quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Obrigado, digo eu!...

A Sílvia é uma moldava que trabalha no restaurante onde almoço quando não tenho possibilidade de o fazer em casa. Diligente, sorriso sempre estampado no rosto, nunca lhe ouvi um queixume. No Verão passado disse-me que estava grávida e ia ser Mãe. Nesse mesmo dia telefonei à minha (Mãe). Não para lhe comunicar a novidade- ela não conhece a Sílvia e até àquele dia desconhecia a sua existência. Ficou a saber quando lhe pedi que fizesse uns carapins * para o filho.
O pedido tem uma explicação. Apesar dos seus 92 anos, a minha Mãe continua a ser “maestra” na arte de tricotar e o seu “perfect job” são os carapins. No Porto, toda a gente conhece os carapins feitos por ela. A razão para a tão propagandeada arte da minha Mãe deve-se ao facto de os carapins que confecciona em longos serões solitários, tendo apenas a “pantalha” como companhia, resistirem estoicamente a qualquer tentativa que os recém-nascidos façam para os expulsar dos seus pèzitos. Apesar das explicações que me tem tentado dar para desvendar o “segredo”, sou incapaz de a compreender. Afianço mesmo que, pessoas idóneas na arte de tricotar, têm tentado executar o “truque” dos carapins não descartáveis por pèzitos irrequietos, sem qualquer sucesso. Mas adiante...
Hoje, entreguei os carapins à Sílvia e expliquei-lhe a origem. Vi os seus olhos marejarem-se de lágrimas . De gratidão e de amargura. ( Ela já não tem Mãe que lhe possa fazer carapins , mesmo descartáveis!). Arregalou os olhos de espanto quando lhe disse a idade da minha Mãe e depois deu-me a última novidade: de manhã, acabara de saber que o Igor irá nascer no dia em que ela fará 30 anos.
Abotoei-me com uma dose de rojões à minhota como não se fazem em nenhum outro restaurante lisboeta, tomei o café e pedi a conta. A acompanhá-la, a Sílvia trouxe-me um jornal. Abriu-o na página ímpar, onde a sua fotografia ilustrava a resposta que dera a um inquérito de rua.
Depois disse-me: “leve o jornal para a sua Mãe. Quero que ela saiba quem eu sou. E diga-lhe que lhe estou muito agradecida”.
Claro que vou levar, mas Obrigado sou eu, Sílvia! Fizeste-me lembrar hoje uma coisa de que não me devia esquecer tanto... o Natal é isto mesmo, sermos capazes, através de pequenos gestos, de fazer os outros felizes. Eu também me sinto feliz, por ter contribuído ( graças à minha Mãe), para que hoje tivesses um dia perfeito. Por isso é que se costuma dizer que " O Natal é quando um homem quiser"

Nota: para os leitores menos informados, carapins são sapatinhos de lã que servem para aquecer os pés . De recém-nascidos, mas também de adultos. Pois, pois, eu sei que em Lisboa não conhecem o significado das palavras que encerram poesia. O melhor que são capazes de dizer é “botinhas”, porque resumem o afecto a um sufixo. Pronto, vão lá comer toucinho!

Parabéns à Céu Neves

A atribuição do Prémio “Pela diversidade. Contra discriminação” à Céu Neves encheu-me de satisfação. As razões estão explicadas no post abaixo, que escrevi no meu anterior blog ( Alemdobojador) quando li os artigos. Parabéns Céu! Merecias que a blogosfera tivesse dado mais atenção ao teu trabalho e ao teu prémio. No entanto, apesar da época natalícia, parece que andam todos a olhar para o umbigo, a discutir qual é o melhor blog do ano.

Uma reportagem notável

Pessoa amiga, sabedora que dias antes de partir para férias concluí um trabalho sobre migrações a ser publicado em breve numa revista de referência, aconselhou-me a leitura de uma reportagem da Céu Neves publicada no DN nos dias 10 e 11 de Junho.
Trata-se de um trabalho notável. Céu Neves viajou como mais uma emigrante, experimentando as condições de dureza a que estão sujeitos os portugueses. Durante duas semanas, viveu nos mesmos alojamentos, experimentou as mesmas sensações de incerteza diárias, sentindo na pele o sofrimento dos compatriotas que partem para aquele país e vivendo os enganos de que são vítimas.
Trata-se de uma reportagem que mostra, na prática, os perigos que espreitam os emigrantes e imigrantes neste mundo global, onde nem a civilizada Europa escapa ao tratamento desumano dos seus cidadãos.
Céu Neves aborda, também, um tema sobre o qual escrevi um artigo ano passado: o “modus operandi” de algumas empresas de trabalho temporário que, sem quaisquer escrúpulos, tratam os trabalhadores como “carne para canhão”. Fui emigrante privilegiado durante vários anos em países europeus e nos Estados Unidos ( os anos que passei em Macau não entram para esta contabilidade) e pude aperceber-me das condições desfavoráveis em que muitos portugueses viviam. Em termos de exploração, porém, só nos anos 60 encontrei situações semelhantes às que Céu Neves descreve. Mas o que se passa na Holanda não é caso virgem. Na vizinha Espanha, na Islândia ou no Canadá, ocorrem situações semelhantes. O mundo estará mesmo melhor, como muitos apregoam?

O que é que lhe deu, Catarina?

Não há cão nem gato, com acesso a uma colunazeca de jornal , que não opine em relação à actividade da ASAE. À excepção de Ricardo Araújo Pereira, a música é sempre a mesma.
A ASAE é fundamentalista, deixem-nos continuar a ser badalhocos que é assim que nos sentimos bem e outras lenga-lengas a que já aqui fiz referência. Não vou sair mais uma vez em defesa da ASAE. Desta vez jogo mesmo ao ataque e a razão é simples. Eu até compreendo que colunistas sem tema para escrever digam disparates e baboseiras, opinem sobre assuntos que desconhecem, se condoam com o encerramento da ginginha (por desconhecerem que se tratou de uma acto de desobediência da proprietária) e caiam na tentação de escrever para ouvir o eco das suas palavras, mesmo sabendo que estão a fazer juízos sobre coisas que desconhecem. O que não aceito é que a Sub-directora de um jornal que respeito, não resista a engrossar a onda de críticas à ASAE acusando-a de actos que nunca praticou.
Refiro-me à sub-directora do DN, Catarina Carvalho, que numa colunazita gratuita decidiu malhar na ASAE, por ter “a mania das limpezas”. Em tom jocoso, não se coibiu mesmo de lembrar aos leitores que isso “ é doença e tem nome”.
Catarina Cravalho perdeu uma boa oportunidade de estar calada e perceber que o silêncio é deoiro e quando nos esquecemos disso, corremos o risco de nos tornarmos ridículos.
Na verdade, a indignação da douta sub-directora do DN não tem qualquer fundamento. Quando acusa a ASAE de “proibir a utilização de listas telefónicas usadas para embrulhar as castanhas assadas na rua” está apenas a ser uma câmara de eco da “vox populi”. Por isso fez uma acusação injusta e infundamentada, que considero inadmissível e indesculpável numa pessoa que dirige um jornal. Ficar-lhe-ia bem, num gesto de humildade, pedir desculpa aos leitores que induziu em erro, e à ASAE que acusou de forma injustificada. Até porque escreveu isso num jornal gratuito ( o Global notícias) lido por muitos milhares de pessoas que foram induzidas em erro e irão engrossar o eco de críticos.
Não sei a quem interessa denegrir a imagem da ASAE ( mas desconfio...). Sinto-me no entanto na obrigação de contribuir para a reposição da verdade e esclarecer o seguinte: não houve nenhum vendedor de castanhas assadas multado ou ameaçado pelo facto de vender castanhas embrulhadas em papel de listas telefónicas, nem vendedores de bolas de Berlim perseguidos e vamos todos continuar a poder beber a “bica” em chávena.
Se no mei de tudo isto houve excesso de zelo, foi certamente de Catarina Carvalho que, ao escrever o que escreveu, parece ter tido como único intuito ouvir o eco dos aplausos de milhares de leitores que diariamente lêem o jornal nos transportes públicos. Ficou mal na fotografia, porque se deve ter esquecido que os jornalistas se devem abster de opinar com base no “diz-se diz-se”. Essa, minha cara senhora, é uma regra que nenhum estagiário de jornalismo pode esquecer!