Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

O meu país inventado*


Nas últimas noites sonhei que os jornais acabaram e as notícias passaram a circular apenas via mail.
Ao fim de três noites, cheguei à conclusão que só saber notícias esporadicamente, através de e-mail, tem as suas vantagens. A partir de determinada altura passamos a perceber  que não são verdadeiras, mas sim conteúdos produzidos numa qualquer agência humorística ao estilo “5 para a meia-noite”, ou similar, com o objectivo de nos fazerem rir.
Assim se compreende, por exemplo, um mail sobre  os delírios do Álvaro acerca do franchising dos pastéis de nata e dos frangos de churrasco. A piada nem é nova, mas não deixei de dar uma bela gargalhada, como acontece quando leio algumas anedotas por vezes  com barbas, mas de que já me esquecera.
Há dias recebi  uma história de muito mau gosto, respeitante  a Cavaco. Lembro-me de ele ter criticado o corte nos subsídios de Natal e de férias, por considerar que eram contra a equidade e a ética social e, salvo erro, até considerou isso inconstitucional. Não posso deixar de me insurgir, por isso , contra  o autor de um mail que recebi no sonho de ontem, onde se dizia que Cavaco tinha deixado de fazer críticas, porque iria receber esses subsídios.  Estes mails pondo em xeque a figura de Cavaco revelam intolerável má-fé. Alguém acredita que o PR fosse capaz de receber  esses subsídios, sabendo que seria uma iniquidade? Francamente….
Ainda em relação ao PR um outro mail dizia que o homem de Boliqueime teve um deslize. Não me digam que largou uma bufa na reunião com a Merkel! Mas se foi isso também não terá havido grande problema, porque a mulher cheira mal que tresanda...
Mais piada têm outros dois mails sobre nomeações de bois do PSD e do CDS. Um deles diz respeito às nomeações para a EDP. Aqui já devo parabenizar os autores  pela sua criatividade. Nunca me passaria pela cabeça  tentar convencer alguém que  Eduardo Catroga, o Senhor dos Pintelhos, tinha sido nomeado pelos chineses para a EDP!  Sabem o que respondi a quem me enviou este mail? Só se fosse  para ligar os interruptores, porque o homem já está senil. Não tanto como o Rocha Vieira, ex-governador de Macau, igualmente incluído neste rol de nomeações com nomes absurdos, mas que me provocaram uma boa gargalhada. O Rocha Vieira na EDP? Essa é mesmo boa, malta!
Igualmente hilariante é o que me informa que um presidente de câmara do PSD, com um calote à Águas de Portugal, foi nomeado para presidente do Conselho de Administração  da empresa a quem não pagou! Apesar de inverosímil - uma nomeação dessas seria  equivalente a nomear  Oliveira e Costa ou Dias Loureiro  para governador do Banco de Portugal, ou Vale e Azevedo para o Supremo Tribunal de Justiça - a piada é impagável.
No âmbito do humor negro, está aquele mail em que se garante que a Segurança Social enviou 34 mil cartas a mortos, pedindo-lhes a devolução de dinheiro abusivamente recebido. Só faltou ao autor desta piada  infeliz  dizer que lhes estavam a pedir o reembolso do subsídio de funeral!
Com menos piada, mas igualmente inverosímeis, são os mails que visam denegrir Braga de Macedo. Um homem tão respeitável e com um curriculum invejável não ia sujar-se para pagar a promoção da filha com dinheiros públicos. Os mochos são animais decentes, porra!
Também não acredito nessa treta de que  a madama  Catherine Monteiro de Barros deu o golpe do baú, provocando a explosão da  central nuclear Papo d’Anjo com quatro milhões de dívidas. Gente séria e com pedigree não se comportaria assim. Os pobres é que são caloteiros, ómessa!
Mas, para além destes mails humorísticos, recebi um outro que tem toda a credibilidade e é merecedor dos meus mais fartos aplausos: António Barreto, numa demonstração de coerência que só o enaltece, demitiu-se da Fundação Manuel do Santos, alegando não poder pactuar com a deslocalização do Pingo Doce para a Holanda, por ( passo a citar)  “isso ferir  no meu âmago a ética e a postura de civismo e urbanidade por que sempre pautei a minha vida, em defesa dos supremos interesses do meu país, os quais me recuso a renegar".   É de homem! O grande mentor da destruição da Reforma Agrária penitencia-se assim da fraude que foi enquanto ministro da agricultura. Parabéns, António Barreto! (E agora não me venham dizer que este mail é aldrabice, está bem?)
Estranho é constatar, nestas deambulações oníricas a inexistência de notícias do governo do meu país, o que  me leva a pensar que o Coelho também emigrou a reboque do Portas e já arranjou um tacho ao lado do Barroso. Estará Portugal a ser agora governado por uma trupe circense, dirigida por  Relvas y sus muchachos? Deve ser isso… afinal o Francisco José Viegas que foi secretário de estado da cultura e passou a assessor do Coelho depois de ter acabado de vez com a cultura, tem perfil para exercer como palhaço e o Portas  fica bem  no gabinete da Popota que, segundo me disseram noutro e-mail, agora é directora do jornal Metro! Por este andar, o Carlos Abreu Amorim ainda acaba como ministro da Informação e Propaganda.
Esperem aí, acabo agora mesmo de receber outro mail, dizendo que o Mozart está em S. Bento! Isto está tudo doido, meus amigos. Não tarda nada, ainda recebo um mail com o Mozart de avental, a preparar um estufado de coelho na cozinha de Belém!
Passem bem e continuem a ser felizes. Recomendações ao Boca de Brioche  e salvem a Madeira. Se o caruncho quer a independência, façam uma manif de apoio.

*Título roubado a Isabel Allende

Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Adivinha cinéfila


De que filmes são as imagens do cartaz de promoção da cerimónia de entrega dos Óscares 2012? Eu, como sou muito mau nestas coisas só identifiquei cinco e depois tive de ir ver a cábula, mas há leitores do CR que não vão falhar uma! ( clicar na imagem para aumentar).

Sábado, 28 de Janeiro de 2012

Cambada!

Enquanto lia notícias sobre o inqualificável comportamento do comandante do Costa Concordia, lembrei-me do caso português. Quando daqui a um ou dois anos Portugal estiver na merda,  os primeiros a saltar fora do barco serão os comandantes Coelho e Portas. Alegando a importância de representar o país em instituições internacionais, seguirão o exemplo de Durão Barroso. Vão usufruir altos salários enquanto nos deixam à míngua. Os portugueses continuarão, ordeiramente, a aceitar que lhes ponham a canga. 

Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

Hotel Bauen: Yes, we can!



Na Avenida Callao, bem no centro de Buenos Aires, fica o emblemático  Hotel Bauen.  Para a maioria dos que por lá passam, o Bauen é apenas mais um hotel e poucos conhecerão  a sua história, mas vale a pena contá-la….
Inaugurado em 1978, com o objectivo de  acolher adeptos endinheirados durante o  Mundial de Futebol, o Hotel Bauen foi construído com um generoso apoio do governo militar que concedeu ao seu proprietário um empréstimo de 40 milhões de dólares.  O sucesso do hotel foi enorme e, em poucos anos,  o empresário argentino Marcelo Yourkovich construiu, com os lucros do  Bauen um outro hotel em Búzios, no Brasil, mas nunca pagou na totalidade o empréstimo  que lhe fora concedido. O caso arrastou-se pelos tribunais argentinos e em Dezembro de 2001, durante o Corralito,  o Bauen fechou as suas portas lançando 200 trabalhadores para o desemprego. Nessa altura era já um hotel envelhecido e  decadente e o seu proprietário não via qualquer viabilidade de recuperação.
Um ano depois, quando o proprietário começou a vender os móveis e equipamentos do hotel, cerca de meia  centena de antigos trabalhadores ocuparam o hotel dia e noite. O seu único objectivo, numa altura em que a taxa de desemprego na Argentina ultrapassava os 20 por cento,  era recuperar os postos de trabalhos perdidos, de forma a garantirem o sustento das suas famílias. Por isso entraram de imediato em contacto com o Movimiento Nacional de Empresas Recuperadas, organização de apoio a trabalhadores que pretendam recuperar empresas falidas.
Organizados numa cooperativa, os trabalhadores promoveram vários eventos culturais para angariação de fundos. A resposta dos porteños  a essas iniciativas foi entusiástica e as receitas obtidas  permitiu  fazer obras de  recuperação  e modernização de  200 quartos do hotel e de algumas das partes comuns. 
Em 2005, com o hotel em plena recuperação, os trabalhadores  foram informados que o Bauen iria ser encerrado, porque o proprietário e seus herdeiros reclamavam a posse do edifício entretanto totalmente remodelado e modernizado. A ordem nunca foi cumprida e seis meses depois uma juíza reconhecia à cooperativa entretanto criada, o direito a explorar o negócio, embora permanecesse o diferendo sobre a posse do edifício. Enquanto os herdeiros reclamam a posse do edifício, os trabalhadores lembram que, uma vez que a dívida ao Banco Nacional da argentina não foi paga pelo proprietário do Bauen, este é propriedade  do governo.
Hoje em dia, o Bauen é um hotel emblemático de Buenos Aires, tendo recuperado o seu prestígio e a sua viabilidade económica e financeira,  mas só em Junho de 2011 o Senado anunciou a aprovação de legislação que irá permitir aos trabalhadores, organizados em cooperativas, tornarem-se proprietários de empresas falidas e insolventes, cuja recuperação tenha sido feita graças ao seu esforço. 
A medida permitirá garantir mais de 10 mil postos de trabalho e  legalizar a posse de mais de duzentas empresas recuperadas pelos trabalhadores após o Corralito, estimando o Movimiento Nacional de Empresas  Recuperadas que, com a sua entrada em vigor, seja possível recuperar mais de duas mil empresas entretanto encerradas pelos patrões. 
O caso do hotel Bauen – e outros que relatarei  noutros posts-  é uma prova de que é possível criar emprego sem patrões. A via cooperativa é uma possibilidade de relançar empresas encerradas em Portugal. Basta que o governo português crie incentivos à economia apoiando as cooperativas  e  tenha coragem de legislar no sentido de reconhecer aos trabalhadores a posse de empresas e fábricas por eles recuperadas. 

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

À minha maneira



No dia 24  de Janeiro, quando os  representantes da alta finança mundial e chefes de governo se reuniam  com pompa e circunstância  na cerimónia de abertura  do Forum de Davos, alguns milhares de pessoas  ligadas a diversas  ONG’s concentravam-se  na praça Glênio Peres, em Porto Alegre,  para   uma marcha de cinco quilómetros  que percorreu as  principais ruas da cidade,  assinalando o início do Forum Social  2012.
Subordinado ao tema  “ A Crise Capitalista e os caminhos para a Justiça Social e Ambiental”, o  Forum  Social  integra-se no âmbito do Forum Social Mundial e servirá de preâmbulo à Cimeira Rio+20, promovida pela ONU, que se realiza em Junho no Rio de Janeiro. 
Criado em 2001 nesta cidade de Porto Alegre, o FSM é um espaço de debate aberto às organizações da sociedade civil  que se recusam a aceitar os ditames do neoliberalismo e o domínio do mundo pelo capital financeiro, procurando demonstrar  que a sociedade civil tem  alternativas credíveis à ditadura dos mercados.
Educação, saúde, liberdade de imprensa, padrões de consumo, sustentabilidade e conexões globais serão alguns dos temas que até ao próximo dia 29 estarão em debate,  sendo no final formuladas diversas propostas a apresentar na Cimeira Rio+20.
Para além dos debates e seminários temáticos,  há dezenas de actividades culturais , desde workshops e  exposições  a  concertos, teatro e cinema. 
Uma alternativa  bem calorosa e animada aos circunspectos e herméticos discursos proferidos na conferência da gélida cidade de  Davos. É o Mundo à minha maneira…

Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

Melincué



Melincué é uma pequena aldeia rural de três mil habitantes na província de Santa Fé, no coração das pampas. Apesar de ser muito procurada pelos argentinos como estância de lazer,  desde os anos 80 do século passado,  o nome da  pequena povoação só transpôs as fronteiras em 2010 graças à perseverança de uma professora com memória que se recusou a esquecer as atrocidades dos militares durante a ditadura argentina ( 1976-1983). 
Juliana Cagrandi tinha 15 anos quando em 1976 a morte de dois  jovens na casa dos 20 abalou a pequena povoação. Os corpos, baleados,  foram encontrados na berma da estrada pelo proprietário de um terreno perto de Melicuén. Informadas,  as autoridades locais atribuíram as mortes a acto criminosos,  removeram os corpos- que “não conseguiram identificar ” - e enterraram-nos no cemitério local três dias depois. 
Juliana cresceu, tornou-se professora, mas nunca esqueceu a morte daqueles jovens e, em 2003, motivou os seus alunos para um trabalho de investigação sobre o caso. Os alunos empenharam-se e conseguiram ser recebidos pela secretaria dos direitos Humanos de Santa Fé que acedeu nomear um procurador para  investigar as pistas que os alunos lhe forneceram. 
Só que em 2004 o cemitério quase desapareceu, submerso pelas águas da lagoa de Melincué, dificultando as investigações. No entanto, a perseverança da professora e dos alunos  contagiaram as autoridades locais que não desistiram de prosseguir as investigações.
Em Maio de 2010 as autoridades identificaram o corpo de Yves Domergue, um jovem francês de 22 anos que emigrara com os pais para  Buenos Aires em 1959.Estudante de engenharia, o jovem militava no Partido Revolucionário dos Trabalhadores, ligado a uma organização guerrilheira que combatia a ditadura. Deslocava-se por isso com assiduidade a Rosário (a cerca de 300 quilómetros da capital argentina) onde conheceu uma jovem mexicana com quem começou a namorar. 
Foi daquela cidade que Yves mandou a última carta ao seu pai, Eric, no início de Setembro de 1976.O irmão, que todos os meses, em dia certo, se encontrava com ele num local secreto continuou a ir  aos encontros nos meses seguintes, mas Yves nunca mais compareceu.
 Semanas depois  da identificação do corpo do jovem francês, as autoridades identificaram também o corpo de Cristina Cialceta, na altura com 20 anos,  a mexicana namorada  de Yves.
Três décadas após o fim da ditadura, a Argentina continua a procurar  e chorar os seus mortos. E o seu governo a tudo fazer para que a memória da sangrenta ditadura não se apague. Por isso, dias depois, Cristina Kirchner recebeu na Casa Rosada a professora Juliana Cagrandi  e alguns dos seus antigos alunos, para prestar uma homenagem às vítimas e à perseverança dos que contribuíram para a sua descoberta. 
À saída da Casa Rosada, uma das alunas, então com 24 anos, dizia:
“ Nascemos em 1986, em democracia, nunca apreendemos os horrores da ditadura. O nosso trabalho abriu-nos a mente e agora sentimo-nos como se tivéssemos feito parte desse período negro da nossa história”.
À  mesa de uma bodega de Porvenir,  na Patagónia profunda, a milhares de quilómetros de Melincué, alguém lembra esta história para explicar a razão de o povo argentino quase venerar os Kirchner, pela coragem que tiveram ao recusarem-se a enterrar as memórias da ditadura argentina. Tão diferente este povo, da gente do meu país que parece ter saudades de Salazar e se esforça por branquear os crimes do Estado Novo. Nada que a forma diferente de encarar a função da escola e do ensino não explique…

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

Bienvenido señor Parker!



Robert  Leroy  Parker era um cidadão americano, nascido no Utah,  educado no seio dos mórmons. Aos 24 anos comprou uma fazenda no Wyoming e rapidamente fez muitos amigos. No início do século passado, um tio deixou-lhe 30 mil dólares em testamento e Parker  convenceu o seu melhor amigo ( Harry)  a  viajar com ele até à Patagónia.  Seduzidos por esta terra de oportunidades, compraram uma enorme fazenda na província de Chubut, onde viveram confortavelmente durante pelo menos uma década…
Mas que interesse tem este post? Perguntarão alguns leitores.
Se vos lembrar que Robert Leroy Parker era Butch Cassidy e o seu amigo e compincha Harry, o Sundance Kid,  talvez comecem a perceber.  Com efeito, são inúmeras as histórias que se contam na Patagónia sobre esta dupla que  aqui chegou em 1901, depois de ter feito um rentável assalto ao First National Bank of Winnemucca (  o tal tio que Butch dizia ter-lhe deixado uma fortuna em testamento…).
Ao contrário do que alguns pensam, a dupla ( a que se juntou Etta Place, namorada de Kid) não foi para a Patagónia gozar a reforma. Depois de conhecerem bem o terreno voltaram a "exercer". O seu primeiro assalto na Patagónia foi a um banco em Rio Gallegos e o motivo, diz-se, era bastante nobre: arranjar dinheiro para irem assistir ao Festival de  Bayreuth ( É bom lembrar que Kid era fã de Wagner e o último acto deste trio nos Estados Unidos, antes de fugir para a Patagónia, foi assistir a um concerto na Metropolitan Opera em Nova Iorque, pelo que talvez a lenda tenha um fundo de verdade).
Verdade ou lenda, o importante é que na Patagónia há histórias que libertam as asas do sonho.


Missing you!

Já em Setembro prenunciara a sua morte, mas só hoje soube do seu desaparecimento. Obrigado por todos os momentos que me  permitiste capturar em álbuns envelhecidos que fazem parte da história da minha vida. Provavelmente não voltarás a viajar comigo e vou sentir saudades. Também eu fui derrotado por elas. Para mais tarde recordar...