terça-feira, 27 de novembro de 2007

Perguntas de um ex-fumador

A legislação anti-tabágica que a partir de Janeiro entra em vigor é a lei mais hipócrita e persecutória dos últimos 30 anos. Gostava que houvesse a mesma coragem para limitar a circulação de automóveis nas cidades, para acabar com os estacionamentos em segunda-fila, varrer os cartazes das paredes, ou punir os que persistem em utilizar as ruas para sanitas dos seus “lulus” sem se darem ao trabalho de recolher os dejectos.
Escrevia Cantagalli que se os maços de cigarros trouxessem,como os medicamentos,uma “bula”,nela se poderia ler:
Contra o aborrecimento,o medo,o frio e o calor;contra a disciplina,a injustiça,a ira,a solidão e a timidez;bom para esquecer,festejar,pensar ou não pensar em nada;bom para aturar o próximo e para dele nos aproximarmos;fonte inspiradora e criativa”. Apesar de já não ser um fumador ( apenas mordisco uma cigarrilha após as refeições), subscrevo na íntegra.
Por isso questiono uma sociedade e um modelo económico que incutiu em mim a ideia de que fumar era chic e só agora,depois de ter criado milhões de viciados,de ter permitido a associação entre tabaco e promoção social,criada pela publicidade,ter aceitado a promoção do tabaco em alguns eventos de repercussão internacional,associando o seu consumo ao sucesso, me vem dizer que afinal fumar é choc.Não há ninguém que se responsabilize por isso?

Razões que tornam o mundo injusto (2)

Morrem, anualmente, 18 milhões de pessoas por causas ligadas à pobreza

Crónicas do meu bairro

- Quando vim para Portugal fui trabalhar para a loja de um indiano a ganhar 348 euros por mês. Depois saí, porque prometeram-me um contrato de trabalho. Fui trabalhar como empregada de limpeza na (...)a ganhar 178 euros, mas os sacanas nunca me fizeram contrato e ao fim de dois anos mandaram-me embora...
- Como se vive em Lisboa com esse ordenado?- “Virava-me... ”
- Que fazias no Brasil?
- Era funcionária pública.
- Porque vieste então para Portugal, se tinhas emprego no Brasil?
- A minha irmã estava cá e disse-me para vir.
- Ela não te pode ajudar?
- Já voltou para o Brasil. Casou cá com um português e estão os dois bem na vida.
- O que queres então fazer?
- Preciso que me ajudes...
- Diz lá...
- Quero que fales à B para me deixar trabalhar lá em casa
- Nem penses nisso! Já não tens idade para andar a vender o teu corpo.
- Não vou vender, só vou alugar. Aos 43 anos ainda estou bem, não achas? E os portugueses gostam de brasileiras...
- Eu podia fazer-te feliz...
- Isso é o que todos dizem. Não tenho feitio para me entregar a um homem e ficar dependente dele. Quero ser independente , arranjar algum dinheiro e tratar da minha filha. Além disso és casado, que é que posso esperar de ti?
- Que idade tem a tua filha?
- Vinte e um. Queres ver?
- É gira... Porque é que não a mandas vir ? Talvez se arranje alguma coisa em casa da B. Sempre é uma ajuda ...
- Vai-te foder!

Postais da China 2- Hong Kong



Sensação diferente tive em Hong – Kong. Central District e Kowloon não sofreram grandes mudanças nestes últimos anos e foi-me mais fácil reencontrar locais, do que em Macau. Ali redescobri as emoções de uma viagem até Stanley, ou o prazer da travessia entre Kowloon e Central, num barco ao fim da tarde. Recuperei os encantos das noites turbulentas de Lan Kwai Fong, a calma de Cheung Chao, o bucolismo exótico de Hong Kong Park . Voltei a sentir aquela sensação estranha de subir a Vitória Peak para contemplar a cidade aos meus pés- como uma oferenda.
Consegui revisitar “ aquela esplanada secreta” em Vitória , “aquele minúsculo jardim” de Admiral, entre edifícios majestáticos, as tendinhas e a loja onde se ia comprar máquinas fotográficas e “lap tops” em Wanchai, aquele bar de “karaoke” e o vendedor de “cloisonets” em Causeway Bay.
Pude constatar- sem muita surpresa- que continuam a viver lá muitos ingleses e que os chineses de Hong –Kong estão cada vez mais ocidentalizados- os bares de Lan Kwai Fong demonstram-no à saciedade.
Para muitos, Hong-Kong é uma Nova Iorque asiática, mas o melhor epíteto que já ouvi, foi o de “velha concubina”: feia durante o dia, de uma beleza artificial pela noite, quando as luzes lhe servem de maquilhagem, para disfarçar as rugas.
Como em nenhum outro local na China, Hong –Kong é o espelho das sociedades ocidentais. Um dos exemplos mais marcantes é a febre anti-tabágica. Não se pode fumar em edifícios públicos, restaurantes, centros comerciais, nem... na rua! As excepções estão devidamente assinaladas por cinzeiros à volta dos quais se reúnem funcionários “topo de gama” numa escapadela do local de trabalho.