Durante a “
minha silly season” (
ver post abaixo) a comunicação social também cumpre o seu papel. Para além dos casos esporádicos, há “tiques” editoriais crónicos que denunciam a época. Multiplicam-se os questionários e entrevistas sobre a quadra natalícia , as notícias e reportagens sobre o Natal de outras paragens. Fazem-se balanços do ano que finda e previsões para o ano que se vai iniciar. Somos inundados com as
“Revistas do Ano” onde se recordam os factos mais importantes ocorridos ao longo de 365 dias, as mortes de gente importante , as principais catástrofes etc.
Um dia destes, imprensa e televisão ( talvez também a rádio, mas não posso assegurar...) brindaram-nos com uma peça de elevado interesse noticioso sobre o
ano de 2008. Resultado de uma pesquisa jornalística apurada e do
“faro jornalístico” de algum editor com insónias, a comunicação social concluiu que em
2008 os portugueses só vão trabalhar
222 dias.
Creio que terá sido a redundância cabalística do número que terá motivado a relevância dada à notícia. Na verdade, um ano com apenas
144 dias de "ripanço" é obra! Intrigado com tanta perspicácia, decidi também eu investigar como foi possível chegar a esta conclusão.
Comecei por retirar aos 366 dias do ano (
2008 é ano bissexto) os 10 feriados que não coincidem com um fim-de- semana e os 25 dias de férias a que ( quase) todos temos direito e cheguei ao número de
331.
Embora saiba que nem todos os trabalhadores deste país têm direito a descanso semanal, condescendi em tirar mais
52 dias, correspondentes aos domingos. Mesmo assim ficou curto, pois contabilizei
279. Ainda faltava encontrar mais
57 dias de “ripanço”, pelo que decidi incluir a
terça-feira de Carnaval ( que nem todos gozam) e o feriado municipal (que em muitas localidades pode coincidir com um fim-de-semana). Como ainda não chegasse, lembrei-me: será que os “investigadores” também incluíram os sábados? Vai daí acrescentei-os à lista. Ficaram a faltar-me apenas 3 dias que, depois de aturadas investigações, concluí que eram atribuíveis a 3 hipotéticas “pontes” que o jornalista deu como “adquiridas”.
Como adiante se poderá constatar,
esta investigação jornalística é um embuste que deveria merecer a atenção dos Provedores dos órgão de comunicação social que lhe deram eco.Em primeiro lugar, todos sabemos que essa história das “pontes” foi “
chão que deu uvas”. Quem as quiser fazer tem que meter um dia de férias e ponto final.
Em segundo lugar, só uma parte dos trabalhadores tem direito a gozar dois dias de descanso semanal. A maioria goza apenas um, o que significa que terá que trabalhar não
222, mas sim
274!
Em terceiro lugar, essa ideia de que temos muitos feriados é
“mais falsa do que Judas”. É sabido que em muitos países europeus e latino-americanos, ou mesmo nos Estados Unidos, quando os feriados
“caem” num sábado ou domingo passam para o dia útil anterior ou posterior. Em
França ou na vizinha
Espanha ( para citar apenas dois exemplos próximos), as
“pontes” são frequentes, ao contrário do que se passa em Portugal actualmente. Além disso, há vários feriados em que muitos trabalhadores estão ao serviço, sem terem direito a qualquer compensação suplementar ( para além da que a Lei estipula).
Finalmente, seguindo o raciocínio da “investigação jornalística”, (
retirando fins de semana, 25 dias de férias uma média de 10 feriados úteis, incluindo uma “ponte”) fiz uma comparação com os últimos 5 anos e cheguei à conclusão que em média, trabalhámos
224 dias por ano.
Valia a pena fazer tanto escarcéu por dois dias? Tenham juízo e investiguem aquilo que realmente interessa!