segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Destreza e boas maneiras

Frederico, celibatário à força desde o momento em que a mulher o abandonou, viu-se um destes últimos sábados a desaguar numa vasta superfície onde, em bailados alucinantes, centenas de pessoas se cruzavam evitando o choque das viaturas para cuja condução não deveriam estar devidamente habilitadas. Esgueirou-se a custo, evitando o choque, e dirigiu-se, convicto, a duas portas que ostentavam o sinal de sentido obrigatório e lhe franquearam a entrada assim que o avistaram.
Por entre música ambiente, começou então a vislumbrar vídeogravadores, máquinas de lavar, frigoríficos, ferramentas, vestuário do mais variado e uma parafernália de produtos que o fizeram pensar ter entrado no sítio errado. No meio da confusão, foi abalroado pela esquerda por um carrinho a abarrotar de produtos alimentares, por entre os quais emergia uma criancinha aos gritos, reclamando aos pais a oferta do namorado da Barbie. A breve distracção foi-lhe fatal, pois embateu estrondosamente com um jogo de xadrez , do qual saltou um rei em xeque-mate clamando justiça contra o energúmeno que o destituíra da coroa. O energúmeno, claro, era ele!
Recuperou a custo a calma e dirigiu-se para uma banca que vislumbrou ao longe, onde se acomodavam frutas e legumes. Foi colhendo alguns exemplares que lhe pareceram em bom estado e depositou-os no açafate com carinho. Foi então que detectou um ajuntamento de pessoas dispostas em quatro filas orientadas para um centro comum, onde se encontrava uma balança, na qual as pessoas iam pesando os produtos. Da boca do aparelho viu sair pedaços de papel que as pessoas colavam nos sacos onde previamente haviam acomodado as frutas e legumes. Num impulso mimético , foi também depositando em sacos as diferentes espécies e, concluída a operação, alinhou-se no fim da fila que lhe pareceu mais curta. Para não fazer má figura quando chegasse a sua vez, foi observando as operações que as pessoas que o precediam efectuavam, mas foi surpreendido por um burburinho que estalou 90º a leste da sua fila. Rapidamente se apercebeu que a causa do tumulto era um indivíduo alto e magro que se aproveitara da distracção de um dos clientes, para assaltar a balança electrónica onde pretendia pesar as bananas que esgrimia, de braço ao alto, em postura heróica. O aparecimento de uma senhora gorda, com olhar triste de elefante de jardim zoológico, mas destreza de um golfinho, pôs fim à questiúncula e o “chico –esperto” ( nome que a turba em polvorosa rapidamente lhe atribuiu por unanimidade e aclamação) lá foi, envergonhado, para o fim de uma das filas que se formara em torno de uma outra balança mais distante.

A revolta de Zequinha

Zequinha é um miúdo de 20 anos que joga futebol e, no último Mundial da categoria, teve a atitude bizarra de tirar um cartão vermelho das mãos de um árbitro, quando percebeu que o juíz o ia mostrar a um colega de equipa.
A imprensa desportiva caiu-lhe em cima como gato a bofe, a alguns só faltou pedir a sua irradiação, a FIFA aplicou-lhe 6 jogos de suspensão e a FPF não fez a coisa por menos e aplicou-lhe um ano.
Dois meses depois o país inteiro assistiu à cena caricata da agressão de Scolari a um jogador sérvio, que o seleccionador entendeu ser em legítima defesa de um pupilo, mas que quem como eu esteve no estádio e se pode observar nas imagens, percebeu facilmente que se Scolari saiu em defesa de algum jogador, deveria ser um fantasma. Quaresma estava a uns bons 20 metros do sérvio e só aparece junto dele e do seleccionador para ajudar a apaziguar os ânimos.
É conhecido de todos o desenvolvimento do caso e as patéticas declarações de Gilberto Madail.
Tudo somado, Zequinha está inconsolável e quer ver a sua pena reduzida. Afirma, com razão, que a atitude do seleccionador é mais grave do que a dele, que não bateu em ninguém e teve uma reacção de puto. Além disso, acrescenta, o seleccionador deve ser o primeiro a ter um cumprimento impoluto
Zequinha não vai ter sorte na sua pretensão. No mínimo está a ser ingénuo, ou então não sabe em que país vive. Eu explico-te, moço!
Vives em Portugal, onde atitudes tão reprováveis como as de Scolari, desde que praticadas por gente com responsabilidades de comando, são sempre justificadas pelos seus pares que procuram branquear quaisquer situações canalhas.
Em Portugal( ainda tens muito a aprender, miúdo!) os líderes são sempre gente exemplar cujos comportamentos devem ser seguidos pelos jovens e quando metem a pata na poça são sempre desculpados, nem que seja preciso recorrer ao “ interesse nacional”.
Tens razão, Zequinha, mas ela de pouco te vai valer. As práticas de encobrimento de quem tem poder, seja em que área de actividade for , são um lugar comum. Herdámos esta entropia do Estado Novo e só os jovens da tua geração poderão ajudar a extirpá-la da sociedade portuguesa. Mas não acredites que vai ser fácil... em cada tentativa de lavagem de mentalidades que procures levar a cabo, vais encontrar um aliado e dez tipos prontos a apunhalar-te pelas costas. Por cada chefe que ponhas em causa, 50 se levantarão em sua defesa e tudo farão para te destruir.
Desilude-te! Acalma-te, encosta-te a quem deves em vez de te encostar aos árbitros e verás que tudo correrá bem. E já agora, vê se ganhas juízo!



Fazer Arte a partir dos desperdícios

Até dia 5 de Outubro pode ver na Estufa Fria, em Lisboa, uma exposição original. Remade in Portugal é uma exposição de Eco-Design, constituída por cerca de uma centena de objectos,criados por alguns autores conceituados, a partir de resíduos e materiais reciclados. Lamas, fibras de pneus , gesso, vidro, cortiça ou simplesmente papel reciclado, são alguns dos materiais utilizados para a criação de objectos que muitos não desdenhariam ter em suas casas. Mas a peça que me chamou mais a atenção foi um “centro de mesa” criado por Siza Vieira. Não tanto pelo “design”, mais pelo material utilizado: pó de prata recolhido do ar ambiente numa fábrica.
Ao contrário das já célebres exposições de Barbara Lessing ( cujas esculturas com materiais das “Lojas dos Trezentos” são autênticas alfinetadas na sociedade plastificada de consumo e um líbelo acusatório ao consumismo e ao desperdício), Remade in Portugal procura sensibilizar os consumidores para a forma como podemos reintegrar no nosso espaço de vivências os produtos de que diariamente nos desfazemos.
A partir de 19 de Outubro, a exposição estará na Casa de Serralves, no Porto.