quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Comentadores: o "2 em 1"

Uma das instituições nacionais nacionais emergentes é a dos comentadores.Basta passar por uma obra de rua, para verificarmos que por cada dois trabalhadores que se esfalfam no cumprimento das suas tarefas, há cinco ou seis a dar ordens ou a comentar as melhores opções que os que estão a trabalhar devem tomar. Se acrescentarmos o número de mirones que se juntam a dar os seus palpites ( nas horas vagas de comentadores de um acidente de trânsito a que não assistiram, mas de que não abdicam de emitir os seus palpites)teremos um exército de comentadores digno de um país do “Primeiríssimo Mundo”.
A comunicação social portuguesa também não dispensa o seu leque de comentadores. Com uma diferença. Têm que ser comentadores especializados. Em Portugal há especialistas para comentar seja o que for. Guerras, polícias e ladrões, política, desporto ( uma especialização que se divide em várias modalidades) drogas, banditismo, sinistralidade rodoviária, doenças venéreas, a melhor forma de fazer “foie-gras”, economia e finanças, as 10 maneiras de abrir uma garrafa de champagne e, imagine-se... até comentadores políticos.
Com a proliferação de comentadores, a tarefa do jornalista está extremamente facilitada. Ouve ( ou lê na Internet) a opinião de dois ou três especialistas, cose em lume brando e ao fim de meia-hora sai uma notícia.
O caso Maddie fez emergir no universo mediático um novo tipo de comentadores: os criminalistas. Cada canal de televisão tem os seus comentadores de crime privativos, mas há um ou outro que debica comentários em mais do que um canal. É o caso, por exemplo, de Moita Flores. Abandonou a PJ para fazer guiões de telenovela mas, como lhe sobejava tempo, decidiu fazer-se eleger presidente da Câmara de Santarém. Percebia-se, porém, que o bichinho da criminologia ainda o roía por dentro e vai daí, à boleia do caso Maddie, regressou à actividade - em regime de acumulação.
O mais curioso é que Moita Flores se desdobra em duas personagens, consoante faz os seus comentários na SIC ou na RTP. Numa, os Mc Cann aparecem como crápulas ignominiosos, fingindores que encenaram um rapto onde afinal havia um crime e deram o "golpe do baú" .Noutra revela-se mais ponderado e chama a atenção para o facto de não se dever estar a incriminar os Mc Cann sem provas fundadas. Temos assim o verdadeiro comentador “2 em 1”. Uns dias é Moita ( carrasco) e outros é Flores ( de estufa).
Como dizia o slogan publicitário “ Bic laranja, Bic cristal, duas escritas à sua escolha”. Neste caso são opiniões, mas isso pouco importa.

Deixem as crianças brincar!

Recomeçam hoje as aulas. Uma das novidades anunciadas é que haverá cada vez mais escolas com horário de funcionamento das 9h às 17h30m. Ou seja, os miúdos vão passar a ter na escola um horário de trabalho equivalente ao dos pais.
Compreendo a medida, como uma forma de aliviar os encarregados de educação, mas visto na perspectiva das crianças, tal horário parece-me desajustado.
As brincadeiras fazem parte do crescimento e da socialização dos miúdos e uma criança que não tem tempo para brincar não pode ser uma criança feliz. Pode argumentar-se que as brincadeiras das crianças, hoje em dia, se resumem horas a fio postadas diante do televisor ou de um ecrã de computador. Seja. Mas essa é a forma de brincar das crianças de hoje...
Alijar responsabilidades e lançar o ónus da educação/formação da criança nos professores não me parece uma boa ideia.
É certo que a maioria das famílias, onde ambos os pais trabalham, não tem tempo para dedicar aos filhos, mas a questão está a ser resolvida pela via mais fácil. Ficaria mais satisfeito e tranquilo se houvesse uma alternativa que permitisse aos pais cuidarem dos filhos, sem tanto protagonismo e responsabilidade da escola. Estamos a caminhar para uma sociedade onde os valores do trabalho e do consumo se sobrepõem a todos os outros. O resultado, só poderá ser uma sociedade envelhecida e doente. Não é um bom sinal. Deixem as crianças brincar!