sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Férias...férias...férias...

Chegou finalmente o dia há tanto tempo aguardado...Vou de férias!
Invejosos? Espero que não, pois enquanto vocês andavam todos no bronze, eu estava a penar cá por Lisboa, na labuta diária.
Tristes por não terem novidades no blog durante as minhas férias? Espero que sim, pois é sinal que gostam do que aqui se vai escrevendo. Mas não desesperem, porque um mês passa num instante e quando voltar vou dar-vos muitas novidades. Já andam a germinar na minha cabeça há uns tempos, mas decidi que seria melhor concretizá-las só depois das férias. Preparem-se, porque a blogosfera vai sofrer um abalo telúrico!Até já!

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Valha-me S.Gonçalo!

Valha-me S. Gonçalo!
O telefone tocou à hora do jantar, razão suficiente para ficar irritado. Era o Gonçalo que pretendia falar com uma senhora que já não vive cá em casa há anos. Comuniquei-lhe o facto, mas o Gonçalo não se descoseu:
- Não faz mal, posso mesmo falar consigo...- Então diga lá, mas rápido, porque estou a jantar.
- Sou da DECO Proteste e queria convidar a senhora ( não interessa o nome para o caso) ou algum dos seus familiares a tornar-se sócio da DECO Proteste com 50% de desconto.
- Olhe lá isso da DECO não é uma associação de consumidores?
- Exacto... a DECO é a maior associação de consumidores de Portugal e estamos a dar-lhe a possibilidade de se tornar sócio com 50% de desconto.
- Mas a DECO não é crítica do Marketing Directo? Não chega encher-me a caixa de correio com propaganda, apesar de eu ter um recipiente próprio no prédio para o efeito? ( ....)
O Gonçalo é um rapaz educado e não merecia ser alvo da minha fúria. Mas eu sou como os cães e quando me interrompem a refeição entro em fúria.
Daí o meu conselho (não ao Gonçalo, mas à DECO)
Quando fizerem campanhas de educação alimentar, não se esqueçam de introduzir um item onde se diga: “ Não atender o telefone à hora das refeições, porque pode ser o nosso serviço de marketing directo a querer impingir-lhe uma assinatura das nossas revistas e isso faz mal à saúde. Pode inclusivé parar a digestão.”
Pelo menos assim, os consumidores ficavam avisados...

De Lisboa a Nova Iorque


A imprensa matinal esforça-se, de vez em quando, por nos dar notícias que nos façam esboçar um sorriso logo pela manhã e ficar mais bem dispostos ao longo do dia.
Foi o que aconteceu um destes dias, quando li que um estudo da Mercer Consulting concluíra que “Lisboa é melhor que Nova Iorque”.
Confesso que não foi novidade, pois eu já experimentara essa mesma sensação na última vez que lá estive, como passo a demonstrar.
Passeava eu por Central Park, e só suspirava por regressar rapidamente a Lisboa, para poder desfrutar da beleza do Jardim da Estrela. Depois, tomava o pequeno almoço em plena Broadway, ao lado de Woody Allen, e pensava num lamento: bom mesmo, era se agora estivesse no Parque Mayer a tomar café com o Tony Carreira!
Em plena 5ª Avenida, só sentia saudades da Avenida da Liberdade e junto ao Ground Zero, só me vinha à memória o Túnel do Marquês em tempos de embargoPensei que à noite as coisas melhorassem, mas quando cheguei a Greenwich Village logo tive saudades da Cova da Moura e mesmo em Times Square, só suspirava pela animação do Terreiro do Paço às 10 da noite!
E em termos de Arte? Há alguma comparação entre a Estátua da Liberdade e o monumento fálico do Cutileiro no topo do Marquês? Ou entre o Guggenheim e o CCB?
Meus amigos, os estudos não mentem, Lisboa é incomparavelmente melhor do que Nova Iorque e acho mesmo injusto que Lisboa esteja colocada em 47º lugar, atrás de cidades tão desinteressantes como Viena, Zurique, São Francisco, Helsínquia, Londres ou Paris.
Apesar de tudo, vou fazer o sacrifício de deixar esta bela cidade e ir de férias

Bush e o Dalai Lama

Parece que os líderes chineses ficaram enxofrados pelo facto de Bush ter recebido o Dalai Lama com pompa e circunstância.
Por mim, fiquei desgostoso pelo facto de o Dalai Lama ter querido ser recebido por Bush

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Conversas com o Papalagui (4)

Papalagui-Porque é que vocês têm tantas Zitas deputadas?
Portuga - Só conheço uma ...
Papalagui-Não, há pelo menos duas ...
Portuga- Como assim?
Papalagui- Uma defende a baixa dos impostos , exige o referendo ao Tratado Europeu e é contra a regionalização. A outra combate a baixa dos impostos, considera o referendo inoportuno e é a favor da regionalização. Então há ou não pelo menos duas Zitas?
Portuga- Hummmm!Parece-me bem que é a mesma...
Papalagui-A mesma?
Portuga-Sim, uma é do PSD de Filipe Meneses e a outra é ex- PCP, ex-PSD de Marques Mendes e ex-ateia, mas são a mesma pessoa. Muda de cor e de opinião conforme sopra o vento...
Papalagui -Vá-se lá perceber estes portugueses... Vou mas é voltar para a minha terra!
Portuga- Deixa-te lá disso, Papalagui! Aquilo são tiques que lhe ficaram dos tempos em que era do PCP e estava habituada a dizer sempre amen com o chefe. Agora que está no PSD tem opinião própria!

Conversas com o Papalagui (3)

Ouvi dizer que Santana Lopes vai ser eleito amanhã presidente do Grupo Parlamentar do PSD. Quando é que vai pedir a demissão?

A gorjeta

- Quanto é que deixamos de gorjeta?
- Eu não deixo nada...
- Então porquê? O empregado até era simpático e prestável.
- Lá isso é verdade, mas deixei de dar gorjetas porque é uma estupidez e sinto-me a fazer figura de parvo...
- Mas quando estás no estrangeiro deixas, que eu já vi!
- Lá fora é diferente. Eu dantes, cá em Portugal, também deixava. Queres saber porque deixei de dar gorjeta?
- ?....
- Antigamente quando dávamos gorjetas, sabíamos que ia para o empregado, mas agora já não podemos ter essa certeza. Desde que os preços passaram a incluir taxas de serviço, era suposto deixar de se dar gorjeta. É essa a prática em muitos países lá fora. E eu só dou gorjeta nos sítios onde está escrito nas ementas “ taxa de serviço não incluída”.
- Eh, pá, sabes muito bem que é o patrão que fica com as taxas de serviço....
- Ora aí é que está o problema! Fica, mas não devia, porque as taxas de serviço deveriam ser distribuídas pelos empregados. Mas isso não é o pior... o que me faz sentir parvo é saber que em muitos estabelecimentos as gorjetas são metidas numa caixa...
- E distribuídas por todos os empregados no final de cada semana, ou de cada mês...

- Isso pensas tu! Apesar de não concordar com a repartição das gorjetas por igual, porque premeiam o empregado simpático e diligente e o antipático e sorna da mesma forma, isso não é o pior! O pior é que em muitos restaurantes o patrão também recebe a sua parte das gorjetas.... achas que ando a dar gorjetas a gajos que ganham mais do que eu?

As vindimas

“ Não se me dá que vindimem
Vinhas que eu já vindimei,
Não se me dá que outros logrem
Amores que eu já rejeitei”

( Cântico popular)

As vindimas constituem, no meu imaginário, a referência do Outono. Quando Setembro se aproximava do final, íamos para a quinta “fazer as vindimas” e isso significava que as férias estavam a chegar ao fim.
Terminei essa vivência, quando tive que procurar outras paragens para estudar. Em Inglaterra as aulas começavam cedo, não me permitindo participar naquele ritual adventista do “regresso às aulas”. Ainda hoje recordo, com alguma saudade, alguns cânticos que acompanhavam a azáfama da “colheita” e os olhos verde água da Emília, moçoila minhota por quem me embeicei um ano e que desapareceu da minha vida para sempre, depois de um beijo de despedida no último dia da faina. Ao longo dos anos sempre associei as vindimas ao Alto Douro, aos cânticos dolentes, ao fim do verão e, claro, ao beijo inesperado e furtivo da Emília.
Hoje, uma pequena notícia de jornal devolveu-me estas recordações e deixou-me com um ligeiro amargo de boca. A Real Companhia Velha está a utilizar uma máquina para fazer a vindima, prescindindo dos trabalhadores sazonais que se dedicavam à tarefa.
Os cânticos cadenciados acompanhando os movimentos de vai-vem dos “jornaleiros” enquanto esmagavam as uvas estão a ser substituídos pelo ronronar monocórdico de uma máquina.
Acabou-se a festa das vindimas.

Conversas com o Papalagui (2)

Li em qualquer parte que Portugal tem dois milhões de pobres. Só pode ser mais uma invenção dos jornalistas...

Conversa com o Papalagui (1)

Ouvi dizer que há um banco em Portugal que perdoou uma dívida de 12 milhões de euros ao filho do patrão. É a isso que vocês chamam economia de mercado?

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Leituras



Acabei de ler – e recomendo- a entrevista de Gilles Lipovetsky ao DN Magazine, a propósito do seu último livro
Em “A Felicidade Paradoxal” o filósofo e sociólogo francês desmistifica a ideia que a maioria das pessoas alimenta, de ser possível atingir a felicidade através do consumo.
A verdade, porém- garante Lipovetsky- é que à medida que nos afogamos no prazer de consumir, vamo-nos sentindo mais infelizes.
A minha leitura: isso acontece porque nos desgostamos quando percebemos que na sociedade da hiperescolha a vaidade de exibir a última novidade dura um tempo muito escasso e isso deprime-nos. A ânsia de ser o primeiro a comprar o livro do Harry Potter, o iPhone ou a última versão da Play Station é um fenómeno universal que leva as pessoas( seja em Portugal, em Inglaterra, nos EUA ou na China) a correr atrás da última novidade. Hoje em dia as pessoas não se limitam a querer ser felizes. Sentem-se obrigadas a sê-lo. É isso que “justifica” a obsessão de querer ser o primeiro. Porque ser primeiro – acreditam- é ser vencedor, é diferenciar-se da enorme massa humana que vai comprar nos dias seguintes o mesmo produto.Não estar entre os primeiros a adquirir um produto, a visitar uma loja, a ir a um restaurante ( ou atravessar o Túnel do Marquês) é visto quase como um insucesso. E as pessoas convivem mal com “este insucesso”. Por isso tornámo-nos infelizes e já nem tempo temos para ser solidários.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Meio século à espera de decisões ( ou a causa ambiental explicada aos iniciados)

Em 1961, um livro de Rachel Carson (A Primavera Silenciosa) desperta as pessoas para os problemas ambientais, ao chamar a atenção para a existência de um eco-sistema e a necessidade de o preservar, como forma de garantir um ambiente saudável.
Em causa estavam os efeitos devastadores do pesticida DDT, que Carson descreve da seguinte forma:
“Para acabar com os escaravelhos que estavam a destruir os ulmeiros, a Câmara da cidade de East Lansing (Michigan) pulverizou as árvores com DDT e no Outono as folhas caíram e foram devoradas pelos vermes. Ao regressarem, na Primavera, os tordos comeram os vermes e ao fim de uma semana quase todos os tordos da cidade tinham morrido.”
Anos mais tarde foram encontrados vestígios de DDT em baleias criadas ao largo da costa da Gronelândia situada a centenas de quilómetros das áreas agrícolas mais próximas, e concentrações de insecticida nos ursos e pinguins da Antártida, longe de qualquer área sujeita a pulverização com DDT ou qualquer outro insecticida.
Durante a década de 60, são vários os acontecimentos que vão despertar as pessoas para a necessidade de preservar o ambiente e começa a falar-se da possibilidade de ocorrência de catástrofes ecológicas. Em 1966,enquanto no País de Gales cerca de 150 pessoas ( a maioria delas crianças) morrem sepultadas num monte de resíduos de carvão que desaba sobre uma escola, um novo livro ( “Limites para o Crescimento”) vem alertar o mundo para os sinais de degradação ambiental. No ano seguinte, um grupo de cientistas apresenta, na Califórnia, um relatório esclarecedor:os aerossóis estão a destruir a camada de ozono e se a sua utilização permanecer ao mesmo ritmo, o número de cancros da pele crescerá exponencialmente. Só nos EUA, os cientistas prevêem mais oito mil casos anuais. Entretanto, alterações de clima e inexplicáveis acontecimentos metereológicos lançam grandes preocupações na comunidade científica.
A causa ambiental ganha novos adeptos e a ONU decide avançar para a realização de uma Conferência Mundial sobre o Ambiente, marcada para 1972 em Estocolmo.A Cimeira- que conta já com a participação do Greenpeace fundado no Canadá em 1971- decorre em plena guerra do Vietname e os EUA são acusados de estar a perpretar uma destruição ecológica durante o conflito. O debate entre países ricos e pobres, que há-de ser uma constante quando se discutem problemas ecológicos, é iniciado com uma intervenção de Indira Gandhi que pergunta aos delegados dos diversos países:
“Como podemos nós falar, àqueles que vivem em aldeias e bairros de lata, em manter limpos o oceanos, os rios e o ar, quando as suas próprias vidas são contaminadas desde a origem?”
Maurice Strong, - o secretário geral da Conferência- compreende o que está em jogo e responde nestes termos:“ É o cúmulo do descaramento que o mundo desenvolvido manifeste surpresa quando os países em desenvolvimento identificam chaminés fumegantes de fábricas com progresso. Afinal, é isso que nós temos feito desde sempre!”.

As posições de pobres e ricos mantiveram-se inconciliáveis e no final, para além de promessas (que não serão cumpridas) de ajuda dos países ricos aos países pobres, que permitam reduzir as diferenças que os separam, a única medida palpável foi a autorização para que fosse criado um secretariado permanente para estudar os problemas do ambiente, no seio da ONU.
Em 1987, o relatório da Comissão Brundtland veio deixar claro que os entusiasmos criados em Estocolmo tinham sido refereados e nem o acordo assinado por vários países, comprometendo-se a reduzir para metade a emissão de CFC (clorofluorcarbonetos) responsáveis pela destruição da camada de ozono, dá mais confiança aos ambientalistas numa solução do problema.
Indiferentes aos problemas ambientais e gozando, por vezes, da complacência dos governos, as multinacionais vão explorando os recursos dos países do terceiro mundo, especialmente os asiáticos, e sendo responsabilizadas por desastres ecológicos que provocam número indeterminado de vítimas, como o de Seveso (Itália), Bhopal (Índia) ou Exon Valdez (Antártida). O património histórico também está ameaçado e a UNESCO alerta para os perigos que ameaçam a Acrópole. Em Chernobyl (URSS) – mofando de quem assegurava a impossibilidade de um acidente - explode um reactor nuclear que liberta para a atmosfera uma gigantesca nuvem radioactiva que atinge vários países europeus e, na Alemanha, um incêndio numa fábrica de produtos químicos polui gravemente o Reno.
Em 1990, novos acordos para a eliminação , até ao ano 2000, dos produtos mais perigosos para a camada de ozono e a redução das emissões de gases poluentes são alcançados, chegando-se à Cimeira da Terra que se realizou no Rio de Janeiro em 1992, num clima de grande optimismo. Debalde. Durante a Cimeira, as desavenças entre países pobres e ricos acentuam-se e mesmo no seio dos países da UE as fricções são bem visíveis..
O principal êxito da Cimeira foi o seu mediatismo, que trouxe a temática ambiental para a discussão pública e criou uma maior consciencialização das pessoas para o problema.
Trinta e cinco anos após a Cimeira de Estocolmo, quase 50 desde o livro de Rachel Carlson e muitas Cimeiras depois, embora conhecido o diagnóstico e as possíveis medicamentações para a cura do Planeta, os “médicos” continuam a olhar para a doente com ar grave e, com um encolher de ombros, declarar: “a doente está muito mal, mas não vamos fazer nada para a curar, porque não nos entendemos quanto à medicação a ministrar-lhe”.

Blog Action Day 3

Ela é tão bonita, porque não contribuir para a preservar?

Blog action Day 2

Elas mereciam melhor sorte...


A extinção de espécies aumenta todos os anos, pondo em risco o equilíbrio dos ecosistemas. A avaliação da aplicação da Convenção sobre biodiversidade assinada no Rio em 92, tem sido sucessivamente adiada. Há no entanto, desde já, a certeza de um recuo nas posições assumidas por parte de países considerados “vanguardistas” nesta matéria, como é o caso do Canadá e da Noruega.

Blog Action Day 1

Este é o resultado do "Consumo Nosso de cada dia"....

Para quê tanto desperdício?

Ricardo, estou contigo!

Finalmente, li alguém que está comigo na defesa da ASAE. Ricardo Araújo Pereira, na crónica da Visão desta semana, sai em defesa daquele organismo, apontando também a incoerência dos argumentos que atacam a ASAE, pela simples razão de cumprir o seu dever.

O Paraíso adiado


Ainda antes de tomar posse, V.Exª apontou as seguintes prioridades para o seu mandato até 2009:
-limpar as ruas varrendo os dejectos caninos,
- arrancar os cartazes de feira que conspurcam os edifícios,
- limpar fachadas,
- eliminar os “graffitti” de mau gosto,
- limpar os jardins e espaços verdes
- e a partir de 12 de Setembro, acabar com os estacionamentos selvagens (nomeadamente em segunda fila). Numa palavra, o que V.Exª prometeu aos lisboetas foi o Paraíso!
Passado um mês sobre a entrada em vigor da “Tolerância Zero”, em relação ao estacionamento selvagem, aconteceu o que se esperava: NADA! Pelo contrário, quando os cidadãos de Lisboa se aperceberam que as boas intenções duraram apenas uma semana, o estacionamento tornou-se mais indisciplinado, aumentaram os cócos de cão e as pichagens nos edifícios.
Penso que V.Exª terá finalmente percebido que a Câmara que vai dirigir nos próximos dois anos não é a de Helsínquia, mas sim a de Lisboa. Sinto-me, por isso, na obrigação de o esclarecer acerca de algumas peculiaridades da capital portuguesa e o advertir que em Lisboa não vivem finlandeses educados, mas sim um subproduto da população portuguesa a que vulgarmente se chama – erradamente- lisboetas. A verdade, porém, é que a maioria dos lisboetas já não vive em Lisboa e, os que ainda cá vivem , estão acantonados em condomínios privados ou no bairro da Lapa. Sejamos por isso, claros: a população da autarquia que V. Exª está obrigado a gerir é constituída, maioritariamente, por uma mescla de saloios que há 50 anos vinha de carroça para Lisboa vender alfaces, com uma tribo de tiranetes que exploravam pretos em África e lhes “papavam” as filhas virgens. Ora esta população que hoje em dia habita Lisboa tem algumas características que convém não menosprezar e que me permito relembrar-lhe:

1- São ingratos. Apesar de o 25 de Abril- qual fada madrinha da Gata Borralheira- lhes ter permitido substituir a carroça por potentes máquinas; fornecido água potável canalizada; substituído o petromax por electricidade; facultado o acesso a uma parafernália de bens de consumo que a maioria nunca imaginou possuir; possibilitado a escolha do presidente de Câmara e conferido um vasto leque de mordomias a que não estavam habituados, os eufemisticamente chamados lisboetas são uns ingratos. Detestam políticos – como se não fosse graças a eles que conseguiram melhorar as suas condições de vida- e por isso os tratam como “escumalha”.
2 - São ignaros- Esta mescla de saloios e exploradores a que daqui para a frente apelidarei, generosamente, de população de Lisboa, é também pouco esclarecida. Pensou que não valia a pena votar no passado dia 15 de Julho, já que sendo o seu objectivo primeiro dizer mal de quem fosse eleito, não era necessário tanto incómodo. Além disso, a população de Lisboa desconhece não só a história da cidade em que habita, mas também o significados das pedras vivas que diariamente se atravessam no seu caminho e para as quais olham com profunda indiferença. Por isso lá afixam cartazes e espicham “graffittis” de mau gosto.
3- São carentes Se V. Exª pensa que vai acabar com os cócós de cão nas ruas de Lisboa, desiluda-se! Talvez não se tenha apercebido disso, mas os habitantes de Lisboa são uns carentes...Só assim se explica que hoje em dia nenhum habitante de Lisboa que se preze, dispense a companhia de um animal de estimação. Seja num T1 de 40 metros quadrados, seja numa “penthouse” de 200, há sempre lugar para um animal, seja ele um minúsculo “lulu” ou um mastodôntico São Bernardo. Em qualquer urbanização é possível ver todas as noites, nas áreas envolventes dos prédios, pessoas passeando os cãezinhos de estimação na hora de satisfazerem as suas necessidades. É um momento sublime e de grande significado sociológico, pois muitos utilizam os parques infantis como sanita canina. Como deve estar recordado, Salazar saía duas noites por semana, discretamente, para se inteirar dos preços dos produtos. No dia seguinte, reunia os seus Ministros, comunicava-lhes o que tinha visto, pedia-lhes as suas opiniões e depois decidia. Proponho a V. Exª que faça o mesmo ( embora reconheça que não será fácil, já que V.Exª optou por viver em Sintra que sempre é mais limpa e arejada...) mas em vez de se inteirar dos preços, observe os comportamentos dos cidadãos que passeiam os seus cãezinhos à noite. Verificará que a maioria deixa que os animais defequem à sua vontade, olham para as dimensões do dejecto e avaliam se o animal está totalmente “aliviado”. Depois seguem o seu caminho. Há alguns raros espécimens que se dão ao trabalho de pegar nos dejectos com um saquinho de plástico. Dizem-me que esses são os lisboetas que ainda vivem na capital nas mesmas condições dos habitantes de Lisboa.

4- São mal educados A forma como tratam de suprir as carências afectivas, sem depois cuidarem devidamente dos dejecto do seu afecto, demonstra a sua falta de educação. Também cospem para o chão e estão sempre de dedo em riste fazendo gestos obscenos, mas a sua latente má educação é denunciada nos transportes públicos e quando conduzem. O seu lema é: tenho “pisca pisca, logo existo”. Por isso estacionam em segunda fila, em curvas , passadeiras, lugares para deficientes, em cima dos passeios, em paragens de autocarros e os outros que se danem. Se V.Exª conseguir acabar com isso não num mês, mas em dois anos, considerá-lo-ei um herói e serei o primeiro a subscrever a sua candidatura em 2009.

5- Julgam ser o centro do mundo Um habitante de Lisboa julga sempre ser o centro do Universo. À sua volta tudo está mal, mas cada um sabe muito bem como pôr as coisas na ordem, porque ele é o exemplo acabado da perfeição. Por isso, encontra sempre justificação para não apanhar os dejectos do cão, estacionar o carro em transgressão, ultrapassar o sinal vermelho, abster-se no dia das eleições, etc. Os outros, que fazem o mesmo, é que têm falta de civismo...
6- São masoquistas Caro Dr. António Costa, não desanime! A revelação que lhe faço antes de terminar esta carta ajudá-lo-á a resolver os problemas e a cumprir as suas promessas: os habitantes de Lisboa são masoquistas Cheguei a esta conclusão ao ler os classificados do DN e do Correio da Manhã e constatar o elevado número de “dominadoras” que oferecem os seus préstimos... Ora um homem que gosta de ser dominado e humilhado por uma mulher entre quatro paredes, é porque deseja, no seu íntimo, ser humilhado e dominado por um poder superior. Acorrentado e chibatado, o habitante de Lisboa torna-se submisso, obediente e dócil. O que V.Exª terá pois que aprender é a usar as algemas e manejar a chibata. Sem usar a arrogância do sr. engenheiro, mas fazendo-os perceber que, uma vez na vida, as intenções proclamadas em manifesto eleitoral são para cumprir. Se o fizer, ainda lhe sobrará tempo para pegar nos dossiês e tentar pôr ordem no caos em que o Prof Carmona Rodrigues e a sua equipa deixaram a capital portuguesa.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Cautela e caldos de galinha...

Pelo sim, pelo não, é melhor não embandeirar em arco e continuar a ignorar as mensagens optimistas do Governo e pensar apenas que as coisas não vão piorar ( o que já não é mau...). Se toda a gente começa a acreditar que a partir do próximo ano vamos sair da crise, lá temos o endividamento das famílias a aumentar, as pessoas a viverem outra vez acima das suas possibilidades e a esquecerem o mau bocado que passaram nos últimos anos. Vamos com calma, tendo esperança em dias melhores, mas sem euforias. Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém...

O FMI é bom companheiro?

Ontem, à hora do almoço, enquanto comia uns “jaquinzinhos” à revelia da União Europeia, ouvi o Primeiro Ministro anunciar que iríamos finalmente sair do Inferno e entrar no Purgatório, porque o défice está controlado e a economia a crescer . Tinha um ar tão feliz, que até agradeceu o esforço dos funcionários públicos!!! Entendi todas estas mensagens de esperança como um código cifrado, significando que podemos alargar um pouco o cinto. Pedi logo mais uma dose, claro!
À hora do jantar volto a ouvir a mesma notícia, mas logo de seguida o Zé Alberto anuncia que o FMI prevê a estagnação da economia no próximo ano e aconselha o Governo a fazer mais umas não sei quantas reformas estruturais. Confesso que perdi de imediato o apetite e pensei para os meus botões “ comi dois almoços mas como não janto, que se lixe... Fico na média!”. Ultrapassado o choque pensei melhor e fiquei aliviado. Afinal o FMI anda há 30 anos a enganar-se em relação a Portugal, porque é que havia de acertar este ano?

Reconfortado com este raciocínio dei um passo em frente e não pude deixar de comparar o comportamento dos tipos do FMI com o dos dirigentes da UEFA e da FIFA. Vivem todos à grande, com as maiores mordomias, e estão sempre a exigir que os outros façam sacrifícios em prol do bem comum. ( Como se eu acreditasse que o FMI se tenha preocupado alguma vez com o bem comum!!!!).
Bem fizeram Nestor Kirchner e Lula que mandaram os conselhos do FMI às malvas e estão a crescer economicamente de uma forma notável. Em boa verdade, Sócrates tem feito o mesmo e não se tem dado mal, pois no final de cada ano, lá vem o FMI reconhecer que afinal errou as suas previsões.

Em Portugal, já ouço os cânticos de uma certa direita “ O FMI é bom companheiro...”

Nobel da Paz

Al Gore Nobel da Paz? Não brinquem com as alterações climáticas, please! O homem anda a fazer pela vida com o power point atrás, teve o mérito de alertar para situações que já são faladas há décadas, mas é bom não esquecer que age como Frei Tomás.
Se queriam premiar alguém que activa e desinteressadamente tem desenvolvido uma actividade de mérito em prol das questões ambientais, deveriam ter atribuído o Nobel a uma ONG.

Inquéritos no "Portugal Sentado"

À luz do bom senso, parece-me óbvio que seriam apenas precisas algumas horas para esclarecer quem mandou a polícia ao Sindicatos dos Professores.
As declarações da Governadora Civil de Castelo Branco, Alzira Serrasqueiro, - foi pronta a esclarecer que "a ida da polícia a um sindicato é um acto normal e rotineiro”- até me perecem dar um bom contributo para a descoberta. Ao que parece, porém, só na próxima terça-feira é que o Ministro da Administração Interrna (Rui Pereira) irá à AR desembrulhar todo o imbróglio. Creio que estamos perante mais um bom exemplo do “Portugal Sentado” ( leia o post que aqui escrevi sobre este tema). Será necessário efectuar meia dúzia de reuniões para esclarecer cabalmente o assunto, fazer “pesquisa ” sobre situações idênticas ocorridas noutros países europeus e fazer “rewind” sobre casos ocorridos noutros Governos, para estabelecer comparações.
Quando é que as novas tecnologias serão postas ao serviço da celeridade dos inquéritos? Neste caso, creio que nem seria preciso tanto... dois ou três telefonemas seriam suficientes para saber quem deu a ordem.Alguém se atreve a dizer que os funcionários públicos são preguiçosos?

A propósito do Nobel da Literatura

Doris Lessing ganhou o Prémio Nobel da Literatura. Só li um livro dela ( Under my skin) e não cometo a ousadia de opinar se foi um Nobel bem ou mal atribuído. Opinião diferente tem a minha amiga Petra W. que ,apesar de conhecer e apreciar a obra da vencedora, está lá na Alemanha inconsolável por não ter sido ainda este ano a vez de Lobo Antunes.Tem calma Petra... O homem ainda é novo...

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Conversa in(Deco)rosa

- Eh pá, já não suporto tanto spam no meu e-mail! Hoje apaguei mais de 100...
- Quem te manda andar a navegar por onde não deves?
- Que é que queres dizer com isso?
- Nada, esquece...
-
Eh pá e há alguns que são certinhos. A DECO, por exemplo, manda-me um de 15 em 15 dias, a convidar-me a assinar as revistas deles
- A DECO? Mas isso não é uma associação de consumidores?
- É...
-
Mas as associações de consumidores não são contra o spam?
- São...
- E enviam spam?
- Enviam...
- Julgava que só faziam aqueles encartes nos jornais a oferecer prémios e mesmo isso já achava estranho, vindo de uma associação de consumidores... Ainda me lembro de eles terem criticado as selecções do Reader’s Digest por fazerem a mesma coisa....
- Pois, mas isso foi noutros tempos.
- Antes ou agora, para mim é igual. Pus um autocolante na caixa do correio a dizer que não queria publicidade, mas põem –ma lá na mesma . Vai tudo para o lixo, nem leio. O pior é quando vou de férias. No regresso é um pandemónio de papel!
- Olha lá, nunca te telefonaram para casa a impingir-te as revistas?
- Quem? A DECO?
- Sim... a mim já telefonaram várias vezes.
- Pois, agora que falas nisso também me lembro de a minha filha ter falado um dia destes que telefonaram à hora do jantar a perguntar se não queríamos assinar as revistas da DECO. Davam os prémios e não sei que mais, mas acho que não era da DECO... era da Edideco
- É mais ou menos a mesma coisa...
- Também é uma associação de consumidores?
- Não, é uma editora.
- Que vende revistas de consumidores da marca DECO, não é?
- É...
- E isso não te faz confusão?
- Fazer faz, mas como não assino, quero lá saber!
-
Eu cá por mim gostava de saber como se pode actuar contra as empresas que fazem spam
- Queixa-te a uma associação de consumidores!
- A quem? À DECO?
- Pois... parece que não há outra!
- Ah! Já percebi...

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

A idade da inocência(?)

Ao passar nas traseiras do Atrium Saldanha, sou interpelado por duas jovens classe média ( a julgar pelo vestuário, mas nos dias de hoje nunca fiando...) sentadas em amena conversa num parapeito da escadaria :
- Pode-nos dar um cigarro?
-
Não fumo...- Não fuma? ( em uníssono, com tom de barítono...)
- Não, ganhei juízo!
- Nunca fumou?
- Já, durante muito tempo, e de vez em quando ainda dou umas passas numa cigarrilhazita..- Ah! Então tem cigarrilhas...
-
Não, aqui não tenho- Que azar! Não nos pode dar dinheiro para comprar um maço de cigarros?
- Que idade é que vocês têm?
- 16 (
não aparentavam mais de 14, mas fingi acreditar)
-
Porque é que vocês não pedem dinheiro aos vossos pais?- ( ...)
- Ganhem mas é juízo, ainda são muito novinhas para essas coisas

- Dê-lá, são só 3 euros! A gente deixa-o apalpar-nos as mamas.

As avós da Plaza de Mayo e o cordeiro de Deus


A Argentina é o meu refúgio de férias favorito desde 1995. Nessa altura, a Patagónia ainda era a “Terra das Mil Lendas" e o Perito Moreno um santuário imaculado.
A Argentina mudou imenso nesta última década, principalmente desde o “Corralito” de 2001 e a ascensão ao poder de Nestor Kirchner, mas sempre que vou a Buenos Aires não dispenso uma ida à Plaza de Mayo numa tarde de quinta –feira.
É ali, frente à Casa Rosada, (sede do Governo) que todas as semanas se reúnem em vigília as mães e avós de Mayo. São mulheres que envergam xailes e empunham cartazes reclamando a devolução dos cadáveres dos seus filhos e netos assassinados durante a sangrenta ditadura argentina.
Já lá vão quase três décadas, mas o ritual repete-se semanalmente, porque aquelas mulheres recusam-se a esquecer os facínoras que delapidaram centenas de vidas, deixando os opositores ao regime morrer nos cárceres ou lançando-os de helicópteros, ainda vivos, nas águas do Atlântico. Muitos deles eram jovens que lutaram e morreram por uma causa.
Hoje gostaria de estar na Plaza de Mayo, porque sei que muitas daquelas mulheres deixarão transparecer, durante a sua vigília, um sentimento de alívio pela condenação a prisão perpétua do Padre Christian Von Wernich. Antigo capelão da polícia de Buenos Aires, foi o primeiro religioso a ser condenado “por crimes contra a humanidade” durante a ditadura militar. Consta da acusação a prática de sete homicídios qualificados 31 casos de tortura e 42 privações ilegais de liberdade. Nada mau para um "cordeiro de Deus"...
Oxalá não seja o último facínora a apodrecer nas celas das prisões argentinas.


O preço das notícias grátis(3)

Nos últimos dias, o "Metro" tem trazido encartes publicitários. No entanto, em vez de virem soltos dentro do jornal, os encartes vêm colados. Conclusão: ao retirá-los, somos obrigados a rasgar um pouco da página. Hoje a situação tornou-se ainda mais desagradável, porque ao retirar o encarte( mesmo com muito cuidado) rasgava-se uma parte da crónica do José Júdice. Como leitor, fiquei chateado. Se o cronista fosse eu, não toleraria a situação!

O preço das notícias grátis (2)

Não é novidade para ninguém que os jornais gratuitos existem graças à publicidade e aos salários vergonhosos que pagam aos jornalistas ( No Global Notícias nem jornalistas há, pois limita-se a reproduzir notícias dos jornais do grupo).
Não é por isso causa de admiração que o "Metro" utilize muitas vezes uma “capa falsa”, com conteúdo publicitário. O problema é que a maioria das pessoas , logo que pega no jornal se desfaz dessa capa, sendo confrangedor ver o número de leitores que nem se dão ao trabalho de a colocar num recipiente adequado, preferindo atirá-la para o chão. Algumas estações de metropolitano apresentam um aspecto deplorável, logo às 9 da manhã, com “capas falsas” espalhadas pelo chão.
Esta prática representa um custo ambiental que deveria ser ponderado, seguindo o exemplo de Londres, onde os proprietários dos jornais gratuitos são obrigados a providenciar a recolha dos despojos e a proceder ao seu envio para a reciclagem. Lucrava-se em termos ambientais e evitava-se o ar nojento de algumas estações de metropolitano.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Portugal sentado

Portugal é um país de cidadãos sentados. Não me refiro apenas ao facto de os portugueses terem substituído as caminhadas diárias pelos engarrafamentos de trânsito. Refiro-me, especialmente, ao facto de os portugueses passarem, diariamente, horas sentados à volta de uma mesa. Seja para comer, para estar diante do computador a navegar na Internet, ou dar dois dedos de conversa, mas também – e principalmente- para se reunirem.
A reunião é o prato favorito na ementa laboral de um grande número de portugueses. Passam horas à volta de uma mesa traçando estratégias, delineando projectos, discutindo alternativas, com resultados normalmente pouco estimulantes. Estou convicto de que a produtividade do país aumentaria substancialmente se fosse reduzido para metade o número de reuniões e a um terço o tempo médio da sua duração.
Estar sentado é apenas produtivo para quem faz da escrita o seu modo de vida. E mesmo assim, nem sempre... Quando me iniciei no jornalismo, o meu chefe dizia-me que não queria ver jornalistas sentados na redacção por muito tempo. Queria-nos na rua a farejar a notícia. Nos tempos da Internet, tudo mudou. Alguns jornalistas resumem a sua actividade a pesquisas na Internet e à inefável tarefa do “copy paste” , com alguma alterações de circunstância.
Em todas as áreas de actividade, a reunião é uma instituição precedida de muitos cumprimentos e salamaleques, entrecortada por umas piadas e um “coffee break”. Raras vezes começa à hora e só ocasionalmente tem hora marcada para terminar.
Vivi em vários países onde nada se passa assim. As reuniões são esporádicas, têm um tempo de duração previamente estabelecido, que só em circunstâncias excepcionais é ultrapassado. Servem para reflectir, decidir e passar à acção. Muito raramente se faz mais do que uma reunião para tratar do mesmo assunto.
Em Portugal- como noutros países onde vivi- as reuniões servem essencialmente para adiar decisões para reuniões futuras. Ao fim de três ou quatro reuniões de várias horas acertam-se metade das decisões que estavam agendadas para a primeira reunião. Apesar de tudo, andamos todos muito atarefados e “sem tempo para nos coçarmos”. Comportamo-nos como um carro a derrapar na neve, por não utilizar correias aderentes. Por isso ficamos constantemente aquém dos objectivos que traçamos. É chegada a altura de Portugal deixar de ser um país sentado e se pôr de pé. Em termos de produtividade, evidentemente...

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

O jornalismo de sarjeta explicado aos distraídos (4)

Um diário que resiste a retirar o caso Maddie da sua agenda, lança como tema de capa “o passado amoroso de Kate Mc Cann”. Não havendo novidades, atrai-se os leitores para a vida privada dos protagonistas, recorrendo a uma “investigação”(?) sobre o seu passado amoroso. Não há melhores formas de vender jornais, ou a imaginação é escassa?
Lição 4: Jornalismo de investigação é procurar descobrir novos dados sobre uma notícia, não é tentar denegrir um dos protagonistas, vasculhando o seu passado.

Qual é a tua, ó meo?

Um cidadão vai a um balcão da PT para saber informações acerca do serviço meo. Ao fim de uma hora dizem-lhe que a sua área de residência está coberta pelo serviço e entregam-lhe uma proposta de adesão.
Dias mais tarde, com a proposta devidamente preenchida, o cidadão dirige-se novamente ao balcão da PT. Sai de lá duas horas depois com tudo devidamente tratado e um kit informativo sobre o serviço que acabou de contratar. Vai feliz, porque finalmente vai ter acesso a mais de 40 canais e um conjunto de serviços atraentes,- que inclui Internet grátis por tempo ilimitado e ligações para a rede PT gratuitas- a um preço bastante convidativo. E tudo isto sem fios, nem buracos em casa. O único senão é a instalação demorar entre um e dois meses, mas para quem esperou tantos anos para poder ter estes serviços em casa sem fios, o prazo até não parece exagerado.
Uma semana depois , o cidadão recebe em casa uma carta do meo. Ainda antes de abrir já imagina a “lenga-lenga” do costume. Parabéns pela adesão, reconhecimento pela preferência dada, e pela confiança depositada no serviço , blá, blá, blá e ( secreta esperança) o anúncio de que afinal o serviço será activado mais cedo do que o previsto.
Aberta a carta, surpresa: os agradecimentos vêm lá, mas logo de seguida apresentam as desculpas. Motivo: afinal , o serviço a que o cidadão aderiu não lhe poderá ser instalado em casa, porque a área de residência não está coberta. Ou seja: duas semanas antes, o cidadão fora informado do contrário, dispôs-se a perder mais umas horas para confirmar a adesão e só uma semana depois de o ter feito é que lhe é dito que afinal a sua área de residência não reúne ainda condições para a instalação do serviço.
Das duas uma: ou os funcionários são incompetentes e dão informações erradas aos aderentes, ou então o meo anda a fazer prospecção de mercado à custa de cidadãos incautos. Seja qual for a situação, uma coisa é certa: meo, nunca mais! E prometo, daqui para a frente, fazer publicidade negativa a esse serviço. Se é esta a nova PT que a publicidade anuncia,não quero saber de uma empresa que me trata assim!
Creio que não terei sido a única vítima, pelo que me interrogo: que diria a imprensa se tamanha prova de incompetência e irresponsabilidade fosse dada por um serviço público?

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Dicas de fim de semana

Este fim-de –semana, desculpem lá, mas por falta de tempo isto vai mesmo em termos de Roteiro . Apenas sugestões, sem comentários:
Leituras- O século Chinês – Federico Rampaldi e O português que nos pariu – Angela Dutra Meneses
Filmes- Festa do Cinema francês ( Lisboa, Porto, Évora, Coimbra e Almada)
Artes- CCB ( colecção Berardo)
Lazeres- Noites de Tango do Opera Vila Galé ( Alcântara)

A passo de caracol

É véspera de fim-de-semana prolongado e devia estar bem disposto. Não estou... acordei a lembrar-me que tenho que fazer uma entrevista em Linda-a-Velha ao fim da tarde e temo o pior no regresso, quando tiver que enfrentar a Segunda Circular. Já imagino as filas compactas de camiões mastodônticos a atravancar o trânsito, tornando imprestáveis os radares que proíbem que se circule a mais de 80kms/hora.
Em vésperas de fim-de-semana, Lisboa faz-me lembrar Bombaim. Não só pelo trânsito caótico, mas também pelo inusitado número de camionetas fazendo cargas e descargas perante o ar impávido da polícia. Acrescente-se um número indeterminado de automobilistas parados em segunda fila de “pisca-pisca” ligado e temos o inferninho. A “tolerância zero” prometida por António Costa não durou nem uma semana ( mas disso falarei noutra altura), é o regabofe total nas artérias de Lisboa. As pessoas lamentam-se com falta de dinheiro, mas não dispensam o automóvel para ir comprar uma aspirina , um sabonete ou um molho de bróculos a escassos metros de casa ou do emprego.
Lisboa é - a seguir a Roma e Atenas- a capital mais incivilizada, indisciplinada e caótica de toda a União Europeia. A mim, cidadão auto-mobilizado que utiliza diariamente os transportes públicos e gosta de caminhar, ter que pegar num carro num dia destes faz-me perder anos de vida. Como querem que esteja bem disposto?

Um autarca à moda das ilhas

O Tribunal Administrativo do Porto considerou ferida de ilegalidade a concessão do teatro Rivoli a Filipe La Feria. Rui Rio riu-se e disse que não havia concessão, que La Féria era seu convidado! Conclusão: a decisão do tribunal não tem qualquer efeito prático.
Bem fiz eu em ter deixado o curso de Direito a meio e optar por outra área. Pena que não possa fazer o mesmo em relação a Rui Rio. Talvez o trocasse por João Jardim, que também se marimba para a Justiça, mas tem um sorriso cínico menos irritante...
A Democracia às vezes é uma chatice!

Quem tem medo de Hugo Chavez?

Ao ler o que alguns comentadores escrevem sobre Hugo Chavez, fico com a impressão que o presidente venezuelano é o diabo em pessoa. Depois, leio que a Galp assinou um acordo petrolífero com a Venezuela e que um site venezuelano afirma, sem qualquer rebuço, que “Portugal é um país socialista”.
Aliviado, rio baixinho e pergunto-me: quem tem medo de Hugo Chavez?

O jornalismo de sarjeta explicado aos distraídos (3)

Um árbitro assinala um penalty inexistente a favor do SLB, confessa o erro e os desportivos fazem-lhe grandes elogios e multiplicam-se em justificações.
Um árbitro assinala ( bem) um livre contra o Sporting, no Dragão, escrevem-se milhões de caracteres pondo em causa a decisão e as próprias Leis do futebol.
Um árbitro erra no derby ( só uma vez, não foram duas...) e mantém-se em silêncio. Um treinador faz afirmações pouco abonatórias em relação ao juiz e é visto com compreensão. Pinto da Costa abre a boca e as referências ao “Apito Dourado” multiplicam-se até à exaustão.
Lição 3: Se um desportivo não faz o jornalismo, três desportivos lançam a confusão

Eu gosto é do Verão...

Hoje cheguei a casa um pouco mais cedo do que o habitual. O dia tinha estado soalheiro, mas o fim de tarde tornou-se plúmbeo, ameaçando chuva. Tive que acender a luz da sala antes do jantar. Foi então que me apercebi que o Verão me estava a dizer o último adeus do ano.
É assim todos os anos. Um dia, o Verão obriga-me a regressar a casa mais cedo para se despedir desta maneira triste que me deixa em estado de profunda melancolia. Para me alegrar trauteio aquela música “ eu gosto é do Verão, de passear com a prancha na mão...”,mas o verão já não me ouve. Se o quiser encontrar tenho que o procurar noutras paragens. É o que vou fazer dentro de semanas. Espero que esteja lá à minha espera.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Patroa demite o “inho”,mas arrepende-se...

Uma senhora da socialite portuense, agastada com a frequência com que a empregada doméstica utilizava o diminutivo “inho” disse-lhe por um destes dias:
- Acabe lá com o “inho”, mulher ! Estou farta de a ouvir dizer “é só um minutinho, vou ali fazer um recadinho, o jantar está prontinho”...
- Está bem, minha senhora. Agora posso ir à mercearia?
- Que é que vai lá fazer?
- Vou comprar 100 gramas de touço!

A demissão do Gerúndio

Depois da demissão do coordenador da PJ de Portimão, chegou a vez do Gerúndio. Demissão com pompa e circunstância, diga-se, pois teve direito a Decreto!
O autor da “execução gerúndia” foi o governador de Brasília, alegando razões de falta de produtividade dos seus assessores que sempre respondiam “ estou fazendo, providenciando, estudando, preparando” quando lhes pedia alguma coisa.
Em Portugal, para aumentar a produtividade, optou-se por demitir o aumento dos salários reais. Já lá vão sete anos mas, ao que consta, os resultados não são muito animadores.

Perguntar não ofende...

Encanita-me que num restaurante- e até em alguns hotéis...- me perguntem se quero factura. Não deviam perguntar, deviam apresentá-la e ponto final. Mas em Portugal ninguém pede factura, porque isso de nada lhe serve, excepto correr o risco de ser mal atendido quando lá voltar.
Seria uma boa ideia que o Governo permitisse a inclusão de facturas, até um determinado montante, para efeitos de desconto do IRS. Como não o faz, toda a gente se está marimbando para o assunto. É pena, porque o Estado poderia arrecadar uma boa maquia com a fuga aos impostos que indirectamente avaliza na hotelaria e turismo. Assim, ninguém pede factura nos restaurantes, excepto aqueles que têm que prestar contas às suas empresas. São as únicas que beneficiam desta modorra conformista. A quem é que interessa que assim seja?

O jornalismo de sarjeta explicado aos distraídos (2)

Dois dias depois do derby, o desportivo volta a atacar. Nova foto de primeira página e, no interior, a conversa à sobremesa. Mas a “chamada de capa” é que era o prato forte. A frase de um dos convivas ( LFV, obviamente) “ Sporting e Benfica andam a ser prejudicados em favor de outra equipa” ( o FC Porto, claro...) .
Compreende-se que seja preciso manter viva a chama das vendas, mas não é preciso exagerar, caramba! O FC Porto vai à frente com 7 e 8 pontos de avanço sobre os rivais da Segunda Circular, não rezam as crónicas de um único erro de arbitragem favorável ao Dragão esta temporada ( bem pelo contrário... basta lembrar a Supertaça!) mas não houve melhor ideia naquele desportivo do que pegar numa frase do novo Papa para piscar o olho aos leitores.
Lição nº 2- No jornalismo não chega ser isento. Também é preciso parecer.

Ena, tanto ruído!

Estou a ficar cansado do alarido que vai na blogosfera, na sequência da vitória de Luís Filipe Meneses.Eu, que até me estava a divertir com a reacção das élites laranjas e o papel serôdio do Professor Marcelo, ( não havia necessidade de pôr em causa a sua credibilidade por 163 cms, professor!) já começo a estar farto.
Não se podem calar um bocadinho? Rir demais também cansa!...

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Estarei a sonhar?

Li a notícia do “Público” duas vezes, para ver se não era engano. Não era. O coordenador da PJ de Portimão foi demitido por criticar a actuação da polícia inglesa no caso Mc Cann. Assim se reforçou a aliança luso-britânica, se salvaguardou o Tratado de Methween e o turismo britânico no Algarve.
Abanem-me, digam-me que estou a sonhar, porque eu não acredito que isto possa ser verdade!

O jornalismo de sarjeta explicado aos distraídos (1)

( foto do xafarica.weblog)
No dia do derby - que os escribas do costume resolveram inventar que é o único em Portugal, recorrendo a argumentação possidónia, baseada na etimologia da palavra - um desportivo trazia na capa uma foto dos presidentes dos clubes da Segunda Circular cumprimentando-se e sorrindo para a fotografia. A frase “Isto é fair –play” , que emoldurava a foto dizia tudo.
Pretendia certamente aquele desportivo “de referência” chamar a atenção dos leitores para a excelsa e exemplar união dos dois clubes. Não descobriram melhor maneira do que sentar os dois diante de uns copos de tinto a fazer uns brindes, para mostrar o enlevo com que os protagonistas da Santa Aliança alfacinha se confrontam , numa paz digna de “Deus com os Anjos”.
Só alguns papalvos não terão descortinado que aquela imagem desmentia a essência do derby da Segunda Circular: luta acesa, rivalidade, inexistência de “fair-play”, agressividade, clubismo exacerbado, bairrismo, clubite aguda.
À hora do jogo as coisas tornaram-se mais reais. Estádio com muitas clareiras, ( não há chuva que justifique o alheamento dos adeptos de um derby...), insultos entre as claques, críticas destemperadas ao árbitro. Assim se desmentiu, com a realidade dos factos, que não há desportivo que mate a verdadeira essência de um derby.
Lição nº 1- Jornalismo é realidade, não é ficção!

Destreza e boas maneiras ( conclusão)

Entrou no seu carro a sério e dirigiu-se para a saída, mas ao atravessar uma lomba destinada a travar os ímpetos de alguns aceleras, um prego cravou-se num pneu. Rapidamente a fila de automóveis se avolumou atrás de si, enquanto um diligente funcionário se prontificava para o ajudar.
A impaciência de alguns mais apressados, traduziu-se em buzinadelas e alguns impropérios. Interrogou-se então o que levaria pessoas que tinham permanecido três ou quatro horas dentro do hipermercado sem um mínimo lamento, a manifestar-se tão exaltadas por uma demora que não seria superior a 15 minutos, mas não encontrou resposta adequada...
Quando finalmente recuperou a liberdade decidiu que o melhor era mesmo almoçar fora. Ao entrar no restaurante deu de caras com o sr.Casimiro, dono de uma pequena mercearia do seu bairro, a quem se apressou a contar a história. Solícito, o bom homem apenas respondeu:
-Deixe-me acabar de almoçar que eu já o avio do que precisar na minha loja.- Mas então não está fechado aos domingos? – inquiriu
-Estou, sim senhor, mas para clientes amigos, abro uma excepção! E a sua esposa era uma grande cliente... todos os sábados à tarde ia lá comprar as coisas para a semana, nunca me trocou por um hipermercado...
Frederico não respondeu, mas passou a tarde de domingo a matutar no que faria a mulher ao sábado à tarde, quando lhe dizia que tinha passado a tarde no hipermercado!

Parabéns à ASAE

Parece que está na moda criticar a ASAE. Escasseiam os dias em que não haja um comentador, ou uma notícia, onde se teçam críticas à sua intervenção e ao seu protagonismo.
Estou contra a maré. A ASAE é um organismo público que cumpre integralmente o seu papel e por isso merece ser elogiado.
Há certas críticas que me espantam, por virem de pessoas que estão sempre a criticar a inércia do Estado e a sua incapacidade para fazer cumprir a lei. Criticam a ASAE com argumentos de “excesso de zelo” , “ sede de protagonismo” ou apelidando-a de “polícia de costumes”..
Sinto-me confortado por ver um organismo que cumpre o seu papel. E fico satisfeito quando leio o artigo que o Henrique Botequilha escreveu no último número da “Visão”. Informativo e imparcial.

Destreza e boas maneiras (2)

Cumprida a árdua tarefa das pesagens e selagens, Frederico foi percorrendo as diferentes secções onde se perfilavam, em postura irrepreensível, queijos, iogurtes, enchidos, carnes verdes, pastas, bolachas, carapaus, pescadinhas de rabo na boca e às postas. Distraidamente ia enchendo o carrinho com as mais diversas iguarias. A hora do almoço aproximava-se e o hipermercado estava a abarrotar. À sua volta, as pessoas dividiam-se entre alegres e conformadas. Famílias inteiras comungavam do acto de consumir, sem que descortinasse se o faziam por prazer ou sacrifício. Foi dando mais umas voltas pelos escaparates, na vã esperança de que as filas que se distendiam diante das caixas registadoras diminuíssem, mas depressa compreendeu que a tendência era precisamente a inversa. Com o açafate ( mais que )suficientemente fornecido, dirigiu-se então vagarosamente para uma fila . À sua frente, uma sexagenária dormitava encostada a um carrinho a abarrotar, onde se destacava um saco isotérmico de onde escorria uma baba suspeita.
Reparou que entrara naquele “inferninho” há mais de duas horas e foi nessa altura que descobriu uma das vantagens das grandes superfícies: NÃO FUMARA DESDE QUE LÁ CHEGARA!. Diligente, apontou no seu bloco de notas: “Bom exercício para os potenciais candidatos a não fumadores. Dar o conselho no próximo dia mundial dos não fumadores”.Tinham passado 45 minutos desde que chegara à fila da caixa registadora e avançara apenas escassos centímetros. Foi quando interromperam a música ambiente ( pela enésima vez desde que lá entrara) para dar lugar a uma voz sofrida que clamava insistentemente pela Drª Ana Paula (devia ser coisa urgente, porque agora já diziam a matrícula do carro, a marca e a cor! Veio a saber, dias mais tarde, que se tratava de um truque publicitário de uma jovem advogada, mas isso fica para outra história...), que decidiu desistir. Mas que fazer às pescadinhas de rabo na boca que se começavam a babar, gotejando o chão, só porque na sua forretice de consumidor careta, recusara comprar um saco isotérmico?
Foi então que Frederico teve uma ideia genial: distribuir os produtos que acumulara no carrinho, pelos perseverantes companheiros de fila. Um senhor de meia idade ficou-lhe com os belíssimos enchidos e uma jovem de olhar expectante (seria ela a Ana Paula?) condescendeu, com alguma relutância, é certo, ficar com as pescadinhas de rabo na boca. Despediu-se com amargura do apetitoso queijo da serra que há longos minutos o fazia salivar e, um a um, lá se foi desfazendo de todos os produtos. Apenas não encontrou candidatos para os panos de cozinha que estavam em promoção e pensava que fariam as delícias da sua empregada doméstica, nem para a pasta dentífrica que prometia devolver aos seus dentes a brancura dos tempos de criança. À passagem de um funcionário depositou-lhe nas mãos aqueles ex-pertences e escapuliu-se para a saída, deixando-o com ar atónito entre couves lombardas e latas de atum em promoção.
Aliviado, desaguou novamente no amplo espaço onde centenas de pessoas se continuavam a cruzar carregando nos seus carrinhos, como formiguinhas diligentes, os produtos essenciais e supérfluos que foram recolhendo e que meia dúzia de engarrafamentos depois iriam armazenar nas suas arcas congeladoras.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Destreza e boas maneiras

Frederico, celibatário à força desde o momento em que a mulher o abandonou, viu-se um destes últimos sábados a desaguar numa vasta superfície onde, em bailados alucinantes, centenas de pessoas se cruzavam evitando o choque das viaturas para cuja condução não deveriam estar devidamente habilitadas. Esgueirou-se a custo, evitando o choque, e dirigiu-se, convicto, a duas portas que ostentavam o sinal de sentido obrigatório e lhe franquearam a entrada assim que o avistaram.
Por entre música ambiente, começou então a vislumbrar vídeogravadores, máquinas de lavar, frigoríficos, ferramentas, vestuário do mais variado e uma parafernália de produtos que o fizeram pensar ter entrado no sítio errado. No meio da confusão, foi abalroado pela esquerda por um carrinho a abarrotar de produtos alimentares, por entre os quais emergia uma criancinha aos gritos, reclamando aos pais a oferta do namorado da Barbie. A breve distracção foi-lhe fatal, pois embateu estrondosamente com um jogo de xadrez , do qual saltou um rei em xeque-mate clamando justiça contra o energúmeno que o destituíra da coroa. O energúmeno, claro, era ele!
Recuperou a custo a calma e dirigiu-se para uma banca que vislumbrou ao longe, onde se acomodavam frutas e legumes. Foi colhendo alguns exemplares que lhe pareceram em bom estado e depositou-os no açafate com carinho. Foi então que detectou um ajuntamento de pessoas dispostas em quatro filas orientadas para um centro comum, onde se encontrava uma balança, na qual as pessoas iam pesando os produtos. Da boca do aparelho viu sair pedaços de papel que as pessoas colavam nos sacos onde previamente haviam acomodado as frutas e legumes. Num impulso mimético , foi também depositando em sacos as diferentes espécies e, concluída a operação, alinhou-se no fim da fila que lhe pareceu mais curta. Para não fazer má figura quando chegasse a sua vez, foi observando as operações que as pessoas que o precediam efectuavam, mas foi surpreendido por um burburinho que estalou 90º a leste da sua fila. Rapidamente se apercebeu que a causa do tumulto era um indivíduo alto e magro que se aproveitara da distracção de um dos clientes, para assaltar a balança electrónica onde pretendia pesar as bananas que esgrimia, de braço ao alto, em postura heróica. O aparecimento de uma senhora gorda, com olhar triste de elefante de jardim zoológico, mas destreza de um golfinho, pôs fim à questiúncula e o “chico –esperto” ( nome que a turba em polvorosa rapidamente lhe atribuiu por unanimidade e aclamação) lá foi, envergonhado, para o fim de uma das filas que se formara em torno de uma outra balança mais distante.

A revolta de Zequinha

Zequinha é um miúdo de 20 anos que joga futebol e, no último Mundial da categoria, teve a atitude bizarra de tirar um cartão vermelho das mãos de um árbitro, quando percebeu que o juíz o ia mostrar a um colega de equipa.
A imprensa desportiva caiu-lhe em cima como gato a bofe, a alguns só faltou pedir a sua irradiação, a FIFA aplicou-lhe 6 jogos de suspensão e a FPF não fez a coisa por menos e aplicou-lhe um ano.
Dois meses depois o país inteiro assistiu à cena caricata da agressão de Scolari a um jogador sérvio, que o seleccionador entendeu ser em legítima defesa de um pupilo, mas que quem como eu esteve no estádio e se pode observar nas imagens, percebeu facilmente que se Scolari saiu em defesa de algum jogador, deveria ser um fantasma. Quaresma estava a uns bons 20 metros do sérvio e só aparece junto dele e do seleccionador para ajudar a apaziguar os ânimos.
É conhecido de todos o desenvolvimento do caso e as patéticas declarações de Gilberto Madail.
Tudo somado, Zequinha está inconsolável e quer ver a sua pena reduzida. Afirma, com razão, que a atitude do seleccionador é mais grave do que a dele, que não bateu em ninguém e teve uma reacção de puto. Além disso, acrescenta, o seleccionador deve ser o primeiro a ter um cumprimento impoluto
Zequinha não vai ter sorte na sua pretensão. No mínimo está a ser ingénuo, ou então não sabe em que país vive. Eu explico-te, moço!
Vives em Portugal, onde atitudes tão reprováveis como as de Scolari, desde que praticadas por gente com responsabilidades de comando, são sempre justificadas pelos seus pares que procuram branquear quaisquer situações canalhas.
Em Portugal( ainda tens muito a aprender, miúdo!) os líderes são sempre gente exemplar cujos comportamentos devem ser seguidos pelos jovens e quando metem a pata na poça são sempre desculpados, nem que seja preciso recorrer ao “ interesse nacional”.
Tens razão, Zequinha, mas ela de pouco te vai valer. As práticas de encobrimento de quem tem poder, seja em que área de actividade for , são um lugar comum. Herdámos esta entropia do Estado Novo e só os jovens da tua geração poderão ajudar a extirpá-la da sociedade portuguesa. Mas não acredites que vai ser fácil... em cada tentativa de lavagem de mentalidades que procures levar a cabo, vais encontrar um aliado e dez tipos prontos a apunhalar-te pelas costas. Por cada chefe que ponhas em causa, 50 se levantarão em sua defesa e tudo farão para te destruir.
Desilude-te! Acalma-te, encosta-te a quem deves em vez de te encostar aos árbitros e verás que tudo correrá bem. E já agora, vê se ganhas juízo!



Fazer Arte a partir dos desperdícios

Até dia 5 de Outubro pode ver na Estufa Fria, em Lisboa, uma exposição original. Remade in Portugal é uma exposição de Eco-Design, constituída por cerca de uma centena de objectos,criados por alguns autores conceituados, a partir de resíduos e materiais reciclados. Lamas, fibras de pneus , gesso, vidro, cortiça ou simplesmente papel reciclado, são alguns dos materiais utilizados para a criação de objectos que muitos não desdenhariam ter em suas casas. Mas a peça que me chamou mais a atenção foi um “centro de mesa” criado por Siza Vieira. Não tanto pelo “design”, mais pelo material utilizado: pó de prata recolhido do ar ambiente numa fábrica.
Ao contrário das já célebres exposições de Barbara Lessing ( cujas esculturas com materiais das “Lojas dos Trezentos” são autênticas alfinetadas na sociedade plastificada de consumo e um líbelo acusatório ao consumismo e ao desperdício), Remade in Portugal procura sensibilizar os consumidores para a forma como podemos reintegrar no nosso espaço de vivências os produtos de que diariamente nos desfazemos.
A partir de 19 de Outubro, a exposição estará na Casa de Serralves, no Porto.