Querido Menino Jesus:
Há já vários anos que não te escrevo nesta época natalícia, e manifesto agora o meu sincero arrependimento, porque nas cartas que anteriormente te escrevi, de terras bem distantes, fui sempre por ti ouvido e a grande maioria das minhas pretensões foram satisfeitas. Confesso que também já escrevi ao Pai Natal, mas não interpretes isso como concorrência desleal, pois a ele só lhe pedi aquelas “merdices” consumistas e o que espero de ti é a satisfação de alguns desejos que podem ajudar os portugueses a ter uma vida melhor.
Pretendia pedir-te, nesta quadra natalícia, algumas prendas para pôr no sapatinho que comprei em saldos, numa sapataria esconsa, e que só usei uma vez porque ao fim do dia já ameaçavam desfazer-se.
Para começar, agradecia muito que ajudasses todos os portugueses a deixar de fumar. Não é que esteja muito impressionado com aqueles rótulos que agora põem nos maços de cigarros a dizer que “FUMAR MATA” pois hoje em dia o ar que se respira nas grandes cidades também mata, e não visitei ainda nenhuma onde à entrada estivesse escrito “ O ar que se respira nesta cidade mata”. Não seria mentira nenhuma e as pessoas andariam avisadas, caso contrário, ainda vamos assistir ao aparecimento de algumas associações que vão reclamar indemnizações às autarquias por não terem avisado os cidadãos desse perigo . O que realmente me leva a fazer-te este pedido é o desejo que tenho de ver a Fernanda Câncio feliz!.
Em nome de todos os carteiros deste País, peço-te que lhes envies uma cópia do decreto lei da publicidade domiciliária, de modo a que não tenha a caixa de correio a abarrotar, diariamente, de folhetos de hipermercados, promoções de Pizzas, vendas por catálogo e publicidade da Revista PROTESTE
Como nunca ganhei um prémio na lotaria, no totoloto, nem em rifas de associações de beneficência, agradecia que dissesses às empresas que semanalmente me telefonam para casa a dizer que ganhei um prémio, no intuito de me venderem os seus produtos, que não me alimentem, nem por um segundo, a ilusão de ter ganho alguma coisa sem ser à custa do meu trabalho.
Já agora, agradecia que enviasses uma circular a todos os estabelecimentos e instituições que estão obrigados a ter Livro de Reclamações, esclarecendo-os que o livro se destina aos clientes e utentes e não a enriquecer as suas bibliotecas.
Se não for pedir muito, agradeço-te que faças cumprir a Lei do Ruído, deixando de abrir excepções por tudo e por nada. Eu já tinha avisado que só por milagre é que a Lei seria cumprida e que talvez tenha sido com essa esperança que foi publicada num 13 de Maio mas, francamente, estou convencido que a estratégia não funcionou, tantos são os casos de infracção
Peço-te ainda, encarecidamente e com carácter de urgência, que ofereças um “ Manual de Educação Cívica” a todos os portugueses, para que percebam que não devem andar em contramão, estacionar em segunda fila, em cima dos passeios ou em rampas de acesso para deficientes, que os piscas são para funcionar quando se vai mudar de direcção e não quando se pára em transgressão e que os telemóveis , embora muito úteis, não foram inventados para serem utilizados quando se conduz, ou quando se vai a um teatro, cinema, ou concerto.
Eu sei que será difícil satisfazeres-me este pedido, mas mesmo assim, lá vai: explica-me porque é que “eles” andam sempre de sorriso no rosto, enquanto nós andamos de rosto franzido, porque o desemprego continua a aumentar e o nível de vida e o poder de compra a descer!Tinha muitas outras coisas para te pedir, mas a lista já vai longa e não quero maçar-te.
Muito grato e até para o ano!