quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Também tenho direito, ou não?

Sim, caros leitores, também eu me sinto no direito de ter o meu momento “silly season” ( ver os dois posts abaixo)
Salma Hayek
( na foto) declarou numa entrevista a David Letterman que as suas maminhas são “uma dávida de Deus”. Segundo a actriz , os seus seios começaram a crescer quando visitou uma Igreja no México. Como desejava ter uns seios maiores aspergiu-os com água benta e disse: “ por favor dê-me um pouco de busto”.
Como a imagem documenta, o pedido não caiu em saco roto... resta saber que idade tinha Salma Hayek qundo formulou o pedido. Se foi aos 12 ou 13 anos, não me espanta. Mas se já era uma moçoila que ultrapassra o período “teenager” isto dá que pensar! Vai ser a falência dos maduros que andam para aí a enviar “spam” a toda a hora prometendo “ the enlargement of your penis”
Será que há por aí alguns leitores a pensar que eu estou a pensar aquilo que eles estão a pensar?

A "silly season" da comunicação social

Durante a “minha silly season” (ver post abaixo) a comunicação social também cumpre o seu papel. Para além dos casos esporádicos, há “tiques” editoriais crónicos que denunciam a época. Multiplicam-se os questionários e entrevistas sobre a quadra natalícia , as notícias e reportagens sobre o Natal de outras paragens. Fazem-se balanços do ano que finda e previsões para o ano que se vai iniciar. Somos inundados com as “Revistas do Ano” onde se recordam os factos mais importantes ocorridos ao longo de 365 dias, as mortes de gente importante , as principais catástrofes etc.
Um dia destes, imprensa e televisão ( talvez também a rádio, mas não posso assegurar...) brindaram-nos com uma peça de elevado interesse noticioso sobre o ano de 2008. Resultado de uma pesquisa jornalística apurada e do “faro jornalístico” de algum editor com insónias, a comunicação social concluiu que em 2008 os portugueses só vão trabalhar 222 dias.
Creio que terá sido a redundância cabalística do número que terá motivado a relevância dada à notícia. Na verdade, um ano com apenas 144 dias de "ripanço" é obra! Intrigado com tanta perspicácia, decidi também eu investigar como foi possível chegar a esta conclusão.
Comecei por retirar aos 366 dias do ano ( 2008 é ano bissexto) os 10 feriados que não coincidem com um fim-de- semana e os 25 dias de férias a que ( quase) todos temos direito e cheguei ao número de 331.
Embora saiba que nem todos os trabalhadores deste país têm direito a descanso semanal, condescendi em tirar mais 52 dias, correspondentes aos domingos. Mesmo assim ficou curto, pois contabilizei 279. Ainda faltava encontrar mais 57 dias de “ripanço”, pelo que decidi incluir a terça-feira de Carnaval ( que nem todos gozam) e o feriado municipal (que em muitas localidades pode coincidir com um fim-de-semana). Como ainda não chegasse, lembrei-me: será que os “investigadores” também incluíram os sábados? Vai daí acrescentei-os à lista. Ficaram a faltar-me apenas 3 dias que, depois de aturadas investigações, concluí que eram atribuíveis a 3 hipotéticas “pontes” que o jornalista deu como “adquiridas”.
Como adiante se poderá constatar, esta investigação jornalística é um embuste que deveria merecer a atenção dos Provedores dos órgão de comunicação social que lhe deram eco.
Em primeiro lugar, todos sabemos que essa história das “pontes” foi “chão que deu uvas”. Quem as quiser fazer tem que meter um dia de férias e ponto final.
Em segundo lugar, só uma parte dos trabalhadores tem direito a gozar dois dias de descanso semanal. A maioria goza apenas um, o que significa que terá que trabalhar não 222, mas sim 274!
Em terceiro lugar, essa ideia de que temos muitos feriados é “mais falsa do que Judas”. É sabido que em muitos países europeus e latino-americanos, ou mesmo nos Estados Unidos, quando os feriados “caem” num sábado ou domingo passam para o dia útil anterior ou posterior. Em França ou na vizinha Espanha ( para citar apenas dois exemplos próximos), as “pontes” são frequentes, ao contrário do que se passa em Portugal actualmente. Além disso, há vários feriados em que muitos trabalhadores estão ao serviço, sem terem direito a qualquer compensação suplementar ( para além da que a Lei estipula).
Finalmente, seguindo o raciocínio da “investigação jornalística”, ( retirando fins de semana, 25 dias de férias uma média de 10 feriados úteis, incluindo uma “ponte”) fiz uma comparação com os últimos 5 anos e cheguei à conclusão que em média, trabalhámos 224 dias por ano.
Valia a pena fazer tanto escarcéu por dois dias? Tenham juízo e investiguem aquilo que realmente interessa!

A verdadeira "silly season"

Somos danados para importar expressões anglo-saxónicas. Tornamo-nos tão afectuosos para com elas, que a partir de determinada altura as adoptamos e tratamos como se fossem geradas no ventre da nossa língua pátria. No quotidiano utilizamos uma parafernália de follow-ups”,”scoreboards” “ brainstormings”,”bytes”, “off the records” , “offshores”, “press releases”, “lay outs” “merchandisings”, “ prime rates” e outros jargões anglófilos, como “muletas” linguísticas indispensáveis.
Outras expressões há que têm apenas utilização sazonal. É o caso da “silly season”.Assim que o tempo aquece e começa a cheirar a férias, a “silly season” logo salta para as páginas dos jornais e toma lugar cativo na blogoesfera , com ela se justificando uma série de dislates.
Passo um pouco à margem dessa euforia do lazer -que parece invadir as mentes quando fazem férias em bandos - , porque nunca faço férias no Verão. Faz por isso todo o sentido que, para mim, a “silly season” decorra entre 1 de Dezembro e 31 de Janeiro.
Dezembro é um mês “sui generis”. As ruas aparecem iluminadas e assistimos à chegada dos Pais Natal, como aves de arribação anunciando a chegada do Inverno. Começa a azáfama das compras natalícias, com pessoas atarantadas nas lojas à procura da inutilidade mais barata ou do presente mais sofisticado. Corpos vergados ao peso de sacos, arfando como se a morte lhes estivesse a bater à porta, desaguam na noite do dia 24 em casa de familiares que – não raras vezes- são “obrigados a aturar” uma vez por ano, em nome da “Festa da Família”
Esta pretensa “Festa” tem muito que se lhe diga... Começa com comida e bebida à fartazana, continua com a distribuição de presentes por alguém que acata vestir-se de Pai Natal - na ilusão de que está a enganar a “petizada”- e termina com os mais velhos a tomar “ Alka Seltzer” ou “Kompensan” para se “aliviarem” dos excessos.
Mas Dezembro significa também horas a discutir o local ideal para passar o “reveillon”, doze passas às doze badaladas da meia -noite, listas imensas de intenções a realizar no ano seguinte, alegria tão falsa como um par de mamas de silicone, uma festa abrilhantada por uma banda que se reúne anualmente para tocar música brasileira do tempo da “Maria Cachucha”, grandes “bezanas” e ressacas no dia seguinte, acalmadas à custa de “Guronsan”.
Mesmo para aqueles que se escapam a mais uma reunião familiar no primeiro dia do ano, Janeiro não deixa de ser patético. Cortes no orçamento para compensar os gastos do mês anterior, lamentos pelo aumento dos transportes, da luz, da água, do salário da empregada de limpeza , do seguro do carro, da prestação da casa, da bica e do rissol com que aconchegamos o estômago num qualquer come em pé de ocasião e, finalmente, a ladainha lacrimosa pelo aumento do vencimento que foi mais reduzido do que esperávamos. Idas ao médico para vigiar o colesterol que subiu graças aos excessos gastronómicos, escapadelas até aos saldos para “compras de ocasião” e a promessa de que é esta semana que finalmente vamos deixar de comprar “O Expresso” .
No final do mês, constatamos que as promessas feitas entre dois golos de “champagne made in Mealhada” não foram mais uma vez cumpridas.
A Odete não fez dieta e está cada vez mais gorda e parecida com um elefante de Jardim Zoológico, as idas ao ginásio ficaram mais uma vez adiadas por incompatibilidades financeiras, ou falta de vontade, e a promessa de que finalmente iríamos trocar o carro pelos transportes públicos ou uma caminhada a pé até ao local de trabalho, fica aprazada para quando a Primavera se fizer anunciar com os seus retemperadores raios de sol.
Confessem lá, caros leitores, haverá época mais estúpida do que esta?

A justiça devia vir com Livro de Instruções

Quando entrei para a Faculdade de Direito, ia convencido que poderia contribuir para uma maior equidade na aplicação da Justiça. Rapidamente me desenganei e optei por outro curso.
A igualdade dos cidadãos perante a justiça não passa de um “slogan” publicitário. O embuste começa com o acesso à Justiça. Quem tem dinheiro para pagar a bons advogados pode safar-se, quem fica à espera dos defensores oficiosos está normalmente tramado.
O mais grave, porém, é que perante a mesma Lei e a mesma situação, a Justiça não é aplicada da mesma maneira. Cada juiz interpreta-a à sua maneira e o cidadão quando recorre aos Tribunais tem cada vez mais a sensação de que está a entrar numa sala de Jogo, porque a condenação ou absolvição estão mais dependentes da interpretação dos juízes do que do espírito da Lei.
Tenho vários amigos advogados e juízes que ficam exasperados com esta minha argumentação, mas ontem deixei um sem resposta, quando lhe mostrei uma notícia que confirma as minhas desconfianças...
Os recursos apresentados por diversos funcionários públicos que se viram colocados na situação de “Mobilidade Especial” tiveram resultados diferentes. Um juíz obrigou a reintegração dos funcinários, outro deu razão ao Estado.
Espero nunca ter de enfrentar um tribunal como acusado. Mas se isso um dia acontecer, só peço aos deuses que seja o meu dia de sorte ao jogo.