terça-feira, 25 de setembro de 2007

A origem das grandes superfícies


Os indígenas da Melanésia sentiam-se maravilhados com os aviões que passavam no céu, mas desolados porque só os brancos os conseguiam apanhar. Tendo chegado à conclusão que isso se devia ao facto de os brancos possuírem no solo objectos idênticos àqueles que cruzavam os céus, os indígenas construíram simulacros de avião com ramos e lianas, delimitaram um espaço que iluminavam durante a noite e, pacientemente, aguardavam que os aviões ali viessem cair.
Não consta que a prática tenha dado grandes resultados, ignorando-se se por inépcia dos indígenas, se por esperteza de quem tripulava os aviões. A verdade, porém, é que as grandes cadeias de supermercados e megastores parecem ter sabido aproveitar o exemplo dos melanésios e (talvez por terem conseguido aperfeiçoar as camuflagens e os métodos de sedução, mas também porque os consumidores se revelaram mais incautos que os tripulantes dos aviões) conseguem atrair diariamente aos grandes espaços coloridos dos hipermercados e centros comerciais, milhares de consumidores a quem vendem a mais variada gama de produtos inúteis e superfluos, por vezes acoplados a sonhos de automóveis sorteados em concursos de ocasião ou férias em ilhas paradisíacas.
É certo que muitos consumidores vão a estes grandes acampamentos “só para ver". Algumas cotoveladas e muitos atropelos depois, porém, saem de lá com os carrinhos a abarrotar e, pela mão, a bicicleta ou o brinquedo de ocasião que o rebento mais novo- ainda enxugando com as costas da mão uma última lágrima -reclamou com choros e gritos vigorosos.

Onde pára este homem?

Joe Berardo foi uma das figuras mais mediáticas do último Verão. Durante dois meses, apareceu quase diariamente a falar para as rádios e televisões, foi capa de revistas e era interrogado sobre tudo. Insultou Mega Ferreira, Rui Costa e Jardim Gonçalves e não há hoje, em Portugal, cão nem gato que não tenha ouvido falar daquela histriónica figura.
Parecia que , num repente, se tornara um autêntico oráculo capaz de dar respostas cifradas a todas as questões que durante a “silly seasno” atormentaram os portugueses. Ou quase todas, porque nunca lhe ouvi uma palavra sobre Maddie...
Mas este homem que construiu uma boa parte da sua fortuna a “apostar” na bolsa, de repente perdeu três apostas em jogadas de risco.
Quis comprar o Benfica e os sócios disseram-lhe não; quis despedir Rui Costa e este respondeu-lhe com exibições de luxo, mostrando que está ali para a s curvas e ainda tem muito a dar ao futebol; apostou em Paulo Teixeira Pinto no caso BCP e Jardim Gonçalves emergiu novamente como o grande patrão do Banco.
De repente, tal como aparecera vindo de parte nenhuma , escafedeu-se e desapareceu de cena sem deixar rasto.
A pergunta é simples: foram as derrotas que sofreu que deixaram de despertar o interesse da comunicação social, ou foi a consciência pessoal de que a demasiada exposição pessoal terá contribuído para os desaires que o levaram a sair de cena voluntariamente?
Talvez tenha sido um misto das duas coisas, mas neste momento Joe Berardo já terá compreendido que utilizar a comunicação social para fazer passar as suas mensagens, de forma a influenciar os acontecimentos, não terá sido uma boa ideia. Apostou no ruído mediático, quando a melhor opção talvez tivesse sido apostar num silêncio controlado. Perdeu....

Milícias atacam na Ericeira

(cenário: três da tarde de um sábado, num restaurante à beira-mar na Ericeira)

Quando entrei, a “minha” mesa estava ocupada por um casal. Ao fundo, uma longa mesa de comensais ocupava a sala em toda a sua extensão. Era um daqueles grupos que, pela forma como se dispunham, não colocavam dúvidas em relação à sua actividade profissional. Elas, acantonadas numa ponta tomando conta de uma prole ruidosa, conversavam em tom perfeitamente audível sobre fraldas, biberões, infantários e centros comerciais. Eles, cabelo cortado nos preceitos regulamentares, alinhavam-se frente a frente, separados por garrafas de cerveja em quantidade suficiente para satisfazer um Regimento. A contra gosto escolhi uma mesa no meio da sala, de onde apesar de tudopodia desfrutar a vista do mar , pois dada a hora tardia não havia mais nenhuma mesa ocupada.
Tinha acabado de saber que não podia tomar café, porque tinha faltado a água, quando vejo um corpulento “cabeça regulamentar” abeirar-se da senhora e dizer:
-“Desculpe se a respiração do meu bébé a está a incomodar!”Olhei na direcção da janela e vi que a mulher, que ainda tivera a sorte de poder tomar café, completava a refeição tirando umas fumaças. Incomodada com a abordagem, retorquiu:
- “Não acha que há maneiras mais educadas de pedir para não fumar?”
O aspirante a cavalheiro prosseguiu:
- “ É assim que costumo falar com quem não se sabe comportar num restaurante...”- “ E por acaso não lhe ocorreu que o barulho das suas crianças também me pode incomodar?”
- “ Não me diga que eu é que estou a mais! Por acaso até cheguei primeiro e não esperava encontrar aqui selvagens que não se sabem comportar num restaurante... ”- “ Então tem bom remédio. A porta é por ali!”
Valentão, o macho esboçou um gesto de agredir a mulher, deixando que um forte odor a cavalo, mesclado de Lavanda, invadisse a sala. Suspendeu a viagem quando o homem, de cabelos brancos, se levantou e mostrou o seu corpanzil de um metro e noventa. Por momentos julguei que o caldo se ia entornar. Felizmente enganei-me, pois o homem limitou-se a dizer:
- “ O que a minha mulher quis dizer, é que há uma esplanada lá fora, neste restaurante não é proibido fumar e se o senhor se sente incomodado e não sabe falar educadamente, pode ir lá para fora. Percebeu, ou quer uma aula prática?”O valentão baixou a guarda, agarrado pela mulher, que pegando-lhe no braço lhe disse com ar delicodoce a lembrar o Calor da Noite”:
- “ Deixa lá, querido! São um casal estéril, coitados, e não gostam de crianças ... vamo-nos sentar”
A frase assassina saiu num tom de Carolina Salgado em fase de reciclagem. Mas a “madame” não a aprendeu em nenhum bar de alterne, mas sim numa daquelas sessões promovidas por milícias antitabágicas que ensinam frases como esta ou a que abriu a altercação, para aplicar em situações em que o tabaco os esteja a incomodar.
Eu próprio, quando decidi deixar de ser fumador, cheguei a frequentar algumas sessões destes “ayatollas”. Os líderes espirituais das milícias ani-tabágicas compraziam-se a debitar um conjunto de frases que denominavam como “desarmantes” , aplicáveis em diferentes situações, que eram recebidas com enorme gáudio por exércitos de seguidores embasbacados com tanta prosápia.
Quando a calma regressou ao restaurante saí , tentando fingir que acreditava que aquele grupo de provocadores afinal era apenas um bando de mercenários inaptos para qualquer outra actividade, que não seja a de agredir o próximo. Com a sua verborreia de caserna, conseguiram pelo menos estragar uma bela tarde de sol à beira mar.
Belo saldo para um dia de folga, estarão esta hora a pensar, aquartelados nos seus bordéis de ódio e intolerância que lhes garante o pão de cada dia.