Um estudo acaba de revelar que os portugueses “
não são de confiança”. Nem no amor, nem no trabalho, nem mesmo nas relações pessoais. Bem, estudos são estudos. O problema é quando a prática os confirma...
Depois de ter lido
isto, pensei que a situação é um bom exemplo da genialidade dos portugueses para a falcatrua e o arranjinho.
O
Boavista interpôs uma providência cautelar para contestar as decisões de uma reunião do CJ que o despromoveu à II Liga. Que fez a Federação? Pediu um parecer a Freitas do Amaral para saber se a reunião seria válida. Sem pôr em dúvida a seriedade de Freitas do Amaral, que foi meu professor de Direito Administrativo, não posso deixar de estranhar a conclusão a que chegou. Por uma razão simples:
Contraria aquilo que me ensinou na Faculdade!Com o parecer ( não vinculativo) na mão e embora sabendo que as opiniões da maioria dos especialistas na matéria sobre este assunto são contrárias à de Freitas do Amaral, que fez Gilberto Madail?
Convocou uma reunião da Direcção da FPF para assumir o parecer com carácter vinculativo. A malta aprovou, mas segurou-se, (não vá acontecer o que sucedeu com o Gil Vicente que, depois de despromovido, viu o Tribunal dar-lhe razão. Agora pede indemnização choruda à FPF, que vai ter de puxar pelos cordões à bolsa).
Para tentar sacudir a água do capote, decidiu a Direcção da FPF convocar uma Assembleia Geral Extraordinária que se co-responsabilize pela decisão.
Confortados com este estratagema saloio, mas ainda com um problema para resolver, devido às providências cautelares apresentadas por Boavista e Presidente do CJ da FPF, socorre-se da figura processual mais canalha que conheço e invoca o interesse público para anular as providências cautelares.
O mais natural é o juiz ceder a este tipo de chantagem que é a invocação do interesse público, por isso, o Boavista pode
"tirar o cavalinho da chuva" e começar a pensara em recorrer aos Tribunais Civis , o que provocará um enorme imbróglio no futebol português, com a possibilidade, inclusivé, de a FIFA impedir a participação da selecção nacional no Mundial de 2010..
São situações como esta que dão razão ao estudo, mas o que importa é que há muita gente satisfeita com esta solução, para além dos responsáveis federativos:
-
O secretário de estado do desporto, que há dias mandou o recado: resolvam isso rápido para acabar com as dúvidas no futebol português. Coitado de Laurentino Dias... se soubesse a embrulhada em que se está a meter... A única solução airosa seria destituir a FPF e retirar-lhe o estatuto de "utilidade pública", mas não vai ter coragem para tanto.
- O presidente do
Paços de Ferreira, clube que vai jogar a I Liga, onde desportivamente não tem direito de participar, ocupando o lugar do 9º classificado. Ouvi o homem dizer “fez-se justiça” e logo me lembrei do estudo. Realmente a noção que muitos portugueses têm da justiça é a falcatrua, a vigarice, o suborno e a indigência.
-
Gilberto Madail, tal como Pilatos, também está satisfeito. Resolveu por agora o problema ( validando decisões à revelia da lei e ignorando a opinião dos tribunais sobre o assunto) e, quando a FPF tiver que pagar uma indemnização milionária ao Boavista já não está na Federação. Por essa altura, provavelmente, andará com os restantes senhores da UEFA a fumar umas cachimbadas ou charutadas em restaurantes de luxo, a pavonear-se em limousines e a gozar o sol num “off-shore” turístico das Caraíbas
-
Freitas do Amaral - que além de receber o dinheiro do parecer ainda vai amealhar uns trocos com a sua publicação em livro- deverá sentir-se com a leveza de quem cumpriu a sua missão com desvelo. Mesmo tendo opinião contrária à que emitiu no parecer, quando era assistente de Marcelo Caetano, nos anos 60, ou "esquecendo" que os tumultos e troca de insultos seriam razão suficiente para o Presidente do CJ encerrar a reunião.
-
Vital Moreira ( contrariamente aos juízes que julgaram o caso no foro civil, ilibando o Boavista e Valentim Loureiro) é favorável às escutas telefónicas também está satisfeito e já se apressou a dizer no seu blog que o parecer de Freitas do Amaral corrobora a sua opinião, expressa nas sebentas que fornece aos seus alunos. Este aspecto não deve agradar muito a Freitas do Amaral, pois uma sebenta sempre é mais barata que um livro...
-
Os conselheiros de justiça que supostamente continuaram a reunião. Para eles pouco importa que tenham violado normas constitucionais, penais e processuais. O importante, para eles, era defender os interesses do seu cliente do coração, o SL e Benfica.
- Finalmente,
Platini. Tem agora pretexto para voltar a dizer que a razão estava do lado dele e, com este argumento, candidatar-se ao lugar do sr. Blatter.
No meio de tudo isto, alguém teria de se tramar. Como sempre, foi o mexilhão que, neste caso, se chama Carolina Salgado e começará a ser julgada em Novembro, tendo ainda possivelmente de responder em tribunal noutro processo, por declarações falsas. Mas isso fica para outro post.