segunda-feira, 19 de maio de 2008

Maio de 68- Haverá razões para celebrar?

Um comentário da maloud ( aqui) leva-me a responder-lhe num post que espero sirva também para esclarecer os meus leitores sobre as razões do meu cepticismo acerca do endeusamento do Maio 68, como momento fulcral para uma revolução de costumes.
Ponto prévio: não comungando inteiramente da opinião de Vasco Pulido Valente- efectivamente é abusivo considerar o Maio de 68 um fracasso- sou alérgico ao empolamento que se faz de um curto período da década de 60 que começa numa "Revolução" e acaba com uma manifestação a favor de De Gaulle. E que acabou depressa, não tenho dúvidas.
O Maio de 68, em minha opinião, foi apenas uma erupção social decorrente de factores vários que marcaram a década de 60- essa sim, uma década de ouro em termos de transformações sociais. Mais do que uma revolução, foi uma inevitabilidade. Uma espécie de assinatura dos jovens de 60, no jeito tranquilo de quem diz: agora não há recuos. E, na verdade, não houve... O Maio de 68 foi ponto final, parágrafo. Uma nova era começou a partir dessa data? Não! A transformação começara muito antes.
É preciso não esquecer que os jovens de 60 são a primeira geração pós-guerra e que encontra condições políticas, sociais e económicas que justificam o seu inconformismo.
Condições políticas- os movimentos independentistas africanos transformam o continente num puzzle, propício a um conjunto variado de experiências políticas e ideológicas a que os jovens prestam especial atenção; a luta dos negros americanos pela igualdade de direitos civis e políticos, encabeçada por Martin Luther King, alastra à Europa; enquanto Kennedy falava de uma nova ordem mundial, os Estados Unidos envolviam-se na guerra do Vietname, com medo da vitória de Ho Chi Minh, o que era interpretado como uma contradição; a revolução chinesa e a “descoberta” do maoismo por uma juventude que já percebera que os regimes comunistas se tinham auto- destruído em contradições insanáveis que os levaram a refugiar-se atrás do muro de Berlim,transformado durante 28 anos numa barreira inexpugnável.
Havia inúmeras contradições e incertezas no período pós –guerra. Os jovens europeus dos anos 60 procuravam um modelo de organização política e social que acabasse com elas e expurgasse qualquer possibilidade de ressurgimento de um novo conflito. A CEE fora criada com esse objectivo- salvaguardar a Europa de um novo conflito de proporções e consequências inimagináveis- e os jovens do Maio de 68 tiveram necessidade de afirmar, na rua, que partilhavam da mesma opinião, dos mesmos medos e por isso apoiavam.
Condições económicas- a sociedade de consumo tinha começado a florescer nos meados da década anterior. Os europeus libertavam-se da míngua, dos racionamentos, voltavam a ter condições para viver desafogadamente. A sociedade de consumo de “massas” revelou-se o modelo ideal para satisfazer as carências e exigências dos europeus, cujo distanciamento dos EUA, em termos de qualidade de vida, era abissal. A liberdade tornara-se uma palavra de ordem, mas tinha subjacente questões de índole económica que não são menosprezáveis.
Condições sociais- Ao contrário do que tenho lido por aí, o Maio de 68 não foi determinante para a igualdade entre homens e mulheres, para a conquista de direitos ou para uma revolução sexual. Na verdade, as mulheres já tinham acesso à Universidade e ao mercado de trabalho; na moda, a mulher já inventara a mini-saia, numa manifestação clara que já libertara o corpo; e a pílula – que já circulava livremente nas Universidades europeias- era a demonstração que libertara a mente.
A moda foi, aliás, fundamental para alterar muitos códigos sociais e derrubar convenções. Como o foram o cinema, a música e a literatura, a partir da segunda metade da década de 50.
Penso que atribuir ao Maio de 68 a responsabilidade pela mudança de paradigma é manifestamente abusivo. Essa mudança começou a operar-se com o Plano Marshall!
O Maio de 68 foi um momento bonito- que muito me apraz ter vivido, ainda que à distância- mas não foi mais do que isso. Se tivesse sido significante, não teria acabado com uma vitória de De Gaulle no mês seguinte Se tivesse sido determinante para a mudança de paradigma, não desaguaria, anos mais tarde, na sociedade da hiperescolha em que hoje estamos atolados, correndo o risco de naufragar. Se tivesse sido decisivo, teria dado lugar à “nova ordem mundial” e não a uma sociedade nihilista eivada de hedonismo.
Não sei se é a estas coisas que Cohn Bendit se refere, quando afirma no seu livro "Forget 68", que o melhor a fazer em relação a Maio 68, é esquecê-lo, mas partilho da sua opinião.

Adenda: a leitura dos RM 29 a 36 pode ajudar melhor a compreender o papel determinante dos anos 60 nas mudanças sociais então operadas.
No caso específico da Moda, irei em breve republicar ( em capítulos) o que escrevi sobre o assunto, resultado de um trabalho de investigação que efectuei há uns anos.


4 comentários:

  1. E eu que pensava que um belo dia uns rapazes, lá em Nanterre, tinham resolvido fazer uma revolução!

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  2. Magnífica explicação para o Maio 68 eu aprendi, e tento sempre explicar aos meus alunos que na maioria das vezes devemos procurar a explicação para os acontecimentos mais longe do que o óbvio. Assim como a 2ª Guerra começou quando terminou a 1ª, o movimento estudantil de 68 insere-se no mundo do pós guerra. Seríamos os mesmos sem ele? Penso que não seríamos assim tão diferentes, pelo menos aqui em Portugal, onde chegou diluído. Eu não o vivi, era demasiado jovem, nasci em 59, apanhei as consequências por tabela, mas acho que sou quem sou por uma série de outros factores. Sempre gostei mais da História da Cultura e Mentalidades do que da Económica ou Política. São preferências...

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  3. Fada: na realidade, temos tendência a focalizarnum determinado momento, aquilo que demorou anos a constriur ou a alterar. Creio que isso se deve a dois factores. Por um lado, a forma compartimentada como antigamente nos ensinavam a História; por outro, poque faz parte da nossa essência a necessidade de encontrar pontos de referência, que nos sirvam de âncoras para explicarmos o mundo e a forma como fomos evoluindo

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