quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Esmeralda à espera do futuro

Não é a primeira vez que o texto de um acórdão se revela como um oráculo de interpretação dúbia, colocando os litigantes em “palpos de aranha” para fazer a sua interpretação que, não raras vezes, parece ser contraditória.
É o que se passa no caso da pequena Esmeralda. Nenhuma das partes parece perceber quando é que a pequena deve ser entregue à custódia do pai biológico, nem mesmo se essa medida deverá ser aplicada.
Se em casos normais as decisões- oráculo são desaconselháveis, mais grave se torna quando em jogo está o futuro de uma criança. Proponho, por isso, que nos critérios de avaliação dos juízes, se acrescente um item para a clareza da redacção dos acórdãos.
À Justiça, não chega ser justa. É necessário que seja também clara e inequívoca!

Assim está bem!

Isto de estar nos primeiros lugares europeus em termos de desempenho no e-government, nas oportunidades de negócio e outras áreas de relevante importância no contexto global, andava-me a cheirar a esturro. São muitos primeiros lugares relacionados com o mérito , algo a que não estamos habituados....
Hoje, uma notícia vem pôr as coisas no seu devido lugar: aumentou a corrupção em Portugal, mas apesar de todos os esforços que temos feito ainda ocupamos um modestíssimo 28º lugar ( ano passado estávamos no 26º posto) num universo de 180 países. Para subir uns lugares na tabela teremos que copiar o exemplo da Finlândia ( tão grado nos tempos que correm) que ocupa a liderança. Não vai ser fácil... Talvez para o ano já não ocupemos um lugar no "Top-thirty". Somos muito hábeis no top dirty!

Mas não é possível!

A insanidade chegou à Sic- Notícias. Não há critério jornalístico que justifique interromper uma entrevista para dar umas imagens pindéricas da chegada de Mourinho a Lisboa.
Nunca esperei vir um dia a escrever isto, mas a verdade é que Santana Lopes subiu na minha consideração, enquanto o meu apreço pela Sic-Notícias desceu em flecha.
São atitudes deste jaez que dão origem a tiradas ministeriais do género “jornalismo de sarjeta”. E são atitudes como esta que justificam a necessidade de promover a auto-regulação. Não sei, nem me interessa, se a ERC vai tomar alguma posição, pois isso pouco importa. O que me parece urgente, é que os jornalistas párem um pouco para reflectir sobre o assunto e encontrem uma solução, credível e capaz, que acabe com tanto comportamento néscio...

Tratar da saúde em Cuba

O Presidente da Câmara Municipal de Vila Real de Stº António, agastado com a demora na prestação de tratamentos oftalmológicos aos seus munícipes, decidiu celebrar um protocolo com Cuba para – a troco de 50 mil euros anuais a aplicar em obras de reconstrução no País- os doentes serem tratados e operados em Cuba.
Não falta quem aplauda e quem critique a iniciativa , mas creio que muitas das críticas são ciumeira do PC e do PS que já presidiram a autarquia e não se lembraram da ideia.
Não deixa de ser bizarro que tenha sido um autarca eleito por um partido que não perde qualquer oportunidade para desancar no regime de Fidel (PSD) a tomar esta decisão.
Cuba é, desde há uns anos, um dos destinos de férias privilegiados pelos portugueses que normalmente vêm de lá “impressionados com a miséria” e muito “agastados com o regime político”.
Se já se riram tudo, continuem a ler...
Por muito mal que se diga de Cuba, é imperioso reconhecer que está avançadíssima em relação a nós, na área da Saúde . O apoio de Cuba a países terceiros, nesta área, tornou-se vulgar, mas que eu saiba não haverá outros países do Clube dos Ricos ( no qual grotescamente nos incluímos, apesar das permanentes ameaças de podermos descer de divisão) a recorrerem oficialmente aos serviços de saúde cubanos. Pessoalmente, saúdo a iniciativa do Presidente de VRSA.
Dizem-me que o Ministro Correia de Campos criticou a decisão e aproveitou para dar mais umas bicadas nos médicos. Se é verdade, lamento... pois se vivesse no Algarve e tivesse problemas de saúde que tardavam em ser resolvidos cá, muito grato ficaria ao autarca que teve esta ideia. É que, apesar dos impostos que pagamos, dos descontos que fazemos, etc,etc, etc,... continuamos a estar mal servidos na área da saúde. A culpa não pode ser assacada exclusivamente ao Governo ( talvez seja mesmo quem, no meio de toda a embrulhada que é o negócio da saúde, tenha menos responsabilidades), mas como todos temos direito a ser devidamente assistidos quando a doença nos bate à porta e é ao Governo que pagamos os impostos, é natural que lhe peçamos responsabilidades.

Uff, que alívio!

Acabou finalmente o mundial de rugby. Durante alguns dias, aquilo a que se chama imprensa desportiva continuará a debitar loas aos extraordinários feitos de uma selecção que acumulou derrotas copiosas, “mas saiu de cabeça erguida” . Não faltará quem continue a escrever que “com um bocadinho de sorte” poderíamos ter ganho à Itália ( com quem perdemos por 31-5 , o que em futebol corresponde mais ou menos a uma derrota por 6-1) e à Roménia. Continuarão alguns escribas, com a habitual isenção e imparcialidade a que estamos habituados na imprensa desportiva, a afirmar que Portugal saiu dignificado e que a maneira ( alarve, digo eu) como entoaram o hino antes de cada jogo, deveria servir de exemplo aos praticantes que nos representam lá fora noutras modalidades.
A maioria dos comentadores e jornalistas desportivos ( há honrosas excepções como Vítor Serpa) não só parece ter regressado aos tempos de prosa do Estado Novo, como é incapaz de respeitar a inteligência dos leitores, tal é a sua ânsia de “vender” a gesta patriótica da selecção de rugby. É verdade que Portugal foi a única selecção amadora que alguma vez conseguiu apurar-se para a fase final de um mundial. Isso, sim, merece os maiores encómios e elogios, mas transformar o óbvio (derrotas copiosas perante algumas das selecções mais poderosas do mundo) em glorificação é, no mínimo, ridículo!
Não percebo – gostaria que alguém me explicasse- a razão de tanto empolamento em volta da selecção de rugby, um desporto praticado por meia dúzia de famílias e com pouca popularidade entre nós, principalmente quando comparo com o que fez a selecção de basquetebol que há 50 anos não se apurava para um Europeu e ficou num meritório 9º lugar , a um “cesto” de se apurar para os oitavos de final. São mistérios que só as peculiares características da imprensa desportiva em Portugal poderão explicar.
Razão tem José Mourinho, quando diz que quer ir trabalhar para um país onde a imprensa tenha sal e pimenta. Por cá, pimenta na língua e uma boa dose de decoro é o que continua a faltar a muita gente que por lá escreve.