sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Eles não ganham juízo!

Os gémeos Kaczynski, que dirigem a seu bel prazer os destinos da Polónia, continuam a mostrar à saciedade que a única coisa que pretendem da Europa é o dinheiro que lhes entra nos cofres de mão beijada. A última decisão "parola" do clã, foi votar contra a decisão do Conselho da Europa que proclamou o dia 10 de Outubro como "Dia contra a pena de morte".
Este país ultracatólico, defensor exacerbado da "pureza moral", onde uma estação de rádio ( sugestivamente chamada Radio Maria) faz a apologia do regime e dos "bons costumes" apelando à perseguição dos homossexuais e dos ex-comunistas, está deslocado do contexto europeu e dá razão àqueles que defendem uma “Europa a duas velocidades”.
Há uma diferença gritante entre “os Quinze” e a maioria dos 12 últimos Estados a aderir à União Europeia. Recorrendo a um plebeísmo, diria mesmo que a maioria não cumpria os “critérios mínimos” para a adesão, ou seja, se a admissão à UE fosse feita pelos parâmetros de exigência dos Jogos Olímpicos, muitos dos 12 países não tinham sido admitidos. Sabemos que a admissão em pacote dos países do Leste Europeu assentou numa estratégia política, resta saber se a Europa vai ganhar ou perder com isso. Não só em coesão, mas também no cumprimento dos objectivos para 2010 ( “tornar-se o espaço económico omais competitivo do mundo”).
Não são apenas as práticas políticas que fazem da Polónia um país descontextualizado do espaço europeu. É também o desemprego a rondar os 30%, o atraso estrutural, a aversão aos princípios democráticos e um povo desinteressado pelo seu futuro ( nas últimas eleições, a abstenção atingiu os 62%!) que não se revê na Europa.
A coroar tudo isto, um par de gémeos "jarretas" cujas práticas fazem inveja a Hugo Chavez.
Gostaria é que alguém me explicasse porque é que se critica tanto o presidente venezuelano e existe um silêncio cúmplice quando se fala da Polónia e dos irmãos Kaca... qualquer coisa!

Um bom momento de televisão

Esta noite, o Telejornal da RTP 1 foi um bom momento de televisão. Em directo do vulcão dos Capelinhos que entrou em erupção há 50 anos, a RTP mostrou-nos imagens da época enttecortadas de outras actuais.
Ficou mais uma vez provado que é possível fazer bom jornalismo com sobriedade e sem "maneirismos" e, ao mesmo tempo, cumprir a função de serviço publico. Obrigado, RTP

Um guia para o fim de semana

Se não sabe o que fazer este fim – de –semana, também não sou eu quem lhe vai dar mais conselhos. Estou virado para a bola e para o Kubo e só na próxima semana voltarei a dar os conselhos variados a que alguns leitores se habituaram quando estava alojado no AlemdoBojador .
Assim, para este fim-de-semana aconselho-vos a leitura da nova revista “Time Out” . Sai à quarta feira, custa dois euros, e inclui toda a informação sobre o que Lisboa oferece em termos de cultura e de lazer.

Quando vivia em Londres, não prescindia da “Time Out” para estar informado sobre tudo o que se passava na cidade. Espero tornar-me também um leitor habitual da “Time Out Lisboa”.

Adeus elevado ao Cubo

Durante o Verão, o Kubo tornou-se num dos locais mais aprazíveis das noites lisboetas O espaço à beira rio concebido e explorado pelo clã familiar de João Rocha justificou plenamente– apesar dos preços especulativos a que já me habituei na noite lisboeta – algumas visitas. Em noites quentes, com a Lua a reflectir a sua luz nas águas calmas do Tejo, os lisboetas não desperdiçaram a oportunidade de comungarem uma parte da noite com o seu rio, num espaço onde o bom gosto se alia à simplicidade. Muitas caras conhecidas, hordas de jovens em estágio exploratório antes de partirem para as discotecas e os “voyeurs” do costume.
Neste fim-de-semana o Kubo encerra as suas portas, não se sabe até quando. É uma perda de monta e talvez demasiado temperana, pois adivinham-se em Outubro mais algumas noites aprazíveis em que vai apetecer estar ao ar livre a comungar a noite com o rio. Se ainda não foram ao Kubo, não percam esta última oportunidade.
Para outra sugestões de fim de semana, leiam o post seguinte...

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Esmeralda à espera do futuro

Não é a primeira vez que o texto de um acórdão se revela como um oráculo de interpretação dúbia, colocando os litigantes em “palpos de aranha” para fazer a sua interpretação que, não raras vezes, parece ser contraditória.
É o que se passa no caso da pequena Esmeralda. Nenhuma das partes parece perceber quando é que a pequena deve ser entregue à custódia do pai biológico, nem mesmo se essa medida deverá ser aplicada.
Se em casos normais as decisões- oráculo são desaconselháveis, mais grave se torna quando em jogo está o futuro de uma criança. Proponho, por isso, que nos critérios de avaliação dos juízes, se acrescente um item para a clareza da redacção dos acórdãos.
À Justiça, não chega ser justa. É necessário que seja também clara e inequívoca!

Assim está bem!

Isto de estar nos primeiros lugares europeus em termos de desempenho no e-government, nas oportunidades de negócio e outras áreas de relevante importância no contexto global, andava-me a cheirar a esturro. São muitos primeiros lugares relacionados com o mérito , algo a que não estamos habituados....
Hoje, uma notícia vem pôr as coisas no seu devido lugar: aumentou a corrupção em Portugal, mas apesar de todos os esforços que temos feito ainda ocupamos um modestíssimo 28º lugar ( ano passado estávamos no 26º posto) num universo de 180 países. Para subir uns lugares na tabela teremos que copiar o exemplo da Finlândia ( tão grado nos tempos que correm) que ocupa a liderança. Não vai ser fácil... Talvez para o ano já não ocupemos um lugar no "Top-thirty". Somos muito hábeis no top dirty!

Mas não é possível!

A insanidade chegou à Sic- Notícias. Não há critério jornalístico que justifique interromper uma entrevista para dar umas imagens pindéricas da chegada de Mourinho a Lisboa.
Nunca esperei vir um dia a escrever isto, mas a verdade é que Santana Lopes subiu na minha consideração, enquanto o meu apreço pela Sic-Notícias desceu em flecha.
São atitudes deste jaez que dão origem a tiradas ministeriais do género “jornalismo de sarjeta”. E são atitudes como esta que justificam a necessidade de promover a auto-regulação. Não sei, nem me interessa, se a ERC vai tomar alguma posição, pois isso pouco importa. O que me parece urgente, é que os jornalistas párem um pouco para reflectir sobre o assunto e encontrem uma solução, credível e capaz, que acabe com tanto comportamento néscio...

Tratar da saúde em Cuba

O Presidente da Câmara Municipal de Vila Real de Stº António, agastado com a demora na prestação de tratamentos oftalmológicos aos seus munícipes, decidiu celebrar um protocolo com Cuba para – a troco de 50 mil euros anuais a aplicar em obras de reconstrução no País- os doentes serem tratados e operados em Cuba.
Não falta quem aplauda e quem critique a iniciativa , mas creio que muitas das críticas são ciumeira do PC e do PS que já presidiram a autarquia e não se lembraram da ideia.
Não deixa de ser bizarro que tenha sido um autarca eleito por um partido que não perde qualquer oportunidade para desancar no regime de Fidel (PSD) a tomar esta decisão.
Cuba é, desde há uns anos, um dos destinos de férias privilegiados pelos portugueses que normalmente vêm de lá “impressionados com a miséria” e muito “agastados com o regime político”.
Se já se riram tudo, continuem a ler...
Por muito mal que se diga de Cuba, é imperioso reconhecer que está avançadíssima em relação a nós, na área da Saúde . O apoio de Cuba a países terceiros, nesta área, tornou-se vulgar, mas que eu saiba não haverá outros países do Clube dos Ricos ( no qual grotescamente nos incluímos, apesar das permanentes ameaças de podermos descer de divisão) a recorrerem oficialmente aos serviços de saúde cubanos. Pessoalmente, saúdo a iniciativa do Presidente de VRSA.
Dizem-me que o Ministro Correia de Campos criticou a decisão e aproveitou para dar mais umas bicadas nos médicos. Se é verdade, lamento... pois se vivesse no Algarve e tivesse problemas de saúde que tardavam em ser resolvidos cá, muito grato ficaria ao autarca que teve esta ideia. É que, apesar dos impostos que pagamos, dos descontos que fazemos, etc,etc, etc,... continuamos a estar mal servidos na área da saúde. A culpa não pode ser assacada exclusivamente ao Governo ( talvez seja mesmo quem, no meio de toda a embrulhada que é o negócio da saúde, tenha menos responsabilidades), mas como todos temos direito a ser devidamente assistidos quando a doença nos bate à porta e é ao Governo que pagamos os impostos, é natural que lhe peçamos responsabilidades.

Uff, que alívio!

Acabou finalmente o mundial de rugby. Durante alguns dias, aquilo a que se chama imprensa desportiva continuará a debitar loas aos extraordinários feitos de uma selecção que acumulou derrotas copiosas, “mas saiu de cabeça erguida” . Não faltará quem continue a escrever que “com um bocadinho de sorte” poderíamos ter ganho à Itália ( com quem perdemos por 31-5 , o que em futebol corresponde mais ou menos a uma derrota por 6-1) e à Roménia. Continuarão alguns escribas, com a habitual isenção e imparcialidade a que estamos habituados na imprensa desportiva, a afirmar que Portugal saiu dignificado e que a maneira ( alarve, digo eu) como entoaram o hino antes de cada jogo, deveria servir de exemplo aos praticantes que nos representam lá fora noutras modalidades.
A maioria dos comentadores e jornalistas desportivos ( há honrosas excepções como Vítor Serpa) não só parece ter regressado aos tempos de prosa do Estado Novo, como é incapaz de respeitar a inteligência dos leitores, tal é a sua ânsia de “vender” a gesta patriótica da selecção de rugby. É verdade que Portugal foi a única selecção amadora que alguma vez conseguiu apurar-se para a fase final de um mundial. Isso, sim, merece os maiores encómios e elogios, mas transformar o óbvio (derrotas copiosas perante algumas das selecções mais poderosas do mundo) em glorificação é, no mínimo, ridículo!
Não percebo – gostaria que alguém me explicasse- a razão de tanto empolamento em volta da selecção de rugby, um desporto praticado por meia dúzia de famílias e com pouca popularidade entre nós, principalmente quando comparo com o que fez a selecção de basquetebol que há 50 anos não se apurava para um Europeu e ficou num meritório 9º lugar , a um “cesto” de se apurar para os oitavos de final. São mistérios que só as peculiares características da imprensa desportiva em Portugal poderão explicar.
Razão tem José Mourinho, quando diz que quer ir trabalhar para um país onde a imprensa tenha sal e pimenta. Por cá, pimenta na língua e uma boa dose de decoro é o que continua a faltar a muita gente que por lá escreve.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Porquê 7 Gabriela?


Gabrielle Pauli ( na foto) é uma política alemã que ousou propôr a revisão dos contratos de casamento ao fim de sete anos e que estes se considerem caducados caso os intervenientes não manifestem interesse na sua renovação. Embora isto se passe na Alemanha, um país de ideias avançadas, não faltou quem, de imediato, a aconselhasse a consultar um psiquiatra. Estes alemães, quando se trata de tocar nas instituições não têm "fair play" e reagem logo com medidas drásticas, na tentativa de cortar o mal pela raiz...
Devo dizer que, para além de considerar inexequível esta medida em Portugal,não estou de acordo com a proposta, mas por razões diferentes.
Porquê 7 anos? Os contratos de garantia dos produtos não vão além de dois. A garantia de uma casa com defeitos de construção, não ultrapassa os 10. Nos serviços ( onde julgo que o contrato de casamento se deve inserir, dadas as suas características e objectivos) os contratos renovam-se anualmente. Então porquê 7? Por ser um número mítico? Está bem, mas o 3 ainda encerra mais exoterismo e é um prazo que eu considero pouco razoável para a duração de um contrato de casamento. Os contratos são para se rasgar como no futebol! Quando um jogador se liga contratualmente a um clube, jurando amor e fidelidade por 4 anos, quer isso dizer que vai manter o contrato por esse período? Claro que não... basta um clube vizinho oferecer mais dinheiro e uma indemnização e logo o jogador se transfere, afirmando que o novo clube sempre foi o amor da sua vida. Quanto melhor for o jogador, mais amores tem e mais juras de fidelidade quebra, aumentando o seu pecúlio e o do clube de quem se desliga.
Não vejo por isso qualquer inconveniente em que se apliquem as mesmas regras aos contratos de casamento!
Além do mais, não vejo qualquer justificação para termos em Portugal essa preocupação de respeitar contratos. Veja-se, por exemplo, o caso dos funcionários públicos... Assinaram um contrato com o Estado em que se comprometiam a trabalhar durante 36 anos e, ao fim desse tempo, poderiam ir para casa e receber uma reforma. O actual governo considerou que havia cláusulas que não podia respeitar e, como qualquer bom patrão, disse “ aqui mando eu, e os funcionários públicos ficam a trabalhar enquanto eu quiser e não há mais conversas”. É claro que havia alguns funcionários que estavam a um ou dois anos de cumprir o contrato e ficaram a chuchar no dedo, mas a verdade é que toda a gente achou muito bem e aplaudiu a decisão, porque considerou que um dos consortes ( o funcionário público) é um canastrão e por isso deve ficar sujeito às regras que lhe são impostas pelo outro, que é sempre considerado como “pessoa de bem”. Não sei bem o que isto significa, mas penso que deve querer dizer que se o Estado obrigar os funcionários públicos a trabalhar até à morte , como no tempo das galés, tem toda a legitimidade em fazê-lo.
Tudo isto para dizer que, sendo Portugal um país com características peculiares, onde os batoteiros abundam, o contrato de casamento tem que se adaptar a essas características.
Creio que a proposta mais justa e adequada deve apontar no sentido de o contrato de casamento ser vitalício, mas com uma “nuance”. O homem poderá a qualquer momento rescindir o contrato, caso a mulher deixe de lhe agradar por razões que não estará obrigado a especificar. A mulher pode igualmente rescindir o contrato a qualquer momento, desde que o marido autorize e esteja de acordo. À guisa de exemplo, é uma espécie de contrato como o que os comuns dos mortais fazem com os bancos e as seguradoras ...
Sete anos de contrato de casamento? Francamente, isso só poderia ter saído mesmo da cabeça de uma alemã a precisar de tratamento psiquiátrico!

terça-feira, 25 de setembro de 2007

A origem das grandes superfícies


Os indígenas da Melanésia sentiam-se maravilhados com os aviões que passavam no céu, mas desolados porque só os brancos os conseguiam apanhar. Tendo chegado à conclusão que isso se devia ao facto de os brancos possuírem no solo objectos idênticos àqueles que cruzavam os céus, os indígenas construíram simulacros de avião com ramos e lianas, delimitaram um espaço que iluminavam durante a noite e, pacientemente, aguardavam que os aviões ali viessem cair.
Não consta que a prática tenha dado grandes resultados, ignorando-se se por inépcia dos indígenas, se por esperteza de quem tripulava os aviões. A verdade, porém, é que as grandes cadeias de supermercados e megastores parecem ter sabido aproveitar o exemplo dos melanésios e (talvez por terem conseguido aperfeiçoar as camuflagens e os métodos de sedução, mas também porque os consumidores se revelaram mais incautos que os tripulantes dos aviões) conseguem atrair diariamente aos grandes espaços coloridos dos hipermercados e centros comerciais, milhares de consumidores a quem vendem a mais variada gama de produtos inúteis e superfluos, por vezes acoplados a sonhos de automóveis sorteados em concursos de ocasião ou férias em ilhas paradisíacas.
É certo que muitos consumidores vão a estes grandes acampamentos “só para ver". Algumas cotoveladas e muitos atropelos depois, porém, saem de lá com os carrinhos a abarrotar e, pela mão, a bicicleta ou o brinquedo de ocasião que o rebento mais novo- ainda enxugando com as costas da mão uma última lágrima -reclamou com choros e gritos vigorosos.

Onde pára este homem?

Joe Berardo foi uma das figuras mais mediáticas do último Verão. Durante dois meses, apareceu quase diariamente a falar para as rádios e televisões, foi capa de revistas e era interrogado sobre tudo. Insultou Mega Ferreira, Rui Costa e Jardim Gonçalves e não há hoje, em Portugal, cão nem gato que não tenha ouvido falar daquela histriónica figura.
Parecia que , num repente, se tornara um autêntico oráculo capaz de dar respostas cifradas a todas as questões que durante a “silly seasno” atormentaram os portugueses. Ou quase todas, porque nunca lhe ouvi uma palavra sobre Maddie...
Mas este homem que construiu uma boa parte da sua fortuna a “apostar” na bolsa, de repente perdeu três apostas em jogadas de risco.
Quis comprar o Benfica e os sócios disseram-lhe não; quis despedir Rui Costa e este respondeu-lhe com exibições de luxo, mostrando que está ali para a s curvas e ainda tem muito a dar ao futebol; apostou em Paulo Teixeira Pinto no caso BCP e Jardim Gonçalves emergiu novamente como o grande patrão do Banco.
De repente, tal como aparecera vindo de parte nenhuma , escafedeu-se e desapareceu de cena sem deixar rasto.
A pergunta é simples: foram as derrotas que sofreu que deixaram de despertar o interesse da comunicação social, ou foi a consciência pessoal de que a demasiada exposição pessoal terá contribuído para os desaires que o levaram a sair de cena voluntariamente?
Talvez tenha sido um misto das duas coisas, mas neste momento Joe Berardo já terá compreendido que utilizar a comunicação social para fazer passar as suas mensagens, de forma a influenciar os acontecimentos, não terá sido uma boa ideia. Apostou no ruído mediático, quando a melhor opção talvez tivesse sido apostar num silêncio controlado. Perdeu....

Milícias atacam na Ericeira

(cenário: três da tarde de um sábado, num restaurante à beira-mar na Ericeira)

Quando entrei, a “minha” mesa estava ocupada por um casal. Ao fundo, uma longa mesa de comensais ocupava a sala em toda a sua extensão. Era um daqueles grupos que, pela forma como se dispunham, não colocavam dúvidas em relação à sua actividade profissional. Elas, acantonadas numa ponta tomando conta de uma prole ruidosa, conversavam em tom perfeitamente audível sobre fraldas, biberões, infantários e centros comerciais. Eles, cabelo cortado nos preceitos regulamentares, alinhavam-se frente a frente, separados por garrafas de cerveja em quantidade suficiente para satisfazer um Regimento. A contra gosto escolhi uma mesa no meio da sala, de onde apesar de tudopodia desfrutar a vista do mar , pois dada a hora tardia não havia mais nenhuma mesa ocupada.
Tinha acabado de saber que não podia tomar café, porque tinha faltado a água, quando vejo um corpulento “cabeça regulamentar” abeirar-se da senhora e dizer:
-“Desculpe se a respiração do meu bébé a está a incomodar!”Olhei na direcção da janela e vi que a mulher, que ainda tivera a sorte de poder tomar café, completava a refeição tirando umas fumaças. Incomodada com a abordagem, retorquiu:
- “Não acha que há maneiras mais educadas de pedir para não fumar?”
O aspirante a cavalheiro prosseguiu:
- “ É assim que costumo falar com quem não se sabe comportar num restaurante...”- “ E por acaso não lhe ocorreu que o barulho das suas crianças também me pode incomodar?”
- “ Não me diga que eu é que estou a mais! Por acaso até cheguei primeiro e não esperava encontrar aqui selvagens que não se sabem comportar num restaurante... ”- “ Então tem bom remédio. A porta é por ali!”
Valentão, o macho esboçou um gesto de agredir a mulher, deixando que um forte odor a cavalo, mesclado de Lavanda, invadisse a sala. Suspendeu a viagem quando o homem, de cabelos brancos, se levantou e mostrou o seu corpanzil de um metro e noventa. Por momentos julguei que o caldo se ia entornar. Felizmente enganei-me, pois o homem limitou-se a dizer:
- “ O que a minha mulher quis dizer, é que há uma esplanada lá fora, neste restaurante não é proibido fumar e se o senhor se sente incomodado e não sabe falar educadamente, pode ir lá para fora. Percebeu, ou quer uma aula prática?”O valentão baixou a guarda, agarrado pela mulher, que pegando-lhe no braço lhe disse com ar delicodoce a lembrar o Calor da Noite”:
- “ Deixa lá, querido! São um casal estéril, coitados, e não gostam de crianças ... vamo-nos sentar”
A frase assassina saiu num tom de Carolina Salgado em fase de reciclagem. Mas a “madame” não a aprendeu em nenhum bar de alterne, mas sim numa daquelas sessões promovidas por milícias antitabágicas que ensinam frases como esta ou a que abriu a altercação, para aplicar em situações em que o tabaco os esteja a incomodar.
Eu próprio, quando decidi deixar de ser fumador, cheguei a frequentar algumas sessões destes “ayatollas”. Os líderes espirituais das milícias ani-tabágicas compraziam-se a debitar um conjunto de frases que denominavam como “desarmantes” , aplicáveis em diferentes situações, que eram recebidas com enorme gáudio por exércitos de seguidores embasbacados com tanta prosápia.
Quando a calma regressou ao restaurante saí , tentando fingir que acreditava que aquele grupo de provocadores afinal era apenas um bando de mercenários inaptos para qualquer outra actividade, que não seja a de agredir o próximo. Com a sua verborreia de caserna, conseguiram pelo menos estragar uma bela tarde de sol à beira mar.
Belo saldo para um dia de folga, estarão esta hora a pensar, aquartelados nos seus bordéis de ódio e intolerância que lhes garante o pão de cada dia.









segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Quem conta um conto...( crónicas do meu bairro)


Hoje, pela manhã, cumpri o ritual de domingo com algumas horas de avanço. Levantei-me cedo. Como habitualmente, quando passo o fim de semana em Lisboa, fui comprar os jornais do dia, mas surpreendi-me com o aparato pouco comum num bairro tradicionalmente pacato. Duas carrinhas da polícia de intervenção pejadas de agentes, aguçaram-me a curiosidade. Perguntei ao dono do quiosque o que se passava:
-“ Dizem que andam à procura dos tipos que assaltaram o ferro velho”
(Sim, leitores, para minha desgraça, tenho varanda virada para a sucata. Algo inexplicável numa zona de Lisboa onde, ainda há meia dúzia de anos, via as ovelhas a pastar e podia comprar legumes frescos, arrancados da terra no momento, a um lavrador que ousava resistir. Agora, o meu horizonte restringe-se a um ferro velho e dezenas de prédios em construção, que a breve prazo ameaçam invadir a minha privacidade).
Voltemos à história, ouvindo o resto da narrativa . Acrescentou o sr. Abílio que lhe tinham contado pormenores do assalto:
- “ Parece que não roubaram nada do ferro velho, mas cortaram uma perna com uma serra ao guarda...”
Saí arrepiado com a narrativa e fui até ao café. Fiz a mesma pergunta ao proprietário. A narrativa sr Alberto foi ainda mais arrepiante. Que sim senhor, que tinham cortado a perna ao homem, que tinha uma barra de platina.
- “ Veja lá o que estes malandros fazem pelo dinheiro. Ouvi dizer- mas nem acredito- que também lhe tiraram um rim!”
Lidos os títulos dos jornais e tomada a bica, fui passear para o jardim. Encontrei um vizinho que manifestava idêntica surpresa com o aparato policial. Contei-lhe o que ouvira na tabacaria e no café e ouvi a sua versão:
- “Ah sim? Olhe, fui ali à mercearia e o sr Alcides ( é verdade, caros leitores, no meu bairro os proprietários dos estabelecimentos mais populares têm todos nomes começados por A. Podem crer que não é ficção, é mesmo verdade!) contou-me que o assalto tinha sido num ferro velho da Charneca! Por acaso o guarda de lá até parece que é irmão deste daqui! Mas o que ele me disse é que o homem fez frente aos ladrões e deram-lhe um tiro numa perna. Parce que a perna lhe foi cortada, mas foi no Hospital!”
Bom, apesar de tudo, esta era uma versão mais “soft”. Despedi-me confortado, continuei o meu passeio e acabei por me sentar à sombra de uma árvore acolhedora, para continuar as minhas leituras. Ao fim de algum tempo alguns polícias entram discretamente no jardim. Aguardei algum tempo, a ver o que se sucedia, mas os polícias depois de se deterem junto a uns recipientes de lixo deram meia volta e foram-se embora.
Regressei a casa. No elevador encontrei um outro vizinho. Satisfeito por ter alguma coisa para dizer que extravasasse o âmbito metereológico que sempre serve de desbloqueador de conversas nos elevadores, perguntei-lhe se sabia as razões de tanto aparato policial.
-“ Parece que andam à procura de uma miúda de 14 ou 15 anos que desapareceu ontem à noite de casa. Saiu com uns amigos para irem até à esplanada, a miúda levantou-se para ir à casa de banho e nunca mais apareceu!”.
Surpreendido com esta nova versão dos acontecimentos, contei-lhe as versões que ouvira ao longo da manhã.
-“ Nada disso! Essa história foi na semana passada, ali na Musgueira. O homem saiu ontem do Hospital numa cadeira de rodas. Imagine o que lhe havia de acontecer! A atravessar a estrada e é atropelado por um carro de uns ladrõezecos que tinham acabado de assaltar umas casas ali na Alta de Lisboa. E eram tudo miúdos, meu amigo! Acho que o mais velho tinha 18 anos...”

Uma jornalista na Loja do Cidadão

( Cenário: Loja do Cidadão dos Restauradores)

Enquanto preencho os impressos para a renovação do Bilhete de Identidade, um senhor aparentando os seus 60 anos aproxima-se. Ouço-o dizer a uma jovem que o acompanha:
- Sim senhor! Esta gente aqui é impecável. Atenciosos e eficazes..- Eu não lhe dizia, papá!
- É verdade, é verdade! Às vezes as pessoas criticam só pelo prazer de dizer mal do Estado. Mas a culpa também é dos jornalistas, sabes, filha! A gente lê e acredita.E virando-se para outro que acabara de preencher os impressos:
- O senhor não acha?
- O quê? Que os serviços das lojas do Cidadão são bons? Claro que concordo... Principalmente quando os comparo com o atendimento num banco.
- O senhor tem razões de queixa?
- Nem queira saber, meu amigo. Nos bancos são todos uns trafulhas e ainda por cima nos atendem com duas pedras na mão. Olhe que eu deposito todos os meses o meu vencimento no banco e eles só me disponibilizam o dinheiro ao fim de 3 dias, apesar de haver uma Lei do Governo que manda que o depósito seja feito no dia seguinte. Já viu o que eles ganham em juros todos os meses?
- Estás a ouvir isto, filha, estás a ouvir isto?
- Tá bem, papá...Vamos embora?
- E nas seguradoras? O meu filho, bateram-lhe no carro tão forte, que ficou sem poder andar e ele, como tem um seguro que inclui carro de substituição ,foi à companhia de seguros pedir um carro para andar, que coitado precisa muito do carro para a vida dele. Nem imagina o que lhe disseram! Que se estava a aproveitar da situação e não sei que mais... só sei que o acidente foi a meio da semana passada e hoje ainda não tem carro. Vamos a ver se lhe dão um na segunda-feira, mas já lhe disseram que não vão pagar os táxis em que ele tem andado. Sabe o que é que lhe disseram? Que podia muito bem andar de transportes públicos! Como se ele estivesse a pedir mais do que aquilo a que tem direito!
- Estás a ouvir isto, minha filha? Vocês lá no jornal deviam escrever sobre estas coisas, não é só pôr lá doutores a escrever que a gente às vezes nem percebe nada do que eles falam... Não percebo o que é que vocês jornalistas andam lá a fazer! Deve ser só Internet, só Internet, a ver o que escrevem uns dos outros
- Vá, vamos mas é embora, papá, que está a fazer-se tarde!

O preço das notícias grátis

Um destes dias, um dos matutinos grátis, à falta de uma sobrecapa publicitária, colocou na primeira página uma fotografia da Terra, com o título “ Vitória sobre o buraco de ozono inspira especialistas” . Nas páginas interiores, percebe-se que é uma chamada de atenção para uma notícia que o “SOL” iria publicar no dia seguinte. Até aqui, nada demais. O que preocupa é o tom triunfalista com que se chamava a atenção dos leitores para o facto de o buraco de ozono ter parado de aumentar.
Para além de a notícia estar mal elaborada, ser confusa, conferir aos EUA um papel importante nessa “vitória” que obviamente não teve, dá aos leitores uma ideia errada da realidade. Não há grandes motivos para festejos, pois embora o buraco de ozono tenha parado de aumentar, há muito a fazer não só na área da produção, como também a nível de comportamentos dos consumidores. Se entre os responsáveis do Metro houvesse alguém familiarizado com as questões ambientais, o jornal não publicaria uma notícia com este pernicioso triunfalismo.
Enfim, é o preço a pagar pelas notícias grátis...

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Geração i-phod

Muito antes de começar a ser comercializado, já o i-phone andava nas bocas do mundo. Onze mil artigos foram escritos e 69 milhões de buscas foram efectuadas no Google, antes de o ícone que serve de guia à geração i-phone se dar a conhecer ao público.
Passados uns meses, já se fala na geração i-phod. Caracteriza-se por não decidir nada sem antes recorrer ao astrólogo, ao cartomante, ao quiromante, ao psicólogo, ao psiquiatra ou a qualquer outra personagem esotérica. O nome foi atribuído por um conjunto de decisores que, cansados de tanta indecisão, um dia se interrogaram : i-phod, ou precisa de livro de instruções?

Velhos enganados

Ai os velhinhos, tão engraçados,
tecem a avareza mui descuidados


São sobejamente conhecidos os casos de vigaristas que exploram a credulidade dos velhotes ( embirro com a palavra idosos). Usando o estafado conto do vigário, conseguem extorquir-lhes dinheiro recorrendo a variados estratagemas. Todos temos muita pena destes “velhinhos” que, esquecidos e isolados no interior, estão sujeitos à estratégia dos oportunistas. Talvez poucos, porém, se dêem conta que na base destes contos do vigário estão muitas promessas de enriquecimento fácil que os velhotes aceitam na mira de engordar a sua conta bancária que pretendem deixar aos descendentes. E quando assim é....para bom entendedor, meia palavra basta...

e-government, snhores, é government!

A coordenadora do projecto de investigação do governo electrónico na Europa, Madeleine Thiel veio a Lisboa anunciar que Portugal está nos primeiros lugares do ranking europeu do e-government ( acesso a serviços do Governo através da Internet). Só a Áustria e Malta nos ultrapassam no item disponibilidade e estes mesmos dois países e a Eslovénia conseguem ser mais sofisticados do que nós. Uma boa notícia para os cidadãos portugueses que têm acesso à Internet. Pena que estejamos na segunda metade da tabela, quando se fala de número de cidadãos com acesso à Internet a partir de casa. São as contingências do mundo virtual!

Táxis e taxistas do futuro

Ontem, estive a assistir à apresentação do “táxi do futuro”. A princípio pensei que se tratava de um táxi voador, por isso fiquei um pouco desconcertado ao constatar que afinal não é mais do que um mimo de novas tecnologias( ideal para viagens entre a Cova da Moura e a Pedreira dos Húngaros, ou entre as Galinheiras e Monte Abraão), onde para além do computador com acesso à Internet é disponibilizada uma vasta gama de serviços de “terceira geração”.
Mais do que um meio de transporte, o “táxi do futuro” é um escritório em movimento.
Uma inovação que me cria preocupações de vária ordem. Por um lado, saber se o taxista do futuro se irá coadunar com este impacto tecnológico. Se assim for, o taxista deixará de ser aquele gajo que opina sobre tudo ( desde as mamas da Dolly Partnon até à descoberta da vacina contra o cancro), tem soluções para tudo ( desde o trânsito até aos problemas da saúde e da economia, seja ela nacional ou internacional) e que nos azucrina os ouvidos com os seus protestos constantes contra tudo o que “mexe” à sua volta, não nos deixando ler o jornal em paz. É claro que há sempre a possibilidade de o taxista do futuro ter um blog a que o passageiro acede durante a viagem, com a possibilidade de fazer comentários durante o percurso. Mas, convenhamos, não é a mesma coisa!
Por outro lado, preocupa-me que o táxi do futuro seja um escritório ambulante. Se já nem numa viagem de táxi as pessoas vão poder parar um bocadinho para pensar, caso tenham a felicidade de encontrar um taxista de poucas falas, onde é que o vão fazer? Durante o duche matinal? Todos sabemos que a essa hora os pensamentos são pouco lúcidos, por isso é melhor arranjar outra alternativa.
Houve apenas uma coisa que me devolveu algum sossego. Foi um senhor engravatado que afirmou peremptoriamente que o “táxi do futuro” se destina a longos percursos e a “executivos”. Ainda bem! Poderei continuar a fazer o percurso entre a Cova da Moura e a Pedreira dos Húngaros “com toda a“tranquilidade”.



quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Qual a próxima oferta?

Valentim Loureiro ofereceu electrodomésticos. Foi eleito, fez muitos gondomarenses felizes e ouviu críticas de todo o lado.
O Governo distribui computadores nas escolas ao sábado. Melhora as capacidades dos jovens, reduz o analfabetismo tecnológico, faz muitos jovens felizes e ouve críticas de todo lado.
O Governador Civil de Braga vai distribuir telemóveis pelos idosos. Vai contribuir para a felicidade das operadoras de telemóveis, ser acusado de demagogia e muito criticado de todos os lados.
Já não se pode ser generoso, ou "quando a esmola é grande, até o pobre desconfia?"

Agradeçam a estes homens...se eu não estiver enganado!

Devagar, devagarinho, as notícias sobre o desaparecimento de Maddie vão passando para segundo plano. Nada que não tivesse previsto aqui há uns dias. Com o que não contava é com a notícia que acabo de ver na RTP: " Mourinho demite-se do Chelsea".
Esta ajuda preciosa vinda de um português que vive em Inglaterra, zangado com o russo que o contratou, vai fazer correr muita tinta, atear muitas discussões e ajudar a vender mais alguns "desportivos ".
E logo à tarde, depois de ser conhecida a decisão da UEFA em relação a Scolari, os portugueses lançar-se-ão em apaixonadas e arrebatadoras discussões, seja qual for a sentença. Todos os telejornais abrirão com a notícia de Scolari, seguida da de Mourinho ( será que alguém me vai surpreender e arriscar outro alinhamento? Duvido...) Assim se passarão 20 a 30 minutos dos telejornais , onde teremos que ouvir as opiniões dos visados, de comentadores, especialistas, responsáveis federativos e um ou outro anónimo.
Portanto, meus amigos, se não se interessam por futebol, hoje basta ligarem os vosso televisores a partir das 20h30m, porque até lá não haverá notícias. Depois da publicidade, em jeito de complemento, ouvir-se-ão, a correr, algumas notícias sobre questões "menores", da política nacional e internacional.
O caso Mc Cann passará para terceiro ou quarto plano e assim continuará nos próximos dias, até ao esquecimento total.
Mas a 3 de Maio de 2008 estejam todos atentos, pois tudo quanto for jornal, capa de revista ou noticiário televisivo, irá assinalar devidamente a efeméride com perguntas inquietantes do estilo:
"Afinal, onde está Maddie?"; " Um ano depois, como é a vida dos Mc Cann?"; " A PJ continua convencida que Maddie morreu na noite de 3 de Maio"; "Onde vão os Mc Cann passar as férias este ano?"; " Como é a vida na Praia da Luz , um ano depois do desaparecimento misterioso de Maddie Mc Cann?"; " Em Leicester, familiares e amigos dos Mc Cann evocam o desaparecimento de Maddie" ou "Mc Cann têm esperança de voltar a ver a filha"( este, claro, seguido de alusões ao caso Natascha Kampusch)
Assim se cumprirá a profecia que aqui fiz há alguns dias. Mas também não é preciso ser adivinho para fazer estas previsões...

Semana da (i)mobilidade

Pertenço ao grupo daqueles portugueses idiotas e ingénuos que acreditaram que algo iria mudar, quando o “Dia Europeu Sem Carros” chegou a Portugal. No primeiro ano, no sítio onde trabalhava, muitos foram os que chegaram ao trabalho de bicicleta ou a pé, porque a cidade aderira, em peso, à iniciativa. Estávamos em 2000 e era a novidade do princípio do século. Muitos dias antes prepararam-se múltiplas actividades, escreveram-se centenas de artigos na imprensa ( só à minha conta escrevi uns 10) , mobilizaram-se as pessoas.
Logo no ano seguinte, porém, o entusiasmo esmoreceu e acabaria por ser sepultado quando Santana Lopes decretou não alinhar em folclores”. Em substituição da iniciativa, propôs a Semana da Mobilidade. Há gente assim... gosta de fazer tudo em grande, para que tudo fique na mesma.
Hoje em dia a “semana da mobilidade” passa quase despercebida e não é convenientemente aproveitada para fazer debates aprofundados sobre a (falta de) qualidade de vida nas cidades e as formas de mobilidade alternativas. A maioria das pessoas nem sequer se apercebe ( e muito menos se dá ao trabalho de pensar no assunto...) que a vida nas cidades tem de mudar para que a qualidade de vida urbana não esteja continuamente a degradar-se. Fica tudo pelo “faz de conta” . Bem à portuguesa e com um cheirinho a demagogia barata.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Regresso ao passado?

O New York Times decidiu tornar gratuito o acesso à sua edição diária e aos arquivos dos últimos 20 anos. O objectivo é atrair novos leitores e novos públicos. Saúda-se a medida e espera-se que em Portugal se siga o exemplo.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Um coração volúvel

Palma de Maiorca, Verão de 1967. Estava a passar férias com os meus pais, digerindo ainda mal não ter ido para o Kruger Park com uma namorada de ocasião, cujos pais engraçaram comigo e me ofereceram “boleia”.
O meu pai- sempre mais sensível a compreender os meus devaneios amorosos e as consequentes crises sentimentais- procurava entusiasmar-me com as maravilhas da ilha e com inusitada frequência chamava-me a atenção para umas belezas nórdicas que se passeavam pela piscina do hotel. Mas eu estava inconsolável. O meu coração estava no Kruger Park e o meu pensamento voava para lá à boleia de uma longa cabeleira negra por quem me embeiçara meses antes de acabarem as aulas. Não era época para loiras deslavadas. Para mim, aquele era o Verão das morenas e ponto final.
Uma noite, à beira da piscina, tudo mudou. O meu pai convidou-me a partilhar com ele um Lumumba. Tratava-se de um cocktail anunciado como típico das Baleares com uma composição explosiva: leite com chocolate, café e rum. “On the rocks”, pois claro!
Ao segundo Lumumba, estava outro. Subitamente tornara-me comunicativo e cheio de boa disposição
Daí para a frente não parei de convidar miúdas para dançar e, talvez à décima tentativa, encalhei com uma sueca sorridente que falava mal inglês mas tinha uma linguagem gestual extremamente sugestiva. Nessa, e nas noites seguintes, não voltei ao Kruger Park. A sueca não me dava sequer tempo para desviar os pensamentos. Ao fim de uma semana viemo-nos embora. Quando voltei a encontrar a Lurdes, no regresso às aulas, disse-lhe que tinha passado de moda. Só queria uma miúda loira que substituísse a sueca.
Também não voltei a beber Lumumbas. Tempos depois, apareceu o Bailey’s.
Porque será que me lembro agora disto, diante de um computador, tão anódino e desinteressante como uma folha de papel em branco? Será porque estou sentado no meu rochedo habitual, com o portátil sobre os joelhos, a olhar o imenso azul turquesa do mar do Guincho e me dá vontade de cumprir uma vez mais o destino de partir à descoberta do que se esconde para lá do horizonte?
( A foto, pedi-a emprestada algures na Internet.Espero que o autor comprenda que foi por uma boa causa...)

Mc Cann: o mundo ao contrário?

Que se diria em Portugal se a mãe de Joana tivesse sido recebida pelo Primeiro Ministro e recrutasse para trabalhar consigo um assessor de imprensa do Governo? O mínimo é que tudo cheirava a esturro e que era próprio de um país do terceiro mundo, onde o Governo se intromete nos assuntos da Justiça.
Pois os McCann conseguiram essas duas proezas. Vão ser recebidos por Gordon Brown e contrataram Clarence Mitchell( actual chefe de gabinete de comunicação do governo inglês) para dirigir a campanha publicitária que vão desenvolver para manter viva a memória ( é disso mesmo que se trata...) da filha Maddie.
É tudo muito estranho... demasiado estranho mesmo. O que estará por detrás de tudo isto? Ainda por cima num país que nos trata como se fossemos nós os terceiro mundistas!

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Lobo Antunes e as lágrimas amargas de Petra W.

Conheci Petra W. nos anos 60, quando Ofir era um paraíso a Norte, procurado por famílias alemãs em busca de sossego. Crescemos em estios tão frios, como os de Mark Twain em S. Francisco, e cimentámos a amizade com as areias batidas pela nortada de Agosto, fustigando-nos os corpos em longas passeatas pela praia.
Não vejo Petra W. há um par de anos, mas continuamos a corresponder-nos assiduamente, via telefone ou e-mail. Apaixonada pela literatura portuguesa, elege o tema como mote da maioria dos mails que trocamos.
Há cerca de um mês telefonou-me, entusiasmada, com as “Cartas da Guerra” de Lobo Antunes que estivera a ler durante as férias. Conheço de há muito a sua paixão por Lobo Antunes ( cuja admiração partilhámos) e o seu desagrado em relação a Saramago ( que ainda não partilho, mas já faltou mais...).
Indignou-se com a atribuição do Prémio Nobel a Saramago e escreveu, na altura, um artigo ( creio que no Die Welt) insurgindo-se contra a escolha da Academia que na sua opinião ( que partilho...) deveria ter atribuído o Prémio a Lobo Antunes.
Ontem telefonou-me de Berlim, onde fora passar o fim de semana para assistir à leitura de excertos de obras de Lobo Antunes, durante o Festival de Literatura da capital alemã.
Disse-me, entusiasmada, que a sala o tinha aplaudido de pé e perguntou-me:
- Quando é que vocês conseguem convencer a Academia a atribuir-lhe o Nobel?
Não respondi, pois ela sabe tão bem como eu como se “cozem” os Prémios Nobel.
Falei-lhe da doença de Lobo Antunes e da fabulosa crónica que escrevera na “Visão” sobre o seu padecimento – que ela desconhecia. Pelo embargo da voz, quando me pediu que lhe enviasse a crónica, pude imaginar-lhe os olhos azuis a humedecerem-se.
Quando desligámos, procurei nos jornais de fim de semana uma notícia sobre o assunto. Hoje repeti o exercício, sem êxito. Rondei alguns blogs na procura de opiniões...mas nada! Não fosse a generosidade de Petra, ficaria sem saber – pelo menos durante mais alguns dias- mais este sucesso de Lobo Antunes além-fronteiras.
Não me espanta este silêncio envergonhado da imprensa diária portuguesa. Custa-me mais engolir que nenhum canal de televisão lhe tenha feito referência nos serviços informativos da televisão. Sei bem que Lobo Antunes não bate records no triatlo, não ganha medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos, nem é figura grada do meio futebolístico, capaz de abrir telejornais. Mas que diabo... não seria normal fazer uma referência a um escritor português aplaudido de pé num país estrangeiro? Ter-me-iam evitado, ao menos, a humilhação de ter de dizer a uma amiga alemã, que desconhecia que Lobo Antunes estivera na Alemanha...

Contador de visitas

A pedido de várias famílias adicionei, a partir de hoje, um contador ao blog.
Os que me lêem desde o início, sabem que não é a questão das audiências que me motiva a escrever, mas sim o prazer em comunicar. Todos serão bemvindos.
A funcionalidade Comentários também está activa, mas quem preferir continuar a enviar-me e-mails pode continuar a fazê-lo. No entanto, não os publicarei e só a eles farei alusões no caso em que considere importante.

Não há notícias grátis


Tenho-me mantido em silêncio em relação ao caso Maddie, por cinco razões:
1- O alvoroço mediático produzido por parte de analistas, comentadores e jornalistas tem criado dificuldades para analisar a questão serenamente;
2- Vivi em Inglaterra tempo suficiente para formular uma opinião acerca da comunicação social inglesa que está muito longe da idílica imagem que muitos construíram, com base na isenção e qualidade informativa da BBC. A verdade, porém, é que a imprensa tablóide inglesa faz parecer os seus congéneres portugueses “meninos de coro”;
3- Pude, durante esse tempo, formar uma opinião dos ingleses, que não aprecio e não se coaduna com a minha forma de vida. Percebi que os seus valores não são em nada coincidentes com os dos países do sul, que estão sempre prontos a achincalhar e denegrir. Um deles prende-se com a maneira como encaram a sua relação com os filhos – e nesse facto intrinca muito do que se tem escrito acerca do comportamento do casal na noite do desaparecimento de Maddie;
4- A legislação inglesa é bastante permissiva nos casos de abandono dos filhos por parte dos pais, como o demonstra o facto de ainda no ano passado, um casal que abandonou um bebé junto ao aeroporto de Faro, não ter sido condenado pelos tribunais ingleses;
5- É notória a diferença de tratamento por parte da PJ, da comunicação social e da opinião pública, entre o caso Maddie e o caso Joana. Em vez de nos engrandecer e ser motivo de orgulho, essa diferença apouca-nos enquanto portugueses e diminui-nos face à comunicação social e à opinião pública inglesas, conferindo algum espaço de manobra aos que nos classificam de terceiro mundistas.
Por estas razões, decidira que só escreveria acerca do caso, no dia em que a situação ficasse definitivamente esclarecida.
Acontece, porém, que o regresso dos Mc Cann a Inglaterra e os desenvolvimentos posteriores indiciam que provavelmente nada se irá esclarecer e que o assunto tenderá a cair no esquecimento, quiçá acobertado por obscuros acordos políticos.
Não quero saber se os Mc Cann passaram de vítimas a algozes, nem interpretar as razões que os levaram a regressar a Inglaterra . Não vou alinhar com os que defendem a tese de que tudo não passou de um embuste, de uma teia bem urdida, para desviar as atenções da PJ. Também não estou interessado em saber que razões levaram o Papa a mandar retirar do Vaticano as fotografias de Maddie e a suspender o site que mantinha activo. E muito menos quero extrapolar razões para justificar o apoio financeiro do patrão da Virgin aos Mc Cann, ou as relações privilegiadas que estes parecem manter com Gordon Brown.
Gostaria apenas de lembrar uma coisa. Desde o início os pais de Maddie optaram por uma mediatização do caso. ( Recorde-se que avisaram a Sky News antes de avisarem a polícia portuguesa e tiveram ao seu seeviço o assessor de imprensa de Gordon Brown). . Ao optarem pelo circo mediático teriam as suas razões, mas deviam saber que a situação se poderia inverter e que aqueles que os trataram como mártires, um dia os poderiam vir a acusar de algozes. De todo este caso se podem tirar múltiplas lições , mas há uma que os Mc Cann e quem os aconselhou deveriam ter previsto desde o início: a exposição mediática é uma faca de dois gumes e uma notícia ( salvo raras excepções...) nunca é de graça.


CPP- um erro de “casting”

O Pacto da Justiça assinado pelo Bloco Central pariu um Código de Processo Penal ( CPP) que, para o cidadão comum, é uma monstruosidade.
Embora toda esta situação me cause alguma perplexidade, não alinho no coro dos que prevêem o apocalipse a curto prazo e já imaginam Portugal como um futuro Texas.
Recorde-se, antes de mais, que o CPP foi aprovado na Assembleia da República por PS e PSD e promulgado sem hesitações pelo Presidente da República. Porquê então tanta excitação e tantas críticas?
A reforma do CPP era fundamental para agilizar a justiça e dar aos cidadãos mais garantias em relação à eficácia e justeza da sua aplicabilidade evitando, entre outras coisas, que cidadãos estejam em prisão preventiva por períodos injustificadamente longos. Dispensava-se, porém, a pressa revelada na sua aplicação integral, que veio determinar a “ordem de soltura” para dezenas de criminosos acusados de violação e homicídios. É este aspecto que faz tremer milhões de portugueses - incendiados nos seus receios pelas notícias alarmistas ( algumas não confirmadas) difundidas nos últimos dias pela comunicação social - e, principalmente, aqueles que tendo sido vítimas desses criminosos, temem pela sua segurança.
Todo este alvoroço poderia ter sido evitado se alguém, em tempo oportuno, tivesse pensado nas consequências de alterar as medidas relacionadas com a prisão preventiva e por uns segundinhos apenas pensasse que o novo CPP se destinava a ser aplicado em Portugal, onde a morosidade da Justiça ombreia com a velocidade de uma corrida entre uma tartaruga e um caracol.
Pelos vistos andavam todos distraídos. Os deputados – que apenas cumprem o que os chefes mandam e serão, no meio de todo este imbróglio os menos culpados; o Governo que, estando no pleno exercício das suas funções, deveria saber como funciona a Justiça; o principal partido da oposição que, ufano por ter assinado um Pacto para a Justiça com o Governo, não cuidou de ponderar as consequências; o PR que promulgou o diploma que permitiu a entrada em vigor do CPP de forma atabalhoada e agora faz “mea culpa” e lança aos deputados o repto de o reverem; e até o prof Marcelo, normalmente tão atento a estas coisas, mas que só agora se vem juntar ao coro dos que vêem no novo CPP uma ignominiosa afronta.
Ninguém de bom senso pode ficar satisfeito ao ver criminosos condenados em primeira e segunda instâncias, saírem em liberdade e já a isso me referi aqui. Parece-me, porém, um desmesurado exagero, pretender que a aplicação do CPP seja suspensa de imediato. Há que expurgá-lo dos pecadilhos que o enfermam, mas sem retirar o essencial que lhe confere um cariz mais democrático e moderno.
Quanto a culpados de todo este frenesim, quem não tiver culpas no cartório, que atire a primeira pedra. Comunicação social incluída, claro está...

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Pronúncia do Norte

-Cada vez mais se ouve falar de vlogs e vlogosfera. Vitória da pronúncia do Norte? – perguntou-me a medo um sulista elitista com o terror estampado no rosto
- Nada disso! – tranquilizei-o Os vlogs são videoblogs, ou seja,blogs de imagem em movimento.
Aparentemente, o meu amigo sulista elitista ficou mais tranquilo, mas ao fim de uns minutos, já a conversa versava outros temas, atirou-me:
- Mas isso vai ser uma grande confusão...
Como estávamos a falar das consequências para selecção nacional da atitude irreflectida de Scolari, anuí e acrescentei:
- Vamos a ver quantos meses de suspensão apanha. Se a UEFA fosse coerente, como só aplicou um jogo ao Domenech por ele ter acusado o Lucílio Baptista de “estar comprado”, a coisa passava com uma advertência. Só que o Scolari é brasileiro e está à frente de um país que não tem peso nas contas europeias. Lá como cá, a justiça desportiva tem dois pesos e duas medidas.
- Eh pá, não é nada disso!...Estava a pensar nessa coisa dos vlogs... Como é que vou perceber, quando estiver a falar com um gajo do Norte se ele se refere a blogs ou a vlogs?
Amuei e dei por terminada a “conbersa”.

Adivinha quem foi jantar!


Estes dois homens estão em Lisboa. Um tem ar de vagabundo bem sucedido na vida, o outro tem o ar sorridente de quem está de bem com o Mundo.
Um tem-se notabilizado por organizar uns festivais de música de grande impacto global, o outro tem-se limitado a levar a palavra e algum conforto a quem dele precisa e a lutar por uma causa ( o Tibete).
Um é amigo de todos os senhores da política e do grande capital, outro é evitado pelos políticos e tolerado pelo capital. Um é tolerado na China actual, outro é inimigo da China desde sempre.
Adivinhem lá qual deles é que foi jantar ao "sítio do costume" que é como quem diz, foi recebido pelas mais altas instâncias e até é capaz de ter entrado para a lista dos condecoráveis do próximo 10 de Junho. Se têm dificuldade, eu dou uma ajuda: foi o cromo, claro!

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Oh freguês, vai uma Aspirina?

A Associação Nacional de Farmácias vai lançar, em parceria com a Caixa Geral de Depósitos, um cartão de crédito que permite acumular pontos na compra de medicamentos que não estejam sujeitos a receita médica, os quais poderão posteriormente ser reconvertidos em descontos. Haverá gente que considere isto uma boa ideia. Para mim, é uma demonstração clara de que anda toda a gente a brincar com a saúde, tendo-se perdido qualquer pudor em gozar com os consumidores.
Não tardará muito que as farmácias façam promoções do estilo “Leve 2 caixas de Aspirina e oferecemos-lhe uma embalagem de Kleenex”, ou ofereçam brindes por cada 100 € de compras!
Já não há pachorra para os desvarios da concorrência e dos mercados liberalizados. Entrámos, definitivamente, na era da incontinência no concernente às práticas comerciais.

SCOLARI:"the never ending story..."

No Europeu 2004, de triste memória, as derrotas com a Grécia só foram possíveis porque Scolari é teimoso e arrogante. Nunca me passou pela cabeça, porém, que um dia iria ver Scolari a agredir um jogador adversário. Já não me admira tanto que o tivesse feito e agora negue, mesmo perante a evidência das câmaras.
Vi em Alvalade, com a mesma clareza com que de imediato detectei o golo irregular dos sérvios, a atitude inqualificável do seleccionador nacional. Em ambas as situações não tive direito a replay, mas não me ficaram quaisquer dúvidas.
Nunca gostei de Scolari. A sua arrogância, aliada a erros tácticos clamorosos e a um critério de convocações no mínimo “bizarro”, foram apenas algumas das razões que me levaram a nunca alinhar no coro de elogios que a imprensa desportiva montou à sua volta. Estou por isso à vontade para o criticar e dizer , uma vez mais, “BASTA!”. Outros, que a cegueira clubística ou um lugar à mesa do orçamento da FPF ( ainda que só para apanhar umas migalhas...) impediram de analisar friamente o trabalho de Scolari, não terão tanta legitimidade para o fazer. Foi apesar de tudo, sem grande surpresa, que assisti à demarcação estratégica que alguns dos eternos “yes men” de Scolari começaram a fazer desde o empate na Arménia. Ontem, perderam a compostura e alguns já pedem mesmo a sua demissão. Quando os naufrágios se anunciam, há gente que se comporta desta maneira e se coloca de imediato em posição de entrar no primeiro salva-vidas.
O próximo treinador passará a ser, para os defensores de Scolari até há alguns dias, o treinador que já há muito deveria estar à frente da selecção nacional.
Quanto a Scolari, para sair com alguma nobreza de toda esta situação, apenas lhe resta pedir a demissão. Duvido, no entanto, que o faça.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Comentadores: o "2 em 1"

Uma das instituições nacionais nacionais emergentes é a dos comentadores.Basta passar por uma obra de rua, para verificarmos que por cada dois trabalhadores que se esfalfam no cumprimento das suas tarefas, há cinco ou seis a dar ordens ou a comentar as melhores opções que os que estão a trabalhar devem tomar. Se acrescentarmos o número de mirones que se juntam a dar os seus palpites ( nas horas vagas de comentadores de um acidente de trânsito a que não assistiram, mas de que não abdicam de emitir os seus palpites)teremos um exército de comentadores digno de um país do “Primeiríssimo Mundo”.
A comunicação social portuguesa também não dispensa o seu leque de comentadores. Com uma diferença. Têm que ser comentadores especializados. Em Portugal há especialistas para comentar seja o que for. Guerras, polícias e ladrões, política, desporto ( uma especialização que se divide em várias modalidades) drogas, banditismo, sinistralidade rodoviária, doenças venéreas, a melhor forma de fazer “foie-gras”, economia e finanças, as 10 maneiras de abrir uma garrafa de champagne e, imagine-se... até comentadores políticos.
Com a proliferação de comentadores, a tarefa do jornalista está extremamente facilitada. Ouve ( ou lê na Internet) a opinião de dois ou três especialistas, cose em lume brando e ao fim de meia-hora sai uma notícia.
O caso Maddie fez emergir no universo mediático um novo tipo de comentadores: os criminalistas. Cada canal de televisão tem os seus comentadores de crime privativos, mas há um ou outro que debica comentários em mais do que um canal. É o caso, por exemplo, de Moita Flores. Abandonou a PJ para fazer guiões de telenovela mas, como lhe sobejava tempo, decidiu fazer-se eleger presidente da Câmara de Santarém. Percebia-se, porém, que o bichinho da criminologia ainda o roía por dentro e vai daí, à boleia do caso Maddie, regressou à actividade - em regime de acumulação.
O mais curioso é que Moita Flores se desdobra em duas personagens, consoante faz os seus comentários na SIC ou na RTP. Numa, os Mc Cann aparecem como crápulas ignominiosos, fingindores que encenaram um rapto onde afinal havia um crime e deram o "golpe do baú" .Noutra revela-se mais ponderado e chama a atenção para o facto de não se dever estar a incriminar os Mc Cann sem provas fundadas. Temos assim o verdadeiro comentador “2 em 1”. Uns dias é Moita ( carrasco) e outros é Flores ( de estufa).
Como dizia o slogan publicitário “ Bic laranja, Bic cristal, duas escritas à sua escolha”. Neste caso são opiniões, mas isso pouco importa.

Deixem as crianças brincar!

Recomeçam hoje as aulas. Uma das novidades anunciadas é que haverá cada vez mais escolas com horário de funcionamento das 9h às 17h30m. Ou seja, os miúdos vão passar a ter na escola um horário de trabalho equivalente ao dos pais.
Compreendo a medida, como uma forma de aliviar os encarregados de educação, mas visto na perspectiva das crianças, tal horário parece-me desajustado.
As brincadeiras fazem parte do crescimento e da socialização dos miúdos e uma criança que não tem tempo para brincar não pode ser uma criança feliz. Pode argumentar-se que as brincadeiras das crianças, hoje em dia, se resumem horas a fio postadas diante do televisor ou de um ecrã de computador. Seja. Mas essa é a forma de brincar das crianças de hoje...
Alijar responsabilidades e lançar o ónus da educação/formação da criança nos professores não me parece uma boa ideia.
É certo que a maioria das famílias, onde ambos os pais trabalham, não tem tempo para dedicar aos filhos, mas a questão está a ser resolvida pela via mais fácil. Ficaria mais satisfeito e tranquilo se houvesse uma alternativa que permitisse aos pais cuidarem dos filhos, sem tanto protagonismo e responsabilidade da escola. Estamos a caminhar para uma sociedade onde os valores do trabalho e do consumo se sobrepõem a todos os outros. O resultado, só poderá ser uma sociedade envelhecida e doente. Não é um bom sinal. Deixem as crianças brincar!

terça-feira, 11 de setembro de 2007

"Tolerância Zero"

Se António Costa cumprir a sua promessa – e tudo indicia que o fará- a partir de amanhã passará a haver tolerância zero em relação ao estacionamento em segunda fila e em cima dos passeios. Será, muito provavelmente, uma medida que apenas abrangerá as artérias centrais de Lisboa, permanecendo a incúria, o desleixo e a falta de civismo na maioria das zonas da cidade. Trata-se, porém, de uma medida que se saúda. Ainda que aplicada de forma parcial, será um primeiro passo para disciplinar o trânsito e tentar desenvolver nos lisboetas alguns princípios de educação cívica. Esperemos que a Polícia seja inflexível e devolva a Lisboa e aos lisboetas alguma tranquilidade e disciplina no trânsito caótico.

Que a memória não se apague

Faz hoje seis anos que um ataque terrorista destruiu as Torres Gémeas em Nova Iorque e lançou o pânico no mundo.
Não se pode dizer que o mundo esteja mais seguro desde aquela data, ou que a vida em Nova Iorque regressou à normalidade. O atraso da reconstrução do “Ground Zero” continua a ser uma espinha cravada na garganta dos nova iorquinos.
Bin Laden reaparece em video evocando a data e anunciando novos ataques. Com regularidade são presos presumíveis autores de atentados que não chegam a concretizar-se, graças à actuação das autoridades policiais. Nova Iorque continua a viver em estado de sítio. A invasão do Iraque – que pretensamente se destinava a restabelecer a paz no Médio Oriente- pegou rastilho a outros conflitos internacionais. A popularidade de Bush nos EUA e fora deles está a rondar o “Ground Zero” . Em breve, Bush abandonará o cargo e ficará para a História apenas a sua imagem de “Salvador do Mundo”ensandecido. O ataque de 11 de Setembro irá perdendo força e referências. Mas Bin Laden está vivo, a Al Qaeda mais organizada e o mundo mais perigoso. Talvez tudo tivesse sido evitado, se Bush não tivesse chegado à presidência dos EUA, por métodos fraudulentos.

A canibalização dos jornais gratuitos

Começou ontem a ser distribuído mais um jornal gratuito.
O “Global Notícias” é o mais recente título a ser distribuído gratuitamente aos lisboetas, mas não terá por muito tempo essa primazia. Em breve um novo título irá surgir, numa parceria entre “o Público” e “A Bola” que – afiançam os promotores- irá revolucionar o conceito de jornal gratuito em Lisboa.
Em termos pessoais, sou obrigado a reconhecer que os gratuitos modificaram a minha relação com a imprensa. Logo de manhã, quando entro para o Metro, recolho o meu exemplar do gratuito com o mesmo nome. Um quarto de hora depois, à saída do Metro, estendem-me um exemplar do “Destak” e à porta do café recebo o “Global Notícias”. No trajecto entre o café e o emprego sou brindado com um exemplar do “Meia Hora” e à entrada o porteiro estende-me, diligentemente, um exemplar do “Oje”. Resultado: em menos de uma hora recebo, a custo zero, quatro diários generalistas e um especializado em economia e finanças. Ao todo, são cinco os jornais que, logo pela manhã, me convidam a “estar a par com o mundo”, a que em alguns dias da semana se somam algumas revistas de distribuição gratuita. Mesmo para um consumidor compulsivo de informação como eu, que acorda a ouvir notícias, assina várias revistas, não dispensa uma espreitadela na Internet a vários jornais estrangeiros, vê vários serviços informativos ao longo do dia e quando viaja de automóvel não dispensa o noticiário hora a hora, a “overdose” informativa de gratuitos causa-me algum desgaste e leva-me a prescindir, com cada vez mais frequência, da compra de um jornal diário.
Imagino que um consumidor de informação se sinta, assim, perfeitamente saciado com a informação que recebe gratuitamente pela manhã e que completa com um noticiário à hora do jantar, prescindindo por isso da cmpra de um jornal diário.
Não é este o local próprio para analisar os efeitos colaterais que a massificação de títulos gratuitos exerce no consumo de jornais diários. Já o fiz, de forma mais desenvolvida, em local mais apropriado para o efeito.
No entanto, não quero deixar de realçar que se começa a assistir a uma canibalização entre os gratuitos. O primeiro sinal foi dado pelo “Meia Hora”. Inicialmente distribuído à hora do almoço, antecipou a sua edição para as primeiras horas da manhã, concorrendo directamente com os restantes títulos.
As razões desta canibalização prendem-se, iniludivelmente, com a partilha do mercado publicitário, mas é bom lembrar que a existência de tantos títulos só é possível, porque na imprensa escrita há uma desmesurada exploração do trabalho dos jornalistas. A imprensa diária tradicional, por sua vez, para garantir a sobrevivência e ser apelativa, recorre com inusitada frequência aos brindes e promoções e a comentadores e colunistas com algum peso mediático. Paulatinamente, constata-se que a imprensa gratuita dá informação e os jornais pagos aumentam o espaço de opinião. Há aqui uma inversão de valores que em nada beneficia a imprensa nem os leitores, e põe em causa o papel do jornalista. Mas isso são contas de outro rosário... O que interessa salientar é que um tão elevado número de títulos não garante por si só que os portugueses andem mais informados, ou que se alargue o mercado de trabalho para os jornalistas. Apenas garante ( até quando?) um aumento das receitas publicitárias.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Desencanto à hora da sobremesa



No sábado de manhã o Jaime telefonou. Tinha chegado da Patagónia, onde esteve a passar férias com a Marta. Pelas suas palavras, percebi que vinha eufórico.Trazia também saudades de peixe e do mar do Guincho. Combinámos, por isso, um jantar à beira do Atlântico.
Fiquei feliz quando me apercebi da euforia do Jaime. Afinal eu fora co- responsável pela escolha da Patagónia como destino de férias, tantas vezes ele e a Marta me ouviram enaltecer a Argentina e esse paraíso imenso que é a Patagónia. Ajudara-os a preparar a viagem com todos os detalhes, mas avisando-os sempre que a Patagónia é o destino de férias ideal para podermos reprogramar itinerários diariamente, de acordo com a vontade do momento. Nunca, em nenhum lugar do planeta, dei melhor significado à expressão “férias em liberdade” do que na Patagónia.
O jantar foi animado, com o mar do Guincho em pano de fundo. Eu e a Ana estávamos ansiosos por ouvir o relato da viagem e o Jaime e a Marta por contar tudo ao pormenor. Tenho as minhas dúvidas que tenham apreciado a santola recheada e o peixe ao sal como pretendiam, tal era a sua sofreguidão em contar todos os detalhes das três semanas de aventura.
Percorremos a Patagónia de Bariloche a Calafate, num mosaico de aventuras, partilhando descrições quando descobríamos que tínhamos pernoitado, comido, ou apenas parado para tomar uma bebida, num lugar que nos trazia recordações comuns.
Mas quando chegou a sobremesa, a conversa ficou suspensa. É que a mousse de avelã das “Furnas do Guincho”, meus amigos, é um daqueles manjares que só um momento de luxúria divina permite conceber. Durante alguns minutos, subimos ao Olimpo e comungámos com Zeus e Athena momentos de lascívia, enaltecendo a criação.
Foi neste momento de suprema comunhão que eclodiu numa mesa à nossa esquerda uma conversa onde se falava de “rating”, reserve banking, índices Dow Jones spreads e taxas de juro. Creio ainda ter ouvido falar ( mas não estou certo...) de off shores e PSI 20.
Rodei a cabeça 90 graus, no intuito de identificar os animados interlocutores, imaginado-os desde logo anciões saídos de “limousines” de vidros fumados. A muito custo, não abri a boca de espanto, ao constatar que os intervenientes em tão animada conversa eram dois casais jovens, seguramente “under –30”. A tonalidade da tez denunciava um recente regresso de férias. Foi então que desci do Olimpo e dei por mim, de pés assentes na Terra a perguntar-me ( estupidamente, claro) o que estaria errado naquele quadro. A animação de uns cinquentenários falando de aventuras de férias ou os jovens, regressados de férias, a falarem com transbordante entusiasmo do Dow Jones?
A resposta, enviada por um qualquer mensageiro de Zeus, foi arrepiante e desoladora!

Outra vez a regionalização

Bastou que um qualquer eurocrata viesse dizer que Portugal tinha que seguir a tendência europeia e trilhar os caminhos da regionalização, para que alguma imprensa escrita voltasse a dar importância ao tema. Muita água há-de passar sob as pontes, até que os portugueses se voltem a ser chamados a pronunciar-se sobre o assunto ( o Governo defende que só em 2009 se deverá realizar novo referendo...)
. Faço no entanto, desde já, um desafio aos leitores. Vão aos vossos recortes e comparem as declarações do Presidente da ANMP na altura do referendo, com as que agora fez ao JN. Vão verificar que há algumas mudanças de posição...
Se não for antes, quase aposto que a partir de Janeiro do próximo ano a regionalização vai voltar a estar no centro de animados debates e, a partir dessa altura, vai ser interessante constatar que neste curto espaço de tempo muitas outras mudanças de opinião dos protagonistas vão ocorrer, numa demonstração inequívoca de que a migração de ideias se faz ao sabor de interesses políticos, que não correspondem obrigatoriamente aos interesses do país.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Festa do Avante!



Este fim-de –semana a minha recomendação vai para a “Festa do Avante!”. Desculpem-me algumas consciências menos abertas que vêem na “Festa do Avante!” apenas uma festa partidária mas, goste-se ou não, é uma festa incontornável no calendário de festividades lusas, frequentada por gente de todos os quadrantes políticos e ideológicos. É certo que já teve melhores dias e agora já não é o palco privilegiado para ver e ouvir grandes nomes da música internacional, mas uma visita à Atalaia, num fim de semana quente como o que se anuncia, nunca será tempo perdido. Quanto mais não seja, para ver e ouvir os Blastede Mechanism, Tito Paris, Cristina Branco e...MUITO JAZZ

Realidade e ficção


Fred Thompson encarnou por três vezes, no cinema, a figura de Presidente dos EUA. Nada mais natural, pois, que tenha decidido candidatar-se a candidato ao cargo na vida real. Os EUA estão habituados a ver ex-actores assumirem os destinos do país.
Se Thompson vier a ser escolhido pelos republicanos, como o seu candidato, é muito provável que venha a vencer as eleições, dando razão àqueles que afirmam que a política americana se assume cada vez mais como um misto de ficção e realidade. Existem sobejas razões para estarmos preocupados.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

A "rentrée"




Segunda-feira é, durante todo o ano, o dia da semana por excelência para o embate provocado pelo reencontro com os bytes, os links, os offset, os offshores e off the record, os clips e os chips, o software e o hardware, o copy right , o copy desk e o copy and paste, as notícias do jet-set , os press release , o lay out e o design.
Mas esta cena ocorreu mesmo na passada segunda-feira , 3 de Setembro, data consagrada para a rentrée
Bronzeado de férias e ainda um pouco atordoado pelo trânsito lisboeta, o Pires chegou ao escritório e deu de chofre com uma discussão sobre a melhor manchete do dia, as estratégias de marketing, e o merchandising, o escoamento dos stocks e o novo spot de promoção.
O cabotino do Mendes, self made man em vertiginosa ascensão nos quadros da empresa, falava a um canto com a Sofia que, mesmo sem tirar os auscultadores do ipod parecia seguir atentamente o seu discurso sobre o rendimento per capita, o cashflow e as prime rate.
O Pires estava quase a perder o selfcontrol e já tinha decidido que naquele dia não iria com os colegas do costume comer ao self service, quando se lembrou das poses da Marina que namora com o disc jockey de uma boîte do basfonds lisboeta. Decidiu inverter o caminho, antes que fosse amarrado a qualquer discussão em que não estava interessado em participar. e dirigir-se ao gabinete da Marina para lhe espreitar a pose que, invariavelmente, oferece à cobiça dos homens um pedaço de coxa entre a racha da saia, ou um peito descoberto pela generosidade do decote. Pelo caminho, deu de caras com o pateta do Abreu, à volta do scanner, gritando para o estagiário:
- Já printáste? Faz delete! Esqueceste-te de clicar, como é que querias abrir o CD? Faz save as se não queres perder o documento, meu palerma ! Já recebeste o e-mail de Inglaterra? Se os gajos não se apressam mandamos-lhes um fax!
- Porque é que não mandas antes um MMS? – alvitrou o Pires enquanto se esgueirava, sorrateiro, para o gabinete da Marina
Estava a conversa a animar, o pobre do Pires urdia, babado, uma fórmula imbatível de a convidar para jantar, quando entra o chefe Lopes de uísque na mão e começa a dissertar sobre a entourage política , o elan do novo Governo, a élite cultural os collants que a mulher lhe pediu para comprar e de que se esqueceu, do tailleur que ofereceu à amante, dos éclairs da pastelaria da esquina, do baile de debutantes da filha mais nova que se vai realizar em Outubro e dos progressos da mais velha no ballet.
Quase uma hora depois dá por interrompida a conversa e pede à Marina que lhe reserve uma mesa para dois no restaurant, sem se esquecer de recomendar ao maître, para pôr a garrafa de vinho no frappé.
Ainda teve tempo para perguntar ao Pires como tinham sido as férias e pedir à Marina que lhe lembrasse para marcar na Agenda um dia para um almoço “com todo o pessoal”.
“É preciso motivar a rapaziada para o trabalho, que esta empresa é uma nau muito pesada, precisa de gente activa e sangue jovem. Com as novas tecnologias, quem não souber dançar tem que dar lugar aos novos! ”-ouviram-no dizer enquanto se afastava em direcção à porta.
O pobre do Pires esqueceu a fórmula do convite irrecusável que congeminara para convencer Marina a jantar com ele. A cabeça encheu-se-lhe de soundbytes, lembrou-se das conversas do Abreu e do Mendes e declarou-se indisposto.
Diz ao chefe que não me senti bem e vou para casa”.
Até hoje, ninguém mais pôs a vista em cima do Pires.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Novas oportunidades

Um indivíduo que acabara de ser acusado da prática de 30 roubos, foi mandado para casa pelo juíz , sujeito a “termo de identidade e residência”. Assim que se apanhou fora do Tribunal decidiu roubar uma motoreta , foi apanhado e ficou em prisão preventiva.
Do mal o menos... Há dias, um juiz mandou para casa um indivíduo que tentou alvejar a tiro o Presidente da Câmara de Tarouca. Foi sorte não ter tentado repetir a proeza.
Pelo sim, pelo não, talvez fosse boa ideia o Governo alargar o programa “Novas Oportunidades” aos juízes, já que em relação aos reclusos, ele está perfeitamente implantado.

Diferentes, até na morte?

Quando alguém anónimo morre num acidente, os media normalmente assinalam o facto referindo-se a “um homem ou uma mulher que faleceu...” Ontem, porém, a TVI referia-se a uma morte em Peniche, resultante de um acidente de trabalho, nestes termos:
Uma engenheira morreu numa ETAR em Peniche...”
Eu sei que normalmente, em acidentes de trabalho em Portugal, só estamos habituados a ouvir falar da morte de trabalhadores indiferenciados, a maioria das vezes imigrantes que vêm em procura de melhores condições de vida e acabam por deixar enterrados os seus sonhos num qualquer estaleiro de auto-estrada. Mas, pelo facto de não ser habitual morrerem licenciados em acidentes de trabalho, justifica-se que se comece a notícia assim? A mim, parece-me que não, mas se calhar estou enganado!

Como nasce este blog


Numa tarde de Setembro refugiei-me num rochedo a olhar o mar do Guincho. Foi a necessidade de curtir mágoas por uma namorada que se despedira ou fora roubada, pouco importa, que me levou até lá. Contemplar aquelas águas azul-turquesa devolveu-me a tranquilidade. Foi há muitos anos, mas desde esse dia tomei aquele rochedo como meu. Voltei lá com frequência. Primeiro com um caderninho de apontamentos, depois com o portátil, tão anódino e desinteressante como uma folha de papel em branco, sobre os joelhos .
Foi ali, a olhar o imenso mar azul, que nasceram centanas de crónicas, muitas das quais nunca viram a luz do dia.
Hoje, sentado no meu rochedo habitual, sem papel nem computador, senti vontade de cumprir uma vez mais o destino e partir à descoberta de uma nova experiência: navegar sozinho no espaço virtual.
Este blog será o meu novo rochedo. Sem mar, sem pôr do sol, nem linha de horizonte como fundo
Aqui haverá espaço para reflectir sobre tudo. Sem dia nem hora marcada. Sem temas pré-definidos. Apenas com a vontade de comunicar através da escrita.