terça-feira, 9 de outubro de 2007

Portugal sentado

Portugal é um país de cidadãos sentados. Não me refiro apenas ao facto de os portugueses terem substituído as caminhadas diárias pelos engarrafamentos de trânsito. Refiro-me, especialmente, ao facto de os portugueses passarem, diariamente, horas sentados à volta de uma mesa. Seja para comer, para estar diante do computador a navegar na Internet, ou dar dois dedos de conversa, mas também – e principalmente- para se reunirem.
A reunião é o prato favorito na ementa laboral de um grande número de portugueses. Passam horas à volta de uma mesa traçando estratégias, delineando projectos, discutindo alternativas, com resultados normalmente pouco estimulantes. Estou convicto de que a produtividade do país aumentaria substancialmente se fosse reduzido para metade o número de reuniões e a um terço o tempo médio da sua duração.
Estar sentado é apenas produtivo para quem faz da escrita o seu modo de vida. E mesmo assim, nem sempre... Quando me iniciei no jornalismo, o meu chefe dizia-me que não queria ver jornalistas sentados na redacção por muito tempo. Queria-nos na rua a farejar a notícia. Nos tempos da Internet, tudo mudou. Alguns jornalistas resumem a sua actividade a pesquisas na Internet e à inefável tarefa do “copy paste” , com alguma alterações de circunstância.
Em todas as áreas de actividade, a reunião é uma instituição precedida de muitos cumprimentos e salamaleques, entrecortada por umas piadas e um “coffee break”. Raras vezes começa à hora e só ocasionalmente tem hora marcada para terminar.
Vivi em vários países onde nada se passa assim. As reuniões são esporádicas, têm um tempo de duração previamente estabelecido, que só em circunstâncias excepcionais é ultrapassado. Servem para reflectir, decidir e passar à acção. Muito raramente se faz mais do que uma reunião para tratar do mesmo assunto.
Em Portugal- como noutros países onde vivi- as reuniões servem essencialmente para adiar decisões para reuniões futuras. Ao fim de três ou quatro reuniões de várias horas acertam-se metade das decisões que estavam agendadas para a primeira reunião. Apesar de tudo, andamos todos muito atarefados e “sem tempo para nos coçarmos”. Comportamo-nos como um carro a derrapar na neve, por não utilizar correias aderentes. Por isso ficamos constantemente aquém dos objectivos que traçamos. É chegada a altura de Portugal deixar de ser um país sentado e se pôr de pé. Em termos de produtividade, evidentemente...

4 comentários:

  1. Está bem visto, não há dúvida!

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  2. Ou não fosse isto um país de funcionários públicos

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  3. Poderá dar exemplos de países onde as reuniões são a sério? E daqueles onde as reuniões servem para tentar provar a necessidade absoluta de manter os intervenientes no quadro? : )

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  4. Absolutamente de acordo: há muita reunião inútil nesta terra! E, por vezes, os trabalhadores deixam o que têm em mãos, para participar nas tais reuniões em que não se decide coisíssima nenhuma, atrasando o seu próprio serviço. Não cabe na cabeça de ninguém... ;)

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