quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Dança maldita, ou elixir da juventude?


Habituei-me, desde tenra idade, a conviver paredes meias com o fado e o samba, como símbolos musicais das duas pátrias que me conceberam e pariram.
O tango era encarado, no meio social portuense, como um género menor, uma “dança maldita” praticada nas “boîtes” por mulheres de mau porte, em missão de sedução libidinosa a clientes ocasionais. Enquanto jovem, descodificava o tango como uma dança erótica que acabava inevitavelmente na cama de uma qualquer pensão esconsa.

Claro que também o Povo dançava o tango nas sociedades recreativas... mas esse Povo, diziam-me, era “pobre e inculto”, tinha formas “animalescas” de se expressar e o tango mais não era do que a demonstração dessa realidade.
“Pobre Povo ignorante que não tem cultura para dançar coisas nobres como a valsa!”- lucubrava eu nos meus recatados momentos de reflexão, enquanto diante da pantalha assistia às aproximações entre o Poppey e a Olívia Palito.
A verdade é que nem sabia bem o que era o tango. Dançar “aquilo” era pecado e ponto final, invocava o pároco da minha freguesia que procurava cativar-me para o reino de Deus.
Foi aos 14 ou 15 anos que o tango entrou pela primeira vez na minha vida.
A par de Gardel, os discos de Sara Montiel entraram em profusão lá em casa e, ao ouvi-los, rapidamente percebi o sentido das palavras do velho pároco. Cada canção da “diva” mexicana me atiçava o rubor da adolescência. Percorrendo-me da cabeça aos pés, como um frémito, despertava-me os sentidos que as capas de alguns discos, de onde despontavam os seus seios nus, ainda mais acalentavam. Não havia dúvida...o tango era mesmo pecado! E as minhas visitas ao pároco, para a confissão mensal, começaram a ser mais espaçadas e esquivas.
Outros ritmos fizeram parte da minha adolescência. Arrecadei a Sara Montiel e o tango no baú das recordações com o rótulo “Música para velhos” ( ignorando deliberadamente os efeitos pecaminosos que pode provocar em adolescentes), e parti para outra.
Muitos anos mais tarde, já entrado na casa dos 40, razões profissionais levaram-me à Argentina, onde resolvi ficar seis meses, para além do 15 dias programados. O calor do povo argentino, aliado à inigualável presença das porteñas, fizeram-me remexer no baú das recordações e desenterrar as memórias sobre o tango.

Tornei-me cliente habitual da Feria de San Telmo - que todos os domingos anima a Plaza Dorrego - , onde vários pares levam os turistas a reviver a história do tango. Tornei-me frequentador do El Viejo Almacen, ponto de passagem obrigatório para qualquer turista que visite Buenos Aires e não seja indiferente ao tango. Assisti a espectáculos no velho café Tortoni, entrei nos teatros da Avenida Corrientes para ver todas as peças que havia sobre tango, afoito mergulhei na noite “proibida” de La Boca , pela entrada nobre do Camiñito. Perdi noites em tascas escondidas em vielas esconsas, onde “turista não entra”. Mas eu entrei...

A Laura sabedora da minha paixão por tudo o que tem rótulo argentino e presenciando as minhas reacções durante as milongas a que me levou, convenceu-me que deveria ter umas aulas, numa das muitas escolas de Buenos Aires. Fez o favor de me acompanhar ao longo de quatro ou cinco penosas sessões, ao fim das quais percebeu que o meu “pé de chumbo” se recusava a acompanhar o ritmo. Nunca mais ensaiei um único passo ( a não ser com a Laura que alguns conhecerão de posts anteriores escritos em Buenos Aires) mas todos os anos, quando regresso à Argentina, a minha preocupação é conhecer os novos locais onde há tangos e milongas.

Nos últimos anos, essa é uma tarefa ciclópica, pois o tango canta-se e dança-se em toda a parte, como se fosse tão essencial à vida dos porteños, como o simples acto de respirar. Ao entrar nesses locais sinto-me quase como um voyeur, pois nunca danço, mas renova-se em mim a frescura de uma adolescência perdida. O sangue ferve-me nas veias como quando ouvia os discos da Sara Montiel. Numa perfeita simbiose, sinto-me parte integrante de uma milonga. Numa palavra: rejuvenesço.

Será que o pároco da minha freguesia tinha mesmo razão, ou o tango é, apenas, o elixir da juventude? Talvez um bom psicanalista me saiba dar a resposta...

10 comentários:

  1. Quer-me parecer que o padre, para apelidar o tango de dança maldita, deve ter dançado e sentido qualquer coisa a rejuvenescer dentro dele: ficou atordoado, apalermado e agradeceu a deus por usar uma batina!
    bjs

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  2. Senhor que grita ao Rochedo:este seu rico post,rico em memórias,lugares,pessoas e género músical,fez-me recuar no tempo.Dei por mim a catar no baú das minhas velharias de adolescente espevitada,de nariz e peitinho empinados,verborreia escandalosa e danadinha para dar à perna.
    Como interna de um colégio de freiras francesas beatas,austeras, desconhecedoras do humor e do amor,principalente ao próximo,fui ter-mi-nan-te-men-te PROIBIDA,e castigada,por dançar o twist,essa dança do diabo,indecente,ordinária e,segundo elas,a pedir sexo e aconchego...
    Daí compreender bem o seu desabafo senhor do Rochedo.E sabe que mais,o padre n.ã.o tinha razão nem era razoável.Tinha apenas inveja.
    Fique bem.Dri

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  3. O que tenho a dizer-lhe, Carlos, antes do mais, é que é um sortudo por ter uma tão grande relação com um País a que só oiço boas referências. Qualquer dia, qualquer dia...

    E o tango,enquanto expressão corporal de um sentir verdadeiro, e deixando de fora o espectáculo estudado para turista ver, só pode ser obra divina- o pároco não podia ter razão, se virmos o tango nessa dimensão.
    Quisera eu saber dançá-lo :)

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  4. Há alguns anos, e durante 3 anos, frequentei aulas de danças de salão. O tango, logo seguido do paso doble e do cha cha cha eram as minhas favoritas :-D

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  5. Carlos,
    cá para mim nem uma coisa nem outra: é um elixir da juventude com cheirinho a pecado.
    Graças a Deus:))
    Beijinhos e bom fim-de-semana

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  6. Lenib: A sua sorte é que o velho pároco das Antas já faleceu, senão ainda era excomungada!

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  7. Drica: entre padres e freiras, venha o diabo e escolha!

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  8. Cristina: quer um conselho? Vá à Argentina enquanto é tempo. Nos últimos 15 anos a Patagónia está a ser de tal modo invadida pelos turistas, que qualquer dia se torna igual a muitos outros países.

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  9. Blue: na opinião do velho pároco das Antas seria Graças ao Demónio, esse ímpio que nos corrompe o espírito e destrói a alma.

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