domingo, 31 de agosto de 2008
"Rentrée"
Voltam a abarrotar –se os transportes; regressam as filas intermináveis caracoleando nos acessos à cidade; os balcões das pastelarias voltam a animar-se em refeições rápidas de come em pé, num menu “standard” SFB ( sopa, folhado e bica); as escolas voltam a ser palco de disputas entre professores e alunos e a ministra voltará à sua função de árbitro parcial numa contenda interminável.
A cidade volta a tornar-se insuportável, os que cá ficaram suspiram pelo próximo Agosto, ou por aqueles dias de Natal e Ano Novo, quando a cidade se volta a esvaziar, para um encontro repetido de famílias, cumprindo o ritual de troca de presentes.
Até lá suceder-se-ão fins de semana, num movimento de io-io entre a cidade e a “terrinha”, continuaremos a assistir ao regresso a casa de carros a abarrotar de mantimentos e agruras.
Para a maioria das pessoas é assim que se renova a vida. Na sequência repetitiva do asfalto, nas areias de uma praia a abarrotar, no contar de mortos em acidentes de viação, provocados pela incúria e loucura de uns quantos. Para telenovela, o argumento até não me parece mau… mas para modo de vida parece-me curto de ambição!
Avante, camaradas!
Hoje, depois de o FC Porto se ter deixado empatar na Luz, no jogo mais fácil que ali disputou nos últimos cinco anos, ler os desportivos fez-me lembrar “O Avante!”
Descoroçoados com o resultado, conseguiram ver o que eu e os benfiquistas que me rodeiam não conseguiram descortinar: um penalty sobre o Di Maria, num corte perfeitamente limpo.
A desfaçatez dos moços , no entanto, foi mais longe… nem uma palavrinha sobre a agressão ( murro) de Luisão a um jogador do F.C. Porto que a RTP mostrou, sem margem para dúvidas. E isto, para já não falar da expulsão de Katsouranis que deveria ter ocorrido ao minuto 11 ( basta fazer a comparação com a expulsão de Polga, frente ao Trofense…)
Não há razões para espanto. Nestes Avante! do jornalismo desportivo, pratica-se a lei das quotas e a maioria cabe a quem tiver cartão da agremiação vermelha. Dêem-lhes a foice e o martelo para o retrato das redacções daqueles jornais (???) ficar a condizer com as decisões da CD da Liga.
Adenda:O sr. Ricardo Costa irá abrir um sumaríssimo a Luisão, ou irá assobiar para o lado, fingindo qu não viu nada?
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Ela merecia, mas...

Não só responde a algum do argumentário contra os Jogos de Pequim, como desmonta a ideia de que esta foi a nossa melhor representação de sempre.
Fica também claro que conhece como poucos os meandros do Olimpismo e sabe a forma de combater os podres de que enferma a nível interno.
Não tenho dúvidas que seria uma excelente candidata ao COP, não fora o caso de ser conotada com o PS.
Se por mero acaso conseguisse lá chegar, logo a esquerda auto-fágica que se alimenta da intriga nos “colonatos” ( não, não é gralha) da nossa comunicação social, faria coro com a direita troglodita que sobrevive imersa no compadrio e na sabujice da dança de cadeiras, proclamando aos seus fiéis que Rosa Mota fora uma escolha partidária e que ali andava dedinho de Laurentino Dias.
Pobre país de merdosos, que não consegue reconhecer o talento, que não seja concebido em tertúlias com caviar ou nas orações da irmandade da Opus Dei!
Quem não tem CU...
Pensava que não se tratava de uma oferta muito simpática , nem original ( presumo que já todos os portugueses tenham pelo menos um Cartão, desde que Tonico Bastos os começou a distribuir profusamente na Gabriela), por isso foi com surpresa que li hoje na “Visão” que há 177 mil portugueses sedentos de serem os primeiros a usufruir da novidade, tendo já solicitado a sua atribuição.
Indiferentes ao facto de o CC ser , apesar de tudo, inconstitucional, ( a Constituição proíbe a existência de um número único de identificação para todos os serviços públicos), há quem percorra centenas de quilómetros para ir a uma Conservatória longe de sua casa pedir o seu CC- ainda só disponibilizável em alguns concelhos.
Digam lá que não somos um povo estranho…. Corremos atrás da novidade de um cartão, como se dela dependesse a nossa vida, mas fugimos ao pagamento de impostos, porque achamos que é um roubo!
No meio disto tudo, tenho pena que o governo tenha alterado o nome estragando-me assim o título do post que seria :
“Portugueses andam quilómetros atrás de um CU”, ou “Portugueses afinal gostam do CU”. Pensando bem, talvez não fosse um título muito feliz, por gerar interpretações dúbias e não ser muito consentâneo com a linguagem do CR.
Dicionário do Rochedo (22)
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Palhaçadas
Imagem roubada na InternetO presidente da UEFA, Platini , lamentou a presnça do FC Porto na Liga dos Campeões. Além de esquecer que os Tribunais Civis pediram procedimento criminal contra Carolina Salgado por TER MENTIDO em Tribunal, fez acusações indignas para um presidente da UEFA e não respeitou o distanciamento que o lugar que ocupa lhe exige. Mais...não respeitou as regras do jogo!
Para contrabalançar, lamentou a ausência do V. Guimarães, que ontem foi escandalosamente roubado em Basileia. Se Platini fosse minimamente coerente, proibiria o árbitro assistente, que expoliou o Vitória em centenas de milhares de euros e talvez tenha hipotecado parte do seu futuro, de participar nas competições europeias. Às vezes, mesmo a um palhaço, um pouco de coerência faz jeito...
Platini é arrogante, pretensioso e estúpido. Pactua com ladrões e gente que quer ganhar na secretaria o que não ganhou em campo, mas não se coibe de acusar de desonestidade quem foi condenado pela pseudo-justiça desportiva- apesasr de ilibado nos Tribunais e está na Liga por direito próprio. Os jornais desportivos portugueses, que já estão a dar grande relevo às palavras de Platini, nas suas edições online vão aparecer amanhã nos escaparates a fazer coro,esquecendo-se de defender a honra de uma equipa portuguesa. Não me admira. O covil está cheio palhaços que casam bem com o francês.
Coisas do Sebastião (11)
Se viaja frequentemente sozinho e por vezes tem dificuldade em manter-se acordado ao volante, esta notícia é para si! Acaba de ser criado pela IBM o Passageiro Virtual que apelidaríamos com mais propriedade de Pendura Inteligente e o ajuda a manter-se acordado.Mas este precioso companheiro de viagem virtual não se fica pelo diálogo… se detecta que as suas respostas são lentas ou desinteressadas, passas à acção: abre-lhe uma janela, muda a estação de rádio, faz soar uma buzina e, se for caso disso, não se ensaia nada em mandar-lhe à cara uma mangueirada de água gelada. Grande compincha para viagens longas e nocturnas este pendura...
Afinal havia outras...
Na verdade, para além das medalhas de Nélson Évora e Vanessa Fernandes, uma fábrica de Paços de Ferreira que fabrica os fatos de Phelps merece compartilhar os louros das 8 medalhas do nadador americano.
No entanto, o maior quinhão de sucesso pertence ao Nelo de Vila do Conde que, à sua conta, "amealhou" 20 medalhas. Sim, sim, foi nos estaleiros do Nelo que foram fabricadas duas dezenas de canoas medalhadas em Pequim. É obra!
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Crime no Ecoponto
A aludida investigação sumária também não me permitiu concluir se o bom do animal estaria integrado nalguma trupe circense ou desempenharia qualquer outro papel de animação, que tivesse levado o dono a confundir o animal com o seu papel, mas esta parece-me explicação plausível, para um destino tão bizarro.
Defendamos as nossas tradições
Devo dizer que não assinei, porque considero a iniciativa de muito mau gosto. Depois de nos acabarem com os “jaquinzinhos”, querem acabar com essa instituição nacional que é a cunha? Querem acabar com as nossas tradições?
Como seriam preenchidos os gabinetes ministeriais? Como passariam a ser feitas as nomeações para alguns cargos de Director-Geral? Como iriam os jornais preencher algumas colunas de opinião? Que seria do Serviço Nacional de Saúde? Como é que a minha prima Zélia, que além de uma cara bonita e um belo par de pernas nada mais tem para oferecer ao mundo, iria aguentar-se como secretária de Direcção de uma multinacional, a ganhar aqueles milhares de euros?
Por este andar, qualquer dia ainda aparece por aí algum maluco a querer acabar com os cocós de cão na rua!
É tempo de defendermos as tradições portuguesas, antes que nos acabem com elas!
Viva os sapatos de cunha, abaixo os sapatos stiletto!
Dicionário do Rochedo (21)
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Quem me ajuda?
Não percebo nada de Direito Internacional. Talvez seja por isso que ando um bocado baralhado e agradeço a vossa ajuda. Alguém me pode explicar por que razão o reconhecimento pela UE da independência do Kosovo é legal e o reconhecimento da Ossétia e da Abecásia pela Rússia é ilegal?
E já agora, se não for abuso, agradecia que alguém me explicasse, ainda, porque é que chamam genocídio às atrocidades da Sérvia no Kosovo e consideram direito à defesa da integridade territorial da Geórgia, as atrocidades praticadas por este país na Ossétia e na Abecásia.
Há aqui qualquer coisa que não bate certo, mas se calhar sou eu que sou burro!
Maré de sorte?
Nem gosto de escrever isto, porque pode dar azar! A verdade, porém, é que tenho algumas razões para me considerar sortudo nos últimos tempos. Desde 2003 que não tinha um Verão com tanto trabalho- e vocês sabem como é importante para um "free-lancer" ter trabalho...- e além disso, trabalho que me dá prazer.
Depois de um período com bastantes deslocações, tenho a sorte de estar em Lisboa a trabalhar, nesta semana esplendorosa, junto ao rio. Estou a dividir as minhas tardes entre a Lapa e o Parque das Nações, sempre com o Tejo como horizonte e na companhia de pessoas com quem gosto de trabalhar. Não é razão para ficar desconfiado?
Aditamento: só vim aqui para partilhar isto convosco. Fizemos uma pausa para olhar o Tejo e beber uma água. Daqui a nada já vou fazer uma visita aos vossos blogs
Em Delfos, à conversa com Sócrates
A minha primeira reacção foi de repúdio. Depois indignei-me e, de seguida, retive a custo uma sonora gargalhada. Finalmente, enquanto o meu olhar repousava no oráculo de Apolo, na vã esperança de receber uma mensagem de cumplicidade reprovadora da cena que ambos estávamos a presenciar, os meus neurónios rebobinaram a História e, em “flashback”, revisionei a cena de Sócrates, diante de uma banca de vendas em Atenas, proclamando para os seus discípulos: “Vejam só a quantidade de inutilidades que os atenienses precisam para viver!”
Não pude escapar à tentação de imaginar a reacção de Sócrates , se um dia ressuscitasse e fosse obrigado a viver, durante uma semana, na sociedade actual.
Certamente não se espantaria com os “outdoors” anunciando os telefones eróticos , pois já em Éfeso presenciara situações semelhantes , de anúncios nas calçadas, indicando o caminho para casas de prostituição.
O seu primeiro esgar de indignação talvez surgisse quando, ao entrar num desses novos jardins da Felicidade Suprema, verificasse que aí estão à venda milhares de produtos supérfluos, muitos deles fabricados à custa de mão de obra infantil e trabalho escravo. Provavelmente, porém, só perderia o controlo absoluto ao verificar que existe um vasto leque de leis que visam proteger os consumidores e o ambiente, mas que têm pouca serventia. Pela primeira vez, então, ergueria a sua voz e perguntaria: afinal para que são tantas leis ? Não aprenderam nada com as lições da História?
Dicionário do Rochedo (20)
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
BranCos costumes
A brisa fresca que tem soprado pela manhã, é um convite a sair de casa cedo e caminhar até ao meu local de trabalho. É uma prática que me revigora o físico e me apura os sentidos. Só pela manhã – e nesta época do ano- é possível sentir os cheiros de Lisboa, pois a poluição já há muito nos retirou esse prazer quotidiano.Estou longe de ser um admirador incondicional de Lisboa, ou de a considerar a mais bela cidade portuguesa, mas gosto de calcorrear as suas ruas, rindo-me interiormente dos papalvos que perdem horas diárias em longas filas de trânsito, porque só caminhando consigo aperceber-me do pulsar da cidade e da forma como vai mudando a sua face.
Foi isso que sucedeu ontem. Como acontece sempre que faço o percurso a pé até ao Saldanha, aproveito para tomar um café pelo caminho. Embora não tendo local certo para o fazer, sou muitas vezes “atraído” para um pequeno café no Campo Grande cuja existência recordo desde os tempos em que frequentava a Faculdade de Direito.
Logo pela manhã, quando saía do Pio XII, o Café do sr Augusto ( se não me falha a memória era esse o nome do proprietário da altura) era a paragem acolhedora onde me abrigava de um aguaceiro inesperado, ou onde tomava a primeira bica, lado a lado com trabalhadores da construção civil e camionistas, que bebericavam a sua aguardente ou o seu “copo de três”.
Há hábitos que julgamos esquecidos, mas nos ficam no subconsciente e, logo que uma oportunidade surge ( mesmo passados muitos anos) faz-se um “clique” e retomamo-los sem percebermos muito bem porquê. Creio que é isso que explica o facto de a maioria das vezes que percorro a pé a distância entre minha casa e o Saldanha, sentir um “impulso” que me leva a entrar quando passo à porta deste Café - que mantém as características quase originais, apesar de não ter escapado à instalação de um balcão refrigerador onde doces e salgados mantêm promíscuo convívio.
Um destes dias, porém, consegui passar incólume à sua porta e acabei por tomar a bica matinal num “alindado” espaço da Av da República, onde o balcão da promiscuidade alimentar apresentava belíssimos espécimes de doçaria conventual. As paredes pintadas de cores alegres e o mobiliário funcional, anunciavam abertura recente. Entrei sem hesitar. A empregada (única) era brasileira. Entre a clientela ( escassa, mas a avaliar pela variedade e quantidade de produtos expostos com tendência para aumentar substancialmente ao longo do dia) eu era o único português. Havia ainda duas jovens de Leste, dois casais de turistas de origem não determinada, duas negras de meia idade e um jovem asiático que falava furiosamente ao telemóvel.
Enquanto saboreava, com um misto de gula e culpa, o meu doce pecado matinal, parou à porta uma carrinha de onde saiu um preto carregado de caixas que entregou nas mãos da empregada brasileira.
Quando retomei o meu caminho, comparei o cenário com o de Portugal dos anos 60. O contraste com o país de “branCos costumes” da época, isolado do mundo, onde um preto que entrasse em qualquer sítio, ou apenas circulasse nas ruas, era logo imaginado como um potencial terrorista, fez perpassar por mim um arrepio.
Conversas com o Papalgui (35)
- Que João? O bebé proveta?
- Sim, esse mesmo.
- Mas porque é que ele fez isso?
- Era tão liberal, tão liberal, tão liberal, que quando descobriu que a proveta era do Estado, decidiu afogar-se no Tejo.
Lisboa
Dicionário do Rochedo (19)
domingo, 24 de agosto de 2008
O Adeus a Pequim
Enquanto Vasco Pulido Valente está a alinhavar mais uma das suas crónicas para denegrir a cerimónia de encerramento dos JO de Pequim, esperando os aplausos da corte, eu associo-me ao Mischa , despedindo-se de Moscovo com uma lágrima que emocionou os mais empedrenidos.É um ritual que se renova cada quatro anos.Desde Moscovo que os JO não eram alvo de tantas críticas. Já aqui critiquei a atribuição dos JO a Pequim, mas isso não me impediu de rejubilar com as vitórias de todos os atletas, sejam eles americanos, russos, cazaques ou chineses. Grudo-me ao ecrã para ver o mais que posso, indiferente às questões políticas que sempre envolvem a realização dos Jogos. Desprezo as arengas do VPV e os aplausos da sua corte de seguidores. Rendo-me à beleza de cada momento de esforço dos atletas, deixo-me subjugar pela grandiosidade das cerimónias de abertura e encerramento. E, meus caros amigos, as cerimónias de abertura e encerramento dos Jogos de Pequim foram momentos inolvidáveis.
Não faltará quem continue a arengar prosas lembrando o recurso às novas tecnologias, que iludiram os espectadores, ou atiçando ódios contra o regime opressor de Pequim. A verdade é que hoje – tal como aconteceu em Moscovo- começou a escrever-se uma nova página da História. Quem não tiver percebido isso, ou anda distraído e esqueceu Moscovo, ou ainda não compreendeu que este é o século da China e que a relação de forças se alterou definitivamente. Não o digo pelo facto de a China ter ganho o maior número de medalhas de ouro, quando há 20 anos era ainda uma potência que se quedava a meio da tabela medalhística. Afirmo-o, porque enquanto no Ocidente andamos todos muito satisfeitos com os prazeres consumistas e este arremedo de Democracia que diariamente nos impingem, como um modelo de virtudes, a China está a construir uma Nova Ordem Mundial. Não será a melhor? Totalmente de acordo. Mas a culpa é de quem se deixou convencer que na Europa e nos EUA se vive no melhor dos mundos, autênticos paraísos terrenos, onde nos atolamos na febre consumista, esquecendo outros valores. Ensonados e rabugentos vamos ter um despertar difícil para a realidade.
Até Londres 2012!
Rescaldo da Volta
1- Em ciclismo sou há muitos anos fã do Tavira, que nunca ganhara nenhuma Volta.
2- David Blanco é galego, o que significa ser quase português.
3- O meu amigo Macário Correia ansiava e merecia esta vitória da equipa da sua terra natal.
4- A estratégia do eucalipto vermelho ( ler aqui) sofreu uma derrota humilhante.
Mas a Volta a Portugal trouxe também, na última etapa, a confirmação de uma máxima de Yves Saint Laurent. Repararam como Fátima Felgueiras está cada vez mais parecida com a filha Sandra?
Aditamento: Para quem não percebeu o ponto 4, aguarde o regresso do Rochedo das Memórias. É já no dia 2 de Setembro.
sábado, 23 de agosto de 2008
Natasha Kampusch- o lado B

Poderá não ter aguentado por mais tempo a pressão que ao longo dos anos se foi avolumando. Terá temido não poder manter muito mais tempo Natascha em cativeiro. A criança que raptara tornara-se adolescente, crescera cultural e intelectualmente, em breve seria mulher e começara já a esgrimir argumentos que o levaram a desenvolver um complexo de culpa que não se sentia capaz de suportar. Temeu que Natascha começasse a arquitectar estratégias de fuga, e que um dia conseguisse concretizá-la. Isso significaria que tinha sido derrotado pela sua vítima- outra ideia que dificilmente poderia suportar e inevitavelmente o conduziria ao suicídio.
Por isso decidiu que o melhor seria libertá-la. Seria- no seu ponto de vista- a única maneira de manter Natascha refém de uma relação que se perpetuasse depois da sua morte. Consegui-lo seria, pelo menos, uma meia vitória...
Mas outra questão se coloca. Terá Wolfgang Priklopil dito a Natascha Kampusch que a ia libertar, tendo previamente conversado com ela e explicado os motivos que o levaram a raptá-la e mantê-la sob sequestro, cativando a sua simpatia e aproveitando os efeitos positivos ( para ele) do desenvolvimento, em Natascha, do “síndrome de Estocolmo”? Ou terá simplesmente simulado uma distracção que permitisse a fuga, dando à jovem a ideia de que fora ela a libertar-se?
Inclino-me para a primeira hipótese. Só essa versão dos factos justifica o conformismo de Natascha, os sentimentos de “pena” em relação ao seu sequestrador, a ida ao seu funeral, a visita à casa e a recusa em vendê-la. É o “síndrome de Estocolmo” a lembrar-lhe que a sua liberdade só foi possível, em troca da morte do seu algoz .
A fuga – sem consentimento- não encaixa bem no lado B desta história.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
O Lado B
Faz amanhã dois anos que o mundo se emocionou com a fuga de uma jovem austríaca do cativeiro onde permanecia há 10 anos.Nesse dia, escrevi no extinto Alemdobojador sobre o rapto e sequestro de Natascha Kampusch, vendo a história pelo prisma da jovem austríaca. No dia seguinte, porém, publiquei outro post , onde via a história de outro ângulo.
Todas as histórias têm uma face visível e uma parte oculta. Chamemos a esta face oculta, “lado B”. Nos discos de vinil, a face B era quase sempre a mais fraca. Em alguns casos, era apenas uma versão diferente da música que se ouvia na face A e, em casos raros, excepcionais, aconteceu que a face B acabou por se tornar mais conhecida e popular do que a face A.
No jornalismo devemos aplicar o mesmo princípio quando nos deparamos com uma história. Normalmente, a versão que é publicada é o lado A Mas há (quase) sempre um lado B, aquele que depois de analisada a história nos parece menos verosímil e vai parar ao lixo ou fica retido nos arquivos da memória de quem a descobriu. Aplicando este princípio ao cativeiro de Natascha Kampusch, o lado A é o mais simpático ( a história vista pelo lado da vítima) e o lado B é a história vista na perspectiva do mau da fita: o raptor .
Para analisar o lado B desta história impõe-se que comecemos por perguntar: E se Natascha, afinal, não fugiu do cativeiro?
No lado B desta história , então terá sido libertada. Por quem?
Amanhã, publicarei a (minha) resposta.
Coisas do Sebastião (10)
Regressado dos JO de Pequim, ( para grande inveja do administrador do CR)trago-vos hoje uma proposta vinda da China- mais concretamente de Xangai: mudar a cor exterior da sua casa sem ter que gastar dinheiro em pinturas.Após várias experiências, cientistas da universidade de Xangai descobriram um material que muda a cor das paredes exteriores das casas ao longo do ano. De um azul leve, no Verão, para um vermelho forte no Inverno, por exemplo.
A descoberta tem uma vantagem adicional para além de reduzir os custos de pintar a casa: permite uma considerável poupança de energia.
O segredo reside na capacidade absorvente e reflectora do calor do sol por este material. No Inverno, com temperaturas abaixo de 20º C, a absorção do calor permite elevar a temperatura no interior do edifício, mas quando o calor aperta lá fora, a reflexão do calor solar ajuda a refrescar os interiores. Estes chineses são incríveis, não acham?
Dicionário do Rochedo (18)
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Pequim: balanço ( quase) final
Ao fim de uma semana sem medalhas o povão excitou-se. A eliminação de Obikwelu nas meias finais foi o extravasar do copo.O presidente do COP deu o mote e começaram a chover as críticas de "falta de profissionalismo"( bons tempos em que os JO eram coisa de amadores...).
Vicente Moura deveria ter esperado pelo final dos Jogos para fazer as acusações que fez. As suas palavras- em minha opinião- fizeram pelo menos uma vítima: Naide Gomes. Mas também fizeram ricochete pelo menos em Gustavo Lima- e assim perdemos o melhor velejador da actualidade. Também as palavras de Marco Fortes não teriam sido punidas com a expulsão da comitiva se a primeira semana tivesse corrido melhor e os judocas tivessem conseguido pelo menos uma medalha.
Quando iniciou o concurso do triplo salto, Nelson Évora carregava às costas as frustrações de um povo a quem Vicente Moura prometera cinco medalhas. Ambição desmedida. Embora alguns atletas pudessem ter ido mais longe, a verdade é que não me lembro de uma prestação olímpica melhor do que esta. Nada justifica que descarreguemos as frustrações nos nossos atletas, só porque não trouxeram as medalhas que desejávamos e que serviriam para aliviar as nossas "dores". Bem pior do que a prestação da selecção olímpica, foi a da selecção de futebol no Europeu. Com uma equipa de luxo, com um treinador pago a peso de ouro, mas coxo nas tácticas, quedou-se pelos quartos-de- final. Como era futebol, o povão engoliu em seco e calou-se.
Nélson Évora saltou para o ouro e o povão entrou outra vez em euforia. Quando é que os portugueses encontram o ponto de equilíbrio e aprendem a ver o mundo a cores e não a preto e branco? Mais uma vez o mau exemplo veio de cima, é certo, com Vicente Moura a dar o dito por não dito, admitindo recandidatar-se à presidência do COP. Afinal, se uma medalha de ouro era suficiente para mudar de ideias, porque razão não se calou até acabarem os Jogos? Talvez tivessemos ganho mais uma ou duas medalhas com o seu silêncio. Em minha opinião, portou-se muitíssimo mal, por isso deveria fazer as malas , regressar a casa e manter a sua decisão de não se recandidatar.
Como acontece sempre em Portugal, os líderes mantêm-se à tona à custa do esforço dos atletas. E isso não é bonito, nem recomendável, para o desporto português.
A China vista pela Cecília
A Cecília respondeu ao desafio num comentário, mas como considero importante que todos conheçam o seu ponto de vista, resolvi transformá-lo em post:
1 - O nr. de habitantes por m2 - enfrentar uma cidade com 14 milhões e uns trocados de almas, cuja idade média é de 25 anos, fez-me engolir em seco muitas vezes e pensar, entre outras coisas, que os sensores térmicos à entrada dos aeroportos não serão suficentes para travar uma qualquer epidemia de uma qualquer maleita....
2 - As características genéticas tão fortemente vincadas - é verdadeiramente impressionante olhar para um mar de gente à nossa volta, de vários sexos, idades e estratos sociais, e ter dificuldade em identificar quem acabámos de conhecer, através da altura, peso, tipo e cor de cabelo ou de olhos!!
3 - A busca da ocidentalização - talvez pelas razões acima, são inúmeros os jovens que tentam assemelhar o seu estilo ao dos jovens ocidentais, através de cortes de cabelo mais ousados, ondulações permanentes, tintas ou gel, com resultados mais ou menos bem sucedidos, pela indomabilidade das suas hirsutas cabeleiras. Quanto às roupas, especialmente dos rapazes, fazem lembrar um estilo "Duran Duran" dos anos 90 - blusões curtos, de mangas arregaçadas e ombros muito largos, preferencialmente com uma abundância jeitosa de prateados, calças de ganga muito justas e sapatilhas de contrafacção....o que me leva ao
4 - A sua capacidade inata para tudo comercializar e, especialmente, copiar, produtos já existentes, dos mais elementares aos mais tecnologicamente avançados, de uma forma orgulhosamente assumida e divulgada. (Só por graça, afianço que em NOVEMBRO foi possível adquirir lá um I-Phone da Apple...)
5 - A mentalidade e os espírito de sacrifício dos trabalhadores - Assim que obtém um diploma, os jovens largam a família para tentar a sua sorte nas grandes cidades. Recorrendo ao uso de uma paciência infinita vi fábricas com linhas e linhas de montagem humanas, colocando, soldando e testando manualmente componentes electrónicos absolutamente minúsculos. Sem direito a férias, feriados nem tão pouco fins de semana, são muitos os que vivem nas instalações das fábricas, dormindo em autênticas prateleiras que ocupam, em zigzag, paredes de cima a baixo.!!!
6 - O fosso económico-social entre os meios urbanos e agrícolas, ou mesmo entre duas cidades tão próximas e tão distantes como Shenzhen e Hong-Kong.
7 - A "tal" falta de educação cívica, à qual acrescento a generalizada pouca higiene nas ruas, nos mercados e restaurantes.
8 - A estrutura familiar - que devido à política de controlo da natalidade responsabiliza os filhos únicos da cidade pelo sustento dos mais velhos na província, ou, que em casos mais sortudos, responsabiliza os mais velhos, que conseguiram sair da província, pela educação dos netos únicos.
9 - O trânsito!!! Perfeita loucura, com milhões de veículos nas estradas, cujos principais instrumentos de navegação são, ao mesmo tempo, os retrovisores, o pisca e a buzina, numa condução digna de qualquer gincana profissional, tanto pela esquerda como pela direita, tanto na mão como na contramão, em rotundas, cruzamentos ou entroncamentos, a velocidades que nos deixam colados aos bancos e a pensar na tão distante N. Sra. de Fátima.....
e finalmente (last but not the least)
10 - As janelas...pois...são capazes de estranhar esta minha escolha, mas as janelas que eu vi, reflectem o modo de vida dos chineses naquela cidade: minúsculas, com grades por fora até ao 5º andar por causa dos assaltos e com roupa estendida ao contrário do que estamos habituados: em vez das tradicionais molas, que seguram duas pontas de uma camisa que cai paralela à corda, os chineses usam cabides, colocando perpendicularmente a roupa e ganhando espaço, para, em 80 cm de corda, secar 10 camisas....tantas quantos vivem no mesmo apartamento de 90 m2 a que pertence a exígua JANELA!!
"Tchetche", Cecília! Sigam-se os comentários
Pelo país dos blogs (27)
Assim começa este post do Salvoconduto( com link na coluna da direita) cuja leitura recomendo.
O Salvoconduto é um blog de leitura obrigatória para quem queira perceber a realidade da América do Sul, pois dá-nos a conhecer muitas histórias que a imprensa indígena - preocupada em atacar Chavez e enaltecer Uribe- omite, por ignorância, má-fé, ou simplesmente porque pensam que "isso não interessa nada".
Atrevo-me a afirmar que o Salvoconduto- apesar de ter apenas três meses de existência- é já o melhor e mais variado blog português na abordagem de temas internacionais. Se vos custa a acreditar, dêem lá uma saltada e depois digam qualquer coisa... Para mim tornou-se de leitura diária OBRIGATÓRIA
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
A China que eu vi (6)
A Cecília desafiou-me a indicar as 10 coisas que mais me impressionram na China. Tentei esquecer vários aspectos que condicionam a minha apreciação: que vivi vários anos no Oriente; trabalhei e convivi com chineses a quem devo bons momentos da minha vida pessoal e profissional; tenho afilhados ( de baptismo e casamento) chineses;fui sempre muitíssimo bem tratado nas universidades chinesas onde fiz algumas conferências; durante o período que lá vivi procurei sempre analisar o que via pelos olhos dos chineses.
Mesmo assim,tentei responder ao desafio, vendo a China à luz apenas de um turista que lá esteve no ano passado durante quase um mês.
Então aqui vai. Pela positiva e pela negativa, aqui ficam as 10 coisas que mais me impressionaram ( sem explicações, para não tornar o post demasiado longo...)
1- A cultura e a sua História
2- O respeito pelos idosos
3- A solidariedade familiar
4- A evolução tecnológica e bio-tecnológica
5- O erotismo
6- A filosofia de vida
7-A falta de educação cívica ( eu sei que há aqula coisa do "relativismo cultural, mas mesmo assim...)
8- A política de controlo da natalidade
9-O (pouco) valor que dão à vida humana
10- As desigualdades sociais ( embora esta merecesse um post..)
E agora é a sua vez, Cecília. Ficamos todos à espera...
Quem conta um ponto...
Era sexta-feira de manhã e, como habitualmente, levantou-se mais cedo a fim de fazer os preparativos para “rumar à terra”, na mira de recuperar, durante o fim-de- semana, das laboriosas agruras urbanas.Começou por atestar o depósito numa gasolineira onde lhe forneceram um sucedâneo de um cartão de crédito que- disseram-lhe- servia para coleccionar pontos que posteriormente poderia trocar por prémios.
Lembrou-se, então, que o cartão de crédito do seu banco também lhe oferecia pontos por cada 20 euros de pagamentos efectuados. E como quantos mais pontos somasse, mais possibilidades teria de ganhar um prémio, decidiu puxar do cartão para efectuar o pagamento. A operação custou-lhe 50 cêntimos a mais, mas nem se apercebeu disso.
Durante o trajecto para o emprego, ouviu na telefonia um anúncio de uma operadora de telemóveis que o aliciava para a possibilidade de fazer chamadas grátis, se conseguisse obter um determinado número de pontos. Aproveitou para desafiar as regras de trânsito e telefonar para a escola da filha, o emprego da mulher e para casa de uma amiga, combinando um jantar para a semana seguinte. Teria feito ainda mais alguns telefonemas, se não tivesse sido abalroado por um buzinão espontâneo que se formou atrás de si, intimando-o a avançar, porque o sinal verde já “caíra” há três segundos.
No emprego, aproveitou a “pausa para o café” para ir ao supermercado fazer umas compras de última hora que a mulher lhe pedira durante o telefonema. Ao pagar, deram-lhe um “vale” de 15 pontos e informaram-no que quando somasse 500, teria direito a candidatar-se a um sorteio de uns patins em linha.
Passou ainda pelo Banco para depositar uns dinheiritos na sua conta poupança e viu que o seu crédito somava agora 60 pontos. Não sabia exactamente o que isso significava, mas sentiu-se reconfortado com o bónus.
Regressado ao trabalho, recortou os pontos do seu jornal diário que lhe oferecia, mediante 15 pontos, um telemóvel “ao preço da chuva”. Será para dar à filha e tê-la melhor controlada nas suas saídas nocturnas, confidenciou à colega de trabalho a cujas pernas, generosamente desnudadas diante dos seus olhos atribuiu, sem hesitar, 18 pontos.
À hora do almoço, comprou uma revista e um jornal, não porque tivesse o hábito de o fazer, mas apenas por se ter sentido atraído pelas capas que anunciavam temas de interesse fundamental para a sua vida, como “Júlia Pinheiro vai fazer uma operação estética” ou “O depoimento de Margarida Rebelo Pinto sobre o caso da Quinta da Fonte”. Além disso, a contra capa da Revista anunciava um concurso promovido por uma marca de refrigerantes que oferecia pontos nas cápsulas. Aproveitou para anotar o nome da marca na lista de compras, comprometendo-se a divulgar a descoberta à mulher.
No final do dia foi buscar a companheira dos últimos 20 anos e nem reparou que esta aperaltara a cabeleira de forma pouco usual, para um fim de semana no campo. Já a viagem decorria há uma boa meia hora, quando a mulher rompeu o silêncio para lhe perguntar o que achava do seu novo penteado, enquanto esclarecia que decidira ir naquele dia ao cabeleireiro, porque com os pontos que somara com aquela operação recebera em troca um “shampô” da sua marca favorita.
Olhou-a num relance mal medido e sentenciou: “Vales 8 pontos”.
Sentindo-se ofendida, por desconhecer que o marido utilizara uma escala de 0 a 10 e não a de 0 a 20 a que fora acostumada nos seus tempos de escola, fez eclodir uma cena conjugal. Ali mesmo, em plena estrada.
Na tentativa de se desculpar e explicar que até a classificara de forma muito elogiosa, perdeu o controlo do carro e despistou-se. Por coincidência, foi bater num outdoor anunciando os serviços de uma clínica. Com o sobrolho a sangrar, ainda conseguiu avaliar os estragos nuns 200 pontos (ou seriam contos?), o que pago com cartão de crédito lhe aumentaria substancialmente a possibilidade de vir a receber um carro novo, (desde que a sorte, evidentemente, não lhe virasse as costas).
Embora os serviços do SOS estivessem a escassos 100 metros, insistiu com a mulher em ligar do telemóvel e chamar os serviços da clínica que se exibia diante dos seus olhos. Assim somaria mais uns quantos pontos.
Foi suturado com 19 pontos, ficando a um ponto apenas de ganhar um serviço de ambulância e pronto socorro grátis, numa próxima necessidade em que solicitasse os serviços daquele estabelecimento.
“Azar!”- vociferou entre dentes. A sociedade de consumo fora mais uma vez madrasta. Tinha-o batido... aos pontos! Por apenas um ponto!
Ou, por outras palavras, acabara de compreender que “quem conta uns pontos, se arrisca a parecer um tonto...”
Cavaco devolve "Lei do divórcio"
Cavaco Silva devolveu à AR a "Lei do Divórcio", alegando " desprotecção do cônjuge que se encontre em posição mais fraca". A Lei é de facto, em minha opinião, um aborto, um insulto às mulheres portuguesas que, na maioria dos casos, são o elo mais fraco na relação conjugal. Considero , além do mais, as alterações ao contrato de casamento iníquas No entanto, por trás desta recusa de aprovação, parece-me estar um sinal do que escrevi aqui.
Dicionário do Rochedo (17)
terça-feira, 19 de agosto de 2008
A China que eu vi (5)
Apesar de algumas medidas de controlo serem próprias de barbárie, não cabe aqui tecer críticas à medida adoptada nos anos 70, mas peço aos leitores um momento de reflexão e pensem como seria o planeta sem o controlo de natalidade na China . A redução da natalidade – agora aceite passivamente por muitos casais jovens- trará a breve prazo outro tipo de problemas, como o envelhecimento da população e a desproporção entre os dois sexos. É que é muito comum os pais que têm uma filha darem-na para adopção ( ouvi dizer, mas não posso confirmar, que muitos matam o primeiro bebé se for menina) a famílias estrangeiras. Dentro de alguns anos, haverá milhões de chineses condenados ao celibato, por não terem mulheres chinesas com quem casar
A política do filho único também fez aumentar o individualismo e o egoísmo, criando uma geração cheia de problemas Tudo isto está a contribuir para um certo abrandamento na aplicação da lei, mas é ainda cedo para se poderem tirar conclusões.
Cantão é um entreposto chinês para adopção de crianças.
Aumenta de forma acelerada o número de casais europeus , americanos e australianos que aí vão , com o intuito de adoptar crianças chinesas. O processo de adopção é bastante fácil - existem muitas bébés à espera de serem adoptadas-, mas obriga a que um casal permaneça um mínimo de duas semanas na cidade. É por isso frequente ver dezenas de casais passeando com bebés chinesas ao colo ou dentro de carrinhos. Os centros comerciais são um dos locais privilegiados por estes casais para passar o tempo. Foi num desses locais que ouvi esta conversa entre duas portuguesas carregadas de sacos e frenéticas na azáfama das compras:
- São tão giros estas bebés chinoquinhas, que parecem mesmo um brinquedo.... Se fosse mais nova ainda convencia o meu marido a levar uma!
-Cala-te lá, filha! E depois quando ela crescesse? Não a podias abandonar na rua como fazes com os cães...
Pronúncias do Norte
É com satisfação que vejo um jornal como o DN abordar os problemas do Norte com alguma profundidade, dando voz a algumas “personalidades” nortenhas. De todas as opiniões expressas, a que mais se aproxima da minha é a de Rui Moreira. Na verdade, o peso político do Norte desapareceu quando se esboroaram algumas das indústrias – especialmente a têxtil- que geravam riqueza. O outrora próspero Vale do Ave é, actualmente, um exército de desempregados, de famílias em dificuldades para garantir o seu sustento, que convive, paredes meias, com muita luxúria e desperdício. Enquanto esta situação persistir, o Norte não se vai levantar e continuará a ser uma zona de recrutamento de emigrantes, aumentando assim a desertificação.
Como realça o artigo do DN, o Norte é, hoje, a região mais pobre do país a precisar de revitalização e sangue novo para inverter a tendência de queda da última década.
Arreigadas a tradições, resistentes à mudança, as gentes do Norte dificilmente sairão deste marasmo decadente se não se empolgarem num projecto de desenvolvimento de âmbito regional que aproveite as vantagens da sua proximidade com a Galiza. Duvido que a regionalização seja o remédio para a cura, embora acredite que vale a pena tentar.
Ontem, sorridente e bem disposto, o Primeiro Ministro deslocou-se a Santo Tirso para anunciar a criação de 1200 postos de trabalho. Já li e ouvi várias críticas ao anúncio pós-férias feito por José Sócrates. Algumas delas são injustas, porque ignoram a situação em que vive o Norte e o que pode representar a criação de 1200 postos de trabalho numa região tão depauperada.
Não posso, porém, embandeirar em arco e aplaudir o PM, quando proclama que um “call center” é um emprego “bom e de futuro”.
Aceitar como verdade esta afirmação, é pactuar com a ideia de que o futuro está no trabalho temporário, em condições por vezes degradantes, tão severas e injustas são as regras que o pautam.
Um emprego num “call center” significa apenas adiar um problema e não resolvê-lo. Anunciar 1200 postos de trabalho precário, mal pago e praticado em condições de insalubridade psíco-fisiológica, como uma medida de grande impacto no combate ao desemprego, é anunciar uma grande desgraça ao país.
O que os portugueses precisam não é de empregos de circunstância, que sirvam de panaceia aos seus problemas económicos, mas sim de uma política de emprego, assente em estruturas sólidas e impactantes.
Vivemos uma era de grandes mudanças na estrutura e regras da empregabilidade. Não podemos continuar a pensar em “empregos para a vida”. No entanto, também não é desejável que transformemos a mobilidade dos postos de trabalho num cenário pós II Revolução Industrial, onde campeie a incerteza e só alguns possam organizar a sua vida em bases sólidas.
Um país com futuro precisa de criar postos de trabalho “de futuro” e os “call centers” não podem ser encarados nessa perspectiva.
Notícias do meu País
1- O pai da criança de Loures que morreu às balas de um guarda da GNR, foi para a esquerda caviar uma espécie de mártir. A alguns, pouco faltou para o proclamarem Catarina Eufémia do século XXI. Talvez se tenham lembrado de uma pequena diferença: Catarina foi assassinada a lutar por um ideal ; o filho do mártir de Loures foi assassinado quando o pai se dedicava a roubar ferro para assegurar o sustento da família ( sniff! sniff!). O amor deste pai -que se evadira da prisão de Alcoentre em 1999- ficou bem demonstrado na altura do funeral do filho. Incapaz de suportar a dor da perda não foi ao enterro, preferindo continuar a monte fugindo da polícia. Provavelmente, terá medo que a GNR cometa a injustiça de o prender.
2- A paranóia da população portuguesa em relação aos assaltos começa a ser preocupante. Vários cidadãos garantiram à GNR que ouviram diversos tiros durante um assalto a uma gasolineira na Mealhada. Depois de inspeccionar o local e falar com o funcionário da gasolineira, a GNR desmente categoricamente o disparo de qualquer tiro.
3- Carolina Salgado deixou de ter direito a segurança privada, paga por todos os portugueses, com o beneplácito da srª Procuradora Maria José Morgado. A causa? Aparentemente a última cena de ficção da Vidente do Monte da Virgem, cujo cenário foi uma quinta no Alentejo de onde se recusa a sair. A causa remota, porém, estará relacionada com o facto de os seus seguranças ( pagos pelo erário público, repito...) terem impedido que fosse sujeita a controlo de alcoolemia quando teve aquele acidente às 4 da manhã na ponte da Arrábida e que motivou a sua retirada para o Alentejo a fim de escrever mais um livro.
Presumo que o CM chore amargamente a desdita da sua colunista que escreve através de um “ghost wtiter”.
Dicionário do Rochedo (16)
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Notícias requentadas
Um pouco a medo lá me decidi, ao fim de cinco dias, a ver um Telejornal inteiro. Para me habituar, percebem? Para além de uma "overdose" de Vanessa ( parabéns, miúda, e obrigado!) e do José Rodrigues dos Santos na Geórgia, vi coisas interessantísimas que amanhã vou comentar.
Entretanto, veio-me à memória uma das últimas notícias que vi antes de entrar neste período de hibernação. No Mindelo, dezenas de pessoas- a maioria idosos- sorriam, riam, festejavam. O quê? O facto de, ao fim de 14 anos, terem recebido metade dos salários a que tinham direito, que a CGD lhes pretendeu usurpar. Fui-me certificar se o Mindelo era aquela povoação perto de Vila do Conde que tinha uma bela praia. Era. Suspirei de alívio... afinal não era na China.
PS: Regresso à realidade de boa saúde e calminho, mas já vi que entrar novamente no mundo das notícias, vai requerer muitos cuidados... Ahhh! E já ando com saudades de visitar os vossos blogs. Amanhã, vou dedicar parte do dia a cumprimentar-vos.
A hora do adeus
Ao fim da tarde vou ouvir, pela última vez, os sons do crepúsculo alentejano e à noite dizer adeus à Lua com quem partilhei momentos de indescritível prazer.
Amanhã, bem cedo, vou aterrar na cidade que nos corrompe aos poucos, com a sua poluição, o seu trânsito caótico, as suas rotinas desesperantes.
Há muito tempo que não tinha a possibilidade de viver cinco dias com a Natureza, de sentir o seu pulsar calmo, as suas cores genuínas, a sua brisa refrescante.
Estava a precisar deste repouso como de pão para a boca e nem uma ida de urgência ao hospital a bordo de uma ambulância, na manhã de sábado, obnubilou estes dias de verdadeiro banquete para o espírito.
Regresso a Lisboa reconfortado, mas com a certeza de que apesar de todos os cuidados que sempre tomo para evitar a recaída provocada pela vida na cidade, vou voltar aos dias de stress, deixar-me possuir pela irascibilidade das notícias, lamentar-me por não ter tido nunca a coragem de recusar a vida urbana. À minha maneira vou voltar (espero…) a pensar que sou feliz.
PS: Peço desculpa por ainda não ter respondido aos comentários, mas a lentidão da “pen” banda larga da TMN é tão exasperante aqui “neste “ Alentejo, que o acesso às caixas de comentários se torna quase impossível. Amanhã, espero pôr a correspondência em dia. Desculpem…
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Crepúsculo
Depois de mais uma caminhada de quase duas horas - de manhã fiz outra ainda mais longa- regresso ao alpendre já inundado pelo sol, a caminho do horizonte, anunciando a despedida. A paisagem ganhou vida. Bandos de pássaros regressam aos seus ninhos onde se acomodam em alegre chilrear. Cigarras entoam a sua canção de estio, acompanhadas por grilos preguiçosos.
Ao longe, ouço o coaxar das rãs junto ao rio e um rebanho de ovelhas balindo ao desafio. Dois cães estugam a passada a caminho de não sei onde. Lanço-lhes um repto sibilino. Um deles estaca o passo, fita-me e depois de uns momentos indecisos, começa a dirigir-se na minha direcção. O outro, que seguira o seu caminho, pressentindo a falta do companheiro volta para trás em louca correria e ladrar impositivo. O que vinha em minha direcção dirige-me um último olhar, como que a pedir desculpa, por me abandonar e inverte a marcha. Vejo os dois desaparecer numa curva do caminho.
O sol já se escondeu para lá dos montes, mas ainda espalha a sua luz por detrás das cortinas do quarto onde vai passar a noite. Em breve recolher-se-á para dar lugar à lua. Uma lua cheia que virá, na companhia de uma multidão de estrelas, iluminar o meu alpendre. Assim se renova a vida.
As cores do silêncio
Ligo o computador. Vindo de não sei onde, um moscardo pousa no ecrã. Será que quer dar uma vista de olhos pela Internet?
Alinho palavras a um ritmo tão lento como a vida para além do meu alpendre. Volto a fixar o olhar na paisagem.
Desligo o computador. Abro um dos livros que trouxe como companhia:“Meia noite ou o princípio do mundo” de Richard Zimler.
Aqui, onde me encontro, o mundo ainda não começou. Apenas duas borboletas, ensaiando um bailado de amor, anunciam que em breve haverá vida neste quadro que desfruto do alpendre.
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Indo eu, indo eu...
Levo o computaor,mas para onde vou pnso que nem acesso à Internet vou te. De qualquer modo, podm cá vir mais tarde, porque deixo uns postezinhos sobre a China e uma "Cena Tanguera" preparadas para irem para o ar. É só descer mais um bocadinho, logo encontram...
Resposta comentários é que não prometo antes de regressar... daqui a 5 dias.
Dança maldita, ou elixir da juventude?

Habituei-me, desde tenra idade, a conviver paredes meias com o fado e o samba, como símbolos musicais das duas pátrias que me conceberam e pariram.
O tango era encarado, no meio social portuense, como um género menor, uma “dança maldita” praticada nas “boîtes” por mulheres de mau porte, em missão de sedução libidinosa a clientes ocasionais. Enquanto jovem, descodificava o tango como uma dança erótica que acabava inevitavelmente na cama de uma qualquer pensão esconsa.
Claro que também o Povo dançava o tango nas sociedades recreativas... mas esse Povo, diziam-me, era “pobre e inculto”, tinha formas “animalescas” de se expressar e o tango mais não era do que a demonstração dessa realidade.
“Pobre Povo ignorante que não tem cultura para dançar coisas nobres como a valsa!”- lucubrava eu nos meus recatados momentos de reflexão, enquanto diante da pantalha assistia às aproximações entre o Poppey e a Olívia Palito.
A verdade é que nem sabia bem o que era o tango. Dançar “aquilo” era pecado e ponto final, invocava o pároco da minha freguesia que procurava cativar-me para o reino de Deus.
Foi aos 14 ou 15 anos que o tango entrou pela primeira vez na minha vida.
A par de Gardel, os discos de Sara Montiel entraram em profusão lá em casa e, ao ouvi-los, rapidamente percebi o sentido das palavras do velho pároco. Cada canção da “diva” mexicana me atiçava o rubor da adolescência. Percorrendo-me da cabeça aos pés, como um frémito, despertava-me os sentidos que as capas de alguns discos, de onde despontavam os seus seios nus, ainda mais acalentavam. Não havia dúvida...o tango era mesmo pecado! E as minhas visitas ao pároco, para a confissão mensal, começaram a ser mais espaçadas e esquivas.
Outros ritmos fizeram parte da minha adolescência. Arrecadei a Sara Montiel e o tango no baú das recordações com o rótulo “Música para velhos” ( ignorando deliberadamente os efeitos pecaminosos que pode provocar em adolescentes), e parti para outra.
Muitos anos mais tarde, já entrado na casa dos 40, razões profissionais levaram-me à Argentina, onde resolvi ficar seis meses, para além do 15 dias programados. O calor do povo argentino, aliado à inigualável presença das porteñas, fizeram-me remexer no baú das recordações e desenterrar as memórias sobre o tango.
Tornei-me cliente habitual da Feria de San Telmo - que todos os domingos anima a Plaza Dorrego - , onde vários pares levam os turistas a reviver a história do tango. Tornei-me frequentador do El Viejo Almacen, ponto de passagem obrigatório para qualquer turista que visite Buenos Aires e não seja indiferente ao tango. Assisti a espectáculos no velho café Tortoni, entrei nos teatros da Avenida Corrientes para ver todas as peças que havia sobre tango, afoito mergulhei na noite “proibida” de La Boca , pela entrada nobre do Camiñito. Perdi noites em tascas escondidas em vielas esconsas, onde “turista não entra”. Mas eu entrei...
A Laura sabedora da minha paixão por tudo o que tem rótulo argentino e presenciando as minhas reacções durante as milongas a que me levou, convenceu-me que deveria ter umas aulas, numa das muitas escolas de Buenos Aires. Fez o favor de me acompanhar ao longo de quatro ou cinco penosas sessões, ao fim das quais percebeu que o meu “pé de chumbo” se recusava a acompanhar o ritmo. Nunca mais ensaiei um único passo ( a não ser com a Laura que alguns conhecerão de posts anteriores escritos em Buenos Aires) mas todos os anos, quando regresso à Argentina, a minha preocupação é conhecer os novos locais onde há tangos e milongas.
Nos últimos anos, essa é uma tarefa ciclópica, pois o tango canta-se e dança-se em toda a parte, como se fosse tão essencial à vida dos porteños, como o simples acto de respirar. Ao entrar nesses locais sinto-me quase como um voyeur, pois nunca danço, mas renova-se em mim a frescura de uma adolescência perdida. O sangue ferve-me nas veias como quando ouvia os discos da Sara Montiel. Numa perfeita simbiose, sinto-me parte integrante de uma milonga. Numa palavra: rejuvenesço.
Será que o pároco da minha freguesia tinha mesmo razão, ou o tango é, apenas, o elixir da juventude? Talvez um bom psicanalista me saiba dar a resposta...
A China que eu vi (3)
Uma classe numerosa de novos ricos e yuppies emerge na China com grande fulgor.
Xangai é o novo paraíso do capitalismo e pelas suas ruas circula um elevadíssimo número de automóveis topo de gama.
No antigo quarteirão francês, chinesas elegantíssimas, vestindo modelos das marcas europeias mais conceituadas, encaminham-se para os restaurantes, acompanhadas de executivos vestidos a rigor, a maioria deles provenientes de Taiwan. A escassos metros, deserdados da fortuna vasculham os caixotes do lixo em busca do sustento do dia.
Riqueza e miséria convvem paredes meias, numa demonstração de que o capitalismo chinês não é diferente do ocidental, apenas difere nas roupagens.
A aproximação política entre a Mãe China e o filho rebelde ( Taiwan) fez-se através do capital que se instalou em força nas ruas da grande Metrópole e no caminho para o aeroporto, onde fica o parque tecnológico de Zhangjiang.
Ao passar naquela zona, não deixo de recordar que ainda em meados dos anos 90 toda a área era ocupada por campos agrícolas e que os arredores de Xangai ou Pequim ainda apresentavam um ar medieval. Não me restam dúvidas que a China está a mudar a uma velocidade vertiginosa. Regresso ao centro da cidade, a bordo do combóio Bala- o mais rápido do mundo. Foi construído gratuitamente pela Siemens, na tentativa de convencer os chineses a adoptarem-no. Foi um investimento dscsso, como o demonsta o facto de ter acabado de inaugura a ligação Pequim/Xangai
Pela janela vejo viadutos que se sobrepõem, torres gigantescas inspiradas na arquitectura ocidental, hotéis de 5 estrelas das mais prestigias cadeias internacionais, o bairro de escritórios de Pudong, estaleiros imensos preparando a Expo-2010, lojas das mais prestigiadas marcas europeias e americanas e duvido se não terei acabado de chegar a Nova Iorque. Os painéis publicitários, piscando em milhões de lâmpadas multicores onde se lêem caracteres chineses, desfazem-me todas as dúvidas.
Apenas uma questão me fica a bailar nos neurónios: o que levou os chineses a abandonarem o seu isolamento secular, a prescindir da sua impermeabilidade à nefasta influência estrangeira e abraçar, de peito aberto, a volúpia ocidental. Admito que ainda vá demorar alguns anos a encontrar a resposta.
Não me restam, porém, quaisquer dúvidas de que a China que visitara pela última vez em 1995, está enterrada . Ou talvez não...
E a Xangai da modernidade...
Mergulho na cidade velha de Xangai- berço do capitalismo chinês- e recupero uma parte da China de outros tempos. Naquele espaço respira-se sensualidade, ouve-se o barulho inconfundível das pedras de mah-jong e pairam no ar os cheiros de uma cultura milenar. Mas onde antes estavam casas de chá, se fumava ópio ou jogava xadrez, agora há estabelecimentos de marcas europeias conceituadas, misturadas com aquilo a que se pode chamar comércio tradicional. Apenas as fachadas, hábil e pacientemente retocadas, nos devolvem a poesia da dama de Xangai. Nessa época, porém, Xangai já consumia mais energia eléctrica que Londres ou Paris. Decido ir jantar ao Peace Hotel,( talvez o mais emblemático hotel da China) para me deixar envolver pelo espírito dos anos 30, com o som de uma orquestra de jazz em fundo. Azar! Está encerrado para obras e só reabrirá nas vésperas da Expo-2010. Afiança-me o guia que não vale a pena pensar em fazer reservas, porque a lotação está esgotada para todo o período da Exposição.
Pelo país os blogs (26)
Gente INfeliz com lágrimas
“Lembra-se da última vez que chorou?”
A resposta assertiva do líder da distrital do Porto do PS: “Sim, quando ouvi o discurso de Sócrates em Guimarães, no congresso do PS”.
Quando li isto, foi a minha vez de me emocionar e deixar cair uma lágrima furtiva. Onde chega o lambe-botismo, a cabotinice, a javardice de um líder político? É que Renato Sampaio tinha razões bem mais nobres para se emocionar, se tivesse uma centelha de auto-estima e dignidade. Podia emocionar-se com os desempregados, com os pobres, um doente, o sofrimento de um familiar, mas não... Optou por escolher a via do endeusamento do líder , talvez na mira de um dia ser compensado com um lugar no governo.
Com tanta gente generosa no PS Porto, logo esta alimária havia de ser escolhida para líder dos socialistas do Porto! Numa cidade que não se verga, um líder bajulador não é a melhor escolha.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Crónicas do meu baú(7)
Férias na Jamaica- Então que tal as tuas férias na Jamaica?
- Ai, querida, foram óptimas! Uma semana fantástica, longe daqui, desta pasmaceira- Não apanhaste o tufão?
- Oh querida, ali não há tufões! Só furacões como nos Estados Unidos!
- Está bem, mas não estavas na Jamaica quando passou lá um furacão?
- Estava, estava. O Dean por acaso foi um bocado chato...
- ?....
- Imagina tu que no dia a seguir a lá chegarmos estávamos cansados da viagem e só estivemos para aí meia hora na piscina. Depois, no dia seguinte, estava um dia óptimo e tomámos uns banhos que nem imaginas (ai aquelas águas!) que maravilha. E à noite o “reggae”? Oh querida só visto! Aquilo é Bob Marleys por toda a parte...
- Não estás muito queimada, acho que andaste mais nas noites do “reggae” do que a gozar a praia.
- Pois...logo no terceiro dia disseram-nos que vinha um furacão e já nem pudemos ir à praia porque nos avisaram que a qualquer momento nos iam transportar para um hotel mais seguro. Só deu mesmo para comprar umas bugigangas numas tendinhas ao pé do hotel, porque à tarde levaram-nos para outro. Fantástico, minha querida, nem te passa pela cabeça aquela loucura. Só piscinas eram quatro e restaurantes contei pelo menos sete.
- Bem, pelo menos gozaste as piscinas, deixa lá...
- Não... não pudemos ir à piscina por causa do tempo. Estivemos dois dias quase sem sair do quarto e no dia em que o Dean passou por lá só comemos umas rações que os hotéis lá já estão habituados a preparar para os turistas em dias assim. No dia seguinte voltámos de manhã para o nosso hotel, mas o tempo ainda estava muito mau e o hotel tinha ficado muito afectado. E ao fim da tarde do outro dia viemos embora. Olha lá e tu onde passaste as férias ?
- Bem, eu não saí de Lisboa. Fui um dia ou outro com os miúdos até à praia, mas esteve sempre bastante vento...
- Ó querida, coitada! Ficar em Lisboa de férias com este tempo horrível que tem estado. Não consegues convencer o teu marido a oferecer-te umas férias decentes?
A China que eu vi(2)
Seja qual for o número de habitantes da China Continental, a verdade é que se assiste a um crescimento acelerado das cidades. Os agricultores- cujo número é superior ao da população da Europa e EUA , juntos- estão a abandonar as suas terras onde normalmente vivem mal e a procurar as cidades onde as grandes empresas- especialmente as multinacionais- pagam salários muito mais elevados. Para que se faça uma ideia, o rendimento de um agricultor corresponde, sensivelmente, a um terço dos salários mais baixos pagos nos centros urbanos.
Esta migração, para além de criar uma classe média com razoável poder de compra e uma élite de quadros que seguem o velho modelo yuppie, coloca vários problemas: a desertificação dos campos, o crescimento das cidades e uma aglomeração de pessoas, especialmente em Pequim, Xangai e no sudeste do país, que a breve prazo será difícil de resolver.. Por um lado, porque o crescimento constante das cidades ameaça torná-las insustentáveis; por outro, porque muitos terrenos aráveis estão a desaparecer para dar lugar à construção.
O desenvolvimento económico da China – a par da Índia- coloca um problema de sustentabilidade a nível mundial, pois o país deixou de ser auto-suficiente em muitas matérias –primas, como o petróleo e, em apenas dez anos, passou a ser o segundo maior importador, logo a seguir aos Estados Unidos. E tudo isto se passa-é bom não esquecer- quando a esmagadora maioria dos chineses ainda não desfruta dos benefícios do desenvolvimento do país.
Para que se faça uma pequena ideia da relação salarial na China, acrescento apenas que um móvel para a sala, comprado na Ikea- os chineses vêem na empresa sueca o modelo de sucesso da decoração ocidental- pode custar o equivalente a dois meses de salário de um trabalhador indiferenciado.
O ridículo também mata
Olho à minha volta mas não vejo nada. Passa por mim um homem a correr. Sigo-lhe os passos com o olhar e vejo um corpo no chão debatendo-se com dois matulões. Quando o homem que passara por mim a correr chega junto dela, o acto estava consumado: uma miúda de 14 anos, minha vizinha, tinha sido despojada do seu porta moedas e do telemóvel. Perante o olhar passivo de um taxista que parou para ver a cena, sem sequer esboçar o gesto de sair do carro.
Chego junto dela, ao mesmo tempo do pai.. Ainda corremos atrás deles, mas a exibição de duas facas rapidamente nos dissuadiu. A miúda chora. Sangra por dentro. Um fio de sangue escorre-lhe pelo nariz. O paí tem a revolta estampada no rosto. Dos seus olhos saem chispas de ódio.
Não interessa para o caso se os assaltantes eram brancos, pretos, amarelos, ciganos ou peles- vermelhas. São dois filhos da puta que vão continuar a sustentar-se à custa de assaltos. Para mim não têm perdão. Foi este modelo de sociedade que os conduziu ao crime? É verdade... mas conheço desgraçados com razões de queixa da vida que os atirou para o desemprego e não foi por isso que passaram a asaltr bancos, ou pessoas na rua...
Reconheço, porém, que os assaltantes tiveram azar. Poderiam ter encontrado o Daniel Oliveira ou o João Miranda que, muito provavelmente, os teriam convidado para jantar e discutir, à volta de uma bacalhoada regada a tinto, e whiskey de digestivo, a barbaridade da polícia portuguesa.
A cena passou-se em Lisboa, no Lumiar, não foi no bairro das Galinheiras, em Camarate, na Quinta da Fonte, nem em Loures. Há quem ache tudo isto muito natural. Eu, que em jovem vinha do Caruncho até à Av das Forças Armadas a pé, às 3 da manhã, com amigas, sem qualquer problema, não acho.
PS: Lamentavelmente, constato hoje que Fernanda Câncio ( uma das jornalistas por quem tenho especial apreço) decidiu juntar-se ao coro de excêntricos que se insurgem contra a actuação da polícia e da GNR. O pretexto foi o assalto de Loures em que morreu uma criança de 12 anos que acompanhava os assaltantes. Mas alguém na sua lucidez, pode ter condescendência por uns filhos da puta que levam uma criança para um assalto? Estarei louco, ou esta gente perdeu a noção do ridículo?
Há amores que nunca morrem...
Creio que têm alguma razão, mas porque poucos conhecem a minha história, vou explicar as causas desse desvario.
Praticamente nasci quase em frente do velho estádio das Antas e fiquei logo azul e branco.
Quando vim para Lisboa não sabia o que era ganhar um título de campeão nacional e, por desdita, na minha turma da Faculdade de Direito só praticamente eu e o Miguel Sousa Tavares tínhamos a ousadia de manifestar o nosso “portismo”. Era olhado durante o ano inteiro com alguma condescendência pela escolha clubista que alguns rotulavam de provinciana, mas a complacência terminava se o F.C. Porto cometia a ousadia de vencer um clube da capital.
Quando finalmente o FC Porto se sagrou campeão, já não estava a viver em Portugal.
Graças a uma amiga que trabalhava na TAP, em Washington, atravessei o Atlântico num avião da TAP para vir assistir ao jogo decisivo ( FC Porto/Barreirense).
Cheguei ao Porto no domingo de manhã, fui ver o jogo ( que nessa altura ainda era às 3 ou 4 da tarde), festejei a noite inteira e regressei a Washington na segunda –feira sem ter pregado olho. Já tinha ultrapassado os vinte anos e era a primeira vez que podia comemorar um título de campeão nacional ( os sportinguistas que esperaram 16 anos para vencer um campeonato e mesmo os benfiquistas que esperam há 15 – aquele título de 2004/2005 foi tão foleirote e esporádico que não lhes deve ter dado gozo nenhum) sabem bem o que é a sensação de esperar tantos anos por uma vitória...
Quando em 1987 o FC Porto ganhou a Taça dos Campeões Europeus estava em Portugal, mas não me pude deslocar ao Porto para comemorar e, quando meses mais tarde ganhámos em Tóquio a Taça Intercontinental, eu tinha feito uma viagem em caminho inverso ao da minha equipa e estava no Perú ( mas vi o jogo...).
Só a partir da segunda metade da década de 90, pude começar a comemorar as vitórias dos Dragões em Portugal. Exultei com o ”Penta” e entrei em delírio com a conquista da Taça UEFA. Mas o momento mais significativo foi a vitória de 2004 na Liga dos Campeões.
Foi em Lisboa, com a Av da República e ruas adjacentes a abarrotar de adeptos azuis e brancos, que me senti vingado dos vexames que sofrera quando era estudante de Direito. Nada mais apetitoso do que festejar em casa do “inimigo”, a conquista do título de “equipa portuguesa que venceu mais competições internacionais”.
Compreendem agora porque não aceito que o presidente de uma grande instituição- como é o SLB- ponha em causa aquilo que foi ganho em campo com muito esforço? Compreendem agora que me irrite, quando um negócio pecaminoso de saias despeitadas quer pôr em causa o que homens de barba rija conquistaram ”sem sombra de pecado”? Compreendem agora, porque desprezo um homem que quer ganhar na secretaria, o que não consegue fazer em campo?
Dicionário do Rochedo (15)
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Atenção, minhas senhoras!
Que o diga Telma Monteiro, a primeira desilusão portuguesa em Pequim.
Bi-campeã europeia, única judoca do Velho Continente a intrometer-se entre as asiáticas, era candidata ao pódio em Pequim. O azar bateu-lhe à porta quando se “alistou” na agremiação encarnada. Primeiro foi uma lesão grave que a impediu de se treinar e a afastou da defesa do título europeu em Lisboa. Depois foi a prestação desastrosa perante uma espanhola que lhe é inferior. Resultado: quedou-se pelo nono lugar.
Finalmente, para justificar o seu desaire, acusou as arbitragens, numa demonstração de que já encarnou, plenamente, a maneira de viver benfiquista. Lamentável!
É melhor que Telma se habitue à ideia de que nas Olimpíadas não há Abreus a fazer fretes aos encarnados...
Quanto às leitoras do CR, simpaizntes do clube da Luz, deixo um conselho: afastem-se, porque por ali anda mau olhado. Será o vosso adorado Quique?
Rescaldo de Pequim (2)
Perceberemos, então, que a velha e relha Europa, habituada a ver os outros povos à luz do seu umbigo, pouco mais terá a dar ao mundo do que uma sociedade de consumo inebriada pelas delícias das novas tecnologias, mas prisioneira de estereótipos, que não deixam espaço ao sonho e à criatividade
A China despertou, há pouco mais de duas décadas, do seu isolamento e rapidamente se apressou a mostrar ao mundo que o homem não pode perder a capacidade de sonhar. Apesar de todas as contradições do regime chinês, do desrespeito pelos direitos humanos, da falta de democracia interna, o que ficou provado na passada sexta-feira foi que a China significa futuro, enquanto a Europa se atola no passado. E-é bom não esquecer - a centelha de criatividade que ainda resta na Europa deve-se, em grande parte, a orientais que estão cá a trabalhar.
Mergulhados na batalha da produção, que tem como único objectivo encher os seus cofres, a Europa perdeu capacidade de sonhar e inovar. Pode ter as patentes da inovação, mas tem poucos cérebros a liderá-la.
A Europa sofre de Alzheimer e enquanto não encontrar antídoto para a doença, continuará a envelhecer de forma grotesca. Terá a China piedade de nós?
Vários líderes mundiais assistiram à cerimónia (entre eles Bush e Sarkozy) no meio do público e ao seu nível - um pormenor que a muitos terá passado despercebido mas que encerra grande significado.
Terão aprendido a lição? Terão percebido que não será através de palavras que evitarão que este seja o século da China?
Se perceberam, é fundamental que metam mãos à obra e repensem o modelo económico e social calamitoso em que atulharam o ocidente. E é melhor que ajam rápido, pois muito terão a fazer para alterar o que se avizinha.
Napoleão, em 1816, já deixara o aviso. ao afirmar "Quando a China acordar, o mundo estremecerá". A China já acordou... mas por agora só em termos económicos.
Abriu-se a caixa de Pandora?
A prova de que não estava a ser alarmista aí está: Rússia e Geórgia entraram em guerra, por causa da Ossétia do Sul, a poucos meses de a Georgia poder vir a entrar na NATO.
Por agora, parece que a opinião pública não dá muito relevo à questão. Talvez porque o conflito seja longe (não tão longe como a fronteira de Xinjiang onde morreram 16 militares chineses, vítimas de atentado islâmico, fica de Pequim...).
A verdade, porém, é que em três dias já ultrapassa os dois mil o número de mortos e não adianta criticar a Rússia, quando se apoiou a invasão do Iraque!
Foi na Geórgia que nasceu Estaline. Saakhashvilli é um líder moldado na escola americana que os europeus da estirpe Barroso muito admiram. Saiu-lhes o tiro pela culatra. Agora talvez seja tarde para tentar fechar a caixa de Pandora...
