiam que me tornasse em soldadinho de chumbo com trabalho das 9 às 17 e salário certo ao fim do mês; de ter a consciência tranquila, porque nunca atropelei ninguém para alcançar os meus objectivos; de nunca ter traído um(a) amigo(a); de sempre ter tentado ser objectivo ( o futebol não conta!!!) no meu trabalho; de nunca ter espezinhado os interesses dos outros, para poder ter uma notícia.
Continuo a acreditar que melhores dias virão para o mundo porque, apesar de tudo, confio nos jovens que apostam num futuro melhor e rejeitam o monte de cacos que vamos deixar-lhes em herança.
Mas, hoje, é dia para repensar o MEU futuro.
Entre livros, tangos e milongas, e a vista do Parque Nacional de Los Alerces a servir-me de musa inspiradora, tudo o que mais desejo é poder acordar todos os dias com a Felicidade a meu lado.

Adenda: Obrigado a todos os que se lembraram deste dia. Vocês são os melhores vizinhos do mundo! Não tive tempo para fazer bolo, nem para muitas visitas no blogobairro. Também não respondi aos vossos comentários. Enfim, portei-me mal, mas sei que hoje estou perdoado.
Amanhã, a vida continua!

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Agressivo, eu?


Há quem me acuse de escrever de forma agressiva e talvez tenha alguma razão. Considerar isso um defeito, não me parece muito justo.
Eu sou do tempo em que não havia Centrão e existia um Partido Socialista que tinha uma mão fechada como símbolo -sobre um fundo vermelho de que ninguém se envergonhava - onde se discutiam ideias e se respeitava a opinião dos outros. A mão fechada não assutava gente de carne e osso.
Já não pertenço a esta geração abreviada dos PS's, rosadinhos, que prefere rosas sem espinhos e, em vez de ideologias, discute a distribuição de cargos na Administração Pública e em empresas controladas pelo Estado. Já não pertenço à geração que entende o serviço público não como forma de servir, mas de servir-se.
Ainda sou do tempo em que se trocava a privada pela Função Pública com orgulho, pronto a defender a camisola de um país e os interesses dos cidadãos, se escrevia em liberdade e se respeitavam as opiniões. Portanto, ser agressivo para mim, não é defeito, é feitio.
Mas querem saber porque sou agressivo? Por aquilo que já vi na vida…
Gente com fome a trabalhar na apanha do café, recebendo como salário diário o equivalente a meia bica ; crianças sujeitas a violências, obrigadas a trabalhar de sol a sol, para encherem as montras e escaparates com brinquedos a que nunca terão acesso; mulheres com estatuto de animais, carregando às costas o peso de uma culpa que não têm; aviões carregados de chineses a aterrar na ilha de Guam, para trabalharem como escravos em multinacionais de vestuário; operárias no Vietname de lábios cosidos, para não poderem falar enquanto trabalham; choros de crianças abafados por balas; defensores dos direitos humanos fazendo turismo em Myanmar; voluntários qualificados, que se propuseram ajudar povos carenciados, a serem tratados por algumas ONG como criados, a quem está vedado dar opiniões , porque algumas ONG se tornaram em braços armados e escondidos de alguns ditadores no poder.
Por isso me irritam os betinhos que nunca viram isso e fazem vida na Bica do Sapato, no Pap’açorda, (e outros locais de culto da esquerda e da direita) aumentando o vigor na defesa dos seus princípios, à medida que lhes acelera, no sangue, a velocidade dos vapores etílicos.

América Latina, aí vou eu!

Hoje, às 18.30, vou até à América Latina!



Vou de boleia com o Luís Sepúlveda que, no Corte Inglês, vai apresentar o seu último livro " A Lâmpada de Aladino" Sniff! Sniff!

Erros de "casting", ou talvez não...

Quando li este post do Pedro Rolo Duarte, lembrei-me de um episódio contado pela Filipa Martins no lançamento do seu livro. Dizia ela que há alguns anos ( poucos, presumo, porque ainda é muito jovem) enviou um manuscrito para apreciação a um jornalista-escritor e recebeu uma crítica avassaladora que a desmotivou. Pensou mesmo que nunca mais voltaria a escrever. Em boa hora repensou a sua posição e ali estava ela, vencedora do prémio da APE, a lançar o seu livro. A apresentação coube a Baptista- Bastos -que lhe teceu rasgados elogios. Por coincidência, o jornalista-escritor que anos antes lhe fizera uma crítica duríssima!
Quando ouvi esta história lembrei-me do sr. Borges e deste post que estava no frigorífico, mas hoje devolvo à vida:

Grande parte dos meus posts são escritos com base em cenas da vida real – o que não é novidade para ninguém- ou surgem enquanto estou a trabalhar. Outras vezes, ma ideia que me assalta de repente, vinda de não sei onde, obriga-me a interromper o trabalho e a escrever sobre temas que normalmente não estão relacionados com o trabalho que estou a fazer mas que me (a)parecem (como) uma espécie de revelação. Às vezes resisto à tentação, tomo umas notas no meu inseparável Mouleskine e dias mais tarde faço uma operação de repescagem, Muitos perdem-se nesta tarefa.
Desta maneira de alimentar o CR tirei uma conclusão: há muitas histórias ( que considero) boas que nunca chegam a ver a luz do dia. Até nesta coisa da escrita, tudo é uma questão de oportunidade. Quantas palavras ficaram por ser ditas, pela simples razão de não ter tido tempo de as passar para o meu Mouleskine, ou de as juntar dando-lhes forma e vida? E, se calhar, muitas delas mereciam mais essa oportunidade, do que outras que aqui vêm parar.
Tudo isto para vos dizer que, na minha modesta opinião, o mesmo se passa na vida de cada um de nós. Quantas oportunidades perdidas, quantos talentos por descobrir, apenas porque ninguém lhes deu ensejo para isso? Ou porque alguém fez uma avaliação errada? Ou porque lhes faltou rasgo para as apresentar a quem podia contribuir para lhes dar forma?

E quantos "talentos" descobertos que não são capazes de agarrar a oportunidade de um "casting" que os lançou para a ribalta e se perdem na voragem do tempo?

O mundo, apesar de injusto, por vezes é capaz de corrigir os seus erros, como fez nos casos de Filipa Martins e Monica Marques. Não tem tempo é para os corrigir todos e, por vezes, são os Homens que não lhe dão essa oportunidade!

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A galinha da vizinha...


Já lhe chamam, em tom de chacota, a “Igreja Bolivariana de Chavez”. Não caiu bem, nos espíritos conservadores, sempre prontos a denegrir o líder venezuelano, que o ex-acólito abandonasse a Igreja Católica, desgostoso, para se tornar membro de uma outra congregação.
Bastaria, porém, pensar um poucochinho, para que quem aponta o dedo a Chavez percebesse que nenhum católico, com um mínimo de compaixão e amor a Cristo pode esquecer os crimes da Igreja Católica na América Latina.
As ditaduras sul-americanas foram sempre apoiadas pela Igreja. Pinochet recebeu a bênção de Roma e os ditadores argentinos foram vistos com complacência e cumplicidade pelos homens da batina preta. Em ambos os países os padres ajudaram os governos a perseguir as pessoas que se opunham aos ditadores e, não contentes com isso, alguns prestaram-se ao papel de algozes, participando em acções de tortura. No Brasil, todos sabemos que a Igreja se curvou em genoflexão reverencial, perante os ditadores e os senhores das terras, alguns padres apoiavam as práticas dos jagunços.
Nenhum católico pode olhar para os crimes da Igreja Católica, encolher os ombros, indiferente, e considerar os crimes como casos isolados. Porque não foram…
Quem fala ou escreve denegrindo a Igreja Bolivariana, deveria olhar para o Vaticano e acusá-lo de ser co- responsável por muitas atrocidades no mundo inteiro.
Quem pensar que o espírito inquisitorial, o pensamento retrógrado, por vezes fascista, dessas ovelhas de Deus é coisa do passado, não precisa de ir muito longe para confirmar que está enganado. Basta ir a algumas missas nas nossas aldeias, onde esses “ funâmbulos da cruz” chegam em grandes bólides para celebrar a missa e pregar contra as injustiças do mundo, para perceber que “Bem prega Frei Tomás”…
Ataquem Chavez no que quiserem, mas não por querer – e acreditar- uma Igreja que defenda os interesses dos povos sul-americanos tão vilipendiados e perseguidos.
A omnipresente ditadura dos bons costumes, que o Ocidente pretende exportar para todo o mundo, como latas de salsichas, não serve aos sul-americanos.

Uma questão de etiqueta(s)

Ontem estive num espaço do Portugal Sentado onde nunca fora antes. Juntei-me a sete pessoas que não conhecia de lado nenhum, com o propósito de discutir questões de sustentabilidade num concelho vizinho de Lisboa. À frente de cada lugar, uma placa identificando os lugares onde trabalham. Não havia nomes. Todos se tratavam por engenheiros, arquitectos e doutores.
Ao fim de duas horas tive de perguntar o nome das pessoas, para melhor as identificar. Olharam-me com algum espanto e uma atrevidota, com ar de elefante triste a quem roubaram um dente para vender no mercado negro, lançou-me em tom jocoso:
- Mas sabe os locais onde trabalham, não sabe?
Respondi que sabia ler mas, provavelmente por problemas de visão, não tinha conseguido ler os nomes de cada um.
Quase todos me olharam com algum desprezo, excepto a engª do ambiente que me lançou um sorriso. Provavelmente de condescendência.
O dono deste Portugal Sentado, a quem ontem competia dirigir a reunião, sossegou-me:
-No final, a minha secretária fornece-lhe uma lista com os nomes.
Senti-me personagem de um filme. Aquilo não me estava a acontecer. Fechei o cenho em sinal de protesto.
No final todos, muito solícitos, vieram apresentar-se. Claro que não fixei os nomes e decidi borrifar-me para a lista da secretária do sr. Engº.
Dentro de duas semanas serei anfitrião deste espaço do Portugal Sentado. Jurei a mim mesmo que vão ter uma surpresa. Se gostam de etiquetas, vão tê-las. Vou identificá-los pelos serviços, mas à frente vou pôr um número. Depois , em vez de dizer “tem a palavra o sr. Engº do ….” , direi:
- Tem a palavra o nº 5. Algumas objecções a esta proposta, nº 3?
Quem julga que sou incapaz de fazer isto, não me conhece mesmo!

Conversas com o Papalagui (37)

- Em que rede é que te moves?
-Na Net… não conheço outra!
- Não é dessa que falo. Refiro-me à rede de relações
-Não tenho dessas redes... Sou free lancer da vida
-Então assim não vais longe….para se conseguir algo na vida temos de estar numa rede.
-Mas isso tem um preço, não tem?
- De que te serve a independência, se não conseguires passar da cepa torta?
-Estou bem nesta cepa torta. Tenho a espinha direita e durmo tranquilo com a minha consciência.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Pobrezinhos, mas honrados...

Somos ( no cômputo de 70 países da OCDE) um dos que mais aumentou a desigualdade e o fosso salarial entre ricos e pobres, nos últimos 20 anos. Temos razão, no entanto, para estar orgulhosos pois ficámos classificados a par dos EUA, facto bem demonstrativo que o fosso entre Portugal e a primeira potência mundial está efectivamente a reduzir-se.
Esta distinção só foi possível graças às políticas equitativas dos governos socialistas e social-democratas ( vá lá, sejamos justos, os democratas cristãos de Paulo Portas também deram uma ajuda) que dirigiram o país nesse período. Seria razão suficiente para mandarmos o Centrão e o seu apêndice populista pela borda fora em 2009, mas os portugueses gostam de sofrer em silêncio e preferem abster-se. Basta-lhes o orgulho de Portugal ocupar o 10º lugar no “ranking” da futeboleira FIFA.
Pobrezinhos, mas honrados, não é? Onde é que eu já ouvi isto?

Sem surpresa...


A entrevista de MFL a Constança Cunha e Sá foium desastre! Contraditória quando tentou justificar o imbróglio da candidatura de Santana Lopes a Lisboa. Incoerente nos ataques ao governo e principalmente a Teixeira dos Santos. Desmemoriada, quando criticou políticas do governo que ela iniciou. Incapaz de mostrar que tinha uma alternativa para o país. Onde se lhe exigiam propostas concretas, divagou na vacuidade de um discurso que só convence adeptos empedernidos do clube laranja. Oposição precisa-se!

Humor(4) - A solução

Como previra, foram muitos os leitores que acertaram, ou pelo menos andaram muito perto.
Na realidade não era difícil adivinhar que, no dia seguinte, o barbeiro londrino encontrou à porta da barbearia 12 portugueses à espera para cortar o cabelo!

Obrigado pela vossa participação.

Dicionário do Rochedo (37)

Promoção (1)- Método utilizado pelos comerciantes para vender aquilo que os consumidores não querem comprar; forma expedita de se desfazer dos monos; venda a um preço mais justo, de produtos cujo valor estva inflacionado;

Promoção (2)- Método de progressão profissional que raras vezes é feita por mérito; a forma mais eficaz de conseguir uma promoção é bajular o chefe, mas há quem confie também na eficácia da promoção em rede, neologismo criado para definir a "cunha".

Auto-promoção- Forma de insinuação que consiste em obter uma promoção evidenciando méritos fictícios, que um bom discurso pode tornar reais ; capacidade de persuasão.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Momento de Humor(4)

Um dia, em Londres, um florista foi cortar o cabelo. Depois do corte, quando ia pagar, o barbeiro diz: - 'Lamento, mas não posso aceitar o seu dinheiro. O que fiz foi um serviço à comunidade.'
O florista ficou satisfeito e foi-se embora.Na manhã seguinte, ao chegar à loja, o barbeiro encontrou uma dúzia de flores e um cartão que dizia 'Obrigado'.

Noutro dia, um polícia foi lá cortar o cabelo. Depois do corte, quando ia pagar, o barbeiro diz:- 'Lamento, mas não posso aceitar o seu dinheiro. O que fiz foi um serviço à comunidade.'
O polícia ficou satisfeito e foi-se embora. Na manhã seguinte, ao chegar à loja, o barbeiro encontrou uma dúzia de donuts e um cartão que dizia 'Obrigado'.

Um dia depois, um português foi lá cortar o cabelo. Depois do corte, quando ia pagar, o barbeiro diz: - 'Lamento, mas não posso aceitar o seu dinheiro. O que fiz foi um serviço à comunidade.'
O português ficou satisfeito e foi-se embora.Na manhã seguinte, ao chegar à loja... adivinhem o que o barbeiro encontrou à porta ...

Dêem os vosso palpites. Hoje, durante o dia, revelarei a resposta. É muito fácil!

O jantar do Waldorf Astoria


Assisti, ontem, às imagens do jantar de Obama e Mc Cain no Waldorf Astoria. Pelo que me apercebi, respirou-se boa disposição, houve piadas e gargalhadas francas. Ninguém se ofendeu com as grilhoadas e até Hillary Clinton rebentou em efusivas gargalhadas, quando Mc Cain insinuou que estava ali para o apoiar.
Não pude evitar a comparação com um putativo jantar entre Sócrates e Manuela Ferreira Leite, durante a campanha para as legislativas de 2009, com os exércitos de acólitos cinzentões , sorumbáticos e subservientes, a aplaudir palavras mal dispostas
Já imaginaram como seria? Sócrates e MFL têm sorrisos de plástico, são incapazes de soltar uma gargalhada aberta, mas a verdade é que portugueses também nunca levariam a sério dois candidatos que ousassem gargalhar diante das câmaras, enquanto trocavam alguns piropos. Gostam deles sisudos, com postura de Estado ( seja lá o que isso for), prontos a exibir o chicote, se for necessário, para os pôr na ordem.
Estamos a anos –luz dos americanos, porque não temos cultura democrática. Dizemos que os políticos são uns chatos, mas é assim que gostamos deles.
Os portugueses ainda não se libertaram das grilhetas do Estado Novo que os tornou demasiado circunspectos, reflexivos e incapazes de exercer a nobre arte do riso. Essa é uma matéria para profissionais como os “Gato Fedorento”, os “Contemporâneos” e similares. Os portugueses só se reconhecem o direito de rir a horas certas e comandados por quem saiba do ofício. A gargalhada espontânea não faz parte do seu modelo comportamental. Devem considerá-la primitiva ou própria de gente que não deve ser levada a sério. Faz falta aos portugueses alguém que lhes diga, olhos nos olhos, que rir faz bem à saúde, alivia o “stress” e é um condimento essencial à vida.
Por isso é que tenho saudades de Mário Soares e das suas bochechas de “bon vivant” ou daqueles frente-a -frente com Cunhal ( uma pessoa com um humor refinado, que também não recusava uma boa gargalhada).

Rock 'n stock (5)


Há dias assim. Uma pessoa levanta-se estremunhada porque faltou a luz durante a noite e o despertador não cumpriu o seu dever de o acordar... e está o caldo entornado. Enquanto toma o duche lembra-se que vai chegar atrasado à reunião das 10 ( o que o deixa profundamente irritado, porque é uma pessoa pontualíssima) e desiste de tomar o pequeno almoço em casa. Decidido a trocar a reconfortante refeição matinal, por uma bica e um queque apressados no café da esquina, sai de casa disparado, pronto a deitar para trás das costas o mau começo de dia. Só que há alguém que não está pelos ajustes. No café da esquina não há luz, por isso não há bica e no caminho para o emprego o metropolitano tem a brilhante ideia de avariar.
Chega atrasado à reunião, o seu dia programado ao minuto está em vias de se estilhaçar. Tenta recuperar a calma, mas nada feito. Ao longo do dia os percalços e contrariedades sucedem-se. É o computador que insiste em desobedecer às suas ordens, o fornecedor que não cumpriu a entrega aprazada para esse dia, o chefe que implica com o seu trabalho e uma parafernália de minudências que o deixam exausto. Quando chega a casa, pronto para relaxar e ir até a um cinema, lembra-se que “amanhã” é o último dia para entregar o texto ao editor . E como é pontual e não quer atirar para cima dos outros as responsabilidades que são suas ( quem é que o mandou esperar pelo último dia para escrever o artigo?) troca o ecrã do cinema pelo do computador e mãos à obra! O problema é que a inspiração não abunda e tudo o que a sua mente lhe reserva, no espaço que ainda tem disponível para pensar, é IRRITAÇÃO!
Assim nasceu este texto. Fruto de um dia que prolongou pela noite um estado de espírito que aviva as coisas que me irritam enquanto cidadão e consumidor.
Quer o leitor saber o que me irrita? Então aqui vai:
Irrita-me pedir a conta num restaurante e ouvir o empregado perguntar “ Deseja factura?” E por que razão é que eu não havia de querer factura? Não é uma obrigação dos restaurantes passar factura? É obrigação de quem presta um serviço ou vende um produto. E é obrigação de quem consome exigi-la, até porque é indispensável para fazer qualquer reclamação. E é, também, uma questão de cidadania, de respeito por quem paga impostos.
Outra coisa que me irrita é chegar a uma lavandaria e pedirem-me para pagar adiantado. Recordo logo a esses pedinchas um conselho da minha Mãe que, na sua sabedoria de 94 anos, sempre afirmou: “ Quem paga adiantado é sempre mal servido”. Se do outro lado do balcão reagem com indignação, então aviso que tal pedido é ilegal e fica o assunto arrumado!
Irrita-me também que ameacem cortar a água em minha casa, pelo facto de não ter sido paga a água de outra casa onde não vivo há dez anos, mas que por incúria de alguém ainda tem o contador em meu nome. E mais irritado fico, quando essa cobrança respeita a facturas não cobradas há mais de seis meses. Ao querer cobrar-me essa dívida, a empresa não está a respeitar a Lei dos Serviços Públicos Essenciais que isenta o consumidor de efectuar qualquer pagamento que não lhe tenha sido solicitado nos seis meses subsequentes. E já que estamos a falar de serviços públicos, irrita –me ter que andar a descobrir facturas de telefones de 1999 para apresentar na PT, a fim de ser reembolsado de uma quantia que a empresa me cobrou indevidamente e o Tribunal a obrigou a devolver-me.
E já não me irrita, porque me deixa os nervos em franja, a falta de pontualidade dos portugueses. Por isso delirei quando há tempos o Carlos Fagundes impediu que os retardatários vissem o seu espectáculo, mas logo dois dias depois mergulhei numa grande depressão, quando fui ao cinema e me obrigaram a levantar meia dúzia de vezes, depois de o filme ter começado, para deixar passar os atrasados. Em Portugal nada se faz a horas: gastam-se tempos intermináveis em consultórios de médicos pagos a peso de ouro; desespera-se pela entrega da mobília, do televisor, da peça de roupa, ou de um simples par de óculos, certamente porque as empresas que fornecem estes produtos são como algumas pessoas finas que gostam de chegar atrasadas a todo o lado, para dar nas vistas; espera-se pacientemente que o tipo que vai contar a luz às 10 horas chegue duas horas depois. Por isso saúdo com alegria a iniciativa de um grupo de cidadãos que decidiu apresentar uma petição na Assembleia da República, no intuito de tornar os portugueses mais pontuais. A pontualidade é também uma questão de cidadania e quando a desrespeitamos estamos a contribuir para a perda de produtividade, num País que tanto dela carece.
Já chega de irritações, mas ainda há espaço para apontar o dedo aos automobilistas que deixam os carros estacionados em segundas filas, atrapalhando o tráfego ou, pior ainda, estacionam atrás de outro e vão à sua vidinha, sem se importarem se estão a transtornar a vida a outras pessoas. Quando ao fim de meia hora enfim regressam, em vez de pedir desculpa, ainda são capazes de se achar cheios de razão. E dêmo-mos por felizes se o transgressor se limitar a dizer, com ar cândido “foi só um minutinho!” pois às vezes ainda lançam alguns vitupérios, indignados com a nossa impaciência.
Lisboa, Abril de 2004
Texto ( reeditado) escrito para a revista "Tempo Livre"

Dicionário do Rochedo (36)

Parabólica- Antena que permite captar os programas de televisão de outros países, para podermos constatar que na generalidade são tão maus como os nossos. Caiu em desuso desde o aparecimento da TV Cabo e o lixo televisivo passou a fazer parte da globalização.

domingo, 19 de outubro de 2008

Prendinhas ... segunda parte

Os presentes que me ofereceram deveriam, segundo as regras, ser atribuídos a outros blogs. Tudo somado, deveria atribuir prémios a mais de 60 blogs. Ora, meus amigos, isso parece-me uma tarefa extremamente complicada. Assim sendo, vou seguir o exemplo da Fada. Vou quebrar as regras e fazer atribuições de acordo com regras minhas que passo a enunciar:
Atribuo o prémio da Carol aos três seguintes blogs:
Ares da Minha Graça
Salvoconduto
Nocturno
O prémio atribuído pela Gi vai para estes sete blogs:
Ana Camarra, Isto tem dias
Ana Vidal, Porta do Vento
Ana Casanova, Ana Vision
Ângela, Com a luz acesa
Justine, Quarteto de Alexandria
Maria, Vera Nuda
Sun iou miou, Isto non e um cabaré

Os prémios atribuídos pela Blue Velvet e pela Fada, vão exclusivamente para 15 blogs que ainda não pude linkar na coluna da direita, mas visito com frequência:
Gi, Só falta um 31 na minha vida
Filoxera, Escrito a Quente
Ka, O blog da Ka
Lúcia, Rosmaninho da Serra
Miepeee Koud
Ferreira Pinto, Notas soltas, ideias tontas
Violeta, Fragmentos de uma Vida
Cristal, Sem tom nem som
Pensamentos a metro
PDuarte, O último pingo
João Videira Santos
Paula Crespo, Uma espécie de mim
Sónia Pessoa, Os livros que ninguém quis dar a ler
Páginas com sentimento
Rafeiro Perfumado
Vekiki Projects

Há outros blogs com grande qualidade que também vou linkar brevemente, mas elegi estes para os prémios, porque são os que visito com mais frequência e há muito deviam estar na coluna da direita. Outros há que também mereciam estar aqui mas, por ainda serem muito recentes, espero para ver no que vão dar. No Natal haverá grandes novidades!

Prendinhas... primeira parte

As leitoras - e leitores- do CR têm sido de uma extrema generosidade para comigo, cumulando-me de palavras simpáticas que me incentivam. Algumas têm-me também oferecido presentes mas eu, mergulhado no turbilhão dos últimos dois meses, tenho sido bastante indelicado. Agradeci individualmente, mas ainda não tive tempo de expressar publicamente o meu reconhecimento, nem de dar continuidade ao que algumas me pediam Peço a todas desculpa, embora saiba de atemão que todas já tiveram a generosidade de o fazer.
Hoje, aproveitando o último dia de uma pausa no trabalho a que me obriguei, aproveito para rectificar ( ainda que parcialmente) a minha indelicadeza. Digo parcialmente, porque ainda não é hoje que coloco esses presentes no slide show, pelo que para os verem terão que clicar nos links.
Então aqui vai, por ordem de chegada:
A Bluevelvet , no dia de anversário do seu blog presenteou-me com todos estes prémios que não consegui linkar, mas que podem ver no site dela, nos dias 1 e 2 de setembro
A Carol ofereceu-me este
A Fada ofereceu-me estes
E finalmente a Gi teve a amabilidade de me oferecer este.
A todas renovo os meus agradecimentos e em breve ( talvez ainda hoje) vou cumprir o meu dever de os atribuir a outros blogs.
Em breve, também poderão vê-los no slide show que vou criar. Mas isto exige alguma disponibilidade de tempo, não é?

sábado, 18 de outubro de 2008

Desmancha-prazeres

Esta paisagem merecia um restaurante decente
Tinha tudo para ser um sábado perfeito. Sem pressão de trabalhos para entregar, pensava descomprimir de uma semana muito intensa. Ontem, ao fim da tarde, uma má notícia - que pode hipotecar os planos que tinha para um futuro muito próximo - fora o sinal de aviso de que afinal o sábado não iria ser tão tranquilo. Decidi interpretá-la apenas como a constatação de que nunca devo fazer planos, porque saem sempre furados.
Noite mal dormida, levantei-me cedo. A Baixinha convenceu-me a ir até à Arrábida, com o pretexto de que por lá estava um tempo magnífico. Apesar do monstro da Secil do Outão, gosto imenso da zona, por isso acedi ao convite no intuito de espairecer. Tenho sempre um problema quando vou para aqueles lados. Lembram-se do que escrevi aqui sobre os restaurantes em Portugal? Pois na zona de Setúbal ( nomeadamente entre a cidade de Bocage e Sesimbra) essa percentagem só não ronda os 100 por cento, porque existem na cidade sadina dois restaurantes razoáveis. A opinião não é só minha. Tenho vários amigos em Setúbal que se queixam do mesmo. No entanto lá fui, cabelos ao vento, a gozar a temperatura convidativa e o sol prazenteiro.
Escolhemos um restaurante em Galapos, junto ao mar, onde nunca tinha ido. Peixinho fresco, grelhado no carvão, um mar verde a emoldurar Tróia - mais uma aberração urbanística construída a abrigo de um PIN.
O almoço foi um desastre! As ameijoas pareciam de borracha e a dourada ( fresca) maltratada em grelhador à vista, a chegar à mesa ressequida. E os preços, meus amigos? Dignos de um restaurante de luxo, numa tasca mal amanhada. Uma dose de ameijoas, duas douradas e uma garrafa de Herdade do Perdigão ( que não conhecia, mas me foi recomendada perante o meu desconsolo ao ver a sensaboria da lista, onde se destacava um Bucelas banalíssimo a 23 €) perfizeram a conta de 70€ ( o vinho custou 18). Sabem quanto pago por um quilo de douradas ainda a saltar, compradas na lota de Setúbal às cinco da manhã? 2€!

Quem vem ao Rochedo há muito tempo, sabe que viajo muito pelo país, quer por questões de trabalho, quer por prazer. Devo dizer-vos que nunca me sinto tão roubado como quando opto por comer no distrito de Setúbal ( excepções: um restaurante no Portinho, as Pousadas de Palmela e de S. Filipe de Nery e o restaurante do peixe, em Setúbal, cujo nome não me ocorre). Naquela zona come-se mais caro do que no Cima's, nas Furnas do Guincho, no Gordini, no Porto de Santa Maria, ou no Prazeres da Carne( são nomes que me ocorrem de restaurantes que frequento na Linha), com a agravante de não terem qualidade nem higiene.

A restauração em Portugal está a precisar de uma grande volta. É inadmisível que se pague num restaurante de qualidade o mesmo que numa espelunca de especuladores. É inaceitável, que se permita o funcionamento de restaurantes como o do João em Galapos. Por isso, na segunda-feira vai uma denúncia para a ASAE, em defesa do bom nome da gastronomia portuguesa.
E quanto aos meus amigos de Setúbal, sempre tão simpáticos na maneira como me recebem, peço-vos desculpa, mas vou iniciar uma cruzada contra os burlões do vosso concelho. Sim, concelho, porque do outro lado do Sado ainda há alguns restaurantes razoáveis.
Bem, pode ser que a Aimee Mann ainda me salve o sábado!
( Está a ver Patti, como não preciso de sair de Portugal para me enfurecer contra este projecto de país, onde o crime compensa?)


sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Dicionário do Rochedo- O desafio

Ora então aqui está o desafio de que vos falei. Como definir a palavra IMPECÁVEL? Logo à partida, parece-me uma palavra cuja existência não se justifica para além do universo da oralidade, porque escrita não faz ( para mim ) qualquer sentido.
Alguém escreve que uma pessoa é impecável? Não! Na expressão oral já se entende melhor a sua utilização. Quando alguém nos pergunta a opinião acerca de uma pessoa e nós não conseguimos realçar nela qualquer qualidade, respondemos: Fulano? Eh pá, esse gajo é impecável! Que quer isso dizer? Nada. O único conceito que consigo ligar a impecável é o vazio. Quero com isso dizer que uma pessoa impecável não tem nenhuma qualidade distintiva que mereça realce, daí que quem rotule uma pessoa de impecável, embora possa admitir que está a fazer um elogio, está na realidade a fazer exactamente o contrário. Mais ou menos como quem diz. Eh, pá eu não tenho nada a dizer contra ti, mas também nunca te descobri qualquer qualidade, por isso deves ser impecável.
Estão agora a perceber por que razão eu penso que ninguém escreve “ o fulano é impecável?” Quem vai elogiar alguém, por escrito, recorrendo a um conceito oco?
Eu admito que se diga “aquele tipo tem um comportamento impecável”. Apesar do relativismo do conceito, percebo que a pessoa está a querer dizer que “um tipo tem um comportamento impecável” é um tipo que se pauta por padrões que ele aprova, porque se coaduna com os seus. O problema é que se eu não conheço a pessoa que profere essa frase, fico sem saber o que ela quer dizer com “comportamento impecável”.
E se eu conheço a pessoa que proferiu a frase e o considero um sacana, mas desconheço a pessoa a quem ele se refere? Concluo, de imediato, que deve ser igualmente um sacana.
Depois ainda há outro problema. Não sei por que razão, conoto facilmente “impecável” com uma pessoa que não peca. Ora uma pessoa que não peca deve ser sensaborona e chata, e eu não gosto desse tipo de pessoas logo, para mim, uma pessoa “impecável” nunca poderá fazer parte do meu círculo de amigos. Conclusão imediata: impecável não é elogio, mas sim estigma.
E quando se trata de elogiar a forma como alguém se veste? “ Eh pá esse fato é impecável”, ou “trazes uns sapatos impecáveis”, o que se pretende dizer? Relembro: dizer. Alguém escreve esta frase num livro? “ Ela apareceu sorridente. Vinha impecável mente vestida” (? ) Para além da Margarida Rebelo Pinto, sinceramente, não estou a ver ninguém.
Bem, mas isto sou eu ( que não me considero uma pessoa impecável) a pensar. E quando penso ( coisa que raras vezes faço) dificilmente tiro conclusões definitivas. Dai que peça o vosso contributo. Como definiriam impecável? ( Não vale ir a correr ver as definições de outros dicionários…) É elogio, acusação, insulto, estigma ou apenas o tal conceito vazio de que vos falava no início?

Momento de humor (3)

Para acordar ( ou adormecer) com um sorriso

No início, Eva não queria comer a maçã.
- Come - disse a serpente - e serás como os anjos!
- Não - respondeu Eva.
- Terás o conhecimento do Bem e do Mal - insistiu a víbora.
- Não!
- Serás imortal.
- Não!
-Serás como Deus!
- Não, e não!
A serpente já estava desesperada e não sabia o que fazer para que a Eva comesse a maçã. Até que teve uma ideia.Ofereceu-lhe novamente a fruta e disse:
- Come... que emagrece...
( E foi assim o pecado original!)

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Vedetismo, ou falta de cacau?

Fui um dos que aclamou a escolha de Queirós ( embora houvesse melhores opções) porque, confesso, nunca me entusiasmei com o jogo chato da equipa de Scolari.É certo que as experiências de Queirós a nível de selecções foram um desastre ( África dos Sul, Estados Unidos, etc), mas lembrei-me sempre dos dois títulos mundiais que ele alcançou com os miúdos e acreditei que pudesse reeditar a façanha.
Os primeiros jogos pareciam dar-me razão. A equipa jogou bem e a derrota com a Dinamarca foi de uma injustiça atroz. Com a Suécia, comecei a torcer o nariz e ontem foi o descalabro total. Inadmissível. No entanto, apesar de continuar a dizer que haveria melhor solução, abstenho-me de deitar todas as culpas sobre Queirós. Os principais culpados, em minha opinião, são os jogadores, que andam armados em " prima donnas". Será a falta do Roberto Leal ou da N. S do Caravaggio que os deixa naquele estado? Ou será só uma questão de prémios?
Enquanto reflectia nisto, lembrei-me de um empate com o Liechtenstein ( 2-2, quando estávamos a ganhar 2-0 ao intervalo) no consulado Scolari.
Bem vistas as coisas, a vergonha de ontem não foi novidade.

Rock 'n stock (4)

Avenida da Igreja, fim de manhã solarenga, boa disposição pairando no ar.
Uma septuagenária atravessa a passadeira apoiada numa bengala. Lentamente, como impõe a sua idade, e a dificuldade de locomoção.
Em velocidade acelerada, um táxi aproxima-se e trava a fundo, mesmo no limite da passadeira. Quando a senhora vai a passar à sua frente, o motorista de táxi , num assomo de boa educação lança a cabeça de fora e grita:
“Oh velha! Atravessa mais devagar... Vê lá se queres uma corrida para o hospital!”
(seguiu-se um palavrão impublicável)
A senhora estacou. Soergueu-se com dificuldade, levantou a bengala e deixou-a cair sobre o capô, provocando um ligeiríssimo arranhão.
Valente, o motorista sai do carro com nítida intenção de tirar desforço. Diz que vai chamar a polícia. Três ou quatro transeuntes chamam-lhe a atenção para a grosseria e são brindados com um chorrilho de impropérios. Não reagem, porque percebem rapidamente que o motorista do táxi está embriagado (passam poucos minutos do meio dia, lembre-se!).
Um homem dos seus trinta anos tenta apenas aconselhá-lo a voltar para o carro e seguir o seu caminho. Como os impropérios continuam, aponta para um polícia que, postado numa esquina a poucos metros, observa a cena, fazendo menção de o chamar. Num ápice a autoridade move-se, ( em sentido contrário ao do local do incidente) e desaparece por uma rua adjacente. A custo, o motorista é posto dentro da viatura e segue o seu caminho com um chiar de pneus. No local, a senhora contém a custo uma lágrima que a mão trémula (mais que habitualmente, por certo) disfarçadamente enxuga.
- Sabe... vejo mal e se calhar o homem até tinha alguma razão. Mas eu não consigo andar mais depressa!

Coisas do Sebastião -14

E Viva a pastilha elástica!

Está descoberta a razão porque as crianças apreciam tanto as pastilhas elásticas.
Ao contrário do que muitos afirmam, mascar aqueles produtos não é um acto reprovável, mas sim altamente aconselhável. Garantem cientistas da Universidade de Northumbria, que a pastilha tem efeitos positivos em tarefas como o pensamento e a memória, pois provoca um aumento da batida cardíaca e gera um pico de insulina no cérebro que, irrigado pela insulina, facilita as operações de memória e aprendizagem.
Portanto, antes de mandar o seu filho desfazer-se da pastilha elástica, pense duas vezes, não vá ele estar a prepara-se com denodo para mais um exercício de “desenvolvimento cognitivo”.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Dicionário do Rochedo (35)

Ketchup- Condimento muito usado pelos AMERICANOS, para disfarçar o sabor que a comida não tem. Nas panelas do Estado Português, serve para dar cor a cozinhados mal amanhados.

Aviso: Esta entrada é um precioso contributo da SI, que vem enriquecer este dicionário. A sugestão deu-me uma ideia. Como só tenho mais cerca de 50 entradas preparadas, que tal darem os vossos contributos como fez a SI? E para que não faltem contributos, eu até vou lançar uma pista a pedir sugestões para uma palavra que anda encasquetada há semanas. Amanhã, ou depois, digo-vos qual é.
Deixem-me só acalmar um pouco deste turbilhão em que ando envolvido há dois meses.

É hoje...

Quarta-feira, 15 de Outubro, às 18.30, na Biblioteca Nacional.
Falo da apresentação do livro de Filipa Martins ( da equipa do Corta- Fitas) " Elogio do Passeio Público".
Baptista -Bastos diz apenas isto: "Abre um capítulo novo na literatura poretuguesa contemporânea".
Mais palavras para quê? Lá estarei, claro, para dar um beijinho à Filipa e... comprar o livro.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Almoço em família

Imagem surripiada da Internet
Chegou com espavento, fazendo-se anunciar a toda a sala. Sentou-se na mesa ao meu lado, arrastando a cadeira e perturbando-me a leitura do jornal.
- Olá, então o que vai ser hoje? – perguntou-lhe o empregado no tom familiar com que trata os clientes habituais.
Ela prescrutou descaradamente o meu prato e respondeu:
- Não vou pedir já, espero que o meu filho chegue.
Mergulhou os olhos no jornal.
Cinco minutos mais tarde, vindo certamente do colégio em frente, chegou um miúdo aparentando 14/15 anos. Deu-lhe um beijo desprendido e sentou-se.
Ela continuou, impávida, a ler o jornal.
Ele pegou no telemóvel e começou a teclar. Jogos ou SMS? Não sei.
Chegou o bife dele e a carne à alentejana dela ( não lhe deve ter agradado o aspecto do meu salmão grelhado…)
Ele queixou-se da rigidez da carne.
Não estás em casa, sujeitas-te. Podias ter ido a casa almoçar. Tinhas lá sopa e a Deolinda fazia-te uma omelete.
Já estou farto de comer omelete com salsichas, mãe!
Tinhas queijo, presunto e cogumelos, não precisavas de comer salsichas.
Suspiros de ambos os lados da mesa.
Comeram em silêncio.
Ele levantou-se e disse:
- Tenho que ir para as aulas.
- Já?
- A Mituxa está à minha espera
- Sempre a Mituxa! Essa miúda deu-te a volta à cabeça. Não chegues tarde para jantar. E vê lá se estudas…
- Vou jantar com a Mituxa a casa da avó
- Então não chegues tarde.
- Até logo.
E foi à sua vida, sem sequer esboçar um beijo de despedida.
Ela não terminou a carne. Pediu uma bica e mergulhou outra vez na leitura do jornal.

A reunião secreta do PS

Reina um grande mau estar no seio do grupo parlamentar do PS, obrigado a acatar a disciplina de voto na discussão sobre o casamento dos homossexuais.
José Sócrates, temendo alguma falta de empenho dos seus deputados nas campanhas eleitorais que se aproximam, e receando a perda de votos à esquerda que não compensem os que espera conquistar à direita, decidiu convocar, logo no sábado, uma reunião com os deputados socialistas.
Rodeada de grande secretismo, a reunião esteve para se realizar no sótão da casa de um membro da Opus Dei, mas Alberto Martins impôs que tivesse lugar na sede do partido, no Largo do Rato, alegando que, como ninguém lá vai, seria mais fácil iludir os jornalistas.
A estratégia teria resultado em pleno, não fora uma inesperada coincidência. Um jovem jornalista (estagiário) madeirense, de visita ao “Contenente”, demandou o Largo do Rato à procura da sede do PSD e, quando viu Sócrates a entrar no edifício, apressou-se a telefonar para AJJ, para dar a “grande cacha” ao Jornal da Madeira: “Os líderes do PS e do PSD estão a reunir-se em segredo, neste sábado”.
Foi assim, graças à desorientação geográfica e alguma precipitação de um jovem madeirense, que se ficou a saber da reunião, sendo-me possível adiantar aos leitores do CR o que de mais relevante lá se passou.
O tema da reunião era “Como conquistar votos à esquerda, depois da barracada de ontem?”
Embora o número de deputados presentes, fosse ainda inferior aos que votaram a disciplina de voto na questão dos casamentos entre homossexuais, a reunião foi animada.
Poupo-vos os pormenores, fazendo apenas referência ao facto mais relevante.
Ocorreu quando Alberto Martins, num resquício de revivalismo juvenil, sugeriu que fosse alterado o símbolo do PS, devolvendo-lhe a cor vermelha. E apresentou logo esta hipótese, que estudara durante a noite: A ideia não desagradou a Sócrates, que pôs a proposta à discussão. O primeiro a intervir foi Manuel Alegre, que reconheceu que a ideia não seria má, desde que por baixo do símbolo aparecesse a frase:
“ Tomates já não temos. Queres ketch up? Vota PS”

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Os azares de Manuela

Sócrates está perdido de riso, a mão no rosto é só para disfarçar

Manuela Ferreira Leite não acerta uma. Abriu a boca em véspera de Dia das Aparições na Cova da Iria, mas as críticas que teceu às medidas tomadas pelo governo para combater a crise foram estapafúrdias, despropositadas e reveladoras de alguma desonestidade intelectual. Pedro Passos Coelho saiu logo a terreiro para lhe pedir que se voltasse a remeter ao silêncio e Marcelo Rebelo de Sousa deu- lhe um puxão de orelhas. A resposta mais explícita, porém, foi a da Bolsa. Hoje, o PSI 20 subiu quase 10 por cento, manifestando o seu apoio a Sócrates.


Manuela " por que no te callas?" Não estará na altura de dar o biberão ao netinho?


Quem também não parece andar a bater bem da bola é Paulo Portas. Um dia depois de ter sugerido que o governo cortasse nas verbas do Rendimento Social de Inserção, pediu mais atenção ao governo com os menos desfavorecidos.


Com tanta desorientação à direita, Sócrates está nas suas sete quintas. Pode continuar a colocar açaimes nos deputados e reduzir o PS a um grupo de meninos bem comportados, porque a vitória ( e provavelmente a maioria absoluta) está garantida em 2009.

Rochedo das Memórias- Ícones e paranóias da indústria do ócio e do prazer


Foram inúmeros os produtos, serviços e actividades que, ao longo do século XX, constituiram verdadeiras paranóias consumistas.
Mudaram-se os tempos, mudaram-se os hábitos, os passatempos e os prazeres. Mudámos a nossa pele e tornámo-nos sedentários desde a infância.
Se o cinema foi o primeiro entretenimento que entusiasmou o mundo, logo no início do século, foi também o mais duradoiro. Do mudo ao sonoro, do preto e branco à cor, do pequeno ecrã ao cinemascope, dos filmes românticos ou históricos aos efeitos especiais e violentos, o cinema foi evoluindo, mas manteve sempre uma legião de fiéis seguidores que seguem as suas peripécias com desvelo.No entanto, inúmeros passatempos de outra ordem marcaram o século XX.
Começámos o século jurando fidelidade à rádio e ao inseparável tijolo e acabámos nos braços da televisão, devorados por "talk- shows", telenovelas, "thrillers" e "sitcoms". Deixámo-nos seduzir pela publicidade e divagámos em sonhos de concursos que nos prometiam desde o automóvel a uma viagem às Caraíbas. Passámos o dia a praticar body board, surf, parapente, asa delta, skate, ou buggeejumping e chegamos à noite sentados no sofá, em frente de um ecrã por onde passam vídeos, DVD e seriados, à espera da hora de ir para a discoteca. Para combater o sedentarismo e cultivar o corpo, tornámo-nos frequentadores de "Health Clubs", suamos as estopinhas em ginásios e quando envelhecemos recorremos ao lifting na vã esperança de sermos confundidos com os nossos filhos.
Demos as primeiras pedaladas num triciclo, fomos ases na bicicleta, idolatrámos a vespa e terminámos o século a conduzir um carro, grudados ao telemóvel.

Tivemos ídolos de carne e osso que a princípio eram duradouros, como Ginger Rogers, Fred Astaire ou Greta Garbo. Criámos alguns mitos como James Dean ou Elvis Presley. No final do século os ídolos passaram a ser efémeros , como alguns dos objectos e produtos e alguns deles nem são de carne e osso. Dão pelo nome de marcas (Benetton, Adidas,Levi Strauss, Swatch, BMW, Coca -Cola etc,etc, etc,) e são os nossos ícones. Namorámos com orquestra, grafonola ou gramofone, depois com o vinil e o gravador de fita.

O gira-discos portátil , chegado com o “yé-yé”, o gravador de “cassetes” e o disco de 45 r.p.m. foram objecto de juras de amor eterno, mas passámos a olhá-los com algum desdém quando surgiu o walkman e o compact disc se apresentou como a última e definitiva coqueluche musical. Mas não foi por muito tempo. No final do século,o disco laser e o DVD tornaram-se os novos fiéis companheiros dos melómanos que já se tinham cansado do karaoke.
Não tardou, porém, até que o MP-3 e o i-pod se transformassem nas novas coqueluches consumistas.
Palmita-me que o próximo passo será o (re)enamoramento pelos discos de vinil . Já faltou mais…

A cultura do ócio é tão antiga quanto o tempo, mas a indústria do ócio só começou a dar os primeiros passos na década de 50 do século XX, com o advento da sociedade de consumo. Indústria florescente, é olhada pelo marketing como a indústria do futuro, que terá o seu apogeu neste século, com o desemprego a aumentar. As empresas de marketing só ainda não foram capazes de explicar é como as pessoas vão arranjar dinheiro para comprar os produtos, quando terminar o crédito fácil e barato. A corda não pode esticar sempre...

domingo, 12 de outubro de 2008

Espalhem a notícia!

A Cecília é a mais recente residente do blogobairro e eu fui, juntamente com a Patti e a Bluevelvet, convidado para padrinho do seu blog, nascido hoje.
Depois de muita resistência, a Cecília decidiu adquirir uma fracção deste condomínio, que baptizou De Si para Si. Porque esperam para ir lá espreitar?

Podiam ter aprendido com Menem e o "Corralito"


Durante o "Corralito" as manifestaçõs sucediam-se à mesma cadência da queda de Governos. Houve um, que apenas resistiu 3 horas!

A actual crise financeira mundial remeteu-me para a América Latina. Recuei uns bons pares de anos e revivi o “Corralito”. Estava em Buenos Aires quando ocorreu o maior desastre financeiro da pátria de Borges.
As abstrusas políticas financeiras de Caballo e o enfeudamento de Menem a Washington , há muitos anos que faziam adivinhar o descalabro financeiro da Argentina. Menem e Caballo conseguiram, através de artifícios financeiros e bolsistas, manter a paridade do peso ao dólar, mas os argentinos sabiam que, para além da artificialidade da política de Menem, se estava a construir um país de mentira, onde as desigualdades entre ricos e pobres tinham aumentado assustadoramente. Obnubilados pelos prazeres consumistas, que lhes permitiam ter acesso a uma parafernália de bens e produtos que durante décadas lhes estiveram vedados, os argentinos deixaram-se ir na onda de entusiasmo.
Nem pararam para pensar que execrável ditadura de Vidella tinha sido substituída pela ditadura financeira da dupla Menem/ Caballo. É certo que eles não lançaram ao Atlântico dissidentes, para serem comidos vivos por baleias ao largo de Puerto Madryn e Península Valdez,mas atiraram um povo inteiro para a miséria, lançando-o nos braços de uma Bolsa construída em cotações feitas de mentira. Quando se tornou impossível manter as aparências e o sistema financeiro argentino entrou em colapso, os bancos ruíram como castelos de areia, varridos por um vendaval. De um dia para o outro, o peso argentino transformou-se em moeda fiduciária, sem qualquer valor. As poupanças de uma vida de muitas famílias argentinas foram pelo cano de esgoto, porque os bancos não tinham liquidez e foram incapazes de resistir à corrida aos depósitos. Menem, que utilizara em obras sumptuárias e em proveito próprio, os dinheiros do FMI, foi incapaz de suster a crise.

Nas ruas de Tucuman, as pessoas continavam a dançar o tango
Todos sabemos o que aconteceu. Bancos assaltados, supermercados pilhados, ruas transformadas em campos de batalha, famílias prósperas à beira da ruína, um povo inteiro em banca rota.
De um dia para o outro, a próspera Argentina cantada em loas por Bush pai, como exemplo a seguir, despertava para a realidade, desaguando no oásis da miséria.
No quarto do meu hotel , na Avenida de Mayo, enquanto assistia ao que se passava nas ruas, recuei a Dezembro de 1994.
Acabara de chegar a Tucuman. Depositadas as malas no hotel, fui jantar. Na altura de pagar a conta entreguei pesos argentinos e recebi, como troco, um conjunto de notas- que me fizeram lembrar os “remimbi” chineses- onde se lia: “Circulação válida apenas para a província de Salta”. Perguntei ao empregado o que queria dizer aquilo. Chamou o gerente que me explicou, então, que face à grave crise financeira da província, o governo local fora autorizado a emitir moeda com circulação restrita à província de Salta. As notas tinham valor igual ao peso, mas só podiam circular na província de Salta, não podendo ser utilizadas em mais nenhuma parte da Argentina. Numa palavra, o dinheiro que circulava em toda a província era uma espécie de dinheiro do Monopólio que apenas tem valor quando jogamos. Andei por Salta durante duas semanas sempre a pagar e receber dinheiro falso. ( admito que haja um termo técnico mais apropriado, mas a realidade é que se tratava mesmo de dinheiro virtual, uma vez que não tinha valor em mais nenhuma província argentina). Fiquei entretanto a saber que a maioria das empresas pagava os seus salários com aquela moeda.



Na estrada que liga Tucuman a Cafayate, é possível desfrutar momentos de sonho


Em Cafayate, uma pequena localidade cercada pelos Andes, maioritariamente habitada por índios, hospedei-me no único hotel existente. Na altura de pagar a conta, pretendi fazê-lo com moeda local, mas não aceitaram o pagamento e exigiram que pagasse com cartão de crédito ou em pesos emitidos pelo banco central. Perguntei a dois empregados como eram pagos os seus salários: em moeda local, responderam-me. Foi então que percebi como o esquema funcionava. O hotel recebia em dinheiro real e pagava aos empregados com “notas de Monopólio”. Justificava a sua actuação, alegando ter de pagar os impostos em moeda “real”!
E como fazem os habitantes de Salta quando viajam, pela Argentina? – perguntei a um funcionário de um banco.
A resposta meio envergonhada, embrulhada em sorrisos de celofane, fez-me adivinhar o futuro.
"Aqui a pessoas viajam pouco, porque esta é a província maispobre da Argentina. Mas se tiverem necessidade de o fazer, podem trocar o dinheiro no banco. "
E como é feita a troca?
- Por cada quatro pesos locais, recebem um peso federal!
Por momentos, pensei-me a viver uma aventura de Lewis Carrol, uma versão melodramática de “Alice no País as Maravilhas”. Recuperado do choque, antevi o futuro da Argentina.




No quarto do meu hotel de Buenos Aires, em vésperas de Natal, impossibilitado de regressar a Portugal para passar a noite com a família, pude reviver o pesadelo anunciado sete anos antes por um funcionário de um banco, à mesa de um restaurante em Tucuman.
Tudo isto para dizer, que só a hipocrisia de alguns liberais pode explicar a surpresa do colapso financeiro dos Estados Unidos e da Europa. Era uma crise há muito anunciada, mas a que os governos foram fechando os olhos, tentando acreditar que tudo se resolveria com os paliativos de uma regulação dos mercados que nunca funcionou.
O mais grave, porém, é que ao contrário do que aconteceu na Argentina, não se vislumbram poções mágicas que possam resolver o problema.
O mais dramático, é que não se vê emergir no horizonte uma ideia nova que se aplique como remédio, porque confortados com as promessas da sociedade da hipersecolha deixámo-nos adormecer nos braços da sereia das novas tecnologias e deixámos de pensar. Acreditámos que as coisas se resolveriam por si próprias e que estávamos bem entregues no regaço de uma globalização que só beneficia os poderosos.
O mais intrigante, é constatar que os povos perderam a capacidade de reagir.
O mais surpreendente é ver que a Índia e a China apresentam índices de crescimento a rondar os 10 por cento e ninguém, na Europa, parece ainda ter percebido que o poder mundial está a mudar de mãos.
Confiemos então em Santo Obama , ou entreguemos o destino à esquizofrénica Sarah Palin. Parece residir nessas figuras miríficas de terras do Tio Sam, a esperança da Velha Europa. Os velhos, por vezes, comportam-se assim. Paz à sua alma!
Adenda: este post é demasiado extenso, espero que o tenham lido até ao fim.É um teste à vossa paciência, cujos resultados aguardo na caixa de comentários

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

40 anos depois...

Olá, Avô!
Estejas onde estiveres, quero que saibas que, mais de 40 anos depois deste episódio e 30 anos passados desde que o passei para o papel, continuas sempre presente na minha memória. Espero que não fiques “chateado” comigo por revelar o segredo que me confiaste, mas aqui no Rochedo só aparece gente boa e por isso decidi partilhar com ela esta história.
Dentro de algum tempo estarei a fazer-te companhia e teremos muitas coisas para conversar. Se cá viesses, irias de certeza ficar muito triste com o país e com o mundo, por isso deixa-te estar. Quando aí chegar, vou levar-te umas fotografias da “Olivinha”, uma fábrica que um dos teus netos brasileiros montou perto do Rio de Janeiro em tua homenagem. Vou também contar-te a história do último gestor da fábrica. Foi preso, porque estando a fábrica a atravessar grandes dificuldades, desviou o dinheiro dos impostos para pagar os salários dos trabalhadores. Agora, Avô, os governos indemnizam os patrões que andaram a roubar os cidadãos, para que se reabilitem e daqui a uns anos possam voltar a roubar. Mas se uma pessoa roubar um supermercado, porque os filhos têm fome, vai logo dentro!
Felizmente, houve alguém em S. João da Madeira que também não te esqueceu e decidiu prestar -te uma homenagem. Houve alguém que decidiu transformar a fábrica num Centro de Arte Contemporânea, que será parceiro da Fundação de Serralves. Ali repousarão obras de Arpad Szenes, Vieira da Silva, Júlio Pomar, Paula Rego ( aquela jovem promissora como tu lhe chamavas, deixando a Fiama Hasse em polvorosa, por lhe não reconheceres igual talento. Lembras-te? ) e muitos outros artistas de renome. Serão cerca de mil a que eu vou juntar aquele quadro que me ofereceste pouco tempo antes de morrer. Disseste-me na altura que mo oferecias, porque sabias que eu o ia entregar no lugar certo quando fosse o momento apropriado. Creio que é agora, Avô! Depois , já terei cumprido a minha missão por cá e se achares que é chegada a hora de me juntar a ti, está à vontade. Isto cá por baixo já deu o que tinha a dar. Há cada vez mais Salazares, mas curiosamente há muitas pessoas a suspirar pelo seu regresso. Não há PIDEs, mas há muitos portugueses que nasceram equipados com um chip que os torna denunciantes e mesquinhos. Alguns chegam ao governo, a líderes da oposição, ou pelo menos a cargos de destaque nas empresas e na Administração Pública. Vivem todos bem, agrupados numa coisa que se chama Centrão, que é uma espécie de União Nacional dos tempos modernos.
Não, não vou chateado… vou muito feliz por me ir juntar a uma pessoa como tu. Que me ensinou que a vida é feita de momentos e a forma como os dividimos em bons e maus é uma opção de vida. Essa foi a máxima que procurei adoptar e não me tenho dado mal.
Se me fores esperar à porta, fica a saber que vou chegar num “vaivém” que partirá de Esquel. Quero sobrevoar pela última vez o Parque Nacional de Los Alerces e despedir-me do Perito Moreno, antes de me encontrar contigo.
Não sei se te lembras da Sãozinha. Imagina que, passados tantos anos, fui dar com ela há uns dias, pendurada num escaparate, encadernada em revistas cor de rosa. Estás a imaginar o que me poderia ter acontecido se não tivesse tido aquela birra que te levou a dar-me aquela lição? Pelo menos, poupei no divórcio.
Ah! E agora já não atiro pedras ao lago dos peixinhos. Tenho-os em aquários. Estão mais presos, mas a coberto das minhas fúrias. Onde é que eu agora descarrego? Neste Rochedo, bem perto do local onde comemorámos os teus 95 anos, dias antes de partires. Tenho por aqui leitores que me aturam as neuras e são muito amáveis comigo. De certeza que, se te tivessem conhecido, iriam perceber melhor porque gosto tanto de ti.
Fica bem. Se encontrares aí o Salazar, diz-lhe que lhe mando um pontapé no cú! Porquê? Porque partiu, mas deixou aqui uma descendência numerosa de filhos da puta. ( Isto agora já não é asneira, Avô! Não fiques “chateado” comigo!)