quinta-feira, 24 de abril de 2008

O meu 25 de Abril

Pelas seis ou sete da manhã, pouco depois da alvorada, ligo o meu minúsculo rádio de pilhas comprado em Gibraltar e fico atónito com o que ouço. Por entre os acordes de marchas militares e comunicados evasivos, digo ao Zé Calvário:

"Isto é cá dentro, são os gajos da Acção Psicológica a experimentar-nos".

Sabia do que falava e conhecia bem as práticas e proveniências de uma boa parte dos milicianos que então andavam pela Acção Psicológica. O Zé Calvário alvitrou entre dentes que podia ser um golpe da extrema-direita, chefiado por Kaúlza de Arriaga, descontente com as aberturas de Marcelo. Só de pensar na hipótese, assustei-me.

O pequeno almoço foi comido em silêncio, com "cochichos" à mistura. O suspense aumentou à medida que o dia foi passando. O nervosismo era evidente em cada rosto, seguíamos atentamente todas as movimentações, para ver se percebíamos o que estava a acontecer. Da parte da tarde começaram a correr alguns boatos, sendo o mais insitente o de que o Comandante tinha sido preso. Alguém alvitrou que, a ser verdade, não poderia tratar-se de um golpe da extrema-direita. Agarrei-me a essa hipótese de uma forma tenaz. Se não fosse de extrema-direita, só poderia ser o golpe Redentor.

O alferes miliciano , comandante de pelotão, respondia de forma evasiva a todas as questões que lhe colocávamos,enquanto aprendíamos a desmontar, limpar e voltar a montar uma G3.

Só ao final da tarde, quando diante do televisor instalado no bar ouvimos o comunicado da Junta de Salvação Nacional, tivemos a certeza que Marcelo Caetano tinha sido deposto e a ditadura derrubada. Respirei de alívio e, juntamente com outros camaradas, demos azo à alegria companheira de uma bebedeira colectiva que fez esgotar as bebidas.

Havia nomes , naquela Junta de Salvação Nacional, que não incutiam grande confiança, mas as dúvidas quanto à possibilidade de se ter tratado de um golpe da extrema-direita haviam-se dissipado.


No dia seguinte, as dúvidas não ficaram todas esclarecidas. Dentro de um quartel, com a informação limitada , impedidos de aceder aos transistores que apenas emitiam um ruído ensurdecedor ( sem que ninguém percebesse as razões de não ser possível escutar a Emissora Nacional e o Rádio Clube Português) e a televisão do bar desligada por pretensa avaria, a tensão subia a olhos vistos.

Na manhã do dia 27 foi-nos finalmente comunicado o que se tinha passado. Senti vontade de fugir dali e juntar-me às pessoas que festejavam na rua. Só no dia 1 de Maio tivemos essa possibilidade. Deixaram-nos sair no dia 30 e eu, em vez de ir para o Porto, onde era suposto uma namorada estar a minha espera, saí disparado para Lisboa. Mergulhei naquela multidão imensa , abracei e beijei centenas de pessoas que não conhecia e acabei com meia dúzia de amigos a comemorar no único restaurante que devia estar aberto em Lisboa naquele dia, a comer umas omoletas feitas por especial favor por se tratar de jovens militatres.

(Não recordo o nome, lembro apenas que fica junto ao Hotel Rex e ainda existe)
Nunca vi - e provavelmente nunca voltarei a ver- uma manifestação como a do 1º de Maio de 74. Foi a coisa mais inesquecível e inebriante que se me ofereceu viver em toda a vida.
Foram dia felizes os que se seguiram.

(Dedico este post e os dois anteriores - Antes do Adeus- em especial a alguma jovens leitoras que me têm colocado perguntas sobre o 25 de Abril . Não encontrei nada melhor do que relatar a minha experiência. espero que gostem).

10 comentários:

  1. Eu vivia nessa altura perto do Marquês de Pombal e ouviam-se os tiros vindos do Largo do Carmo. Era muito miúda mas ainda me lembro.

    Tem um presente lá no Ares para ti. Bom feriado.

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  2. Toma lá um cravo encarnado!



    Abraço!

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  3. Patti: obrigado pelo presente. Adorei!

    Teixeira: um cravo tb para ti. Pus este post à pressa ( estavam à minha espera para comemorar logo após a meia noite) e não tive tempo de procurar um cravo na Net.
    O meu, está bem agarrado na lapela.
    Abraço

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  4. Pois foi ao passar pelo RCP de Miramar que confirmei a informação da padeira. Nas dunas estavam soldados com as armas apontadas para o edíficio. E depois a ponte da Arrábida também tinha guarda de honra.

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  5. Obrigada pela partilha.
    Para alguém que nasceu dois anos depois, mas que tem conhecimento de tantas histórias da época, é sempre interessante conhecer mais uma.
    Acho que, qualquer dia, saberei o que se passou em todos os quartéis do País...
    Quanto à sua recruta, posso dizer-lhe que ainda hoje a comida não presta na EPI (tal como não presta na maioria das EP's) e que as ratazanas continuam a ser os mais fiéis habitantes das catacumbas do Convento.
    Quanto aos ensinamentos do dia-a-dia num quartel, os recrutas continuam a ter de aprender a fazer a cama e a limpar as camaratas e casas de banho. E não lhes faz mal nenhum...

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  6. Também me lembro de cada momento deste dia, em que alguém me veio bater à porta para não sair de casa e ir para Lisboa. Passei o dia todo agarrada ao rádio e a ir a correr para casa duma amiga que morava aqui perto. Outras vezes era ela que vinha a minha casa conforme o andamento da situação. Sei que um dos momentos mais difíceis foi por volta das 16.00 da tarde, quando toda a gente estava à espera do que se passava no Quartel do Carmo e nós as duas coladas ao rádio portátil , que ela tinha na bancada de cozinha (estou a ver.me inclinada sobre o mesmo, como se fosse hoje, e as lágrimas caem-me dos olhos, só de pensar no alívio depois da rendição dos aquartelados. Toda a noite também estive à espera em frente da televisão, vendo o Fernando Balsinha e o José Fialho Gouveia e perto da uma da manhã temos o comunicado da Junta de Salvação Nacional. Acho que foi dos dias mais lindos da minha vida. Tanta coisa que nós conquistámos, por isso fico triste quando oiço e leio tanta gente a dizer mal, só porque têm Liberdade para isso e outros porque ficaram prejudicados e muitos ainda por ignorância e outros por estarem ligados a dogmas. Na internet há tanta coisa sobre os arquivos da RTP. Procurem e ficarão a saber de muita coisa, que nem se soube na altura. Fica aqui o telejornal desse dia para quem não viu ou para recordar:https://arquivos.rtp.pt/conteudos/edicao-especial-do-telejornal-no-dia-25-de-abril/#sthash.GEb6oSUC.dpbs

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    1. Gostei de ler a sua história, Anphy. Obrigado por a ter partilhado connosco.
      O TJ está programado para ir para o ar, no FB, às 20,

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    2. Esqueci-me de dizer uma coisa muito importante. Eu tinha saído às duas da manhã, já 25 de Abril, duma reunião que houve na Rua do Alecrim do Sindicato dos empregados de escritório e fui a pé até ao Cais do Sodré para apanhar o comboio para casa.

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  7. Penso que nesse dia, tal como o Carlos, embora não cumprisse tropa, andei um pouco apalermada com o que se passava; afinal, nunca tinha vivido uma revolução e a de 1640 não me ajudava muito a compreender.
    Havia muita palavra desconhecida, muita gente nas ruas agarrada aos jornais, o rádio a transmitir marchas militares e afins, canções e cantores desconhecidos. Foi na tarde em que os presos políticos regressaram e deram uma volta na praça do Giraldo que fiquei ciente de tanta verdade amordaçada e pouco agradável de saber. E desde esse momento-chave que confirmo a canção, "somos livres, somos livres, não voltaremos atrás".

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    1. Também não precisava de recuar a 1640, Bea... Bastava ir até ao 5 de Outubro de 1910, que é mais pertinho :-)

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