Ontem vi o Telejornal , depois bloguei um pouco e hoje estendi o tempo do pequeno almoço a folhear o JN. Fiquei a saber que o plano Bush foi rejeitado pelo Congresso e que o mundo está suspenso, temendo uma catástrofe financeira. Estranho mundo este, onde as pessoas receiam mais a queda de alguns ícones do capitalismo, do que um desastre natural que ceife milhares de vidas. Já não estranho. Este é o mundo real que deveria ter percepcionado em miúdo, mas o meu constante alheamento da realidade não o permitiu.
Quando era miúdo brincava, no quintal lá de casa, a um jogo qualquer em que fazíamos de polícias e ladrões. Havia uma determinada altura em que os ladrões apanhavam uma vítima e perguntavam: “A bolsa ou a vida?”.
Eu gostava muito desse momento. Ficava suspenso da resposta, porque ela definia o carácter da vítima. Quando a resposta era “A bolsa”, percebia que nunca poderia ser amigo dessa vítima.
As notícias que vi e li nas últimas horas, devolveram-me à casa onde nasci , brincando aos polícias e ladrões. Acabei, aterrando no mundo real. Em pleno século XXI, com milhares de pessoas a morrer de fome, os governos americano e europeus dispostos a investir muitos milhares de milhões para salvar a Bolsa. Pergunto-me porque razão não há nenhum governo preocupado em investir parte desses milhões para evitar a morte dos milhares que diariamente vivem com fome; para gizar planos de protecção do emprego; para dar maior protecção na saúde e na segurança social aos seus cidadãos. Pelo contrário, desinvestem na protecção dos cidadãos e até temos em Portugal um desgraçado de um político que preconiza a privatização da segurança social.
O mundo real é feito à imagem do que alguns sonharam em criança: salvar a bolsa, desdenhando a preservação da vida..
Lanço um último adeus ao Douro. Fixo os olhos nas suas águas reflectindo o casario ribeirinho e preparo-me para regressar a Lisboa. Ao mundo real. De gente que vive com os olhos nas cotações da Bolsa, ignorando o faminto que lhe estende a mão. Dos Tio(s) Patinhas e Irmãos Metralha, que zombam de Patos Donald tão ambiciosos quanto inúteis.
Regressemos pois à realidade. O importante é salvar a Bolsa, como insistiam alguns dos meus amigos de infância, mesmo depois de lhes dizer que, se pretendiam salvar a bolsa, eu lhes tiraria a vida. Eles é que estavam certos. Sabiam que ressuscitariam anos mais tarde para recuperar a Bolsa, transformando-se de vítimas em algozes. Vingam-se ceifando vidas para engordar as suas bolsas agora recuperadas.
Esqueceram-se da história do “Velho Avarento”. Tanto quis encher a sua bolsa, que acabou por rebentá-la e perder todo o dinheiro armazenado.
Não tarda que alguém venha apoderar-se dos despojos do Ocidente. Depois, talvez voltemos a ser solidários...

























