segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Autópsia de um discurso


Sócrates fez um excelente discurso em Guimarães (Por favor, antes de me acusarem de estar louco, leiam até ao fim!).
Não seria difícil brilhar, perante os sucessivos dislates de MFL, o visível desconforto do PSD em criticar o governo, ou apresentar propostas alternativas, por se identificar com a governação do PS. Mas Sócrates foi mais longe e lembrou algumas propostas alucinadas do PSD caso formasse Governo- como é o caso da privatização da Segurança Social.
Com o CDS não perdeu um segundo. Se os democrata-cistãos já eram um nado-morto, ficaram completamente atascados nas malhas do descrédito, depois de Paulo Portas ter escondido aos seus parceiros, durante um ano, a demissão de Nobre Guedes. Quem ai votar num partido que nem para si próprio é capaz de falar verdade?
Como é seu hábito disparou contra o PCP, acusando-o de não defender os trabalhadores. O discurso anti-PCP está tão gasto, que já se transformou numa “cassette”. Sócrates sabe, porém, que entre os seus apoiantes e potenciais votantes os ataques ao PCP são muito apreciados e que se não desbobinasse a “cassette” da vacuidade, muitos dos seus seguidores não lhe perdoariam.
O ataque à extrema – esquerda ( onde Sócrates teme perder votos) já se tornou um must. Para sua felicidade, a extrema –esquerda ainda não percebeu que vive numa teia de contradições , divorciada da realidade do país, preocupando-se com propostas fracturantes para entalar a rosa, tentando capatr-lhe votos dos descontentes do PS que nem sequer conhecem as propostas do Bloco. Quando as conhecerem, ou desertam, ou não votam. O Bloco vive da figura de Louçã. – um dos poucos políticos credíveis da nossa praça- e de um conjunto de libelinhas tontas que esvoaçam em seu redor, à espera de boleia para uns minutos de fama.
Mas apesar de viver rodeado de um deserto de alternativas, nem por isso Sócrates consegue ser um oásis. Que propostas concretas apresentou? Nenhuma! Limitou-se a apregoar a MUDANÇA, reafirmando que irá prosseguir a sua política!
Sócrates sabe que, apesar de ter governado para agradar ao capital e desprezando quem trabalha, isso não lhe provocará grande mossa em 2009, se conseguir estancar a abstenção. Apesar de ter desprestigiado a função docente e enxovalhado os funcionários públicos, que transformou em marionettes, sabe que pode recuperar muitos votos acenando com o papão de que com o PSD ainda será pior. ( Os dirigentes do PSD e seus porta-vozes não oficiais parecem querer dar-lhe razão…)
Funcionários públicos e professores, que poderiam ser decisivos no resultado das legislativas de 2009, vivem- também eles- rodeados de contradições e de medos. Embora descontentes, escondendo a raiva de terem sido os "bombos da festa" da política reformista, não podem pôr em risco a mesada certa ao fim do mês. Há rendas e créditos bancários para pagar e, para muitos, a certeza de que não encontrarão emprego se decidirem desertar das fileiras do Estado.
Pondo num prato da balança o achincalhamento a que têm sido sujeitos, a perda de poder de compra nos últimos 10 anos, a subserviência a que estão obrigados, a desmotivação diária e - noutro- o risco de arrostar com um PSD revigorado pela força de uma vitória eleitoral, pronto a dizimar o que resta da estrutura da Administração Pública, e a depositar as reformas dos portugueses nas seguradoras a escolha vai para o mal menor. E esse, Sócrates garante-lhes.
Percebem agora, porque considerei o discurso de Sócrates excelente?
É que apesar de ter tratado os portugueses que trabalham como concorrentes do concurso da Teresa Guilherme, lançando-os no desemprego, destruindo vínculos familiares, impregnando-os de ideias suicidas, os portugueses têm ainda mais medo do que possa vir com este PSD, do que com a continuidade do PS no poder.
Eu sei que Sócrates foi sádico, mas jogou no medo para captar votos. Só não percebo é como ainda há socialistas a votar no PS, mas isso fica para outra altura

25 comentários:

  1. A sua opinião é de uma enorme lucidez. A falta de alternativa é a grande arma de Sócrates. Aqui só resta fazer uma reflexão: é que ele está a encostar toda a gente à parede, o que à partida poderia ser um erro gravíssimo, porque devemos sempre deixar uma saída airosa aos nossos inimigos, sob pena de eles lutarem desesperadamente até ao fim (aliás é assim que aparecem os "grandes heróis") o Carlos conhece de certeza as teorias do estratega chinês Sun Tzu. Mas a oposição é uma desgraça tão grande que até a esse luxo ele pode dar-se... Não me parece que haja forças militares capazes de se organizarem seja para o que for e sem armas não é possível mais nada senão através de eleições, caminho que está completamente fechado. Portanto, tenhamos Sócrates...

    ResponderEliminar
  2. Reforço o comentário no seu post sobre a JS e Manuel Alegre: de sordidez em sordidez, vai a classe política caminhando neste país, mordendo na mão de quem lhes dá de comer....

    ResponderEliminar
  3. Só mais uma coisita que me lembrei...não quer organizar uma recolha de assinaturas para fazer candidatar as nossas figuras políticas ao concurso da Teresa Guilherme????

    Senão imagine:
    "Alguma vez prejudicou, em benefício próprio, a sua entidade empregadora?"
    - José Sócrates - Muito pelo contrário! Posso afirmar que todos os prejuízos que lá encontrei, já vinham da anterior gestão de direita...
    - Manuela Ferreira Leite - Muito pelo contrário! Posso afirmar que todos os prejuízos que encontrei já vinham da anterior gestão de esquerda...
    - Paulo Portas - Muito pelo contrário! Posso afirmar que todos os prejuízos que encontrei já vinham da anterior gestão de esquerda...
    - Jerónimo de Sousa - Muito pelo contrário! Posso afirmar que todos os prejuízos que encontrei já vinham da anterior gestão da direita capitalista...
    - Francisco Louçã - Muito pelo contrário! Posso afirmar que todos os prejuízos que encontrei já vinham da anterior gestão de direita capitalista e lobbyista...

    E o polígrafo?? Rebentaria de riso ou de tristeza???

    ResponderEliminar
  4. Fada: conheço realmente a estratégia de Sun Tzu, mas também conhço a dos portugueses que é mais do stilo "Come e Cala", ou então do "Aguenta, aguenta, aguenta!".

    ResponderEliminar
  5. Cecília: para depois eles distribuirem a ração como melhor entendem...

    ResponderEliminar
  6. Pedro:Infelizmente poucos ouvirão o teu conselho. Continuamos eivados do espírito dos 3 F's

    ResponderEliminar
  7. Eu não percebo é como ainda há quem vote! Balham-m'os deuses!

    ResponderEliminar
  8. Cenicamente achei o comício fantástico. O discurso não ouvi {tiro sempre o som}, mas o Carlos elenca todas as razões para o voto no PS. Dos socialistas, militante e simpatizantes, e dos menos socialistas. Cá por casa já há quem se desloque do voto fracturante, para um na real politic.
    Os tempos não estão para delírios.

    ResponderEliminar
  9. maloud: sou acima de tudo realista. Não vivia em Portugal em 91, mas sei que toda agente pensava que o Cavaco não iria ter maioria e apesar de tudo, teve uma vitória retumbante.
    Penso que vai suceder o mesmo com Sócrattes em 2009, porque não há alternativa credível. O voto fracturante é uma treta, mas acredito que ainda haja uns devotos empedernidos, que apostam no folclore!

    ResponderEliminar
  10. Cecília: Renovo os meus votos, para que se decida a ter o seu blog.
    A maioria dos seus comentários justifica-o plenamente!

    ResponderEliminar
  11. Sabe o que lhe digo Carlos, eu vejo este meu povo tão amorfo, tão apático só olhando para dentro de si, que às vezes acho, com muita pena minha, que temos os governos que merecemos!

    Nas próximas eleições, quase que apostava que esse tipo estará lá outra vez...

    ResponderEliminar
  12. Patti: como deixo implícito no post e esclareço na resposta ao cmentário da maloud, essa também é a minha convicção. A ideia do mal menor alimenta os portugueses há pelo menos 400 anos, corroendo-lhes a capacidade de rreacção, até à abulia total.

    ResponderEliminar
  13. Excelente autópsia. Mas que há alternativas, há!

    ResponderEliminar
  14. O PS sempre jogou no medo da mudança. Portanto, nada de novo... Apenas outro tom na mesma tecla. E o povinho vai nisto sempre pela mesma arriata...

    ResponderEliminar
  15. Justine: não digo que não haja alternativas, apenas constato que Sócrates sabe que a alternativa do eleitorado é entre ele e o PSD e por isso fez aquele discurso.

    ResponderEliminar
  16. Por estas e outras é que voto nulo.
    Veludinhos azuis

    ResponderEliminar
  17. Quem fez um excelente poster foi o autor deste.
    Fez uma análise correctíssima do discurso de Sócrates.Parabéns.
    Maria Antonieta Mariano

    ResponderEliminar
  18. Caro Carlos,
    Não seremos os únicos que olhamos em volta em busca sem sucesso de uma alternativa. Cada dia que passa sinto-me mais à direita do PSD, partido com que tradicionalmente me identifico.
    Considerando que os partidos do espectro político nacional representam a sociedade portuguesa, temos de reconhecer que há um défice de direita no nosso país.
    Pela Europa fora os Partidos Sociais Democratas de cada país estão muito próximos dos respectivos Partidos Socialistas. Não é por acaso todos esses PSD’s pertencem ao Partido Socialista Europeu ao contrário do ‘nosso’ que pertence ao Partido Popular Europeu.
    Assim sou levado a pensar que sendo o PSD a face mais credível da direita portuguesa (os resultados eleitorais confirmam isso) é por si só indicador do carácter 'socialista' da nossa sociedade.
    Podemos sempre pensar que se existisse um partido que na sua génese defendesse uma menor intervenção do Estado na sociedade, entregando serviços que actualmente presta de forma ineficiente aos privados, que tratasse os cidadãos com uma igualdade efectiva (na linha do que escrevi em http :/ vilaforte.blog.com /1337763/), que premiasse efectivamente o mérito, que permitisse o acesso à política aos melhores com provas dadas no privado, entre muitas outras coisas que aqui poderíamos apontar, então eu identificar-me-ia com esse partido.
    Mas o que vemos é uma fauna crescente de pessoas que nunca foram produtivos no mundo privado, que fazem carreira na política, hoje no poder em bons tachos, amanhã na oposição em tachos assim-assim, cujos estímulos se baseiam nas vinganças e nos acertos de contas. Têm objectivos pessoais, na base do reconhecimento social pela função e não pelo mérito, e que pouco a pouco tomaram os partidos e conseguiram afastar os melhores.
    No nosso concelho temos tristes exemplos de todo o que aqui relatei. Há dias li uma citação de Marx (o Groucho , não o Karl !!!) que é um retrato fiel do carácter nosso Presidente da Câmara (de Porto de Mós), Sr. João Salgueiro, e que aqui partilho convosco: “Estes são os meus princípios; se não gostarem deles, tenho outros.” Só falta mesmo acrescentar: “o importante é que votem em mim”.

    ResponderEliminar
  19. Paulo: quando a política passou a ser profissão, em vez de serviço público, deu nisto!No entanto, também não sou assim tão pessimista...
    Diga-me uma coisa, por favor: esse sr. Salgueiro é parente do outro?

    ResponderEliminar
  20. Cristal: O centrão joga no medo e na chibata. Não vejo volta a dar-lhe, pelo menos nos próximos tempos´infelizmente.

    ResponderEliminar
  21. Se este João Salgueiro tem a ver com o outro?
    Cruzes...
    O meu Presidente de Câmara acabou o sua formação em Engenharia durante a inauguração do Pingo Doce de Porto de Mós (http://vilaforte.blog.com/3284862/). Correm rumores de que foi colega de carteira da UNI em inglês técnico de uma certa figura política de destaque. Mas sempre que é questionado pela imprensa local sobre o blog Vila Forte, faz sempre questão de se passar por info-excluído: "Não leio blogs" http://vilaforte.blog.com/2460844/
    Até já proibiu a referência a blogs em reunioes de câmara. É o que temos.

    ResponderEliminar
  22. Carlos subescrevo, quase frase a frase, o seu oportuno e importante texto. Deixa muitas pistas para reflexão, pois o que diz justifica-o.
    Sem tirar a importância ao resto do texto, destaco duas frases: uma porque resume muitíssimo bem uma situação corrente há uma data de anos:"O discurso anti-PCP está tão gasto, que já se transformou numa “cassette”.
    A outra é uma porta aberta para uma discussão tão importante quanto difícil: "Só não percebo é como ainda há socialistas a votar no PS, mas isso fica para outra altura" - Uiiiiii, os panos para mangas que isto dá...

    ResponderEliminar
  23. É claro que o Socrates aposta como disse, e bem, no facto do eleitorado só ver para dois lados!

    PS, de vez em quando acrescenta-lhe um D no fim.
    Tira o D.
    Volta a pôr.
    E andamos nisto!

    No entanto a politica não são só esses dois partidos!
    Existem alternativas reais!

    Eu sempre votei no mesmo e não me vejo a mudar o meu voto!

    Para mim é o PCP a unica alternativa real e credivel

    Os unicos neste país que verdadeiramente defendem o povo e os trabalhadores!

    ResponderEliminar
  24. É claro que o Socrates aposta como disse, e bem, no facto do eleitorado só ver para dois lados!

    PS, de vez em quando acrescenta-lhe um D no fim.
    Tira o D.
    Volta a pôr.
    E andamos nisto!

    No entanto a politica não são só esses dois partidos!
    Existem alternativas reais!

    Eu sempre votei no mesmo e não me vejo a mudar o meu voto!

    Para mim é o PCP a unica alternativa real e credivel

    Os unicos neste país que verdadeiramente defendem o povo e os trabalhadores!

    ResponderEliminar