segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Quem conta um conto...( crónicas do meu bairro)


Hoje, pela manhã, cumpri o ritual de domingo com algumas horas de avanço. Levantei-me cedo. Como habitualmente, quando passo o fim de semana em Lisboa, fui comprar os jornais do dia, mas surpreendi-me com o aparato pouco comum num bairro tradicionalmente pacato. Duas carrinhas da polícia de intervenção pejadas de agentes, aguçaram-me a curiosidade. Perguntei ao dono do quiosque o que se passava:
-“ Dizem que andam à procura dos tipos que assaltaram o ferro velho”
(Sim, leitores, para minha desgraça, tenho varanda virada para a sucata. Algo inexplicável numa zona de Lisboa onde, ainda há meia dúzia de anos, via as ovelhas a pastar e podia comprar legumes frescos, arrancados da terra no momento, a um lavrador que ousava resistir. Agora, o meu horizonte restringe-se a um ferro velho e dezenas de prédios em construção, que a breve prazo ameaçam invadir a minha privacidade).
Voltemos à história, ouvindo o resto da narrativa . Acrescentou o sr. Abílio que lhe tinham contado pormenores do assalto:
- “ Parece que não roubaram nada do ferro velho, mas cortaram uma perna com uma serra ao guarda...”
Saí arrepiado com a narrativa e fui até ao café. Fiz a mesma pergunta ao proprietário. A narrativa sr Alberto foi ainda mais arrepiante. Que sim senhor, que tinham cortado a perna ao homem, que tinha uma barra de platina.
- “ Veja lá o que estes malandros fazem pelo dinheiro. Ouvi dizer- mas nem acredito- que também lhe tiraram um rim!”
Lidos os títulos dos jornais e tomada a bica, fui passear para o jardim. Encontrei um vizinho que manifestava idêntica surpresa com o aparato policial. Contei-lhe o que ouvira na tabacaria e no café e ouvi a sua versão:
- “Ah sim? Olhe, fui ali à mercearia e o sr Alcides ( é verdade, caros leitores, no meu bairro os proprietários dos estabelecimentos mais populares têm todos nomes começados por A. Podem crer que não é ficção, é mesmo verdade!) contou-me que o assalto tinha sido num ferro velho da Charneca! Por acaso o guarda de lá até parece que é irmão deste daqui! Mas o que ele me disse é que o homem fez frente aos ladrões e deram-lhe um tiro numa perna. Parce que a perna lhe foi cortada, mas foi no Hospital!”
Bom, apesar de tudo, esta era uma versão mais “soft”. Despedi-me confortado, continuei o meu passeio e acabei por me sentar à sombra de uma árvore acolhedora, para continuar as minhas leituras. Ao fim de algum tempo alguns polícias entram discretamente no jardim. Aguardei algum tempo, a ver o que se sucedia, mas os polícias depois de se deterem junto a uns recipientes de lixo deram meia volta e foram-se embora.
Regressei a casa. No elevador encontrei um outro vizinho. Satisfeito por ter alguma coisa para dizer que extravasasse o âmbito metereológico que sempre serve de desbloqueador de conversas nos elevadores, perguntei-lhe se sabia as razões de tanto aparato policial.
-“ Parece que andam à procura de uma miúda de 14 ou 15 anos que desapareceu ontem à noite de casa. Saiu com uns amigos para irem até à esplanada, a miúda levantou-se para ir à casa de banho e nunca mais apareceu!”.
Surpreendido com esta nova versão dos acontecimentos, contei-lhe as versões que ouvira ao longo da manhã.
-“ Nada disso! Essa história foi na semana passada, ali na Musgueira. O homem saiu ontem do Hospital numa cadeira de rodas. Imagine o que lhe havia de acontecer! A atravessar a estrada e é atropelado por um carro de uns ladrõezecos que tinham acabado de assaltar umas casas ali na Alta de Lisboa. E eram tudo miúdos, meu amigo! Acho que o mais velho tinha 18 anos...”

Uma jornalista na Loja do Cidadão

( Cenário: Loja do Cidadão dos Restauradores)

Enquanto preencho os impressos para a renovação do Bilhete de Identidade, um senhor aparentando os seus 60 anos aproxima-se. Ouço-o dizer a uma jovem que o acompanha:
- Sim senhor! Esta gente aqui é impecável. Atenciosos e eficazes..- Eu não lhe dizia, papá!
- É verdade, é verdade! Às vezes as pessoas criticam só pelo prazer de dizer mal do Estado. Mas a culpa também é dos jornalistas, sabes, filha! A gente lê e acredita.E virando-se para outro que acabara de preencher os impressos:
- O senhor não acha?
- O quê? Que os serviços das lojas do Cidadão são bons? Claro que concordo... Principalmente quando os comparo com o atendimento num banco.
- O senhor tem razões de queixa?
- Nem queira saber, meu amigo. Nos bancos são todos uns trafulhas e ainda por cima nos atendem com duas pedras na mão. Olhe que eu deposito todos os meses o meu vencimento no banco e eles só me disponibilizam o dinheiro ao fim de 3 dias, apesar de haver uma Lei do Governo que manda que o depósito seja feito no dia seguinte. Já viu o que eles ganham em juros todos os meses?
- Estás a ouvir isto, filha, estás a ouvir isto?
- Tá bem, papá...Vamos embora?
- E nas seguradoras? O meu filho, bateram-lhe no carro tão forte, que ficou sem poder andar e ele, como tem um seguro que inclui carro de substituição ,foi à companhia de seguros pedir um carro para andar, que coitado precisa muito do carro para a vida dele. Nem imagina o que lhe disseram! Que se estava a aproveitar da situação e não sei que mais... só sei que o acidente foi a meio da semana passada e hoje ainda não tem carro. Vamos a ver se lhe dão um na segunda-feira, mas já lhe disseram que não vão pagar os táxis em que ele tem andado. Sabe o que é que lhe disseram? Que podia muito bem andar de transportes públicos! Como se ele estivesse a pedir mais do que aquilo a que tem direito!
- Estás a ouvir isto, minha filha? Vocês lá no jornal deviam escrever sobre estas coisas, não é só pôr lá doutores a escrever que a gente às vezes nem percebe nada do que eles falam... Não percebo o que é que vocês jornalistas andam lá a fazer! Deve ser só Internet, só Internet, a ver o que escrevem uns dos outros
- Vá, vamos mas é embora, papá, que está a fazer-se tarde!

O preço das notícias grátis

Um destes dias, um dos matutinos grátis, à falta de uma sobrecapa publicitária, colocou na primeira página uma fotografia da Terra, com o título “ Vitória sobre o buraco de ozono inspira especialistas” . Nas páginas interiores, percebe-se que é uma chamada de atenção para uma notícia que o “SOL” iria publicar no dia seguinte. Até aqui, nada demais. O que preocupa é o tom triunfalista com que se chamava a atenção dos leitores para o facto de o buraco de ozono ter parado de aumentar.
Para além de a notícia estar mal elaborada, ser confusa, conferir aos EUA um papel importante nessa “vitória” que obviamente não teve, dá aos leitores uma ideia errada da realidade. Não há grandes motivos para festejos, pois embora o buraco de ozono tenha parado de aumentar, há muito a fazer não só na área da produção, como também a nível de comportamentos dos consumidores. Se entre os responsáveis do Metro houvesse alguém familiarizado com as questões ambientais, o jornal não publicaria uma notícia com este pernicioso triunfalismo.
Enfim, é o preço a pagar pelas notícias grátis...