terça-feira, 2 de outubro de 2007

Estarei a sonhar?

Li a notícia do “Público” duas vezes, para ver se não era engano. Não era. O coordenador da PJ de Portimão foi demitido por criticar a actuação da polícia inglesa no caso Mc Cann. Assim se reforçou a aliança luso-britânica, se salvaguardou o Tratado de Methween e o turismo britânico no Algarve.
Abanem-me, digam-me que estou a sonhar, porque eu não acredito que isto possa ser verdade!

O jornalismo de sarjeta explicado aos distraídos (1)

( foto do xafarica.weblog)
No dia do derby - que os escribas do costume resolveram inventar que é o único em Portugal, recorrendo a argumentação possidónia, baseada na etimologia da palavra - um desportivo trazia na capa uma foto dos presidentes dos clubes da Segunda Circular cumprimentando-se e sorrindo para a fotografia. A frase “Isto é fair –play” , que emoldurava a foto dizia tudo.
Pretendia certamente aquele desportivo “de referência” chamar a atenção dos leitores para a excelsa e exemplar união dos dois clubes. Não descobriram melhor maneira do que sentar os dois diante de uns copos de tinto a fazer uns brindes, para mostrar o enlevo com que os protagonistas da Santa Aliança alfacinha se confrontam , numa paz digna de “Deus com os Anjos”.
Só alguns papalvos não terão descortinado que aquela imagem desmentia a essência do derby da Segunda Circular: luta acesa, rivalidade, inexistência de “fair-play”, agressividade, clubismo exacerbado, bairrismo, clubite aguda.
À hora do jogo as coisas tornaram-se mais reais. Estádio com muitas clareiras, ( não há chuva que justifique o alheamento dos adeptos de um derby...), insultos entre as claques, críticas destemperadas ao árbitro. Assim se desmentiu, com a realidade dos factos, que não há desportivo que mate a verdadeira essência de um derby.
Lição nº 1- Jornalismo é realidade, não é ficção!

Destreza e boas maneiras ( conclusão)

Entrou no seu carro a sério e dirigiu-se para a saída, mas ao atravessar uma lomba destinada a travar os ímpetos de alguns aceleras, um prego cravou-se num pneu. Rapidamente a fila de automóveis se avolumou atrás de si, enquanto um diligente funcionário se prontificava para o ajudar.
A impaciência de alguns mais apressados, traduziu-se em buzinadelas e alguns impropérios. Interrogou-se então o que levaria pessoas que tinham permanecido três ou quatro horas dentro do hipermercado sem um mínimo lamento, a manifestar-se tão exaltadas por uma demora que não seria superior a 15 minutos, mas não encontrou resposta adequada...
Quando finalmente recuperou a liberdade decidiu que o melhor era mesmo almoçar fora. Ao entrar no restaurante deu de caras com o sr.Casimiro, dono de uma pequena mercearia do seu bairro, a quem se apressou a contar a história. Solícito, o bom homem apenas respondeu:
-Deixe-me acabar de almoçar que eu já o avio do que precisar na minha loja.- Mas então não está fechado aos domingos? – inquiriu
-Estou, sim senhor, mas para clientes amigos, abro uma excepção! E a sua esposa era uma grande cliente... todos os sábados à tarde ia lá comprar as coisas para a semana, nunca me trocou por um hipermercado...
Frederico não respondeu, mas passou a tarde de domingo a matutar no que faria a mulher ao sábado à tarde, quando lhe dizia que tinha passado a tarde no hipermercado!

Parabéns à ASAE

Parece que está na moda criticar a ASAE. Escasseiam os dias em que não haja um comentador, ou uma notícia, onde se teçam críticas à sua intervenção e ao seu protagonismo.
Estou contra a maré. A ASAE é um organismo público que cumpre integralmente o seu papel e por isso merece ser elogiado.
Há certas críticas que me espantam, por virem de pessoas que estão sempre a criticar a inércia do Estado e a sua incapacidade para fazer cumprir a lei. Criticam a ASAE com argumentos de “excesso de zelo” , “ sede de protagonismo” ou apelidando-a de “polícia de costumes”..
Sinto-me confortado por ver um organismo que cumpre o seu papel. E fico satisfeito quando leio o artigo que o Henrique Botequilha escreveu no último número da “Visão”. Informativo e imparcial.

Destreza e boas maneiras (2)

Cumprida a árdua tarefa das pesagens e selagens, Frederico foi percorrendo as diferentes secções onde se perfilavam, em postura irrepreensível, queijos, iogurtes, enchidos, carnes verdes, pastas, bolachas, carapaus, pescadinhas de rabo na boca e às postas. Distraidamente ia enchendo o carrinho com as mais diversas iguarias. A hora do almoço aproximava-se e o hipermercado estava a abarrotar. À sua volta, as pessoas dividiam-se entre alegres e conformadas. Famílias inteiras comungavam do acto de consumir, sem que descortinasse se o faziam por prazer ou sacrifício. Foi dando mais umas voltas pelos escaparates, na vã esperança de que as filas que se distendiam diante das caixas registadoras diminuíssem, mas depressa compreendeu que a tendência era precisamente a inversa. Com o açafate ( mais que )suficientemente fornecido, dirigiu-se então vagarosamente para uma fila . À sua frente, uma sexagenária dormitava encostada a um carrinho a abarrotar, onde se destacava um saco isotérmico de onde escorria uma baba suspeita.
Reparou que entrara naquele “inferninho” há mais de duas horas e foi nessa altura que descobriu uma das vantagens das grandes superfícies: NÃO FUMARA DESDE QUE LÁ CHEGARA!. Diligente, apontou no seu bloco de notas: “Bom exercício para os potenciais candidatos a não fumadores. Dar o conselho no próximo dia mundial dos não fumadores”.Tinham passado 45 minutos desde que chegara à fila da caixa registadora e avançara apenas escassos centímetros. Foi quando interromperam a música ambiente ( pela enésima vez desde que lá entrara) para dar lugar a uma voz sofrida que clamava insistentemente pela Drª Ana Paula (devia ser coisa urgente, porque agora já diziam a matrícula do carro, a marca e a cor! Veio a saber, dias mais tarde, que se tratava de um truque publicitário de uma jovem advogada, mas isso fica para outra história...), que decidiu desistir. Mas que fazer às pescadinhas de rabo na boca que se começavam a babar, gotejando o chão, só porque na sua forretice de consumidor careta, recusara comprar um saco isotérmico?
Foi então que Frederico teve uma ideia genial: distribuir os produtos que acumulara no carrinho, pelos perseverantes companheiros de fila. Um senhor de meia idade ficou-lhe com os belíssimos enchidos e uma jovem de olhar expectante (seria ela a Ana Paula?) condescendeu, com alguma relutância, é certo, ficar com as pescadinhas de rabo na boca. Despediu-se com amargura do apetitoso queijo da serra que há longos minutos o fazia salivar e, um a um, lá se foi desfazendo de todos os produtos. Apenas não encontrou candidatos para os panos de cozinha que estavam em promoção e pensava que fariam as delícias da sua empregada doméstica, nem para a pasta dentífrica que prometia devolver aos seus dentes a brancura dos tempos de criança. À passagem de um funcionário depositou-lhe nas mãos aqueles ex-pertences e escapuliu-se para a saída, deixando-o com ar atónito entre couves lombardas e latas de atum em promoção.
Aliviado, desaguou novamente no amplo espaço onde centenas de pessoas se continuavam a cruzar carregando nos seus carrinhos, como formiguinhas diligentes, os produtos essenciais e supérfluos que foram recolhendo e que meia dúzia de engarrafamentos depois iriam armazenar nas suas arcas congeladoras.