segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Desencanto à hora da sobremesa



No sábado de manhã o Jaime telefonou. Tinha chegado da Patagónia, onde esteve a passar férias com a Marta. Pelas suas palavras, percebi que vinha eufórico.Trazia também saudades de peixe e do mar do Guincho. Combinámos, por isso, um jantar à beira do Atlântico.
Fiquei feliz quando me apercebi da euforia do Jaime. Afinal eu fora co- responsável pela escolha da Patagónia como destino de férias, tantas vezes ele e a Marta me ouviram enaltecer a Argentina e esse paraíso imenso que é a Patagónia. Ajudara-os a preparar a viagem com todos os detalhes, mas avisando-os sempre que a Patagónia é o destino de férias ideal para podermos reprogramar itinerários diariamente, de acordo com a vontade do momento. Nunca, em nenhum lugar do planeta, dei melhor significado à expressão “férias em liberdade” do que na Patagónia.
O jantar foi animado, com o mar do Guincho em pano de fundo. Eu e a Ana estávamos ansiosos por ouvir o relato da viagem e o Jaime e a Marta por contar tudo ao pormenor. Tenho as minhas dúvidas que tenham apreciado a santola recheada e o peixe ao sal como pretendiam, tal era a sua sofreguidão em contar todos os detalhes das três semanas de aventura.
Percorremos a Patagónia de Bariloche a Calafate, num mosaico de aventuras, partilhando descrições quando descobríamos que tínhamos pernoitado, comido, ou apenas parado para tomar uma bebida, num lugar que nos trazia recordações comuns.
Mas quando chegou a sobremesa, a conversa ficou suspensa. É que a mousse de avelã das “Furnas do Guincho”, meus amigos, é um daqueles manjares que só um momento de luxúria divina permite conceber. Durante alguns minutos, subimos ao Olimpo e comungámos com Zeus e Athena momentos de lascívia, enaltecendo a criação.
Foi neste momento de suprema comunhão que eclodiu numa mesa à nossa esquerda uma conversa onde se falava de “rating”, reserve banking, índices Dow Jones spreads e taxas de juro. Creio ainda ter ouvido falar ( mas não estou certo...) de off shores e PSI 20.
Rodei a cabeça 90 graus, no intuito de identificar os animados interlocutores, imaginado-os desde logo anciões saídos de “limousines” de vidros fumados. A muito custo, não abri a boca de espanto, ao constatar que os intervenientes em tão animada conversa eram dois casais jovens, seguramente “under –30”. A tonalidade da tez denunciava um recente regresso de férias. Foi então que desci do Olimpo e dei por mim, de pés assentes na Terra a perguntar-me ( estupidamente, claro) o que estaria errado naquele quadro. A animação de uns cinquentenários falando de aventuras de férias ou os jovens, regressados de férias, a falarem com transbordante entusiasmo do Dow Jones?
A resposta, enviada por um qualquer mensageiro de Zeus, foi arrepiante e desoladora!

Outra vez a regionalização

Bastou que um qualquer eurocrata viesse dizer que Portugal tinha que seguir a tendência europeia e trilhar os caminhos da regionalização, para que alguma imprensa escrita voltasse a dar importância ao tema. Muita água há-de passar sob as pontes, até que os portugueses se voltem a ser chamados a pronunciar-se sobre o assunto ( o Governo defende que só em 2009 se deverá realizar novo referendo...)
. Faço no entanto, desde já, um desafio aos leitores. Vão aos vossos recortes e comparem as declarações do Presidente da ANMP na altura do referendo, com as que agora fez ao JN. Vão verificar que há algumas mudanças de posição...
Se não for antes, quase aposto que a partir de Janeiro do próximo ano a regionalização vai voltar a estar no centro de animados debates e, a partir dessa altura, vai ser interessante constatar que neste curto espaço de tempo muitas outras mudanças de opinião dos protagonistas vão ocorrer, numa demonstração inequívoca de que a migração de ideias se faz ao sabor de interesses políticos, que não correspondem obrigatoriamente aos interesses do país.