segunda-feira, 23 de abril de 2018

Os obscuros meandros da Justiça ( actualizado)

Nos últimos dias têm sido notícia  múltiplas sentenças de absolvição ou penas suspensas  envolvendo casos de pedofilia,  assédio sexual a menores, violações e violência doméstica.   Consideradas "aberrantes" pela opinião pública, as sentenças encontram sempre respaldo na lei, fundamentando-se em argumentos aparentemente inatacáveis, mas contrários ao senso comum. 
Um dos argumentos  utilizado  para justificar a pena suspensa  a um  professor que abusava dos seus alunos e explicandos ( o arguido era acusado de 156 crimes, dos quais  89 foram provados) ,  foi  que o arguido já  tinha sido julgado socialmente, durante o período em que decorreu o julgamento.
Não tenho o direito de julgar  quem proferiu uma sentença deste teor, mas ninguém me pode negar o direito de  suspeitar que tais argumentos para justificar penas tão leves em crimes tão hediondos, não radicam apenas numa legislação permissiva e benevolente.
No entanto, se eu estiver enganado e, na verdade, o "julgamento social"  deva  ser considerado como pena suficiente para crimes repugnantes , sou obrigado a admitir que o mesmo argumento possa vir a ser invocado para Ricardo Salgado, José Sócrates, Miguel Macedo ou Duarte Lima, por exemplo.  É que apesar de os seus crimes serem aberrantes, a  forma  abjecta e despudorada como os seus casos têm sido expostos pela comunicação social, com a conivência e cumplicidade de agentes da justiça empenhados na condenação social daqueles arguidos, me parece também suficientemente severa para justificar a sua absolvição. Até porque, pelo que se tem visto nas "reportagens" da SIC, não há uma única acusação provada, mas apenas suspeitas de um juiz e um procurador.
Aconselha no entanto a prudência, que me abstenha de proferir tal afirmação, pois  se por mera hipótese académica Sócrates e Ricardo Salgado viessem a ser absolvidos por falta de provas, então a Justiça ficaria pelas ruas da amargura e o descrédito seria total e irreversível.

domingo, 22 de abril de 2018

Rua dos Cafés (1)




Em quase todas as cidades e vilas portuguesas existiu um Café que se tornou ex-libris da resistência ao Estado Novo, local de tertúlia vigiado pelos pressurosos agentes da PIDE, estabelecimentos que serviram de mote para a magnífica trilogia de Álvaro Guerra ( Café Central, Café República e Café 25 de Abril).
Pertenço a uma geração que convivia, tertuliava, conspirava e estudava em cafés. O Velásquez ou o Piolho no Porto, o Monte Carlo ou o Gelo em Lisboa, são apenas alguns dos cafés cujas cadeiras contribuíram para puir as minhas calças e arejar a minha mente.
Quando visito qualquer lugar procuro descobrir cafés ligados à História desses locais. Hoje, em Portugal, são poucos os cafés simbólicos. A maioria deles  desapareceu ou  foi recuperado e virou local de roteiro turístico, como o Majestic e o Guarany no Porto, a Brasileira em Lisboa, o El Greco em Roma ou o Tortoni em Buenos Aires. No entanto, qualquer um deles faz parte da minha história de vida. Foi sentado nas mesas do Majestic que convivi com jovens da minha idade que anos mais tarde se tornariam figuras proeminentes da vida portuense e nacional. Foi no Monte Carlo a ouvir as conversas dos mais velhos, como o Carlos Oliveira, ou o Zé Cardoso Pires, que me fui moldando. Foi nas mesas do Tortoni, da Confiteria Ideal  e do Café de La Paix que aprendi a amar a América do Sul e especialmente a Argentina.
A maioria dos leitores  guardará na memória, pelo menos um café do tempo da sua juventude. 
Foi partindo desse pressuposto que há anos, depois de escrever alguns posts sobre " Os cafés da minha vida" desafiei os leitores a partilharem histórias vividas em cafés que fizeram parte das suas vidas.
Assim nasceu, no  meu blog  "crónicas on the rocks," a rubrica "A Rua dos Cafés" que hoje é reaberta ao público. Com os cafés  de então e com aqueles que outros leitores, entretanto aqui chegados, queiram partilhar connosco. Nos próximos domingos, a Rua dos Cafés é vossa.
Sejam bem vindos

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sábado, 21 de abril de 2018

Humor fim de semana

Dois judeus russos encontram-se numa estação de comboios. Pergunta um:
– Onde vais? 
– Vou a Níjni Novgorod – responde o outro. 
Após um momento calado, diz o primeiro, furioso: 
– Se dizes que vais a Níjni Novgorod, é porque queres que pense que vais a Odessa, e se queres que pense que vais a Odessa, é porque vais a Níjni Novgorod. Então, porque me mentes?!

Lição da semana

Tempos houve em que os homens vestiam um casaco e punham uma gravata para ir a uma festa, a um espectáculo no Casino, a um teatro, ou mesmo ao cinema em noite de sábado.
Hoje, quando vemos um  homem abaixo dos 40 de fato e gravata, sabemos que ele vai trabalhar.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Venha tomar um café comigo



Assinalou-se, no último sábado ( 14 de Abril) o Dia Internacional do Café. 
Os leitores mais antigos do CR lembram-se certamente de  duas rubricas que animaram o CR ( Cafés com Histórias Dentro)  e o agora muito exclusivo "Crónicas on the rocks"  ( A Rua dos Cafés).
Ambas as rubricas  tiveram a  participação de muitos leitores/as  que contaram histórias vividas em cafés.
Vem isto a propósito do encontro  da Associação Europeia dos Cafés Históricos que  se realiza em Coimbra nos próximos dias 20 e 21. O objectivo é criar uma rota europeia de cafés históricos, um remake alargado da Rota dos Cafés Portugueses com História.
a ideia parece-me excelente e espero que em breve surja uma Rota Mundial.
Ao ler a notícia, lembrei-me de recuperar  todos os posts sobre cafés que foram publicados aqui e no "on the Rocks".
Assim,  a série Cafés com Histórias Dentro irá  ocupar, ao fim de semana , o  lugar que durante mais de um ano pertenceu aos Bilhetes Postal.
Os posts serão reedições dos que então foram publicados. A maioria dos leitores actuais nunca os leu e é minha convicção que os leitores mais antigos gostarão de os recordar.  Não está, porém,  excluída a hipótese de aqui trazer alguns textos novos.
Espero que esta série seja do vosso agrado.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Crónica de uma Morte anunciada

O mais intrigante nesta história das fugas de informação de processos mediáticos, deliberadamente provocadas por agentes da Justiça, é perceber quais são os intuitos de quem passou a informação  e a quem efectivamente interessa  a divulgação, porque pretende com isso tirar benefícios.
O mais preocupante é que estes casos desacreditam  a Justiça porque- particularmente no caso de Sócrates-  demonstram a fragilidade da acusação.
Também a tentativa de arquivar à pressa o processo IURD levanta muitas dúvidas, particularmente depois de ser conhecido este episódio que, iniludivelmente, demonstra que alguém anda a manipular e boicotar o processo.
A justiça é um dos mais sólidos pilares da Democracia, mas uma justiça   que  se expõe na praça pública  e viola constantemente a Lei, é uma justiça desacreditada e fragilizada.  Quem fica em perigo, nestas circunstâncias, é a própria Democracia. 

Diz o roto ao nu

Os subsídios pagos aos deputados da Madeira e dos Açores podem ser contestados e considerados obscenos, mas não são ilegais.
O mesmo se diga dos subsídios pagos aos deputados europeus, substancialmente mais elevados do que os dos nossos deputados e que muitas vezes são utilizados para virem a Portugal participar em programas de televisão.
A obscenidade é inequívoca,mas sobejamente conhecida. Miguel Portas, quando era deputado europeu, criticou essas mordomias e foi então muito atacado pelos mesmos qu hoje se indignam com os subsídios pagos aos deputados dos Açores e Madeira que, muito provavelmente, farão mais para os justificar, do que muitos deputados europeus.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Bibó Porto (80)




O propósito deste post era escrever sobre o Hotel Infante de Sagres, um ex-libris da cidade que ontem reabriu depois de obras de remodelação. Até tinha  repescado uma foto da última vez que lá estive, no Verão passado- a qual acabei por publicar apenas no FB.
Ia lembrar, inclusive, que quando fiz o check in fiquei surpreendido, porque a recepcionista não falava português, o que na altura me provocou uma enorme fúria. 
Acontece, porém, que enquanto me regozijava com a reabertura do Hotel e me preparava para enviar uma farpa aos proprietários do Infante Sagres, fazendo votos que os recepcionistas tivessem aproveitado a pausa das obras para aprenderem a falar português,  fiquei a saber que a empresa proprietária do Infante Sagres (The Fladgate Partnership)  vai forçar o encerramento de uma emblemática livraria da baixa do Porto, vizinha do Infante Sagres.


A Sousa e Almeida, instalada na Rua da Fábrica há mais de 60 anos (desde 1956) era especializada em literatura galega, brasileira e africana e era frequentada por alguns dos mais ilustres nomes   das Artes e Letras portuense.
Não se sabe que destino pretende a empresa proprietária do Infante Sagres dar à emblemática livraria da Rua da Fábrica, mas é sabido que é apenas mais uma das livrarias do centro do Porto que encerra as portas em 2018,  vítima da voragem do turismo. 



Meu nome é Cristiano Ronaldo



Enquanto a SIC continua a exibir despudoradamente os interrogatórios a Sócrates, numa luta titânica com a CMTV pelo título de canal  de televisão mais pornográfico o MP, depois de muito instado, lá  informou que vai abrir um inquérito.
Todos sabemos  o resultado da abertura de inquéritos: NADA, NICKLES, BATATÓIDES. Assim sendo, lá mais para as calendas ficaremos a saber que não foi possível   apurar quem foram os responsáveis pela fuga de informação.
Ficaremos também sem saber como é que foi colocada uma câmara na sala de interrogatórios, mas ficamos desde já a saber uma coisa: se o que vimos são as provas de acusação a Sócrates, então o ex-pm pode dormir descansado, porque aquilo não tem pés nem cabeça. Chega a ser penoso ouvir a argumentação do Procurador Rosário Teixeira, perante as réplicas - por vezes desrespeitosas- de Sócrates.
Também sabemos de antemão, por exemplos anteriores de exibição de interrogatórios, que a SIC não será penalizada,
Não sabemos é se, depois de tanta violação dos mais elementares direitos de cidadania, algumas almas piedosas continuarão a considerar JMV, a melhor PGR de todos os tempos. É certo que nunca houve tanta divulgação de processos em segredo de justiça como com esta PGR e isso interessa à  comunicação social  que se alimenta de sangue e escândalos, mas é legítimo perguntar: se a PGR não consegue sequer descobrir quem anda violar os direitos dos arguidos, o que anda ela a fazer? 
Com toda a franqueza vos digo. Se JMV é a meljhor procuradora de todos os tempos eu- que até nunca tive jeito para jogar à bola- sou o Cristiano Ronaldo.
Tenha pudor, senhora PGR e demita-se. Hoje ainda, porque ontem já era tarde!

terça-feira, 17 de abril de 2018

Naquele engano d'alma ledo e cego...

A SIC está a chamar "trabalho de investigação" à exibição de um conjunto de vídeos LEGENDADOS com os interrogatórios do Procurador Rosário Teixeira a José Sócrates. 
No tempo em que eu era jornalista, isto tinha outro nome e, perante uma tão infame fuga de informação, o PGR ter-se-ia admitido imediatamente, se não conseguisse descobrir o autor da fuga.
Mas como Joana Marques Vidal, apesar de nunca ter havido tantas fugas de informação sobre processos em  segredo de justiça ,  é considerada a melhor PGR de todos os tempos, pode continuar a encolher os ombros   e fingir que não é nada com ela.
Quem quiser continue a acreditar que o único tipo que está preso por ter fornecido informação a um assessor jurídico do SLB, braço direito de LFV, foi apanhado por acaso. 
E os mais ingénuos continuem a pensar que as informações passadas a Paulo Gonçalves diziam apenas respeito a processos desportivos.
Por mim, prefiro continuar a acreditar em contos de Fadas e que Joana Marques Vidal é  a Bruxa Má disfarçada de Fada Madrinha.
Quanto à SIC, espero que deixe rapidamente de confundir informação e jornalismo com as práticas do CM. Pode ser apelativo em termos de audiências mas, mais cedo ou mais tarde alguém irá lembrar ao militante nº1 as palavras do poeta:
"...naquele engano d'alma ledo e cego
Que a fortuna não deixa durar muito (...)" 

Em defesa dos professores

Só quem nunca deu aulas, ou desconhece o ambiente escolar, pode  insurgir-se  ou surpreender-se, com o elevado número de professores que estão de baixa médica.
A tarefa de um professor é de extraordinário desgaste. Não se limita a  preparar e debitar aulas,  desenvolver tarefas administrativas ou  aturar miúdos indisciplinados e, não raras vezes, violentos. Os professores ainda têm de desempenhar tarefas que deveriam ser da responsabilidade dos encarregado de educação e suportar a ira de alguns  paizinhos incapazes de aceitar a má criação ou total incapacidade para os estudos  dos seus rebentos. 
Nestes casos, a maioria dos pais descarrega a sua frustração sobre os professores, chegando a agredi-los.
Ser professor  exige, além de capacidade profissional para desempenhar a tarefa, grande estofo psicológico.

Passei muito tempo da minha vida profissional em escolas a fazer formação de professores e pude aperceber-me do grau de exigência que lhes é colocado. Pessoalmente, apesar de considerar  uma profissão fascinante,  compreendi rapidamente que nunca teria capacidade para a desempenhar.  Como eu, há milhares de professores no activo sem arcaboiço para ensinar. Muitos foram atirados para o ensino nos anos 70 e 80, por ser a forma mais expedita de encontrarem um emprego. Mas não estará entre eles, certamente, a maioria dos  6 mil docentes que estão de baixa médica à espera de uma Junta, há pelo menos dois meses. 
Palpita-me que a maioria deles sejam pessoas  empenhadíssimas e que amam a profissão, pois são esses que normalmente mais sentem a responsabilidade de  ensinar e a frustração pelo pouco reconhecimento da sua profissão.
Exigir a um professor que trabalhe durante 40 anos com o mesmo entusiasmo e tenha ao fim de décadas de dedicação a mesma capacidade para lidar com jovens rebeldes e, não raras vezes, mal educados e agressivos é uma enorme crueldade. E  revela também  falta de reconhecimento sobre a actividade dos professores e ignorância sobre o ambiente escolar.
Lembro-me sempre do dia em que entrei numa escola da Trafaria, para ui  falar com alunos sobre ambiente e sustentabilidade e encontrei miúdos a brincar com armas de fogo e armas brancas. 

É por  tudo isso que me encanita  a forma crítica como a comunicação social trata a questão das baixas médicas dos professores. Os jornalistas têm a obrigação de identificar as causas, antes de fazerem críticas mais ou menos soezes, insinuando que é a balda generalizada no ensino em Portugal